BOLETIM DE ECONOMIA INTERNACIONAL > AGOSTO 2002

AGOSTO 2002

O "Boletim de Economia Internacional", uma publicação mensal elaborada pela Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, tem por objetivo acompanhar e relatar os principais acontecimentos da conjuntura econômica internacional. Distribuído aos órgãos do governo diretamente envolvidos com questões econômicas externas, o "Boletim de Economia Internacional" destina-se exclusivamente ao uso oficial. As opiniões contidas neste boletim não refletem, necessariamente, as opiniões do Ministério da Fazenda.

Coordenação e Supervisão
César Mattos – Secretário-Adjunto de Assuntos Internacionais
cesarmat@fazenda.gov.br

Colaboração:
Marcelle Chauvet
Professora de Economia
Universidade da California Riverside e Diretora de Pesquisa
Centro de Pesquisa de Ciclos Econômicos e Financeiros
(Center for Research on Economic and Financial Cycles)

Economistas:
Eliezer de Lima Lopes - ellopes@fazenda.gov.br
Pablo Fonseca Pereira dos Santos - pablop@fazenda.gov.br
Ângela Semiramis de Andrade Freitas - jard@fazenda.gov.br

Estagiário:
Bruno Santos Garcia

 

Sumário

I. Panorama Global
II.Artigo: EUA – Recuperação Lenta ou Risco de uma Recessão Dupla? por Marcelle Chauve
III.Estados Unidos
IV.Zona do Euro
V.Japão
VI.Argentina
VII.Uruguai
VIII.Commodities

 

Gráficos

1.Probabilidades de Recessão do Modelo Univariado (MS) Aplicado ao PIB e do Modelo Multivariado (DFMS) Aplicado às Variáveis Vendas, Emprego, Produção Industrial e Renda Pessoal
2.Probabilidades de Recessão do Modelo Univariado (MS) Aplicado ao PIB e do Modelo Multivariado (DFMS) Aplicado às Variáveis Vendas, Emprego, Produção Industrial e Renda Pessoal
3.Probabilidades de Recessão do Modelo Univariado (MS) Baseado no PIB e do Modelo Multivariado (DFMS) Baseado nas Variáveis Vendas, Emprego, Produção Industrial e Renda Pessoal
4.EUA: Indicadores Financeiros
5.Uruguai: Reservas Internacionais do Banco Central
6.México e EUA: PIB Real, Produção Industrial e Exportações
7.Preço do Petróleo Brent no Mercado Futuro de Londres
8.Índices de Preços das Commodities

 

Tabelas

I.Síntese das Projeções do FMI
II.Scores de Risco por Bloco de Países
III.América Latina: Crescimento em 2001 e Projeções para 2002 e 2003
IV.Probabilidades de Recessão, Modelo de Mudança de Markov Univariado (MS)
V.Probabilidades de Recessão do Modelo de Fator Dinâmico com Mudanças de Regime
VI.EUA: Crescimento Real do PIB por Componentes de Demanda
VII.Uruguai: Depósitos em Instituições Financeiras

 

Apêndice Estatístico

I.EUA, Japão e Zona do Euro: Indicadores Econômicos Selecionados
II.Argentina : Indicadores de Conjuntura
III.México : Indicadores de Conjuntura
IV.Chile: Indicadores de Conjuntura

 

I. Panorama Global

Desde o último Boletim de Economia Internacional (BEI), cresceram os temores de que a economia americana estivesse, após um período de alvissareiros, porém não tão robustos, indicadores de retomada da atividade, novamente entrando em um processo de desaceleração, o que ficou conhecido como a idéia de uma recessão "double-dip". Um dos principais defensores dessa tese, Stephen Coach, do Morgan Stanley, destaca ainda que tal fenômeno estaria longe de ser pouco usual na história econômica internacional. Nas últimas seis recessões mundiais, apenas uma, no início da década de noventa, contou com apenas uma queda. O analista acredita que o risco de uma recessão "double-dip" nos EUA ao final de 2002 estará em 65%.

Ademais, tendo em vista que a recessão de 2001 foi muito curta e superficial, as distorções acumuladas durante a década de noventa refletidos no baixo nível de poupança (de acordo com relatório do Bank of International Settlements -BIS-, a proporção da poupança nacional no PIB americano caiu 3 pontos percentuais entre 1998 e 2001), alto endividamento das famílias, baixa remuneração do capital e crescente déficit em conta corrente dos EUA (sem a contrapartida de um incremento do ânimo dos investidores estrangeiros em não reduzir seu investimento no país), ainda necessitariam ser corrigidas através do "double-dip".

Esse cenário de "distorções acumuladas" se revelaria ainda mais problemático em face de uma série de outros fatores que direta ou indiretamente afetariam a economia americana: a crise na indústria aeronáutica, a falta de confiança nas grandes corporações à luz dos seguidos escândalos contábeis observados em grandes empresas americanas, as fortes quedas verificadas nos mercados de ações e as perspectivas bem pouco animadoras de que os Estados Unidos entrem em conflito direto com o Iraque.

Note-se, no entanto, que cabe não exagerar o papel dos problemas no que tange aos riscos de um "double-dip" seja nos EUA, seja nos outros países desenvolvidos. alguns fatores compensadores devem ainda ser destacados. Conforme o relatório do (BIS) de início de julho de 2002, de um lado, a dívida das corporações não financeiras dos países do G7 atingiu quase 90% do PIB em 2001 contra 80%, há uma década atrás. De outro lado, segundo a mesma fonte, o aumento verificado nos preços das ações ao longo da década de noventa fez com que a riqueza das famílias também se incrementasse de forma que o endividamento das famílias seria equivalente, atualmente, a apenas 15% de sua riqueza bruta. Ademais, a comparação entre estoques (dívidas/ativos), tenderia a ser mais relevante do que a comparação de um estoque sobre um fluxo (dívidas/PIB). De qualquer forma, esse mesmo relatório enfatiza que a restrição imposta pelo elevado endividamento não pode ser minimizada, tendo em vista, entre outros fatores, que é possível haver ainda ajustes adicionais para baixo dos preços das ações em face de que a proporção preço da ação/ lucros esperados calculada pela S&P ainda estaria acima do padrão histórico, conforme enfatizado no último BEI.

Outro fator atenuante diz respeito à crença de alguns analistas de que a crise gerada pelos seguidos escândalos contábeis observados nos últimos meses não se caracterizaria como um fenômeno sistêmico da economia americana e mundial. A teoria de que os escândalos mais recentes são casos isolados tem adeptos de peso nos Estados Unidos. Parece claro que alguma mudança terá que ser introduzida no modo pelo qual as grandes empresas são geridas e as atenções se concentram no grau de liberdade dos altos executivos, nas práticas contábeis e de auditoria, no poder real e grau de autonomia dos Conselhos de Administração, no grau de independência das unidades de pesquisa das empresas e nas punições que serão aplicáveis aos casos de evidente desvio. O desafio é aumentar a regulação sem estrangular as práticas empresariais e sem aumentar o grau de aversão a risco dos investidores.

Em conseqüência desse ambiente incerto, enquanto nas reuniões anteriores do FED se discutia a conveniência de se elevarem as taxas de juros americanas, no encontro do último dia 13 de agosto a questão relevante era se caberia ou não reduzir essas taxas. Apesar de se decidir pela manutenção da taxa de juros, introduziu-se um viés de baixa. A possibilidade de se decidir por reduções adicionais da taxa de juros na reunião do FED que ocorrerá no próximo dia 24 de setembro dependerá, de qualquer forma, da percepção sobre a eficácia da medida relacionada ao fato de que a taxa de juros americana já se encontrar em patamar muito reduzido. Nesse sentido, pode-se entender que, tal como no Japão, a situação é próxima à armadilha da liquidez keynesiana, com pouca efetividade da política monetária de revigorar a economia. No Reino Unido, também se chegou a postular a redução das taxas e na Europa, onde se destaca especialmente a falta de vigor da economia alemã, reduções adicionais nas taxas pelo Banco Central Europeu em 12 de setembro próximo não são hipóteses descartadas. Essa perspectiva de, no mínimo, se manter as taxas de juros de referência internacionais em seus patamares atuais é reforçada pelo fato de haver um consenso razoavelmente amplo entre os analistas internacionais de que a inflação nos países desenvolvidos, também em função da fraqueza da recuperação, se encontra sob controle.

Nesse contexto, as últimas projeções do FMI, antecipadas pelo Jornal alemão Handelsblatt, denotam uma redução do crescimento econômico esperado para a economia americana em 2002 e 2003 em -0,1 e -0,8 pontos percentuais, respectivamente, em relação às projeções do World Economic Outlook publicado pela instituição em abril desse ano. A mesma tendência se observa para as projeções relacionadas à União Européia. Já as projeções de crescimento econômico para a economia mundial foram mantidas em 2002 (2,8%) e revisadas para baixo três décimos de pontos percentuais para o ano de 2003. A manutenção do número de crescimento mundial para 2002 decorre de uma revisão para cima do crescimento japonês e, presumivelmente, dos outros países asiáticos, em função da recuperação das exportações no setor de tecnologias da informação. O quadro a seguir apresenta as projeções noticiadas.

Tabela I - Síntese das Projeções do FMI
(variação %)

Regiões/Anos Projeções Atualizadas Projeções de Abril de 2002

2002 2003 2002 2003
Mundo 2,8 3,7 2,8 4,0
EUA 2,2 2,6 2,3 3,4
União Européia 1,3 2,5 1,5 2,9
Fonte: Jornal Alemão Handelsblatt 22/08/2002

A idéia do "double dip" está longe de ser um consenso para os analistas. Neste Boletim contamos com um artigo de avaliação de probabilidade de uma nova recessão americana elaborado pela economista Marcelle Chauvet da Universidade de Riverside da Califórnia.

Na América Latina, a CEPAL estima uma queda do PIB na América Latina e Caribe de 0,8% em 2002, mas indicando uma retomada em 2003 entre 2,5% e 3%, o que depende, de qualquer forma, de uma retomada do crescimento nos países do norte. Este cenário em 2002 se torna um pouco menos negativo se desconsiderarmos a Argentina, o que redundaria em um crescimento regional pouco maior que 1%. Já a última pesquisa da Consensus Forecast de 19/08/2002, compilando uma média de cerca de 100 projeções do mercado sobre o crescimento na América Latina, projeta um crescimento menor, conforme o quadro abaixo.

Tabela II – América Latina: Crescimento em 2001 e Projeções para 2002 e 2003
(média do mercado)

País/Ano 2001 Estimativa 2002 Estimativa 2003
América Latina (Média) 0,2 -1,3 3,0
Argentina -4,4 -14,9 0,4
Bolívia 1,2 1,6 3,7
Brasil 1,5 1,7 3,3
Chile 2,8 2,3 4,1
Colômbia 1,5 1,3 2,6
Equador 5,6 2,6 3,5
México -0,3 1,6 4,2
Paraguai 2,7 -2,0 1,4
Peru 0,2 3,2 3,4
Uruguai -1,3 -7,0 1,4
Venezuela 2,8 -4,8 0,3
EUA + Canadá 0,2 -1,3 3,0
Europa Ocidental 1,5 1,2 2,5
Fonte: Consensus Forecast 19/08/2002. Elaboração: SAIN/MF

A média da previsão de crescimento para a América Latina estaria em torno de –1,3% em 2002, mas se recuperando em 2003 para 3%. Os mesmos números se observam em relação aos EUA e Canadá, o que demonstra que a maior sincronicidade dos ciclos econômicos internacionais está se refletindo nas expectativas de mercado. Os maiores crescimentos previstos em 2002 e 2003 são, respectivamente, os do Peru (3,2%) e México (4,2%). O mercado espera, após crescimento negativo em 2002, pequenas recuperações na Argentina (0,4%), Uruguai (1,4%), Paraguai (1,4%) e Venezuela (0,3%) em 2003, mas bem abaixo da média esperada para a região de 3%.

Marcos Caramuru – mdpaiva@fazenda.gov.br
César Mattos - cesarmat@fazenda.gov.br

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II. Artigo: EUA - Recuperação Lenta ou Risco de uma Recessão Dupla?
Marcelle Chauvet
Professora de Economia
Universidade da California Riverside
e
Diretora de Pesquisa
Centro de Pesquisa de Ciclos Econômicos e Financeiros
(Center for Research on Economic and Financial Cycles)

Após um crescimento acelerado no primeiro trimestre de 2002, a economia americana arrefeceu expectativas otimistas ao crescer a uma taxa bem mais modesta no segundo trimestre. Dados recentes da indústria e do emprego oferecem sinais mistos sobre a recuperação econômica. Com isso, especulações sobre uma possível recaída da economia para uma nova recessão tomaram força.

Qual é o motivo para essas especulações? Qual é a probabilidade de que a economia americana esteja em uma fase de recuperação ou que entre em uma nova fase de recessão? São usuais esses movimentos voláteis da economia nesse estágio do ciclo econômico?

Por um lado, vários fundamentos econômicos encontram-se sólidos, destacando-se os substanciais ganhos de produtividade e o contínuo desempenho favorável do mercado imobiliário. Além disso, vários indicadores antecendentes da economia têm mostrado sinais positivos, como o aumento das encomendas de bens de consumo, do número de licenças para a construção de casas novas e a redução de pedidos de seguro-desemprego. Com relação à produtividade, seus ganhos nessa fase do ciclo econômico são inéditos comparados com recuperações anteriores desde os anos 1970. Ganhos altos de produtividade implicam que o custo do trabalho pode ser mantido baixo, possibilitando que as empresas aumentem seus lucros e mantenham seus preços reduzidos. Por sua vez, as baixas pressões inflacionárias dão espaço para que o Banco Central americano possa manter ou até reduzir a taxa de juros.

Por outro lado, o nível de dívida e falências de pessoas físicas e jurídicas assim como o baixo nível de poupança podem ser preocupantes. Porém, essas dificuldades são comuns durante fases de recessão econômica.

Modelos Probabilísticos Formais para Ánalise das Recessões

Alguns modelos analíticos de probabilidade têm sido utilizados com sucesso para definir e avaliar mudanças de fases dos ciclos econômicos americanos em tempo real como datados pelo National Bureau of Economic Research. O NBER é um orgão de pesquisa que vem datando ciclos econômicos nos EUA ex-post nos últimos 60 anos. Sua cronologia é considerada ‘semi-oficial’ e é um parâmetro para pesquisadores do ciclo apesar de não se basear em modelos formais ou estar disponível em tempo real.

Por outro lado, modelos univariados de mudanças de Markov propostos por Hamilton (1989) reproduzem bem as datas do NBER em tempo real quando aplicados a taxas de crescimento do PIB. No entanto, o uso de apenas uma variável como o PIB para análise da economia em tempo real pode ser problemático por dois motivos. Primeiro, o PIB só encontra-se disponível em frequência trimestral, o que implica em um atraso na análise da situação conjuntural até a data de seu lançamento. Segundo, essa série sofre revisões substanciais após o lançamento de sua primeira versão. Esse foi o caso de sua recente revisão em julho de 2002 para os últimos dois anos pelo Bureau of Economic Analysis (BEA), que é o órgão responsável pela coleta e publicação do PIB americano. Por essas razões, o Comitê do NBER não coloca muita ênfase no PIB em sua análise de ciclos econômicos. O procedimento do NBER é baseado no comportamento cíclico de várias séries mensais como emprego não-agrícola, renda pessoal, vendas manufatureiras e produção industrial.

O modelo univariado de mudanças de Markov foi ampliado e aplicado para essas variáveis mensais em um modelo de fator dinâmico multivariado em Chauvet (1998). Esse modelo gera um indicador mensal do ciclo americano e probabilidades de recessões e expansões. Essas probabilidades estimadas também apresentam uma correlação bem alta com a cronologia proposta pelo NBER, tanto ex-post quanto em tempo real, com a vantagem de serem baseadas em várias séries que estão disponíveis em frequência mensal. Conjuntamente, os modelos de mudança de regime e o modelo de fator dinâmico constitutem-se em instrumentos importantes para uma análise de conjuntura e do estágio de ciclos econômicos nos EUA.

A Recessão de 2001

A economia americana entrou em uma fase de desaceleração econômica em junho de 2000, liderada por uma queda de atividade do setor manufatureiro. Porém essa desacelaração só transformou-se em uma recessão em meados de 2001. Por definição, desacelerações correspondem a um arrefecimento da atividade econômica restrita a alguns setores, enquanto que recessões são caracterizadas por um declínio maior e simultâneo da atividade em vários setores da economia.

A Tabela 1 mostra as probabilidades de recessão obtidas do modelo de mudanças de Markov aplicados ao PIB usando somente os dados não revisados disponíveis em cada mês (coluna 2) e as obtidas quando o modelo é aplicado à série do PIB revisada (coluna 3). No mês passado, o BEA divulgou uma nova série do PIB que apresenta grandes revisões para baixo nos últimos 3 anos. De acordo com essa nova versão, a recessão americana foi mais acentuada do que se acreditava a princípio.

As probabilidades de recessão obtidas recursivamente em tempo real (com dados preliminares) estavam indicando uma baixa probabilidade de recessão no primeiro semestre de 2001. O NBER declarou em Novembro de 2001 que o começo da recessão americana ocorreu em março de 2001. Porém, a probabilidade de recessão no primeiro trimestre de 2001 era de apenas 17%, o que ilustra o quão difícil e incerto é uma avaliação correta da direção da economia em tempo real. Já as probabilidades de recessão que utilizam os dados revisados e mais confiáveis do PIB, indicam que a economia americana já apresentava sinais de enfraquecimento desde o quarto trimestre de 2000, com uma probabilidade de recessão nesse período de 68%. Apesar de diferirem com relação ao início da recessão americana, tanto o modelo em tempo real quanto o suavizado indicam que a probabilidade de recessão na economia americana está abaixo de 50% desde o último trimestre do ano passado. Obviamente essa conclusão é baseada nos dados disponíveis em agosto de 2002 e se esses forem revisados substancialmente no futuro, a probabilidade suavizada de recessão deve mudar também.

Tabela IV - Probabilidades de Recessão, Modelo de Mudança de Markov Univariado (MS) 

O modelo multivariado de fator dinâmico produz probabilidades de recessões mais conservadoras, como mostra a Tabela 2. Por esse modelo, o auge da recessão ocorreu no último trimestre de 2001 (mais especificamente em outubro) e as probabilidades de recessão vêm decrescendo lentamente desde então, apesar de ainda estarem em torno de 80% em abril de 2002 (esse é o mês do último dado disponível de vendas de manufaturados).

Tabela V - Probabilidades de Recessão do Modelo de Fator Dinâmico com Mudanças de Regime

O gráfico 3 mostra as probabilidades de recessão nos últimos anos usando o PIB e as séries mensais de vendas, emprego, renda pessoal e produção industrial. As probabilidades de recessão baseadas no PIB mostram que o auge da recessão americana ocorreu no terceiro trimestre de 2001 e que desde então essas vêm decrescendo. No primeiro trimestre de 2002 o PIB cresceu acima das expectativas a uma taxa anual de 5% (usando dados revisados), atribuído principalmente a ajustamentos de estoque característicos de fins de recessões e a uma modesta recuperação industrial. No entanto, o crescimento no segundo trimestre foi bem mais moderado, apresentando uma taxa de 1.1% ao ano (usando dados preliminares). O modelo de mudanças de regime reflete essas oscilações no PIB, com probabilidades de recessão reduzindo de 41% para 23% entre o quarto trimestre de 2001 e o primeiro de 2002 e subindo levemente para 28% no segundo trimestre de 2002. Devido a essa oscilação na economia, houve um aumento nas especulações se a economia americana estava direcionando-se para uma nova recessão (uma recessão double dip).

Gráfico 1 – Probabilidades de Recessão do Modelo Univariado (MS) Aplicado ao PIB e do Modelo Multivariado (DFMS) Aplicado às Variáveis Vendas, Emprego, Produção Industrial e Renda Pessoal

O gráfico 4 coloca essa oscilação em uma perspectiva histórica, comparando o período atual com o fim das três últimas recessões nos EUA: as ocorridas em 1980, 1981-1982 e 1990-1991.

Gráfico 2 – Probabilidades de Recessão do Modelo Univariado (MS) Aplicado ao PIB e do Modelo Multivariado (DFMS) Aplicado às Variáveis Vendas, Emprego, Produção Industrial e Renda Pessoal

Recessões de 1981 e de 1981-1982

Recessão de 1990-1991

Conforme pode ser observado, as probabilidades de recessão em tempo real mostram várias oscilações por volta do fim das recessões. Por exemplo, no fim da recessão de 1981-1982 a probabilidade decresceu para menos de 10%, subindo subseqüentemente para quase 45% e decrescendo novamente para quase 0%. Uma característica interessante do modelo é que as probabilidades de recessão também captam a recuperação lenta da economia americana ocorrida no fim da recessão de 1990-1991. As probabilidades obtidas do modelo multivariado são bem voláteis por volta do fim dessa recessão, ao passo que as probabilidades baseadas no PIB decrescem lentamente. Ambos modelos indicam que as probabilidades de recessão permaneceram relativamente altas depois do fim dessa recessão em Março de 1991. Apesar dessa recuperação lenta da economia americana após essa recessão, a economia não entrou em nova fase de recessão (um double dip).

Com relação às perspectivas atuais da economia americana, as informações disponíveis em agosto de 2002 indicam uma probabilidade muito baixa de uma nova recessão americana, principalmente quando se compara os movimentos históricos cíclicos nos EUA. Obviamente, choques externos inesperados no futuro como novos ataques terroristas, guerras, ou aumento do preco do petroleo que abalem o consumo e o investimento podem reverter esse quadro. Porém, baseando-se em dados atuais, a recuperação americana não foge do seu padrão histórico, mostrando uma tendência de expansão. Essa conclusão é corroborada pelo NBER (memo de agosto), o qual indica que variáveis chaves da economia americana apontam para uma recuperação econômica. O gráfico 5 mostra essas variáveis, as quais foram utilizadas no modelo multivariado. Como pode ser observado, a renda pessoal mostrou uma queda muito leve e breve durante a recessão e já vem crescendo desde fins de 2001. As vendas de manufaturados encontram-se agora acima do pico ocorrido em 1990-2000, ao passo que a produção industrial vem crescendo desde meados do ano passado. A série de emprego é a que apresenta uma recuperação mais modesta, o que é esperado uma vez que essa é uma variável que defasa o ciclo econômico – geralmente o emprego cai depois do início de recessões e recupera-se após o término dessas.

Portanto, tanto os modelos quanto a análise conjuntural de variáveis chaves para o crescimento econômico indicam que a economia americana deve prosseguir com uma recuperação gradual a menos que choques externos inesperados afetem a economia.

Gráfico 3 – Probabilidades de Recessão do Modelo Univariado (MS) 
Baseado no PIB e do Modelo Multivariado (DFMS) Baseado nas Variáveis Vendas, Emprego, Produção Industrial e Renda Pessoal


Bibliografia:

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III. Estados Unidos

No segundo trimestre de 2002, a taxa de crescimento do PIB norte-americano apresentou uma expressiva desaceleração. Nesse período, o PIB expandiu-se 1,1% em relação ao trimestre anterior (anualizado com ajuste sazonal), frente ao crescimento revisado de 5% no primeiro trimestre (ver tabela). A redução dos estoques, o crescimento do consumo, o incremento dos gastos do governo e do investimento em imóveis residenciais, que haviam impulsionado o crescimento do PIB no primeiro trimestre, perdeu força no segundo trimestre. Os dados mais desalentadores se referem à queda na taxa de crescimento do consumo privado e do investimento em imóveis residenciais. Ambos foram fundamentais para o crescimento do primeiro trimestre e havia uma expectativa de que apresentassem um crescimento mais elevado no segundo semestre. O ritmo de reposição dos estoques diminuiu significativamente no segundo trimestre. Em face desses movimentos, a recuperação do investimento privado não-residencial é considerada essencial para a recuperação econômica dos EUA. Esta variável vem se recuperando lentamente, impulsionada pelos investimentos em equipamentos e software que cresceram 2,9% no segundo trimestre. No entanto, os investimentos em imóveis não residenciais continuam bastante deprimidos.

Tabela VI - EUA: Crescimento Real do PIB por Componentes de Demanda
(var. % em relação ao período anterior; os dados trimestrais são anualizados com ajuste sazonal)

Conjuntamente com dados do segundo trimestre, foram divulgadas as revisões de crescimento do PIB para o período de 1999 a 2002. Segundo a nova série, o PIB real havia sido superestimado nos anos de 2000 e 2001. As novas estimativas indicam que a recessão econômica de 2001 foi mais profunda e duradoura do que se pensava inicialmente, com queda de crescimento nos primeiros três trimestres do ano passado. As estimativas anteriores indicavam crescimento econômico negativo somente no terceiro trimestre. Isto indica que a queda abrupta dos preços das ações, iniciada no final de 2000, teve um efeito maior do que o previsto inicialmente sobre o crescimento do consumo.

Os indicadores de início de agosto apontam para um crescimento econômico mais lento do que o esperado no segundo semestre, apesar de não poder se caracterizar o início de um novo período de contração econômica. A incerteza gerada pelas práticas contábeis das empresas norte-americanas, que causou uma redução acentuada no valor das ações, foi a principal causa na piora dos indicadores de atividade econômica. Com exceção da produção e da compra de automóveis, que estão sendo estimuladas pela venda à taxa de juros zero, há indicações de desaceleração no crescimento do consumo, da construção civil e, principalmente, da produção industrial.

Em julho, a produção de manufaturados cresceu 0,1% em relação a junho (com ajuste sazonal), graças ao aumento da produção de veículos automotores e partes que cresceu 4,1%. Excluindo-se esta rubrica, a produção manufatureira contraiu-se 0,3%. Em agosto, o índice de condições econômicas atuais do FED da Filadélfia caiu 9,7 pontos, para -3,1, o que indica que o fraco desempenho da produção industrial se perpetuou durante este mês (ver quadro 1). Os sinais de menor crescimento do consumo estão na queda do índice de confiança do consumidor da Universidade de Michigan de julho e agosto, em relação aos níveis registrados no primeiro semestre, e na estagnação do crescimento das vendas do varejo em julho, após se excluir as vendas de automóveis e combustíveis.

Há indicações de que o mercado de crédito e o investimento privado também foram afetados pelas incertezas no mercado de ações. Segundo o relatório de política monetária do FED ao Congresso, apesar das baixas taxas de juros de curto e longo prazos, a aversão ao risco tem se refletido em uma elevação dos spreads dos títulos da dívida das empresas privadas (gráfico), que encontram-se em níveis historicamente elevados. A contração de 5,2%, em junho em relação a maio, dos novos pedidos de bens de capital, excluindo-se equipamentos para fins militares e aeronaves, bem como a queda de 0,6% na produção de equipamentos para a indústria em julho em relação a junho (ambos com ajuste sazonal), indicam que novos investimentos foram suspensos nesses meses. Em agosto, as condições gerais do mercado financeiro norte-americano melhoraram sensivelmente. O índice Dow Jones reverteu a sua trajetória de queda iniciada em maio, enquanto o dólar interrompeu sua trajetória de desvalorização em relação ao euro (gráfico). Resta saber se a recente recuperação nos indicadores financeiros é decorrente de uma melhora duradoura nas expectativas, o que teria impactos positivos sobre toda a economia.

Gráfico 4 – EUA: Indicadores Financeiros


Fontes: FED e Broadcast.

A desaceleração do crescimento do PIB no segundo trimestre, mais intensa do que se esperava, a revisão para baixo do crescimento do PIB dos últimos dois anos e a divulgação, no início de agosto, de uma série de indicadores mensais que apontam para um crescimento mais moderado do que se esperava a alguns meses afetaram negativamente os prospectos de crescimento da economia dos EUA. As projeções de crescimento para este ano foram revisadas para baixo tanto por instituições oficiais como por analistas privados. A piora da conjuntura econômica foi reconhecida pelo FED nas minutas de sua última reunião, quando a taxa básica de juros foi mantida inalterada em 1,75% ao ano. Muitos analistas apostam em uma queda da taxa básica de juros na próxima reunião do FED no dia 24 de setembro, caso as indicações de desaceleração do crescimento se confirmem.

Em razão da importância atual conferida aos indicadores antecedentes da economia americana em torno dos quais se tem discutido intensamente as perspectivas de retomada do crescimento econômico, apresentamos neste Boletim um quadro síntese dessas estatísticas, descrevendo suas principais características. 

Quadro 1 – EUA: Indicadores Antecedentes

Os Estados Unidos dispõem de uma vasta gama de indicadores econômicos oficiais e de instituições privadas. Além das estatísticas mais tradicionais, como as contas nacionais, produção industrial e desemprego, há uma ampla variedade de indicadores antecedentes. Esse indicadores são divulgados anteriormente aos dados tradicionais e apontam, com maior ou menor acuidade, a sua tendência. Em função disso, são um dos principais componentes na formação das expectativas quanto à evolução do crescimento do PIB e das taxas de juros no país. A crescente importância dos desdobramentos da economia norte-americana sobre a economia mundial aumentou a atenção dada aos indicadores antecedentes dos EUA. No Brasil, em função da ausência de indicadores similares, parece prevalecer um certo desconhecimento sobre a metodologia de compilação e de como interpretar os seus resultados. Abaixo segue uma breve descrição das características mais importantes dos principais indicadores antecedentes dos EUA.

PMI (Purchasing Managers Index) – O PMI é elaborado pelo ISM (Institute for Supply Management) com base em uma pesquisa nacional abrangendo 20 setores industriais de todas as regiões dos Estados Unidos. O peso atribuído a cada setor na composição do índice é o mesmo das contas nacionais dos EUA. Divulgado no início de cada mês, pelo menos 15 dias antes dos primeiros indicadores oficiais de produção industrial, o PMI fornece um retrato mensal bastante completo do atual estado da atividade manufatureira. Valores acima de 50 indicam que a atividade industrial está, de maneira geral, expandindo, enquanto valores abaixo de 50 indicam contração. O PMI é composto pela média ponderada de 9 sub-índices: novos pedidos, produção, emprego, entregas de fornecedores, estoques, estoques de clientes, preços, acúmulo de pedidos, novos pedidos para exportação e importações. As empresas consultadas relatam se o nível de cada uma dessas variáveis no mês da pesquisa esteve acima, abaixo ou igual ao nível do mês anterior. Os sub-índices, chamados de "índices de difusão", são construídos somando-se o percentual das respostas positivas à metade do percentual das respostas neutras. Assim, se metade dos recenseados dão uma resposta neutra e a outra metade uma resposta positiva, o índice será 75. Apesar de abranger apenas o setor industrial, variações no PMI são, geralmente, associadas a variações de igual magnitude do PIB real. De acordo com o ISM, um PMI acima de 42,7 é, de maneira geral, indicativo de uma expansão real do PIB, abaixo de 42,7 aponta para uma contração; um PMI médio de 53,8 é consistente com uma expansão real do PIB de 4%. Em função de sua maior abrangência e melhor retrospecto em relação a outros índices como indicador antecedente da atividade econômica e, especialmente, da atividade industrial, a evolução do PMI é acompanhada atentamente pelo governo e por analistas.

Index of Current General Activitiy– Este índice é divulgado juntamente com vários outros indicadores no Bussiness Outlook Survey do FED da Filadélfia. Assim como o PMI, é um índice de difusão baseado em respostas qualitativas a respeito da atividade industrial, se diferenciando basicamente pela abrangência territorial e metodologia. O índice do FED da Filadélfia é elaborado com base em uma pesquisa que abrange o terceiro distrito do FED (o estado de Delaware, leste do estado da Pensilvânia e sul do estado de Nova Jersey). Em vez de ser composto pela média ponderada de diversos sub-índices, o Index of Current General Activitiy é construído a partir da seguinte pergunta: em relação ao mês anterior, qual a sua avaliação sobre o nível geral de atividade? Há apenas três alternativas de resposta: aumento, diminuição ou igualdade. O índice de difusão corresponde à diferença entre o percentual das respostas "aumento" e o percentual das respostas "diminuição". Um número acima de zero indica expansão da atividade industrial e abaixo de zero indica contração. Os resultados da pesquisa são divulgados em meados do mesmo mês em que esta é realizada. Isto faz com que o índice do FED, apesar da restrita área de amostragem, indique com relativa precisão a tendência dos resultados de indicadores mais abrangentes como o PMI e a produção industrial que só são divulgados no mês subseqüente ao mês de referência.

Índice de Indicadores Antecedentes – Calculado pelo Conference Board, é composto pela média ponderada dos seguintes indicadores: diferença entre a taxa de juros dos títulos do tesouro de 10 anos e a taxa básica do FED; variação do M2; média de horas trabalhadas no setor manufatureiro; novos pedidos de bens de consumo pela indústria; índice de ações S&P 500; número de primeiros pedidos de auxílio desemprego; índice de performance de vendas do ISM; número de permissões para a construção de novas casas; índice de expectativa do consumidor; e novos pedidos de bens de capital pela indústria. O Índice de Indicadores Antecedentes busca detectar antecipadamente o início e o fim de uma recessão. Uma regra simples diz que 3 quedas consecutivas do índice é um sinal de que a economia entrará em recessão. Um dos principais problemas deste índice é que o tempo entre um sinal de recessão e o seu início pode variar substancialmente. O índice foi bem sucedido em prever todas as 8 recessões da economia norte-americana ocorridas desde 1950. No entanto, costuma emitir "falsos sinais".

Livro Bege – Elaborado pelo Conselho de Governadores do FED, é um relatório que descreve qualitativamente as condições gerais da atividade econômica e dos preços a nível regional. O Livro Bege é publicado 8 vezes ao ano e não é baseado em dados econômicos, mas em relatórios de empresários, economistas e analistas do setor privado e público que não trabalham para o FED. Os comentários dessas fontes são resumidos por região e setor.

Índice de Confiança do Consumidor (Universidade de Michigan) – É construído a partir de uma pesquisa telefônica com 500 consumidores residentes em todo os Estados Unidos. Solicita-se aos participantes da pesquisa que indiquem: suas atuais condições financeiras, as expectativas de suas finanças para daqui a um ano, suas expectativas das condições de negócios para daqui a um ano, suas expectativas para a economia para daqui a um ano e seus planos imediatos de compras. Os resultados preliminares são divulgados em meados do mês em que é realizada a pesquisa e os resultados finais 15 dias depois, geralmente com pequenas revisões. Um declínio/aumento do índice de confiança do consumidor é interpretado como um sinal de declínio/aumento futuro dos gastos com o consumo. O índice de confiança do consumidor é um indicador bastante volátil, o que torna difícil tirar conclusões sobre movimentos mensais. A média dos últimos seis meses do índice é um indicador que melhor reflete as atuais condições de consumo. Um índice similar mais abrangente é elaborado pelo Conference Board. No entanto, é divulgado posteriormente ao da Universidade de Michigan (ao final do mês da pesquisa), o que faz com que lhe seja atribuída menor importância.

Relatório de Bens Duráveis – Elaborado pelo Census Bureau, órgão subordinado ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos, o relatório de bens duráveis divulga parte dos resultados de um relatório mais abrangente que inclui bens de consumo não-duráveis, normalmente divulgado uma semana após o primeiro. Divulgado três semanas após o fim do mês de referência, a importância atribuída ao relatório de bens duráveis deve-se ao fato de conter um dos primeiros indicadores de oferta e demanda de produtos industriais. Esse relatório possui dois itens importantes: novos pedidos, que é um indicador antecedente de demanda por bens duráveis, e embarques, que reflete as condições atuais da oferta da indústria. Os dados estão disponíveis apenas em dólares correntes e são sujeitos a revisões periódicas substanciais. As séries mensais são muito voláteis, principalmente as dos itens "bens de transporte" e "defesa". Esses dois itens são geralmente excluídos dos dados agregados, a fim de permitir uma melhor análise da tendência da série.

Pedidos de Auxílio Desemprego – Semanalmente, o Departamento de Trabalho dos EUA, divulga o número de novos pedidos para auxílio desemprego e o número total de trabalhadores recebendo auxílio desemprego. Estes são os indicadores mais atualizados sobre as condições gerais do mercado de trabalho e são utilizados para fazer previsões dos resultados da pesquisa de emprego divulgada mensalmente. As séries semanais são extremamente voláteis e de difícil interpretação. Para contornar este problema, o Departamento do Trabalho divulga uma média móvel de 4 semanas, que é o dado mais observado pelos analistas.

Uma descrição resumida da metodologia de compilação e de como analisar os resultados da grande maioria dos indicadores de atividade da economia norte-americana pode ser encontrada em: http://www.dismal.com/dismal/affiliates/usa_today/gen_coverage.asp.

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IV. Zona do Euro

No segundo trimestre de 2002, estimativas preliminares mostram que o PIB da zona do euro registrou um crescimento de 0,4%, levemente superior aos 0,3% registrados no trimestre anterior. Estimativas do Banco Central Europeu – BCE projetam um crescimento de 1,2%, em 2002. A se confirmar essas expectativas, este será o período mais longo de baixo crescimento econômico que a zona do euro experimentou na última década. Nos últimos oito trimestres, as taxas de crescimento do PIB da região mantiveram-se em patamares próximos a zero.

Além disso, a estabilidade nas pesquisas dos principais indicadores que medem a performance dos vários setores da economia, e o declínio de outros índices que medem as expectativas dos empresários e a confiança dos consumidores aumentam a expectativa de que o terceiro trimestre de 2002 ainda não venha a indicar de forma concreta uma recuperação sustentável na região. Ademais, as revisões para baixo das expectativas de crescimento da economia americana e a acentuada queda no mercado de ações, tanto nos EUA quanto na Europa, contribuem para manter as incertezas quanto ao processo de recuperação da região.

Os dados de desemprego também apontam na mesma direção dos outros indicadores de atividade. Em junho, a taxa de desemprego na zona do euro atingiu o maior patamar dos últimos dois anos, de acordo com o departamento de estatística da União Européia, a Eurostat. O desemprego nos 12 países da região aumentou para 8,4% em junho de 2002, em comparação a 8,3%, registrados nos três meses anteriores. Durante o segundo semestre de 2002, o índice de desemprego deve continuar em alta enquanto as empresas aguardam uma melhor definição quanto ao desempenho da economia.

Na Alemanha, em junho, a produção industrial cresceu 1,7% (dado sazonalmente ajustado), em relação ao mês anterior. Apesar de ser um dado positivo, o número não foi suficiente para mostrar uma reversão da tendência se comparado com igual mês do ano anterior. Neste mês, a produção do país caiu 1,2%, quando comparado com igual mês de 2001. Em 19 de agosto, a Federação dos Bancos da Alemanha rebaixou sua previsão para o crescimento do PIB de 1% para 0,5% a.a. De igual forma, na semana passada, dois outros institutos alemães, o RWI e o DWI haviam reduzido as projeções de crescimento do produto para 0,6% a.a.

Em julho, a inflação harmonizada da zona do euro foi de 1,9%, em comparação a 1,8% em junho, situando-se dentro da meta de 2% a.a. estabelecida pelo Banco Central Europeu – BCE. Essa instituição acredita que a queda da inflação nos últimos dois meses, em comparação aos níveis mais elevados aos registrados no primeiro trimestre, deve provocar um aumento na renda disponível e, consequentemente, gerar um aumento real no consumo privado. Porém, a evolução dos preços do petróleo e a incerteza quanto à recuperação da economia mundial permanecem como elementos de risco no médio prazo.

Nesse cenário, em reunião realizada em 1 de agosto, o BCE decidiu manter inalterada a taxa de juros em 3,25% a.a. A maioria dos analistas de mercado acredita que o BCE deve manter inalteradas as taxas de juros até o início de 2003. Por outro lado, o mercado de ações da zona do euro registrou uma queda de 50% em comparação com o maior nível de alta registrado em 2000. Essa perda reflete, não somente os problemas contábeis das grandes corporações, como também a expectativa de menores lucros das empresas.

No primeiro semestre de 2002, o euro registrou uma apreciação de 12%, em termos nominais, frente ao dólar. No mês de julho, o euro chegou a alcançar a cotação de € 1,01 em relação ao dólar, seu maior nível desde janeiro de 2000. Em 31 de julho, a moeda da zona do euro estava cotada a € 0,98/dólar, 1,9% abaixo do nível do mês anterior, e 9,2% acima da média registrada em 2001. A maior taxa de câmbio do euro deve contribuir para uma menor pressão inflacionária. Porém, o BCE deve continuar monitorando de perto a evolução das tendências nos reajustes dos salários e a dinâmica dos preços dos serviços, fatores que podem influenciar a estabilidade de preços no médio prazo.

Em 21 de agosto, a Eurostat anunciou as primeiras estimativas de comércio exterior da zona do euro com o resto do mundo para o mês de junho de 2002. A zona do euro registrou um superávit de 10,7 bilhões de euros em comparação com um superávit de 4,7 bilhões de euros, registrados em junho do ano anterior. No primeiro semestre de 2002, o comércio da zona do euro obteve um superávit de 42,0 bilhões de euros, contra um superávit de 4,3 bilhões de euros em igual período de 2001.

No âmbito da política fiscal, o Conselho de Sevilha, em 21 e 22 de junho, acatou a crítica de extrema rigidez do Pacto de Estabilidade e Crescimento feita por alguns países e tomou a decisão de dar um passo a mais na flexibilização dos compromissos fiscais. O Conselho manteve a decisão de que, até 2004, todos os países da zona do euro terão que ter equacionada a sua situação fiscal, atingindo o objetivo do "déficit zero". Na sistemática anterior, o déficit fiscal dos países não poderia superar a 3% do PIB. Em Sevilha, porém, redefiniu-se o objetivo do "déficit zero" estabelecido no pacto. Esta redefinição consiste em atingir uma situação "próxima ao equilíbrio", considerando-se aceitável um desvio de meio ponto percentual do PIB. A argumentação utilizada na defesa dessa posição foi a necessidade de os países poderem contar com uma margem de política fiscal para fazer frente a choques assimétricos.

Em 16 de agosto, o Chanceler Gerhard Schröder apresentou, na Alemanha, um plano de reforma do mercado de trabalho, elaborada pela Comissão Hartz que reuniu representantes da indústria, dos sindicatos, dos meios acadêmicos, além de políticos. O plano tem o objetivo de criar dois milhões de empregos em curto prazo e resolver o problema do desemprego no país em até três anos, devendo ser posto em prática imediatamente. Atualmente, o desemprego na Alemanha atinge cerca de quatro milhões de trabalhadores, constituindo-se em um dos maiores problemas do país, ameaçando a reeleição do Chanceler nas próximas eleições de 22 de setembro. Na Alemanha, em julho, a taxa de desemprego situou-se em 9,9%, em comparação com a taxa de 8,4% registrada na zona do euro.

Ângela Semíramis - jard@fazenda.gov.br

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V. Japão

Após o forte crescimento registrado no primeiro trimestre de 2002, a economia japonesa apresenta sinais de um ciclo de moderada recuperação impulsionada pelas exportações, no período entre abril e junho. Em junho, a produção industrial decresceu 0,7%, em relação ao mês anterior, em termos dessazonalizados, mostrando um decréscimo pela primeira vez em cinco meses. De acordo com a pesquisa qualitativa, as expectativas são de um crescimento positivo da produção industrial em julho e agosto. Apesar dos números suavemente positivos, a expectativa de analistas é que a recuperação econômica atual tenha poucas chances de se sustentar. A recente apreciação do yen, as incertezas sobre o crescimento da economia americana e a queda de preços das ações, somados à frágil demanda interna e aos problemas estruturais da economia japonesa têm levado as próprias autoridades do Japão a reduzir o conteúdo otimista de suas expectativas e buscar formas de estimular a economia. O Ministro das Finanças afirmou que o governo deve cortar impostos num montante de US$ 8,4 bilhões. O FMI também observa que há consideráveis riscos para a economia japonesa e, apesar da boa performance da atividade econômica do primeiro trimestre, projeta uma taxa de crescimento do PIB de – 0,5% e uma deflação dos preços ao consumidor de 1% em 2002.

O superávit da conta corrente aumentou fortemente no primeiro semestre de 2002. Em junho, o superávit cresceu 7,6% em relação a maio, em termos dessazonalizados. A expectativa é que a conta corrente permaneça superavitária, devido à frágil demanda doméstica comparada a uma variação positiva da demanda externa. O superávit comercial - que havia diminuído durante 2001 - aumentou devido à recuperação do volume das exportações e ao declínio das importações. Em junho, as exportações de mercadorias permaneceram estáveis, enquanto as importações caíram 3,1%, em relação a maio, em termos dessazonalizados. Os elevados lucros de subsidiárias de companhias japonesas no exterior (registrados com defasagem) e um declínio nos pagamentos ao exterior contribuíram para o aumento das rendas de capital.

O yen experimentou um processo de depreciação cambial quase que contínuo durante 2001 e nos primeiros meses de 2002. Desde março, entretanto, a expectativa de uma recuperação mais lenta da economia mundial somada a uma melhora relativa da economia japonesa levou a uma apreciação do yen, com a taxa de câmbio atingindo 115 yenes por dólar, comparada com uma média de 122 em 2001, o que levou a várias intervenções do Banco Central para conter a apreciação. O yen forte junto com o menor crescimento da economia mundial coloca em risco o crescimento das exportações e a própria recuperação econômica atual do país.

O Banco Central do Japão manteve inalterada sua política monetária de taxa de juros zero, a despeito da exortação do FMI a que as autoridades japonesas realizassem uma política monetária mais expansionista visando o rápido fim da deflação. Por decisão unânime, a autoridade monetária manteve a meta de reservas bancárias dos bancos comerciais no Banco Central entre $ 10 e 15 trilhões de ienes e continuou comprando mensalmente $ 1 trilhão de ienes em títulos públicos com o objetivo de manter o mercado bancário líquido.

O objetivo atual na área fiscal é seguir uma política contracionista, depois do impulso fiscal positivo havido em 2001. O orçamento para 2002 inclui cortes de gastos em obras públicas e subsídios a empresas estatais – que levarão ao primeiro declínio dos gastos discricionários em quatro anos. A dívida pública bruta aumentou para cerca de 146% do PIB em fins de 2001, e a dívida líquida (exclusive seguridade social) aumentou para 112% do PIB. Os rendimentos dos títulos da dívida pública têm flutuado em torno dos mesmos valores do ano anterior, a despeito da redução da classificação de crédito da dívida soberana. As diretrizes para o orçamento público para o ano fiscal, começando em abril de 2003, mantém o objetivo de reduzir o déficit público. O projeto prevê cortes nas despesas de obras públicas de 3%. Além disso, fixa um limite para a emissão líquida de títulos públicos em $ 30 trilhões de ienes.

Eliezer Lopes - ellopes@fazenda.gov.br

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VI. Argentina

Em 16 de agosto, o Ministro da Economia Roberto Lavagna enviou ao FMI um Projeto de Carta de Intenções com o objetivo de firmar um acordo de assistência financeira com o organismo. O documento estabelece projeções para as principais variáveis macroeconômicas em 2002 e ressalta as diretrizes que o governo deve seguir para reestruturar o sistema bancário. As projeções macroeconômicas são as seguintes: uma taxa de câmbio de $ 3,55 pesos por dólar e um nível de reservas internacionais no Banco Central de 11,7 bilhões de dólares para o final de 2002; uma queda do PIB de 11% em 2002 e um crescimento de 3% em 2003; e um superávit primário de 0,8% e 2% do PIB em 2002 e 2003, respectivamente. Os números oficiais são otimistas, mas não divergem muito das projeções dos analistas privados, que estão revisando suas expectativas devido à melhoria de vários indicadores econômicos e financeiros a partir de julho.

No que diz respeito ao setor bancário, o documento enviado ao FMI incorporou algumas recomendações elaboradas pela "Comissão de Notáveis", e agregou contribuições das associações de bancos e do Banco Central. Os pontos mais importantes referentes à reestruturação bancária são: a saída gradual do corralito que seria efetivada após a resolução do problema das liminares judiciais; compensações dos bancos pelas perdas provocadas pelas diferenças cambiais nas liminares e pela indexação assimétrica (depósitos ajustados pelo Coeficiente de Estabilização de Referência (CER), que reflete a variação dos preços ao consumidor, contra uma parte da carteira de crédito ajustada pelo Coeficiente de Variação Salarial); a criação de uma "Unidade de Reestruturação Bancária" que funcionaria como uma espécie de "hospital de bancos" e sob cuja órbita de influência ficarão as entidades a serem liquidadas; a criação de um seguro localizado no exterior para os novos depósitos em dólares cuja administração estaria a cargo de um organismo financeiro internacional.

Na mesma semana do envio do documento, o Congresso argentino aprovou duas medidas que têm dificultado as negociações: a suspensão das execuções judiciais de devedores morosos e a postergação da correção monetária, por meio do CER, de parte da carteira de crédito dos bancos (as carteiras de crédito imobiliário e crédito pessoal foram isentas da correção monetária).

Depois da forte instabilidade do primeiro semestre, as variáveis monetárias e financeiras apresentaram uma evolução positiva a partir de julho. Os depósitos do sistema bancário mostraram os primeiros sinais de recuperação. Em 15 de julho, o total de depósitos do setor privado atingiu um nível mínimo de $ 55 bilhões de pesos, e, depois disso, oscilou próximo desse valor. O fenômeno se repete para os depósitos em dólar, que atingiram US$ 530 milhões, em meados de julho, e depois alcançaram US$ 570 milhões, em meados de agosto. A menor saída de depósitos permitiu reduzir a emissão de pesos e, portanto, o excesso de oferta dessa moeda. A demanda transacional de pesos aumentou, basicamente, devido a fatores sazonais.

A mais elevada demanda de pesos e a menor saída de depósitos somados a uma política ativa de colocação de Letras do Banco Central (Lebac) reduziu, pelo lado da demanda, a pressão sobre a taxa de câmbio, que tem se mantido estável (em torno de $ 3,60 pesos por dólar) desde fins de junho. No lado da oferta, o principal fator que tem contribuído para a estabilidade cambial é o elevado superávit comercial, que, por fatores sazonais, se concentra entre abril e agosto, e que tem finalmente se refletido em uma maior oferta de dólares no mercado doméstico. Durante o primeiro semestre, o setor privado não apenas remetia todo o excedente comercial para o exterior como demandava dólares do Banco Central, o que resultou em uma queda das reservas internacionais em US$ 2,4 bilhões no período. A partir de julho, o ambiente de taxa real de juros elevada, menor pressão inflacionária e taxa de câmbio estável contribuiu para uma redução da saída de divisas provenientes dos superávits comerciais. Estes fatores permitiram não apenas a estabilidade da taxa de câmbio como também o aumento das reservas internacionais em US$ 400 milhões desde 26 de junho.

A manutenção deste quadro de relativa estabilidade financeira deve permitir manter a estabilidade cambial nos próximos meses. Apesar de a sazonalidade convencional indicar que a oferta abundante de dólares dos exportadores de grãos termina em agosto, isto não deve se verificar este ano, tendo em vista que os produtores estão retendo uma importante proporção de sua colheita, o que deve resultar em superávits comerciais elevados mesmo no quarto trimestre.

Depois de apresentar variação positiva nos meses de maio e junho, a produção industrial registrou em julho uma queda de 1,5%, em relação ao mês anterior, em termos dessazonalizados. Apesar da queda registrada em julho, a produção industrial acumula nos últimos três meses uma variação positiva de 1,9%, em relação ao trimestre anterior. Adicionalmente, a indústria automobilística haveria encontrado um "piso", registrando em julho, crescimento em produção, vendas e exportações, em relação a junho. As atividades dos setores vinculados ao consumo interno, tais como vendas de supermercados e serviços públicos, continuam a cair, mas a taxas menores. Os dados sugerem que a atividade econômica parou de cair, mas ainda não se pode vislumbrar uma recuperação sustentada no curto prazo.

Eliezer Lopes - ellopes@fazenda.gov.br

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VII. Uruguai

No primeiro trimestre de 2002, o PIB uruguaio apresentou queda de 10,1%, havendo perspectivas de recuperação, ainda que lenta, para 2003.

O déficit do setor público consolidado deve atingir 3,5% do PIB, em 2002, em comparação a 4%, registrados em 2001, como resultado das medidas de ajuste fiscal recentemente aprovadas.

Em julho, as importações uruguaias reduziram-se em 40% em comparação ao mesmo período do ano anterior, devido não somente à retração da atividade econômica, mas também como conseqüência da desvalorização da moeda, após a adoção do cambio flutuante em fins de junho de 2002. Por outro lado, as exportações devem registrar crescimento no médio prazo, devido aos ganhos de competitividade decorrentes da desvalorização da moeda, à retomada das exportações de carne aos mercados mundiais e à melhoria nos preços das commodities agrícolas.

A crescente retirada de depósitos do sistema bancário, iniciada em fevereiro de 2002, agravou-se em julho e provocou uma queda significativa no nível das reservas internacionais devido à necessidade de o Banco Central do Uruguay – BCU garantir a liquidez do sistema. Em 30 de julho, as reservas internacionais chegaram a US$ 655 milhões, uma queda de US$ 197 milhões se comparada aos US$ 852 milhões, registrados em 25 de julho.

Em 30 de julho, como conseqüência das elevadas e constantes retiradas dos depósitos, o governo uruguaio decretou feriado bancário por quatro dias. Em 5 de agosto, quando da reabertura do mercado, o governo uruguaio anunciou que as aplicações a prazo, em bancos públicos, estariam submetidas a uma reprogramação de devolução, em até três anos. Na data da reabertura, os bancos estatais registraram uma maior demanda de depósitos, no total de US$ 80 milhões. Este volume equivale à média de dois dias de retiradas de depósitos durante o mês de julho. Nos bancos privados, as retiradas de depósitos foram levemente superiores aos níveis usuais. Até o final de agosto, os depósitos em cadernetas de poupança em pesos devem ser liberados em sua totalidade, enquanto os depósitos em dólares serão liberados até um limite de US$ 10.000.

Gráfico 5 – Uruguai: Reservas Internacionais do Banco Central*
(em milhões de dólares)

No sistema bancário uruguaio, os depósitos em moeda estrangeira constituem 91,1% do total, enquanto os depósitos em moeda nacional representam apenas 8,9%. 75% dos depósitos encontram-se em bancos públicos, controlados ou sob intervenção do Estado, e 25% em bancos privados. Em fins de junho, os depósitos em moeda estrangeira totalizavam US$ 9,2 bilhões (65% de residentes e 35% de não-residentes). Em dezembro de 2001, o percentual de depósitos de não-residentes era de 45% do total. Entre fevereiro e junho, a média mensal de saída de depósitos foi de cerca de US$ 600 milhões.

As estatísticas oficiais divulgadas até junho apresentavam a seguinte composição dos depósitos (Tabela I):

 Tabela VII – Uruguai: Depósitos em Instituições Financeiras
Discriminação 30/06/2002 Variação desde 30/06/01 Variação nos últimos 12 meses
Depósitos a Prazo em Moeda Nacional (milhões de pesos uruguaios) 6.295 - 2.959 - 32,0%
Bancos Públicos 2.355 - 1.620 - 40,8%
Bancos Privados 3.940 - 1.338 -25,4%
Total  
Depósitos em Moeda Estrangeira (milhões de dólares) 9.155 - 3.347 - 26,8%
Bancos Públicos 3.602 - 634 - 15,0%
Residentes 3.212 - 544 - 14,5%
Não-residentes 390 - 90 - 18,8%
Bancos Privados 5.553 - 2.713 -32,8%
Residentes 2.793 - 715 -20,4%
Não-residentes 2.759 - 1.998 -42,0%

Fonte: Banco Central do Uruguay-BCU. Elaboração: SAIN/MF

Em julho, o BCU suspendeu por 30 dias as atividades do Banco Comercial, a principal entidade privada no país (controlada pelo JP Morgan Chase, Credit Suisse First Boston e Dresdner Bank), e do Banco de Crédito, no qual o governo uruguaio detém 51% do controle acionário. Além desses, existem três outros bancos cujas atividades encontram-se suspensas: os Bancos Montevideo Y Caja Obrera (BMCO), que se encontravam em processo de fusão e o Banco da Galícia, filial de um dos grandes bancos argentinos. Estes cinco bancos constituem 25% do sistema financeiro, com depósitos superiores a US$ 2,2 bilhões. O principal motivo das suspensões das atividades tem sido o problema de liquidez nas instituições. Cabe destacar que o Banco da Galícia é filial de um dos principais bancos da Argentina, tendo os argentinos como os seus principais correntistas.

Em 20 de junho, quando o Uruguai adotou o sistema de câmbio flutuante, a cotação do peso uruguaio era de $ 17 pesos uruguaios por dólar. O peso uruguaio já sofreu uma depreciação de 60% em relação ao dólar, desde 22 de junho, quando o país adotou o sistema de flutuação do câmbio. Somente no mês de julho, a moeda local depreciou-se 24% frente ao dólar. Em 22 de agosto, a cotação do peso uruguaio em relação ao dólar era de $ 25,7 para compra e $ 28,7 para venda.

O agravamento da crise uruguaia ocorreu poucos dias após a mudança de toda a equipe econômica pelo Presidente Jorge Battle. A escolha do senador Alejandro Atchugarry para o cargo de Ministro da Economia foi bem recebida pelo mercado. Acredita-se que a escolha de Atchugarry tenha fortalecido a coalizão governista e deve possibilitar, em curto prazo, a aprovação de projetos importantes, tais como o projeto de lei para a Reativação Econômica do país, além da Revisão do Orçamento.

Em 4 de agosto, o Congresso uruguaio aprovou a lei de reestruturação do sistema bancário. Entre os pontos mais importantes, destacam-se: a) a criação do Fundo de Estabilidade do Sistema Bancário que garantirá 100% dos depósitos a vista e em cadernetas de poupança nos Bancos da República Oriental do Uruguay (BROU) e no Banco Hipotecário (BH), os dois maiores bancos estatais; b) prorrogação dos vencimentos dos depósitos a prazo fixo em moeda estrangeira no BROU e no BH. O pagamento do principal será feito em três parcelas: 25% serão pagos dentro de um ano, 35% em dois anos e os restantes 40% em três anos; e c) com o objetivo de manter a liquidez do sistema bancário, a lei faculta ao Banco Central a utilização de recursos do Fundo de Estabilidade do Sistema Bancário para garantir as retiradas de depósitos e cadernetas de poupança, em moeda nacional e estrangeira, nas instituições que receberam assistência financeira nos últimos meses.

Em 8 de agosto, o FMI divulgou um comunicado formal informando a ampliação da linha de crédito stand-by no valor do US$ 494 milhões. Os recursos a serem aportados pelo FMI, Banco Mundial e BID totalizam US$ 3,8 bilhões. O total de assistência financeira do FMI seria de US$ 2,8 bilhões, um aumento de US$ 500 milhões ao montante do acordo firmado em março de 2002. O Uruguai deve firmar uma nova carta de intenções com o FMI nas próximas semanas. Ademais, os recursos do Banco Mundial e do BID passariam para US$ 1,1 bilhão, uma elevação de US$ 300 milhões em relação aos recursos comprometidos anteriormente no valor de US$ 800 milhões. Os desembolsos efetuados até o momento permitiram ao Uruguai liquidar o empréstimo-ponte concedido pelo Tesouro dos EUA, em 05 de agosto.

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VIII. México

No segundo trimestre, o PIB mexicano cresceu 2,1%, em relação ao mesmo período do ano passado, impulsionado pelo setor industrial. Esse foi o primeiro crescimento registrado após três trimestres consecutivos de queda. O principal fator subjacente a recessão observada nos três trimestres anteriores, a primeira na história recente do México que não foi causada por uma crise econômica interna, é o ciclo econômico dos Estados Unidos. Nos últimos anos, o crescimento da economia mexicana passou a ser determinado preponderantemente pela economia americana. Cerca de 90% das exportações mexicanas são destinadas aos Estados Unidos, das quais 80% são produtos manufaturados. O gráfico abaixo ilustra essa tendência.

Os recentes sinais de enfraquecimento do processo de recuperação do início do ano nos EUA, principalmente na indústria, e o fraco desempenho da demanda interna indicam que a retomada do crescimento do PIB no segundo semestre não está garantida. Dados preliminares indicam que o consumo e o investimento privado mexicanos estão crescendo moderadamente. Em julho, foi registrada uma taxa de desemprego de 2,9%, em comparação com uma média de 2,7% no primeiro semestre. Em junho, as vendas no varejo caíram 0,4%, em relação ao mesmo mês do ano passado. Já a formação bruta de capital fixo cresceu 3,4% em maio, em relação a maio do ano passado. Segundo a pesquisa mensal de expectativas de mercado realizada pelo Banco do México, o PIB deve crescer 1,6% em 2002, o que está inferior às expectativas colhidas pela Consensus Forecast (ver Panorama Global).

Gráfico 6 – México e EUA: PIB Real, Produção Industrial e Exportações
(variação % em relação ao mesmo período do ano anterior)

A desvalorização de cerca de 11% do peso neste ano tem pressionado os preços. Em julho, a inflação em 12 meses, medida pelo índice de preços ao consumidor, foi de 5,5%, frente a uma inflação de 4,9% registrada em julho. A meta para 2002 é de 4,5% enquanto que, segundo pesquisa de expectativas de mercado do Banco Central do México, a inflação projetada para 2002 é de 4,9%. Em julho, a instituição estabeleceu formalmente as metas de inflação para os próximos anos. A meta para 2003 foi fixada em 3% ao ano, enquanto a meta para 2004 e os anos posteriores foi fixada em 3% com uma banda de tolerância de +/- 1%.

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IX. Commodities

 Em 21 de agosto, o contrato futuro de petróleo tipo Brent para outubro fechou a US$ 27,41 por barril, a maior cotação do mês. Em 19 de agosto, o preço médio da cesta de petróleo da OPEP era de US$ 26,82 o barril, o maior preço dos últimos 20 dias e uma alta de 8% em relação ao mês anterior. Desde 15 de agosto, o preço da cesta de petróleo subiu para o terço superior da banda estabelecida pela OPEP, após ter permanecido quatro meses no terço médio da banda. Desde junho, o preço do petróleo registrou alta de 17% e, no ano, o produto já acumula alta de 35%. O receio de uma invasão ao Iraque pelos Estados Unidos nas próximas semanas, que poderá interromper o fornecimento de petróleo do Golfo Pérsico, tem contribuído para a elevação nos preços. O Iraque possui as maiores reservas mundiais conhecidas de petróleo, logo após a Arábia Saudita, e faz fronteira com seis dos onze países-membros da OPEP.

 Gráfico 7 - Preço do Petróleo Brent no Mercado Futuro de Londres
(US$ por barril; contratos com vencimento em 1 mês)

Em 9 de agosto, um relatório do American Petroleum Institute divulgou que os níveis de estoque do produto nos EUA reduziram-se para 295 milhões, o mais baixo nível em 18 meses. Já o relatório de 16 de agosto mostra uma recomposição dos estoques para 302,8 milhões de barris. Os estoques atuais encontram-se 0,3% acima dos níveis registrados em igual período do ano anterior, porém permanece a tendência de declínio observada desde o final de março de 2002.

 Em julho, os países produtores da OPEP aumentaram sua produção para 23,5 milhões de barris/dia, acima da meta de produção de 21,7 milhões de barris/dia estabelecida em janeiro de 2002. O receio de perder uma parcela do mercado para os países não pertencentes à OPEP foi o que motivou a elevação da produção, demonstrando a instabilidade circunstancial do cartel. De fato, essa ameaça é bastante concreta. A oferta de petróleo pelos demais países produtores aumentou, em julho, em 200 mil barris/dia. Em julho, a Rússia, país que não pertence ao cartel, elevou a produção em 90 mil barris/dia, um volume 8,2% superior em comparação ao mesmo período do ano anterior. A Rússia tem se destacado como o segundo maior produtor de petróleo do mundo com uma produção de 7,4 milhões de barris/dia, contra 7,6 milhões de barris da Arábia Saudita, o maior produtor mundial.

 A próxima reunião da OPEP está marcada para 19 de setembro, em Osaka, Japão, quando a organização tomará as decisões com respeito ao volume de produção tendo em vista a proximidade do inverno no hemisfério norte, período no qual a demanda pelo produto é historicamente mais elevada. Alguns membros da organização, principalmente os países africanos, altamente dependentes do petróleo na geração de suas receitas, devem pressionar por um aumento nas suas cotas de produção.

 De acordo com informações da Agência Internacional de Energia (EIA) dos EUA, no segundo semestre de 2002, a quantidade demandada global é estimada em 19,9 milhões de barris/dia, 1,9% superior à registrada em igual período do ano anterior. A agência estima que, apesar dos elevados níveis atuais de produção, a OPEP deve aumentar as cotas de produção de forma a manter os níveis de preço do produto dentro da banda estabelecida pela organização (US$ 22,0 a US$ 28,0 por barril). Caso se confirme a recuperação da economia mundial em 2003, particularmente da economia americana, a demanda mundial de petróleo deve elevar-se em 1,2 milhões de barris/dia, sendo os EUA responsáveis por metade deste aumento.

 De janeiro a julho de 2002, as commodities agrícolas registraram altas médias acumuladas de 14,1%, segundo dados do Banco Mundial. A trajetória de alta nos preços dos grãos deve manter-se nos próximos meses, já que o clima desfavorável nas regiões dos EUA, Canadá e Austrália (os principais produtores mundiais de grãos) vem acarretando diminuição na produção. Estima-se que as safras atingirão níveis bastante inferiores ao esperado, no período 2002-2003, de acordo com relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), divulgado em 12 de agosto. De outro lado, as inundações em várias regiões da Europa também acarretarão perda de grande parte das safras agrícolas na região.

 Gráfico 8 – Índices de Preços das Commodities
(1990 = 100; média do período)

O relatório do USDA informou que a produção de soja nos EUA na safra 2002-2003 deve situar-se em 71,5 milhões de toneladas, a menor em seis anos, uma redução de 8,1% em relação às estimativas divulgadas em julho. A seca que atinge os principais estados americanos tem sido considerada a pior dos últimos 50 anos. Os estoques mundiais também foram revistos para 22,9 milhões de toneladas, ou um volume 24,2% menor que o registrado na safra anterior. No período de abril a junho de 2002 os preços da soja elevaram-se 6%, em relação ao mesmo período do ano anterior.

O relatório aumentou a estimativa da produção brasileira deste produto, no período 2002-2003, de 47 para 48 milhões de toneladas e manteve o volume da produção Argentina em torno de 30 milhões de toneladas. Na próxima safra, a produção de soja do Brasil e da Argentina devem totalizar juntas 78 milhões de toneladas, superando a dos EUA, maior produtor mundial.

A produção do milho dos EUA na safra 2002-2003 teve uma redução de 9,2% nas estimativas, para 225,7 milhões de toneladas em comparação a 242 milhões de toneladas na safra anterior. A produção mundial de milho é estimada em 586,5 milhões de toneladas. Já os estoques mundiais do produto foram revistos para baixo, de 126,5 milhões para 91,9 milhões de toneladas, uma redução de 27,4%. Os preços do produto encontram-se, atualmente, no patamar mais elevado dos últimos quatro anos.

De igual forma, o trigo vem sendo negociado com os maiores preços dos últimos quatro anos. No período de abril a junho de 2002, os preços do produto registraram um aumento de 13%, em relação a igual período do ano anterior. A seca tem afetado as colheitas nos EUA e em outros produtores importante, como Canadá e Austrália. Nos principais países produtores, as estimativas da próxima safra têm sido reduzidas em até 20%.

Em relação ao café, os preços continuam em baixa pressionados pela safra recorde brasileira de 44 milhões de sacas, em 2002/2003. Entre os meses de abril e junho de 2002, o preço do café arábica registrou uma queda de 9,3%, em relação ao mesmo período do ano anterior. Nos últimos dois anos, as cotações de café acumulam queda de 44% no mercado internacional. O mercado internacional está aguardando os leilões anunciados pelo governo brasileiro, a partir de setembro, os quais poderão retirar do mercado até seis milhões de sacas de café nos próximos sete meses. Além disso, a instabilidade política da Colômbia, um importante produtor, pode contribuir para uma melhoria nos preços do produto.

De janeiro a junho de 2002, os metais industriais registraram uma alta média de 4,1%. A alta registrada nas últimas semanas reflete, principalmente, a expectativa dos mercados em relação à divulgação pelos EUA, até o final de agosto, da lista de produtos de aço que terão uma redução substancial das alíquotas de importação. As medidas cobrirão 37 categorias de produtos de aço e devem alcançar um volume superior a 550 mil toneladas de importações americanas anuais. O cobre e o alumínio têm apresentado alta moderada de preços. Porém, ainda não há uma reversão da tendência de preços dos metais industriais devido às incertezas quanto à recuperação da economia mundial.

Ângela Semíramis - jard@fazenda.gov.br

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