22/03/2000
Salário mínimo no Brasil: evolução histórica
e
impactos sobre o mercado de trabalho e as contas públicas
Histórico do salário mínimo no Brasil
O salário mínimo surgiu no Brasil em meados da década de 30. A Lei
nº 185 de janeiro de 1936 e o Decreto-Lei nº 399 de abril de 1938 regulamentaram a
instituição do salário mínimo, e o Decreto-Lei nº 2162 de 1º de maio de 1940 fixou
os valores do salário mínimo, que passaram a vigorar a partir do mesmo ano. O país foi
dividido em 22 regiões (os 20 estados existentes na época, mais o território do Acre e o
Distrito Federal) e todas as regiões que correspondiam a estados foram divididas ainda em
sub-região, num total de 50 sub-regiões. Para cada sub-região fixou-se um valor para o
salário mínimo, num total de 14 valores distintos para todo o Brasil. A relação entre
o maior e o menor valor em 1940 era de 2,67.
Esta primeira tabela do salário mínimo tinha um prazo de vigência de
três anos, e em julho de 1943 foi dado um primeiro reajuste seguido de um outro em
dezembro do mesmo ano. Estes aumentos, além de recompor o poder de compra do salário
mínimo, reduziram a razão entre o maior e o menor valor para 2,24, já que foram
diferenciados, com maiores índices para os menores valores. Após esses aumentos, o
salário mínimo passou mais de oito anos sem ser reajustado, sofrendo uma queda real da
ordem de 65%, considerando-se a inflação medida pelo IPC da FIPE (ver Gráfico
1).
Em dezembro de 1951, o Presidente Getúlio Vargas assinou um
Decreto-Lei reajustando os valores do salário mínimo, dando início a um período em que
reajustes mais freqüentes garantiram a manutenção, e até alguma elevação, do poder
de compra do salário mínimo. Da data deste reajuste até outubro de 1961, quando ocorreu
o primeiro reajuste do Governo de João Goulart, houve um total de seis reajustes. Neste
período, além de os reajustes terem ocorrido em intervalos cada vez menores (o último,
de apenas 12 meses), ampliou-se bastante o número de valores distintos para o salário
mínimo entre as diversas regiões. Deve-se ressaltar que nos dois primeiros reajustes
deste período o aumento do maior salário mínimo foi muito superior ao do menor, com a
razão entre eles atingindo 4,33 em julho de 1954, seu maior valor histórico.
A partir de 1962, com a aceleração da inflação, o salário mínimo
voltou a perder seu poder de compra, apesar dos outros dois reajustes durante o Governo de
Goulart. Após o golpe militar, modificou-se a política de reajustes do salário mínimo,
abandonando-se a prática de recompor o valor real do salário no último reajuste.
Passou-se a adotar uma política que visava manter o salário médio, e aumentos reais só
deveriam ocorrer quando houvesse ganho de produtividade. Os reajustes eram calculados
levando-se em consideração a inflação esperada, o que levou a uma forte queda salarial
decorrente da subestimação da inflação por parte do governo (ver Gráfico
1).
Em 1968, passou-se a incluir uma correção referente à diferença
entre as inflações esperadas e realizadas, sem, no entanto, qualquer correção
referente às perdas entre 1965 e 1968. Neste período, que durou até 1974, houve ainda
uma forte redução no número de níveis distintos de salário mínimo, que passou de 38
em 1963 para apenas cinco em 1974. Também reduziu-se a relação entre o maior e o menor
salário mínimo, que atingiu a valor de 1,41 no final do período.
De 1975 a 1982, os reajustes do salário mínimo elevaram gradualmente
seu poder de compra, com um ganho real da ordem de 30%. Em 1979, os reajustes passaram a
ser semestrais, e em valores que correspondiam a 110% da variação do INPC. Além disso,
manteve-se a política de estreitamento entre os distintos valores, que em 1982 já eram
somente três, e com a razão entre o maior e o menor salário no valor de 1,16 (ver
Gráfico
1).
A partir de 1983, as diversas políticas salariais associadas aos
planos econômicos de estabilização e, principalmente, o crescimento da inflação
levaram a significativas perdas no poder de compra do salário mínimo. Entre 1982 e 1990,
o valor real do salário mínimo caiu 24% (ver Gráfico
1). Deve-se destacar ainda que em maio de 1984 ocorreu a unificação do salário
mínimo no país.
A partir de 1990, apesar da permanência de altos índices de
inflação, as políticas salariais foram capazes de garantir o poder de compra do
salário mínimo, que apresentou um crescimento real de 10,6% entre 1990 e 1994, em
relação à inflação medida pelo INPC.
Com a estabilização após o Plano Real, o salário mínimo teve
ganhos reais ainda maiores, totalizando 28,3% entre 1994 e 1999 (ver Gráfico
2). Neste mesmo período, considerando-se a relação do valor do salário mínimo
e da cesta básica calculado pelo DIEESE na cidade de São Paulo, o crescimento foi de 56%
(ver Gráfico
3).
Há duas conclusões importantes a destacar a partir dos dados do
Gráfico
1, que mostra a evolução histórica do salário mínimo desde 1940. Em primeiro
lugar, ao contrário de manifestações muito corriqueiras de que o poder de compra do
salário mínimo seria hoje muito menor que na sua origem, os dados mostram que não houve
perda significativa.
Em segundo, foi com a estabilização dos preços a partir de 1994 que
se consolidou a mais significativa recuperação do poder de compra do mínimo desde a
década de 50.
Impactos do Aumento do Salário Mínimo no Mercado
de Trabalho
Numa discussão mais profunda e abrangente sobre os impactos do
salário mínimo, deve-se entender como o seu valor afeta variáveis como o seu grau de
cobertura isto é, a parcela dos trabalhadores cujos rendimentos são maiores ou
iguais ao mínimo-- e a informalidade das relações de trabalho.
Quanto ao grau de cobertura do salário mínimo, a
Tabela 1
mostra que, em 1960 mais que 70% dos trabalhadores recebiam salários menores ou iguais ao
salário mínimo mais alto da Federação. Em 1970, 50% dos trabalhadores ganhavam menos
que o mínimo. Hoje, são 13.9% os que recebem menos que o salário mínimo. Portanto, o
grau de cobertura tem aumentado muito. O poder de compra do salário mínimo na sua origem
e nas décadas imediatamente seguintes (50, 60 e mesmo 70) queria dizer muito pouco com
relação ao bem-estar dos trabalhadores, simplesmente porque a proporção dos que
ganhavam mais que o salário mínimo era diminuta.
Dito de outra forma, não se deve examinar o poder de compra do
salário mínimo isoladamente, mas, sim, lado a lado com o seu grau de cobertura. O que
desejamos é um salário mínimo que cresça e que, ao mesmo tempo, tenha um grau de
cobertura cada vez mais elevado.
As Tabelas 2a
e 2b
trazem o grau de cobertura segundo a natureza do vínculo empregatício (com carteira
assinada, sem carteira, contas-próprias). O dado marcante nestas tabelas é que entre os
trabalhadores sem carteira assinada se encontram os mais baixos índices de cobertura.
Quase metade destes trabalhadores recebem até um salário mínimo, enquanto entre os
trabalhadores com carteira assinada esta proporção não chega a 10%.
Abrindo os dados por regiões, vemos que o problema de baixa cobertura
é maior na Região Norte e, principalmente, na Região Nordeste (ver Tabela 3).
Analisando-se os dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar do
IBGE de 1998, desagregados por estados da federação, obtêm-se resultados interessantes
sobre a relação entre o valor do salário mínimo e o desemprenho do mercado de
trabalho. O Gráfico
4 mostra a razão entre o salário médio e o salário mínimo nos diversos
estados da Federação. Nota-se que enquanto em São Paulo ou no DF o salário médio é
mais que cinco vezes maior que o salário mínimo, em alguns estados do Norte ou do
Nordeste não chega a duas vezes. É evidente que o impacto da elevações do salário
mínimo nos diferentes estados terá impactos diferenciados sobre a informalidade, o grau
de cobertura do salário mínimo e a própria taxa de desemprego.
A Tabela 4
e os Gráficos
5 e 6
apresentam os dados por estados, da relação entre a razão entre o salário médio e o
salário mínimo (SMe/SMin), de um lado, e medidas de informalidade e do grau de cobertura
do salário mínimo no setor privado, de outro.
O Gráfico
5 mostra que onde a relação entre o salário médio e o salário mínimo é
menor, a informalidade é maior. Dos dados da Tabela 4
pode-se constatar que enquanto nos cinco estados com maior razão SMe/SMin a
informalidade atinge, em média, 37% dos trabalhadores, entre os cinco estados com menor
razão SMe/SMin este número passa para 51%.
Os dados revelam ainda que, quanto maior a relação entre o salário
médio e o salário mínimo, maior o grau de cobertura, isto é, maior a proporção de
trabalhadores que ganham mais que o salário mínimo (Gráfico
6). Novamente, comparando os cinco estados de maior salário médio com os cinco
de menor salário médio, vemos que entre os primeiros a média de cobertura é de 97%
entre os trabalhadores do setor privado, enquanto que entre os últimos esta cobertura cai
para uma média de 77%.
Estes resultados indicam que, a depender das condições do mercado de
trabalho em cada estado, o aumento no valor do salário mínimo pode vir acompanhado de um
aumento da informalidade e uma redução do grau de cobertura do salário mínimo, sem que
se atinja, ao menos plenamente, o objetivo de promover um ganho real nos rendimentos dos
trabalhadores com menor remuneração. Neste caso, se por um lado, haveria um ganho para
os trabalhadores que recebem o salário mínimo, e que tivessem este seu salário
reajustado; por outro lado, teríamos, provavelmente, uma redução no bem-estar para um
grupo de trabalhadores, associada à redução da cobertura do mínimo e ao aumento da
informalidade.
Redução da pobreza e mudanças no mercado de trabalho
Assim como é importante discutir o grau de cobertura do salário
mínimo (e não apenas o seu valor a cada momento do tempo), é importante entender que
outros fatores além do salário influem no bem-estar social das
famílias. Investimentos em educação e saúde, bem como em infra-estrutura básica,
melhoram o bem-estar da população sem que se manifestem do poder de compra dos
salários. Os dados são abundantes quanto às melhorias nas condições de vida da
população mais pobre como resultados destes investimentos nos últimos anos.
Quanto à renda, a medida mais adequada para medi-la não é o salário
nem, em particular, o salário mínimo, mas sim a renda familiar per capita, isto
é, a renda da família dividida pelo número de familiares. Esta medida toma em
consideração alterações demográficas (como a redução no número de filhos) e
mudanças estruturais no mercado de trabalho (como o crescimento da participação das
mulheres no mercado de trabalho).
Há pelo menos dois fatores que fazem com que a renda familiar per
capita venha crescendo em relação ao salário mínimo no Brasil. Em primeiro lugar, o
fato de que a proporção de chefes de família que recebe salário mínimo é menor que a
proporção média e, além disso, vem caindo ao longo dos anos (Tabela 5).
Em 1981, a proporção de chefes de família ganhando menos que o salário mínimo era de
21.3%. Em 1998, esta proporção havia caído para 11.7% enquanto para o total de
trabalhadores a proporção era 13.9%.
O segundo ponto fundamental é o crescimento da participação de
outros membros da família, que não o chefe, na força de trabalho. Na Tabela 6,
nota-se que em 1981, a taxa de participação de conjugues no mercado de trabalho era
de 27%, enquanto em 1998 chegava a 48.2%. Entre os filhos, a participação cresceu de
24.5% para 27.1% no mesmo período.
Como conseqüência destes dois fatores, a renda domiciliar per capita
tem crescido em relação ao salário mínimo. A Tabela 7
mostra que nas duas últimas décadas, esta relação passou de 0,82 em 1981 para 2,27 em
1998. Tal crescimento explica a forte queda no mesmo período da proporção de pessoas
vivendo com renda familiar per capita inferior a um salário mínimo. Na Tabela 8,
vemos que este número era de 79,1% em 1981, e em 1998 havia se reduzido para 45,8%, o que
representa uma redução de mais de 40%.
Impacto Fiscal do Aumento do Salário Mínimo
Como temos chamado atenção, deve-se ter em conta o impacto fiscal
(tanto no ano em curso quanto permanente) de um aumento do salário mínimo. Não que o
resultado fiscal seja um fim em si mesmo, pois não é este o caso. O ajuste fiscal e a
mudança do regime fiscal, ambos em curso no Brasil, são pré-condições para a retomada
do crescimento da economia, do emprego e da renda, como aliás, já se pode observar em
meses recentes.
A título de exemplo, as Tabelas 9a
e 9b
mostram o efeito de longo prazo (isto é, permanentes) sobre os gastos da previdência
dos aumentos reais dos benefícios em 1995 e 1998.<1>
O impacto fiscal do aumento do salário mínimo se dá sobre as contas
da Previdência Social, as despesas com seguro-desemprego e abono salarial, os gastos com
a LOAS e as folhas de pagamento das três esferas do governo. As Tabelas 10,
11, 12,
13, 14,
15 e
16
trazem estes impactos para diferentes valores de reajuste, tanto para o ano de 2000 como
para o período de 12 meses. Devemos enfatizar o impacto de 12 meses, uma vez que ele nos
oferece uma aproximação mais confiável do impacto permanente destes reajustes.
Observa-se que, em média, para cada Real de aumento no valor do
salário mínimo ocorre um aumento da ordem de R$ 200 milhões nos gastos do Governo
Federal. Deste total, quase 75% vêm do impacto sobre a previdência. A Tabela 17
mostra que quase 65% dos benefícios pagos pela Previdência são no valor de um salário
mínimo, o que corresponde a 35% do total dos valores dos benefícios. Isso explica porque
o impacto do aumento do salário mínimo sobre as contas da Previdência é tão forte.
O impacto sobre as folhas dos estados e dos municípios pode parecer
pouco expressivo se olharmos apenas para o seu valor (R$ 4 milhões para o total dos
estados, e R$ 11 milhões para os municípios, considerando-se apenas os servidores na
ativa). O grande problema aqui é que, em municípios pequenos e de regiões menos
desenvolvidas, este impacto pode ser enorme em termos relativos. Entre as Prefeituras da
Região Nordeste, onde este problema deve ser mais grave, 37% do total de servidores
públicos municipais recebem salários num valor menor ou igual a um salário mínimo<2>. A
Tabela 18
traz estes percentuais para os servidores estaduais e municipais, agregados por estado da
federação. A análise destes dados indica haver um sério risco de diversos municípios
destes estados onde este percentual é mais elevado, não terem como suportar estes
aumentos.
Clique aqui
para visualizar a Medida Provisória nº 2019 que dispõe sobre o salário mínimo a
vigorar a partir de 3 de abril de 2000.
<1> Em 1995,
houve um aumento de 42,9% tanto para o mínimo, como para os demais benefícios
(percentual bem superior ao da inflação no período). Em 1998, enquanto os demais
benefícios tiveram um reajuste de 4,81%, o salário mínimo foi reajustado em 8,33%.
<2> Os salários
menores que o mínimo se explicam, entre outras razões, pela presença de servidores com
jornada de trabalho parcial.
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