Notas Oficiais

28/02/2005

Exposição de Motivos sobre acordo com o FMI

Excelentíssimo Senhor Presidente da República,

1.      Como é de conhecimento de Vossa Excelência, desde o final de 1998 o Brasil vem mantendo sucessivos Acordos Stand-by com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O apoio do FMI nesse período, marcado por grande turbulência nos mercados internacionais e transformações importantes na economia brasileira, contribuiu para a superação de momentos de dificuldade externa e para que o Brasil realizasse avanços expressivos em direção a uma maior solidez macroeconômica, bem como iniciasse um processo abrangente de reformas institucionais que vêm ampliando a eficiência da economia e a eficácia da política econômica, criando assim condições para um crescimento mais acelerado e equilibrado de nosso País.

2.      Os avanços observados durante o mandato de Vossa Excelência são especialmente significativos e reconhecidos no País e internacionalmente. A condução segura da política macroeconômica, assentada em metas de inflação, regime cambial flexível e compromisso com equilíbrio fiscal de longo prazo, traduzido nas metas de superávit primário, foi determinante para restabelecer a estabilidade e a confiança da sociedade e dos mercados na solvência do setor público brasileiro, permitindo ao País beneficiar-se de maneira equilibrada e sustentável do ambiente internacional favorável. A política monetária adotada no início do governo garantiu a rápida convergência das taxas de inflação de um patamar superior a 17% no início de 2003 para níveis bem inferiores, correspondentes às metas fixadas pelo Conselho Monetário Nacional, e a autoridade monetária segue vigilante para coibir quaisquer riscos de repique inflacionário. Em conseqüência, a taxa de juros reais de médio prazo caiu mais de 30% em relação à média dos cinco anos anteriores, abrindo novas oportunidades para o investimento produtivo.

3.      A queda da inflação e a redução da taxa de juros também são reflexos da austeridade no manejo da política fiscal. As metas de superávit primário – elevadas de 3,75% do PIB para 4,25% e 4,5% do PIB em 2003 e 2004, respectivamente – foram alcançadas e superadas. Em conseqüência, a relação dívida pública/PIB já caiu mais de 5 pontos percentuais e o déficit nominal vem caindo de forma acelerada, de cerca de 10% do PIB em 2002 para pouco mais de 2% nos últimos 12 meses. A gestão da política fiscal também vem possibilitando sensível melhoria do perfil da dívida pública. Reduziu-se em 31 pontos percentuais a parcela da dívida interna atrelada ao câmbio ao passo que se elevou em 18 pontos percentuais a parcela formada por títulos pré-fixados do Tesouro Nacional.

4.      O ajuste externo, decorrente da política de câmbio flutuante e de uma bem sucedida agenda de expansão de nosso comércio exterior, é impressionante. Os principais indicadores de solvência externa vêm progressivamente melhorando, a exemplo da relação dívida externa sobre exportações que atingiu o melhor valor em mais de trinta anos (dívida total/exportações=2,1). Em decorrência do forte crescimento das exportações, que recentemente ultrapassaram a marca de US$ 100 bilhões acumulados em 12 meses, estamos registrando superávits em conta corrente desde 2003, enquanto a balança comercial alcançou, em 2004, o saldo recorde de US$ 33,7 bilhões. Paralelamente, o governo tem trabalhado para a recomposição das reservas internacionais, que hoje chegam a US$ 61,9 bilhões, de modo a mitigar o impacto de eventuais crises externas, reduzindo, assim, a vulnerabilidade da economia.

5.      O reconhecimento da solidez do compromisso fiscal e a melhora do setor externo já se refletiram em significativa queda do prêmio de risco do País nos mercados internacionais e em melhora da classificação de risco da dívida por agências especializadas. Tais movimentos deverão se intensificar na medida em que as atuais políticas sejam ratificadas e seus resultados se consolidem, mostrando uma inequívoca mudança estrutural na nossa economia.

6.      No âmbito institucional também foram implementadas importantes reformas estruturais, como a da previdência, que promoveu ajustes que contribuirão com a solvência do sistema, e as mudanças no sistema tributário, com destaque para a introdução do regime não-cumulativo do PIS e da COFINS – que amplia a eficiência e a competitividade de nossa economia. Aproveitando o bom desempenho da arrecadação, foram adotadas em 2004 várias medidas de desoneração tributária destinadas à redução do custo do investimento e do preço de produtos da cesta básica, bem como ao estímulo à poupança de médio e longo prazos.

7.      Somam-se a estas ações a implementação de medidas que visam melhorar o ambiente de negócios, como a nova lei de falências e recuperação de empresas, a regulamentação das parcerias público-privadas e os novos mecanismos de incentivo à pesquisa e inovação, sem contar os inúmeros aperfeiçoamentos no mercado de crédito, entre os quais destacam-se os empréstimos com consignação em folha de pagamento, a nova lei de incorporações imobiliárias e a criação de instrumentos que contribuirão, de forma eficiente e a um menor custo, com o financiamento do agronegócio brasileiro. Estas medidas, tomadas em seu conjunto, diminuem as incertezas, incentivando o investimento e a disposição dos empreendedores a tomar riscos, fatores importantes para a expansão da atividade econômica, da produtividade e da renda do País.

8.      A maior consistência da política macroeconômica e os avanços institucionais vêm permitindo ao País beneficiar-se de maneira segura e saudável do ambiente internacional favorável e têm se refletido num crescimento robusto do produto – que alcançou 5,2% no último ano – e do emprego. Em 2004 foram criados mais de 1,5 milhão de novos postos de trabalho no mercado formal, cifra duas vezes superior à média dos cinco anos anteriores. O crescimento tem se processado de forma cada vez mais equilibrada, puxado pela ampliação do consumo doméstico – reflexo do aumento do emprego e da preservação do poder de compra dos salários decorrente do controle da inflação –, pelo comércio internacional e, principalmente, por uma robusta expansão dos investimentos, inclusive em infra-estrutura. Setores inteiros, como o ferroviário, readquiriram fôlego, mostraram-se lucrativos e, sem gerar pressão sobre os gastos públicos, estão investindo mais que em qualquer momento das últimas décadas.

9.      Vale ressaltar, Senhor Presidente, que a retomada do crescimento e a melhora do emprego são apenas parte de uma política mais ampla de inclusão social, cujos resultados começam a aparecer. A facilitação do acesso das pessoas pobres ao sistema bancário mobilizou mais de 5 milhões de pessoas. O crédito consignado permitiu aos trabalhadores acesso a taxas de juros muito inferiores às taxas de crédito pessoal até então vigentes. O Pronaf que, por determinação de Vossa Excelência, cresceu 100% na safra 2003/2004 e segue se expandindo de forma expressiva na safra 2004/2005, somando-se ao esforço de reforma agrária, tem cumprido papel fundamental na estabilidade das famílias no campo. A unificação e ampliação dos programas de transferência de renda por meio do Bolsa Família fortaleceu o papel do Estado no combate à desigualdade, melhorando inclusive o acesso à escola e aos cuidados com a saúde das crianças e de todos os cidadãos. A redução dos impostos sobre os alimentos, associado ao sucesso do combate à inflação, tem ampliado a renda efetiva das famílias. Enfim, Senhor Presidente, o atual processo de crescimento reveste-se de forte conteúdo social, melhorando progressivamente o bem-estar das famílias.

10.  Os avanços realizados até este momento são, no entanto, apenas parte de um processo mais abrangente de consolidação da estabilidade econômica e de aperfeiçoamento institucional do País, o qual está longe de ser encerrado e no qual ocupa posição central a construção de uma estrutura fiscal cada vez mais sólida.

11.  O Decreto de Programação Orçamentária e Financeira, recentemente editado, ratifica o compromisso de seu Governo com a boa gestão das finanças públicas, ao estabelecer metas rigorosas de controle das despesas. A redução dos gastos autorizados na Lei Orçamentária Anual viabiliza o cumprimento das metas fiscais definidas na Lei de Diretrizes Orçamentárias num contexto em que a carga tributária deverá se reduzir como proporção do PIB em decorrência do conjunto de medidas de desoneração tributária já aprovadas.

12.  Indo além, o recém-anunciado Programa de Modernização da Gestão da Previdência Social ataca de forma contundente algumas das causas mais imediatas do déficit da Previdência Social, cujo crescimento é um dos principais fatores de risco para a evolução futura das contas públicas. Através de um conjunto objetivo e abrangente de medidas, o Programa visa alcançar três objetivos básicos: combater a sonegação, combater as fraudes na concessão de benefícios e melhorar o atendimento aos contribuintes e beneficiários. Os resultados esperados se traduzem em metas claras de redução do déficit do Regime Geral de Previdência Social que, sem o Programa, alcançaria cerca de R$ 40 bilhões em 2005 e deverá ser reduzido para R$ 32 bilhões em 2005 e R$ 24 bilhões em 2006. O sucesso deste programa – cujos resultados serão fundamentais para a evolução do conjunto das despesas públicas nos próximos anos.

13.  O controle racional das despesas configura medida de grande importância, pois confirma o compromisso assumido por Vossa Excelência com a contínua redução da relação dívida pública/PIB, sem ampliar a já elevada carga tributária de nosso País. O cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal requer que, entre outras regras, a criação de qualquer despesa obrigatória de caráter continuado deve estar condicionada à geração de novas receitas ou à redução permanente de outras despesas. É esse compromisso que dará condições para desenvolver, com sucesso, as prioridades da política social. A austeridade no manejo dos recursos públicos é o que garante, além dos benefícios do equilíbrio econômico, a sustentabilidade das ações do governo voltadas a promover a justiça social.

14.  Para reafirmar o compromisso de controle das contas públicas, serão estabelecidas e amplamente divulgadas metas quadrimestrais de desempenho não apenas para o resultado primário do governo federal mas também para o resultado primário do setor público não financeiro. Desta forma, a sociedade terá parâmetros claros para avaliar e monitorar a gestão das finanças públicas e o cumprimento dos objetivos fiscais definidos pelo governo.

15.  Também a agenda de reformas institucionais vem sendo ampliada e aperfeiçoada. Vários projetos importantes já se encontram em tramitação no Congresso Nacional e outros estão prontos para envio e apreciação pelo Legislativo.

16.  Dentre aqueles que se encontram em tramitação no Congresso, destacam-se os projetos de reforma do Código de Processo Civil, que racionaliza o rito processual e inibe o uso do Judiciário como forma de procrastinação de obrigações, o novo arcabouço legal das agências reguladoras e o que incentiva a formalização do empreendedor de baixa renda. Tais projetos se complementam com outros que ainda estão em análise no âmbito do Governo, como a reformulação do Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, a simplificação do processo de abertura e fechamento de empresas, a quebra do monopólio e abertura do mercado de resseguros e a regulamentação dos bancos de dados de proteção ao crédito.

17.  O fortalecimento institucional do País na área econômica revela-se de diversas formas, mas todas expressam uma maior disposição da sociedade em promover mudanças que melhoram o funcionamento da economia e criam condições para uma maior eficácia da política econômica. Em particular, um tema cuja discussão vem se tornando cada vez mais madura é o da autonomia operacional do Banco Central do Brasil.

18.  Embora o Banco Central não seja formalmente autônomo, ele possui uma autonomia operacional de facto na condução da política monetária, a qual foi construída ao longo dos anos e fortalecida em seu Governo, e que é fundamental para a credibilidade da política monetária e para uma atuação eficaz da instituição no combate às pressões inflacionárias. Hoje, a sociedade tem mais clareza dos benefícios da atuação autônoma do Banco Central. É a partir do amadurecimento desta percepção que devemos entender a discussão aberta pelo Senado Federal sobre o tema, que poderá resultar em importantes avanços em sua apreciação pelo Legislativo.

19.  Como é do conhecimento de Vossa Excelência, o atual Acordo Stand-by com o FMI foi executado com sucesso. No período de 15 meses do Acordo, que se encerra no final de março, cumprimos todas as metas previstas e, como era nosso objetivo inicial para um acordo de caráter preventivo, não exercemos o direito de saque de nenhuma das parcelas disponíveis. À luz deste desempenho, este Ministério vem avaliando ao longo dos últimos meses a oportunidade e a necessidade da renovação do Acordo.

20.  Tendo em vista os avanços já realizados pelo Brasil e, principalmente, tendo em vista o compromisso constantemente renovado por Vossa Excelência com a consolidação da estabilidade macroeconômica, a diminuição da nossa vulnerabilidade externa e com a continuidade do aprimoramento institucional do País, o risco de turbulências que prejudiquem o bom desempenho da economia brasileira é hoje bem menor do que foi no passado, assim como é muito menor a necessidade de apoio externo, como o que vem sendo concedido pelo FMI.

21. Estes são os motivos, Senhor Presidente, pelos quais este Ministério vem solicitar sua autorização para comunicar ao Fundo Monetário Internacional que não pretende renovar o Acordo Stand-by que vence no final deste mês. Evidentemente, o Brasil, como membro fundador do FMI, continuará mantendo estreitas relações de trabalho com aquela instituição, participando das consultas anuais referentes ao artigo IV do estatuto do Fundo, bem como tomando parte ativa nos debates sobre a arquitetura financeira internacional e sobre o desempenho da economia global que se desenvolvem naquela instituição.

 

Respeitosamente,

Antonio Palocci Filho
Ministro de Estado da Fazenda

 

 

 Pesquisa no sítio:

Serviços

 Carta de Serviços
 Cidadão
 Empresa
 Aduana
 Consulta Processo
 Custo Efetivo Total

Temas de Interesse

 Resultado do Tesouro
 Dívida Pública
 Responsabilidade Fiscal
 Invista no Tesouro Direto

 Concorrência

 Exportações
 Governo
 PNAFM

Invista no Tesouro Direto!





E-CAC: Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte.
Resenha Eletrônica

 

Ministério da Fazenda Esplanada dos Ministérios - Bloco P - 70048-900 - Brasília - DF - Pabx: (61)3412-2000/3000 - Fax: (061)3226-9084