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Notas
Oficiais
01/09/2005
Exposição do
Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no seminário "Seis Anos de
Metas de Inflação no Brasil"
Banco Central do Brasil
Rio de Janeiro, 30 de agosto
de 2005
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É
uma honra participar do encerramento deste seminário comemorativo dos
seis anos da adoção do regime de metas para a inflação no Brasil.
Tenho certeza que os debates ao longo do dia foram frutíferos para
uma melhor compreensão das conquistas trazidas pelo regime de metas
ao País, bem como para o correto entendimento dos desafios que ele
deverá enfrentar nos próximos anos.
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Na
comemoração do seu sexto aniversário, o regime de metas de
inflação apresenta resultados inquestionáveis. Antes de avaliarmos
esses resultados em detalhe, gostaria de recordar como chegamos ao
estágio atual. Após um período de dois anos marcado por uma
seqüência de choques significativos, experimentamos um aquecimento
substancial do ritmo de atividade a partir de meados de 2003, numa
economia ainda convalescente, na qual o investimento havia sido
reduzido em função da volatilidade macroeconômica experimentada
anteriormente. Os efeitos da rápida retomada no crescimento sobre os
preços foram ampliados pela elevação de preços internacionais
importantes que contaminaram especialmente a inflação no atacado.
Quando ficou claro que essa conjuntura oferecia riscos relevantes para
a trajetória de metas que estabelecemos para a inflação, o Banco
Central deu início a um processo de ajuste nas taxas de juros
básicas a partir de setembro 2004.
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Tenho
certeza que mesmo os mais céticos admitem hoje que a política
monetária funciona sim, no Brasil. As conquistas em termos de
convergência da inflação para a trajetória de metas são
inegáveis. De acordo com as previsões dos analistas do setor privado,
o IPCA deverá encerrar 2005 dentro do intervalo estabelecido pelo
Conselho Monetário Nacional para a atuação da autoridade
monetária. Assim, o cumprimento da meta se dará pelo segundo ano
consecutivo e poderemos registrar a menor variação anual para o IPCA
desde o inicio do período de câmbio flutuante. De forma semelhante,
a inflação observada nos preços no atacado mostra convergência
para taxas próximas às apuradas pelos nossos principais parceiros
comerciais e também poderá atingir em 2005 o seu nível mais baixo
desde 1998. Com as quedas na inflação no varejo e no atacado, o
País está "contratando" antecipadamente perspectivas mais
favoráveis para a inflação nos próximos anos. Dessa forma, ao
afetar as expectativas de inflação para horizontes mais extensos, a
política monetária implementada no passado recente consolidará
também ganhos de longo prazo, decorrentes da reafirmação do
compromisso inabalável do Banco Central com a manutenção da
inflação em níveis compatíveis com a trajetória de metas.
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Gostaria
nesse ponto de enfatizar que a política monetária é apenas um
componente do nosso arcabouço de política macroeconômica,
juntamente com o regime de câmbio flutuante e uma política fiscal
que assegura o declínio da relação dívida-PIB no médio prazo. A
combinação desses três pilares trouxe ao País resultados
extremamente positivos nos últimos anos e continuará assegurando um
ambiente macroeconômico propício para que possamos continuar
crescendo de forma sustentada.
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A
política fiscal certamente constitui uma peça chave em nossa
estratégia macroeconômica. Nosso objetivo, como mencionei, é
assegurar a queda da relação dívida-PIB no médio prazo através da
manutenção permanente de superávits primários adequados. Nos
últimos anos os superávits primários que geramos foram capazes de
reduzir a relação dívida-PIB de maneira bem mais intensa do que se
previa. Embora a conjuntura em 2005 não deva permitir um declínio
dessa relação no mesmo ritmo, a dinâmica da dívida continua
favorável, e o consenso dos analistas antecipa continuidade da
trajetória de queda a partir de 2006. É importante lembrar que não
deve haver qualquer dúvida em relação à dinâmica desse processo:
com os superávits primários que estamos gerando e continuaremos a
gerar no futuro, a dívida cairá mais rápido em anos com resultados
macroeconômicos mais favoráveis e mais devagar em conjunturas menos
favoráveis. Assim, a trajetória de médio prazo para o nosso
endividamento é claramente de queda já que a responsabilidade fiscal
é um compromisso firme e permanente do governo do Presidente Lula e
um valor cada vez mais consolidado na sociedade.
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Ao
mesmo tempo em que fizemos progresso inequívoco na redução do
tamanho do nosso endividamento, conseguimos também melhorar
consideravelmente a sua qualidade, minimizando riscos para a
evolução das contas públicas. Desde 2003 tivemos sucesso
inquestionável na estratégia de redução da parcela da dívida
doméstica do setor público atrelada à variação da taxa de
câmbio. Dessa forma, foi possível reduzir drasticamente a
vulnerabilidade do orçamento do setor público aos efeitos de
variáveis que não estão sob o controle dos gestores de política
econômica e aumentar a resistência da economia a choques de natureza
não antecipada. É importante lembrar também que esse passivo
cambial significou, no passado, a distribuição do ônus do ajuste
cambial entre toda a sociedade brasileira.
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No
que se refere ao regime de câmbio flutuante, tenho repetido que sua
maior virtude é exatamente essa - flutuar. Com o pleno funcionamento
do regime de câmbio flutuante a economia brasileira foi capaz de
gerar um ajuste surpreendente das contas externas, da ordem de 7% do
PIB em cerca de três anos. Poucos países experimentaram um ajuste
externo dessa magnitude sem maiores desdobramentos em termos de queda
do nível de produto ou descontrole inflacionário. No nosso caso, o
câmbio flutuante tem funcionado de maneira bastante eficaz como
mecanismo de absorção de choques e a garantia de que ele continuará
funcionando exatamente dessa forma nos dá a certeza de que o ajuste
externo dos últimos anos continuará sendo consolidado.
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O
ajuste recente nas contas externas brasileiras foi gerado
fundamentalmente pelas exportações. Estamos perto de superar a marca
dos US$ 110 bilhões de exportações em 12 meses, e com o saldo
comercial aproximando-se da casa dos US$ 40 bilhões no mesmo
período. As exportações cresceram nos últimos anos a taxas
próximas a 30%, mesmo em 2005 e a despeito da evolução recente do
câmbio. Nossa conta corrente registrará em 2005 o terceiro ano
consecutivo de saldo positivo, fato inédito em nossa história
contemporânea.
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O
que explica a dinâmica recente das nossas exportações? Não há um
fator isolado. As exportações têm sido movidas tanto por maiores
quantidades exportadas quanto por preços mais elevados. Os embarques
de produtos brasileiros aumentaram devido à demanda externa forte, à
correção definitiva de distorções tributárias que oneravam as
exportações e a uma atuação ostensiva do governo na abertura de
novos mercados. Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras estão
passando por um processo estrutural de internacionalização, buscando
novos mercados e diversificando sua pauta de produtos, e certamente
não irão reduzir esse esforço em função de oscilações na taxa
de câmbio.
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Por
outro lado, devemos ter em conta que a melhora nos termos de troca
indica que o País se tornou mais rico vis-à-vis o resto do mundo. E
quando um país se torna mais rico frente ao resto do mundo, devemos
necessariamente observar algum dos seguintes desenvolvimentos: i)
maior consumo de bens e serviços produzidos no exterior; ii)
redução do passivo externo; iii) ampliação das reservas
internacionais; iv) ou apreciação da taxa de câmbio. Observa-se no
Brasil um pouco de cada uma destas tendências, e nossa experiência
não é diferente de outros países que se beneficiaram dos ganhos com
a alta dos preços de commodities e o aquecimento do comércio
mundial nos últimos anos. Dentre essas tendências, quero destacar
aqui a evolução das reservas internacionais líquidas, que quase
triplicaram em pouco mais de dois anos, passando de US$ 16 bilhões em
abril de 2003, o valor mais baixo registrado em nosso passado recente,
para cerca de US$ 41 bilhões atualmente. Devo lembrar que o reforço
das reservas equivale à contratação de um seguro importante contra
acidentes, sempre possíveis. Assim, o aumento em nossas reservas
feito a partir de 2003, juntamente com a melhora de vários outros
indicadores macroeconômicos, torna a economia brasileira muito mais
resistente a choques no cenário econômico internacional.
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Deixemos
de lado, porém, os avanços no plano fiscal e os resultados
favoráveis no balanço de pagamentos que temos observado e voltemos a
outro pilar de nossa política macroeconômica que se aproxima mais
das discussões do seminário de hoje.
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O
regime de metas para a inflação funciona essencialmente como um
mecanismo de coordenação de expectativas. Por esse motivo, ganha
eficácia com o tempo, especialmente numa economia como a nossa, onde
os agentes econômicos conviveram com décadas de indexação formal
generalizada, e se acostumaram a tomar suas decisões de preços,
salários e contratos olhando sempre pelo espelho retrovisor. O regime
de metas estimula a sociedade a olhar para frente ao tomar essas
decisões. Ao mesmo tempo, à medida que a sociedade passa a atribuir
menor peso ao passado e acredita mais na consecução dos objetivos
traçados para o futuro, o regime de metas se reforça como mecanismo
de coordenação. O que temos, então, é um processo de aprendizado
gradual cujo funcionamento ao longo dos anos permite que se torne cada
vez menos custoso manter a estabilidade de preços, ainda que
periodicamente tenhamos que nos defrontar com choques não antecipados
que ameaçam afastar a inflação da trajetória de metas estabelecida
para a atuação da autoridade monetária.
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Esse
é exatamente o processo que estamos assistindo nos últimos anos. O
Banco Central tem pautado sua atuação pela necessidade de assegurar
a convergência da inflação para a trajetória de metas de longo
prazo estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Nesse sentido,
está tendo pleno êxito, como atestam os resultados recentes para a
inflação e para as expectativas de longo prazo.
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Ao
longo dos últimos meses, consolidou-se um quadro mais benigno para a
inflação futura. A exuberância de nossas contas externas assegura
que, mesmo em cenários menos favoráveis, a economia brasileira pode
financiar seu balanço de pagamentos sem maiores dificuldades. Além
disso, avançou-se muito no passado recente na diluição dos efeitos
dos mecanismos de propagação da inflação passada para a inflação
futura. Finalmente, a atuação do Banco Central não deixa dúvidas
quanto ao compromisso inequívoco da política econômica com o
controle da inflação, contribuindo para o que mencionei acima –
incentivar a sociedade a olhar para frente nas suas decisões de
preços e salários, e adequar suas expectativas às metas de
inflação de longo prazo. Com isso, se formos instados hoje a fazer
previsões realistas sobre os resultados mais prováveis para a
inflação dos próximos anos, dificilmente escolheremos valores que
sejam diferentes dos estabelecidos pelo CMN como metas para a
atuação do nosso Banco Central. Temos certeza que a política
monetária será conduzida de forma a minimizar os riscos de que as
metas não sejam atingidas. Com isso, podemos todos ter tranqüilidade
em relação ao quadro inflacionário e canalizar nossas energias para
outras tarefas tão importantes quanto a manutenção da estabilidade
de preços e o crescimento sustentado.
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Apesar
dos resultados inequívocos que temos observado, que mostram a
retomada do crescimento econômico acompanhada pela queda da
inflação pelo terceiro ano consecutivo, alguns aspectos do
funcionamento do regime de metas e da atuação do banco central nem
sempre são compreendidos de forma adequada. Gostaria de aproveitar a
oportunidade de estar diante de uma platéia de especialistas como a
de hoje para debater de maneira franca alguns desses aspectos.
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Um
questionamento feito com freqüência em relação ao nosso sistema de
metas é que não deveríamos elevar os juros, como fizemos a partir
de setembro de 2004, porque as pressões inflacionárias que
observamos em nossa economia seriam causadas em grande parte pelo
comportamento dos preços administrados. Acostumei-me a avaliar
questionamentos desse tipo recorrendo à ajuda inestimável dos dados.
Penso que os dados disponíveis mostram que a inflação brasileira
não é um fenômeno associado apenas ao comportamento dos preços
administrados. Se olharmos para os resultados do ano passado, por
exemplo, veremos que os preços livres mostraram uma aceleração
importante. A prova desse comportamento é que o núcleo do IPCA
calculado pelo chamado "critério de exclusão", que mede os
preços livres sem a contribuição dos alimentos, na verdade encerrou
2004 com variação acima do IPCA cheio. Além disso, devemos ter em
mente que mesmo que as pressões que observamos no passado recente
estivessem associadas principalmente aos reajustes de preços
administrados, caberia à política monetária evitar que esses
reajustes se propagassem pelo resto da economia; é exatamente assim
que a política monetária funciona.
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Vários
países que no passado usavam alguma medida de núcleo para a
inflação como objetivo para a política monetária, migraram nos
últimos anos para índices cheios por constatarem que há melhor
coordenação das expectativas quando esses índices são utilizados.
Se os preços administrados fossem responsáveis por uma parcela menor
dos índices de preços a ação da política monetária seria, sem
dúvida, facilitada. Mas isso não significa em hipótese alguma que
os juros não devam ser usados quando a importância relativa dos
preços administrados na inflação for maior. Não podemos esquecer
ainda que quando definimos a meta já levamos em consideração que os
preços administrados se comportam de maneira diferente dos preços
livres. Afinal de contas, a meta é para o IPCA e não para cada grupo
de preços separadamente. Há um debate legítimo sobre adequação de
índices para preços administrados, mas não quero perder o foco do
debate de hoje.
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É
comum ouvirmos também no debate que cerca a implementação da
política monetária em nosso País que "as metas de inflação
são excessivamente ambiciosas e que buscam reduzir a inflação de
forma muito rápida quando sabemos que em outros países o processo de
convergência foi muito mais lento." De novo, os fatos prestam um
auxílio inestimável. Não me parece que as metas estabelecidas pelo
CMN sejam excessivamente ambiciosas. Apesar de considerarmos que são
metas adequadas para nosso país no estágio em que estamos, temos que
reconhecer que elas são mais elevadas que as de outras economias
emergentes que adotam o sistema de metas de inflação, e que o nosso
intervalo de tolerância ainda é o maior dentre essas economias.
Quanto à velocidade de convergência, devemos ter em mente que a
tentativa de consolidar níveis civilizados de inflação em bases
sustentadas em nosso País é, na verdade, um processo que começou
há mais de uma década. Estamos no décimo segundo ano desse processo
e, apesar de todos os bons resultados recentes, nossa inflação ainda
é maior que em várias economias com características semelhantes.
Finalmente, é preciso notar que grande parte da nossa desinflação
mais recente já havia ocorrido entre maio de 2003 e maio de 2004,
período em que a inflação foi reduzida de 17,7% para 5,2%; entre
maio de 2004 e abril de 2005 a inflação em doze meses subiu para
8,1%. Assim, quando combatemos as pressões inflacionárias que
emergiram em 2004 e trouxemos a inflação de volta para a trajetória
das metas estabelecida para 2005 e 2006 estávamos fundamentalmente
preservando ganhos já obtidos.
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Com
freqüência escutamos também avaliações que dão conta de que o
nosso Banco Central atua de forma excessivamente conservadora. Em
primeiro lugar, é preciso reconhecer que bancos centrais no mundo
todo tendem a ser percebidos como conservadores. Penso que, de alguma
forma, isso reflete o fato da política monetária atuar sobre a
economia com defasagens. Por isso, em momentos em que a autoridade
monetária age de forma preventiva, evitando, por exemplo, que uma
inflação que pareça estar estabilizada no presente venha a sair de
controle no futuro, nem todos os agentes econômicos constatam
imediatamente a racionalidade das decisões. Assim sendo, é
fundamental que bancos centrais procurem sempre ser bastante
transparentes na sua comunicação com o público através de
mecanismos como atas de reuniões e relatórios de inflação
explicando a lógica de suas ações. A combinação da transparência
na comunicação com consistência nas ações e nos resultados faz
com que ao longo do tempo as pessoas passem a compreender melhor o
trabalho da autoridade monetária e percebam que o comportamento
cauteloso dos bancos centrais é correto e necessário.
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No
caso específico do Brasil, o Banco Central não foge à regra geral e
procura sempre fazer o seu trabalho de forma a garantir que a
inflação esteja sob controle e convergindo para a trajetória de
metas estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Em alguns
momentos em que é necessário se antecipar a desenvolvimentos
adversos que vislumbra para o futuro, o Banco Central se defronta com
situações nas quais há menor entendimento do que faz. Isso é
normal e faz parte da rotina de qualquer banco central. As ações do
Banco Central têm sido conduzidas de forma a sinalizar sempre para os
agentes econômicos que a trajetória mais provável para a inflação
no médio-prazo é aquela descrita pela trajetória de metas de
inflação. Se o nosso Banco Central fosse mais conservador do que
deveria, observaríamos sistematicamente taxas de inflação
inferiores às metas estabelecidas pelo CMN. Os dados mostram que essa
não tem sido a regra nos últimos anos. Em 2004, por exemplo, a
inflação e o crescimento da atividade terminaram sendo maiores do
que se antecipava no início do ano;é muito difícil caracterizar
esse tipo de resultado como tendo sido causado por uma política
monetária excessivamente conservadora.
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Outro
questionamento freqüente que aparece no debate sobre política
monetária é "que o Banco Central eleva os juros de forma
excessiva e com isso impõe um custo fiscal desnecessário ao
governo." É preciso lembrar inicialmente que os juros nunca são
elevados por capricho e sim em função da necessidade de manter a
inflação sob controle. Isso, aliás, é algo que nunca abriremos
mão de fazer. Eles são realmente muito mais elevados do que em
outros países, mas não há qualquer evidência de que sejam mais
elevados do que seria necessário para manter a inflação sob
controle, convergindo para a trajetória de metas. Como acabei de
mencionar, me parece que se os juros estivessem mais elevados do que
deveriam, a inflação certamente estaria mais baixa do que as metas.
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Quanto
ao custo fiscal das ações de política monetária, é necessário
sempre ter em mente que apesar da conta de juros reais fazer parte das
despesas do setor público, a relação de causalidade se dá de forma
inversa: dada a meta de inflação, os juros nominais devem ser
estabelecidos pelo Banco Central de forma a garantir que a meta de
inflação seja cumprida; dados os juros reais resultantes, o
crescimento que eles permitem e o estoque de dívida pré-existente, o
superávit primário deve ser calibrado de forma a manter a relação
dívida-PIB sob controle, como aliás temos feito de forma recorrente
e o faremos sempre. Não deve haver qualquer dúvida quanto a esse
ponto. Caso contrário, sabemos que a efetividade da política
monetária seria reduzida e a inflação acabaria sendo maior do que
as metas, o que é algo que definitivamente não deixaremos acontecer.
É preciso também ter em mente que o custo fiscal se deve
fundamentalmente ao estoque de dívida pré-existente, que faz com que
a manutenção da inflação sob controle acabe resultando no presente
em juros reais mais elevados do que observaremos no futuro. Se
continuarmos reduzindo a dívida, como fizemos de forma tão intensa
em 2004, estamos fadados a ter no futuro juros reais cada vez menores.
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Além
disso, se olharmos para a última década, veremos que os juros reais
(e aqui estou me referindo aos juros de mercado, deflacionados pelas
expectativas dos analistas) têm se reduzido de forma progressiva.
Desde a introdução do regime de metas de inflação em meados de
1999 os juros caíram, em média, para cerca da metade dos valores
observados nos cinco anos anteriores. Já durante a vigência do
regime de metas, se compararmos os juros reais médios de 2004-2005
com os do período 1999-2003, veremos que eles caíram para cerca de
dois terços do que eram. Assim, não há duvida que os juros reais de
mercado têm caído de forma progressiva Brasil ao longo dos anos. É
importante ter em mente que essa queda ocorreu em resposta à melhoria
contínua dos fundamentos macroeconômicos, que tem proporcionado uma
redução da percepção de risco-país. Estamos seguros de que, se
persistirmos na implementação do atual arcabouço de política
econômica, a percepção de risco se reduzirá ainda mais, abrindo
espaço para juros reais cada vez menores no futuro.
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Hoje
convidamos as senhoras e os senhores a celebrar, neste aniversário de
6 anos, a maturidade do regime de metas para a inflação no Brasil.
Os fatos falam por si. Penso que no seminário do ano que vem um dos
temas em destaque nos debates será a resistência que, sem dúvida,
terá sido demonstrada pela economia brasileira às incertezas
políticas que o País atravessa nesse momento. Quando se avaliar, no
ano que vem, o comportamento da economia nos meses que temos pela
frente, provavelmente ressaltaremos a continuidade do forte desempenho
das contas públicas e dos resultados favoráveis do setor externo,
bem como a combinação, por mais um ano consecutivo, de crescimento
econômico com convergência da inflação para a trajetória de
metas. É assim que acontece nos países que decidem ter economia
arrumada. Esse é o grande desafio do nosso tempo.
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