Notas Oficiais


Por que reformar a Previdência


Pedro Sampaio Malan
Abril/98

Este texto foi escrito a pedido do ex-ministro da Previdência Reinhold Stephanes para ser publicado como prefácio a seu livro "Reforma da Previdência – Sem Segredos", a ser lançado proximamente pela editora Record.

 

Esta é uma obra de leitura indispensável para quem quer que deseje entender não apenas os complexos problemas da Previdência Social no Brasil como também, e principalmente, por que é imperioso - e urgente - dar início, e assegurar continuidade, a um processo de reforma estrutural do atual sistema.

Qualquer cidadão brasileiro com um mínimo de espírito público e de interesse pelo País em que viverão seus filhos e netos não poderá deixar de ficar tocado pelos argumentos expostos de forma acessível aos não iniciados neste livro, que em muito boa hora é apresentado ao debate público - sem o qual não se avança de forma consistente em sociedades democráticas como a nossa.

Na verdade, este debate vem tendo lugar há alguns anos no Brasil (ver capítulo 4) e vem deixando progressivamente mais claras duas características fundamentais - e indesejadas - do sistema atual, com seus três regimes e múltiplos critérios.

Em primeiro lugar, o sistema vigente, nos seus três regimes, não resiste a um cuidadoso cálculo atuarial. Em outras palavras, há déficits estruturais, crescentes ao longo do tempo, que representam um pesado ônus, já conhecido, que estamos transferindo para as próximas gerações. Apenas por esta singela e fundamental razão, a reforma do atual sistema é imperativa e urgente. O sistema atual não tem equilíbrio financeiro e atuarial e, portanto, não permite dar segurança àqueles que estão aposentados e àqueles que hoje contribuem e que esperam usufruir de seus benefícios no futuro. O chamado "contrato entre gerações" é um contrato que - na ausência de reformas - não poderá ser cumprido se mantidas as expectativas de direitos hoje existentes.

Em segundo lugar - e não menos importante -, o sistema atual é profundamente injusto do ponto de vista da equidade e da justiça social. Os mais pobres financiam aposentadorias dos relativamente mais ricos. Há uma miríade de abusos e privilégios adquiridos que são inaceitáveis em um País de desigualdades e carências sociais gritantes como as que temos no Brasil. Se o leitor desta apresentação achar que esta é uma afirmação exagerada e não substanciada, por favor, leia o livro, em particular seu capítulo terceiro.

Por que um Ministro da Fazenda, velho servidor público que não é conhecido, corretamente, por haver se dedicado profundamente ao tema da Previdência Social no Brasil e no Mundo, foi convidado e teve a temeridade de aceitar escrever esta apresentação? Talvez porque, como o autor deste excelente livro, estejamos ambos convencidos de que o problema macroeconômico crucial do Brasil é a crise fiscal do Estado. E de que a crise da Previdência Social é o problema crucial da crise fiscal do Estado. Os dados são conhecidos. No regime do INSS, em 1997, os 17,4 milhões de aposentados e pensionistas custaram mais de 46 bilhões de reais - quase 3 bilhões a mais que a arrecadação de contribuições. Para 1998, na ausência de reforma constitucional, o déficit deverá superar a marca dos 6 bilhões de reais. E assim por diante, se não houver mudança - e mudança estrutural.

No regime dos benefícios previdenciários do setor público (União, Estados e Municípios), onde estão as maiores distorções, os inativos e pensionistas, que representam menos de 15% do total da "população previdenciária" do País, custam mais do que os 85% restantes da população previdenciária do INSS.

Os dados e cálculos atuariais do INSS são conhecidos com relativa exatidão. Os dados e cálculos atuariais dos demais regimes do setor público são relativamente mais precários. Mas a crise deste regime pode ser vista indiretamente, através das enormes deficiências da ação do Estado, nos três níveis do governo, no que diz respeito a obras e serviços essenciais nas áreas de saúde, educação, transporte e segurança pública.

Enquanto a sociedade brasileira continuar aceitando como natural que pessoas se aposentem com menos de 49 anos (média dos regimes especiais); enquanto continuarmos aceitando como razoável que Estados e Municípios destinem em média quase 80% de sua receita para pagamento das folhas de ativos e inativos; enquanto continuarmos a aceitar como normal que não haja relação entre o valor presente das contribuições e o valor presente dos benefícios auferidos, será difícil ou impossível pagar salários e aposentadorias dignos, será difícil ou impossível eliminar as reconhecidas deficiências nas ações do Estado na área social e por último, mas não menos importante, será difícil ou impossível consolidar um processo sustentado de desenvolvimento econômico e social com estabilidade de preços e maior justiça social.

A conciliação destes três objetivos fundamentais do Governo - e da sociedade brasileira - exige a continuidade do processo de reestruturação do setor produtivo e, principalmente, de reorganização estrutural do Estado brasileiro e do aumento da eficiência operacional do setor público (nos três níveis de governo), em particular na área social, dado que tão importante quanto o volume de recursos a ela dirigidos são a eficiência do gasto público e os mecanismos de controle, de fiscalização e de transparência para a sociedade. Este livro representa uma inestimável contribuição para este processo.


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