Plano Real

Desempenho do setor externo fiscal

 

A corrente de comércio (exportação + importação), em 1995, atingiu US$ 96,169 bilhões. Trata-se de montante 85,8% acima do registrado em 1994 (US$ 51,753 bilhões). No ano passado, as exportações físicas acumularam receita de US$ 46,506 bilhões. As importações físicas absorveram US$ 49,663 bilhões. Houve, portanto, um déficit de US$ 3,157 bilhões.

Balança Comercial

A balança comercial acusou déficits de novembro de 1994 a junho de 1995 como conseqüência da rápida abertura comercial promovida a partir do final de 1994 e do acelerado ritmo de crescimento da economia. Em função das medidas tomadas no planos interno e externo, a balança comercial já apresentou equilíbrio em julho do ano passado e superávits em agosto de US$ 328 milhões; em setembro de US$ 481 milhões e em outubro de US$ 334 milhões. Em novembro, houve um pequeno superávit de US$ 15 milhões, sendo que, em dezembro, a balança registrou um pequeno déficit de US$ 51 milhões.

As exportações físicas de agosto de 1995 alcançaram US$ 4,558 bilhões, o valor mais elevado já registrado no Brasil em um só mês. As de setembro somaram US$ 4,167 bilhões, cabendo ressaltar que a média diária das exportações naquele mês havia sido até então a mais alta já registrada no País: US$ 208,3 milhões. As exportações de outubro, US$ 4,405 bilhões, constituíram o segundo maior valor já alcançado em um só mês, sendo que a média diária de embarques de US$ 209,8 milhões ultrapassou a de setembro último, passando a ser novo recorde histórico. As exportações físicas de novembro e dezembro alcançaram US$ 4,048 bilhões e US$ 3,875 bilhões, recordes para aqueles dois meses. As exportações físicas, no ano de 1995, atingiram US$ 46,506 bilhões, montante 6,8% superior ao verificado em 1994, constituindo recorde histórico anual.

Em janeiro e fevereiro de 1996, as exportações atingiram US$ 3,473 bilhões e US$ 3,421 bilhões, respectivamente. Nos primeiros dois primeiros meses deste ano, as vendas externas totalizaram, dessa forma, US$ 6,894 bilhões, valor recorde para esse bimestre e 16,2% (quase US$ 1 bilhão) superior ao montante verificado em igual período de 1995. As exportações diminuíram US$ 54 milhões de janeiro para fevereiro. Cumpre ter em mente, porém, que fevereiro tem menos dias úteis do que janeiro e que a média diária das vendas externas no segundo mês de 1996 foi de US$ 180,1 milhões, cifra 14% superior à verificada em janeiro último.

Em março último, os dados das exportações foram afetados por dois problemas relacionados com o registro das operações. Em primeiro lugar, houve um movimento de auditores fiscais nos dias 13 e 14, que contribuiu para reduzir a média diária das exportações para US$ 50 milhões naquele período. Mesmo se considerando a compensação ocorrida nos dias imediatamente posteriores, é estimada uma perda de exportações por conta desse movimento. Em segundo lugar, nos dois últimos dias úteis de março (28 e 29), o Siscomex sofreu parada técnica, devido a problemas nos procedimentos de rotina operados pelo Serpro. Como a média diária das exportações no mês, até 27 de março, era de US$ 176,3 milhões, estima-se que a interrupção do sistema possa ter suprimido o registro de US$ 353 milhões, que será transferidos para abril.

Em março de 1996, as importações - que ainda não utilizam o Siscomex e que foram registradas normalmente - atingiram US$ 3,873 bilhões, cifra 18,2% inferior à verificada no mesmo mês do ano passado. Esse valor, contudo, não pode ser comparado com as exportações registradas até o dia 27 de março. Do ponto de vista econômico, não faz sentido afirmar que o saldo comercial é dado pela diferença entre as exportações em 19 dias úteis e as importações em 21 dias úteis.

Comparando-se as exportações com as importações registradas até o dia 27 de março - US$ 3,350 bilhões e US$ 3,459 bilhões, respectivamente -, teria havido um déficit de US$ 109 milhões. Alternativamente, podem confrontar-se as importações nos 21 dias úteis de março com a estimativa das exportações para o mesmo período - sendo imputada, para os dois últimos dias úteis do mês a média diária das vendas externas até 27 de março. As exportações e as importações teriam atingido US$ 3,761 bilhões e US$ 3,873 bilhões, respectivamente, ocorrendo um déficit de US$ 112 milhões.

Em janeiro e fevereiro, houve um superávit de US$ 35 milhões e uma situação de equilíbrio (pequeno déficit de US$ 7 milhões), respectivamente, acumulando no período um saldo positivo de US$ 28 milhões, o que contrasta com o déficit de US$ 1,399 bilhões nos dois primeiros meses de 1995.

As exportações tendem a diminuir no final e no início de cada ano, em razão da forte presença de fatores sazonais. No decorrer de 1996, deverão voltar para o patamar acima de US$ 4 bilhões. De maio a novembro de 1995, as exportações estiveram acima de US$ 4 bilhões mensais, o que sinalizou a existência de um novo patamar para o Brasil em termos de valor de vendas externas e de penetração e competitividade de nossos produtos no mercado mundial. As importações, por sua vez, não deverão ser superiores às de 1995.

A política cambial brasileira continuará sendo guiada pelas premissas definidas quando da elaboração do Plano Real. O Governo optou por um regime explícito e flexível de bandas cambiais, que continuará inalterado: uma banda larga com intervenções intrabanda por meio de leilões de "spread", já totalmente assimiladas pelo mercado. As banda larga foi redefinida em três oportunidades desde sua implantação, encontrando-se no momento entre 0,97 e 1,06 centavos de Real por dólar dos Estados Unidos. As reduzidas taxas de inflação, somadas ao fato de as exportações estarem crescendo de forma expressiva, sugerem o acerto do regime cambial adotado.

Desde novembro de 1995, o Real passou a ser negociado em contratos futuros e de opções na Bolsa de Mercadorias de Chicago, o que constituiu mais um sinal das expectativas favoráveis em relação não só à economia brasileira no cenário internacional, como também, em particular, ao nosso regime cambial. Não se cogita de retorno à política do passado (indexação diária à taxa de inflação corrente), que, de certa forma, compensavam as ineficiências do nosso sistema econômico. A fim de aumentar a competitividade do setor exportador, teremos doravante de reduzir nossos custos de produção.

A consolidação definitiva da estabilização, a modernização do setor público, a implementação do programa de privatizações, a participação do setor privado em investimentos em infra-estrutura, a diminuição da dívida pública interna, a desburocratização, a desregulamentação, a maior eficiência na gestão pública, a redução do custo da mão de obra, a desoneração tributária das exportações e a consecução de outros objetivos da agenda econômica do Plano de Governo resultarão justamente na diminuição do custo de produção de bens e serviços no País e na elevação do nível de produtividade média da nossa economia.

 

Carga Tributária (% do PIB)
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É absolutamente crucial que possamos, em 1996 e adiante, fazer maiores progressos do que fomos capazes em 1995 na redução do Custo Brasil, com ênfase nas áreas de infra-estrutura e de desoneração tributária das exportações. É a redução do Custo Brasil que, em última instância, possibilitará um ingresso crescente de investimentos diretos e de novas tecnologias no País, além de um aumento expressivo nas nossas exportações de bens e serviços, criando, dessa forma, melhores condições para a continuidade do processo de integração da economia brasileira à internacional e, em particular, à dos países do Mercosul.

No mercado de câmbio, onde são feitas as operações bancárias, os contratos de exportação acumularam receita de US$ 53,142 bilhões entre janeiro e dezembro de 1995. Os contratos de fechamento de câmbio para importações totalizaram, no período, US$ 41,546 bilhões. Dessa forma, o saldo cambial do movimento do comércio exterior, no ano passado, foi de US$ 11,596 bilhões. Cabe ressaltar que esta rubrica apresentou saldos em todos os meses de 1995.

No segmento financeiro, onde são efetuadas as operações cambiais relativas ao movimento de capitais, houve ingresso acumulado, entre janeiro e dezembro de 1995, de US$ 49,804 bilhões, com saídas no valor de US$ 47,748 bilhões. O saldo, nesse período, foi de US$ 2,056 bilhões.

Dessa forma, o movimento de câmbio, em 1995, apresentou um saldo global de US$ 13,652 bilhões (US$ 11,596 bilhões e US$ 2,056 bilhões relativos aos segmentos comercial e financeiro, respectivamente).

No primeiro quadrimestre de 1996, os contratos cambiais de exportação e de importação atingiram US$ 16,597 bilhões e US$ 11,869 bilhões, registrando-se um saldo de US$ 4,728 bilhões. As compras e as vendas financeiras, por sua vez, alcançaram US$ 18,859 bilhões e US$ 15,771 bilhões, tendo ocorrido um saldo de US$ 3,088 bilhões. Houve um saldo global de US$ 7,816 bilhões.


Movimento de Câmbio

No dia 8 de fevereiro de 1996, foi anunciado novo conjunto de medidas, com vistas a desestimular o ingresso de capitais externos especulativos de curto prazo e a melhorar a qualidade dos recursos que entram no País e as condições para a condução da política monetária. Tais medidas se estão fazendo sentir nitidamente no resultado do segmento financeiro do mercado de câmbio, que registrou um déficit de US$ 414 milhões e um superávit de U$ 302 milhões em março e abril últimos. Estes números contrastam com os significativos superávits nessa rubrica nos meses anteriores.

O nível das reservas internacionais do País ultrapassou, em julho de 1995, o patamar verificado no final de 1994 - quando eclodiu a crise cambial mexicana que abalou o sistema financeiro internacional -, passando a equivaler, hoje em dia, a mais de dezesseis meses de importação de bens. Fecharam o ano de 1995, totalizando, respectivamente, US$ 50,449 bilhões e US$ 51,840 bilhões. As reservas voltaram a subir em 1996, atingindo, em fevereiro de 1996, os montantes de US$ 54,411 bilhões e US$ 55,794 bilhões, recordes históricos. Em março, as reservas atingiram US$ 54,331 bilhões e US$ 55,753 bilhões. As reservas internacionais brasileiras só são inferiores atualmente, em termos absolutos, às do Japão, EUA, Alemanha, China, Taiwan, Cingapura e Hong Kong.


Reservas Internacionais no Banco Central
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À medida que o Plano Real se consolida, o perfil dos investimentos estrangeiros tende a melhorar, ou seja, a modificar-se em favor daqueles com prazo maior de permanência no Brasil. A volatilidade das nossas reservas está associada, em última instância, ao grau de confiança na economia brasileira e no programa de Governo.

Por outro lado, no ano passado, a República Federativa do Brasil, depois de quinze anos, voltou a captar recursos diretamente no mercado financeiro mundial em duas operações muito bem sucedidas. A primeira, em maio, com o lançamento de bônus em ienes de dois anos de prazo, captou 80 bilhões de ienes, tendo sido considerada por observadores especializados internacionais a mais exitosa operação do gênero por parte de um "país emergente" em 1995. A segunda - efetuada em junho - captou um bilhão de marcos, com o lançamento de bônus de três anos de prazo. O Senado Federal autorizou, em novembro de 1995, o Tesouro Nacional a fazer, no exterior, novas emissões de bônus de até o total de US$ 5 bilhões de papéis da República Federativa do Brasil, com vistas à substituição de dívida mobiliária interna por dívida externa, a menores custos e maiores prazos. Ocorreu, em março último, o primeiro lançamento de bônus oficiais, em 1996, que levantou 30 bilhões de ienes no mercado japonês.

Tais captações e o recente acordo firmado com a família Dart o Banco do Brasil sinalizam a abertura de novos espaços para o País no sistema financeiro internacional e a virada, em definitivo, da página da questão da nossa dívida externa. É sintomático que, desde março último, títulos da dívida externa brasileira passaram a ser negociados em contratos futuros e de opções na Bolsa de Mercadorias de Chicago.

Ao Governo brasileiro interessa estimular, ainda mais, o ingresso de capital estrangeiro de médio e longo prazos. Para tanto, são essenciais a existência de um quadro macroeconômico positivo, com inflação baixa e crescimento em nível que se possa sustentar ao longo do tempo, e a continuidade das expectativas favoráveis no plano internacional em relação às perspectivas de consolidação do Plano Real.

Em 1995, houve déficits de US$ 3,157 bilhões na balança comercial e de US$ 17,8 bilhões em conta corrente ficou em. O ingresso líquido de capitais foi suficiente para financiar o déficit em conta corrente e, ainda, para propiciar acumulação muito significativa de reservas cambiais.

Em 1996, deverá haver um relativo equilíbrio na balança comercial e um déficit em conta corrente bem menor do que o verificado em 1995, o que permite prever para o corrente ano uma posição confortável em matéria de balanço de pagamentos.

Considerações finais

As reformas da previdência social, do sistema tributário e administrativa e a continuidade da implementação do programa de privatizações possibilitarão o lançamento da verdadeira âncora de qualquer programa de estabilização bem sucedido a longo prazo - o equilíbrio das finanças públicas -, sendo, assim, essenciais à consolidação do Plano Real.

Eventuais reveses são compreensíveis, dados os interesses em jogo e a complexidade da matéria, sobretudo numa democracia plena como a que existe no Brasil, e de nenhuma forma indicam fracassos ou derrotas. Ressaltam, principalmente, a necessidade de negociações e entendimentos adicionais.

O importante é não perder o sentido de direção e de propósito do processo iniciado com a implantação do plano de estabilização, procurando, ao mesmo tempo, aproveitar toda a energia da nossa sociedade e, em particular, da nossa classe política para fazermos algo realmente construtivo e que atende aos interesses da nossa nação como um todo e não apenas de um único Governo.

O que está em jogo com o Plano Real é a possibilidade de o Brasil começar o próximo milênio com um PIB da ordem de US$ 1 trilhão, com uma estável inflação anual de um dígito e com um quadro social menos desigual e mais justo.

Em 1995, o Poder Legislativo sinalizou sua disposição de contribuir para a consolidação do Plano Real, ao aprovar as propostas de emendas constitucionais relacionadas com a Ordem Econômica, destinadas à diminuição do papel do Estado na economia. Foram aprovadas, por exemplo, a emenda que terminou com a discriminação entre empresas brasileiras de capital nacional e estrangeiro e a que abriu ao setor privado - nacional e estrangeiro - a possibilidade de investimentos em telecomunicações, energia, gás, transportes, petróleo e mineração.

Cabe ressaltar, uma vez mais, nesse contexto, que o atual Governo de nenhuma forma tem como única meta a curto prazo a preservação da inflação em trajetória de queda gradual, embora esta seja uma condição essencial para a consecução de outros importantes objetivos da agenda do Governo, como a criação das condições para um crescimento alto e sustentado da economia, do investimento e do emprego, e o equacionamento progressivo da nossa grave questão social.

Não é preciso, desejável nem aceitável, esperar a consolidação da estabilidade e a obtenção do crescimento sustentado para traçar e iniciar a implementação de políticas públicas eficazes e não-demagógicas na área social que tenham ênfase no investimento em pessoas, em particular no que diz respeito à educação básica e profissional, à saúde, ao saneamento, ao emprego e à modernização das relações de trabalho.

Não é realista, porém, imaginar que, em uma única Administração, seja possível eliminar a fome e a miséria, bem como alterar, de forma radical, a distribuição extremamente desigual da renda e da riqueza no Brasil. Estes problemas, contudo, existem, são da maior gravidade e, de certa forma, nos envergonham perante o resto do mundo e deveriam envergonhar a todos os brasileiros. Não se pode perder mais tempo. É fundamental o seu enfrentamento desde já - como o Governo vem fazendo - por meio de programas coerentes e consistentes que obedeçam a uma estratégia de médio e longo prazos.

A Administração Fernando Henrique Cardoso não medirá esforços para assegurar o êxito do Plano Real, que colocará o Brasil definitivamente no caminho da estabilidade, do crescimento econômico auto-sustentado e da justiça social, e, ao mesmo tempo, permitirá ao País uma inserção competitiva e dinâmica numa economia mundial globalizada.

 
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