Exposição
inicial do Ministro da Fazenda, Pedro Malan, na entrevista coletiva à imprensa
para anúncio do novo programa com o FMI
Brasília, 3 de agosto de 2001
Gostaria de mencionar quatro
coisas nessa breve introdução. A primeira delas é por que tomamos a decisão
de buscar um acordo com o Fundo Monetário Internacional. A segunda é por que
fomos capazes de chegar a este entendimento em pouco menos de duas semanas. A
terceira, quais são os benefícios para o país deste acordo. Vou falar um
pouco sobre a percepção, a meu ver, equivocada de seus custos, que devem ser
analisados sempre em relação a outros custos. E, por último, queria mencionar
os principais elementos do acordo, sem entrar em detalhes.
Devo dizer que ontem cedo, pela
manhã, telefonei ao Presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado
Federal, Senador Lúcio Alcântara, ao Líder do Governo no Senado, Senador
Romero Jucá, e ao Líder do Governo na Câmara dos Deputados, Deputado Arnaldo
Madeira, a fim de nos oferecermos a ir ao Senado, e se for o caso à Câmara,
para de maneira transparente apresentar e discutir, e ficaremos lá o tempo que
for necessário, coisa que nunca nos furtamos a fazer, para explicar este acordo
e seu significado para o país no momento presente.
Primeira observação, então:
por que tomamos a decisão de buscar este acordo neste momento? São duas ordens
de razão: primeiro, uma avaliação nossa de uma certa mudança do contexto
internacional em relação às perspectivas que prevaleciam alguns meses atrás.
Como vocês sabem, o acordo atualmente em vigor termina daqui a pouco mais de três
meses. Avaliamos que era de nosso interesse antecipar esta discussão para
agora, e mandamos uma delegação chefiada pelos doutores Amaury Bier e
Guilherme Dias a Washington, para apresentar o programa com base no qual estamos
buscando o apoio do Fundo e, obviamente, dos países, que são os principais
acionistas do Fundo, como conseguimos.
Esta decisão teve motivação,
portanto, no contexto internacional. Deixe-me dar alguns exemplos, só para
situar este contexto. No ano passado, a economia norte-americana cresceu cerca
de 5% em termos reais seu produto interno bruto. Este ano, a estimativa vem
sendo revisada para baixo. Há poucos meses, era algo entre 2% e 2,5%, mais
recentemente entre 1,25% e 2%, ponto médio em torno de 1,5%, 1,6%. Vale dizer,
um terço do que cresceu no ano passado. É bem verdade que isto é visto como
algo transitório, e as projeções para o ano que vem, 2002, a partir já do
final deste ano, é de uma retomada do crescimento da economia norte-americana.
Estima-se algo em torno de 2,9%, é a média das estimativas para o ano que vem
dessa economia.
Na União Européia, que cresceu
quase 3% no ano passado, a estimativa para este ano é de um crescimento no máximo
de 2%. A média é 1,9% de crescimento do PIB para 2001. Se bem que também com
umas projeções mais favoráveis para 2002, em torno de 2,4%. O Japão deve ter
uma taxa de crescimento negativa este ano, ainda que pequena, em torno de menos
0,3%, e vocês viram que semana passada os preços de ativos na bolsa de Tóquio
chegaram ao nível mais baixo dos últimos 15 ou 16 anos. Mas para o ano que vem
espera-se uma recuperação e um crescimento perto de 1%.
O fato de a economia mundial ter
essa revisão drástica para baixo em suas perspectivas de crescimento no ano de
2001, embora com possibilidade de recuperação em 2002, vale dizer um fenômeno
mais temporário e transitório, teve efeito em um número expressivo de
economias. Por exemplo, Singapura: a taxa de crescimento da produção
industrial nos doze meses terminados em maio deste ano foi menos 10,9%. Taiwan:
menos 11,3%, nos doze meses terminado em junho. Turquia: menos 9,7%, nos doze
meses terminados em maio. Malásia: menos 3,7%. Hong Kong está estagnado.
Argentina: menos 2,9% na produção industrial, nos doze meses terminados em
junho. Vale dizer, é um contexto internacional mais adverso do que aquele com o
qual se trabalhava meses atrás, com o qual viramos 2000, onde a economia
brasileira teve um excepcional desempenho, em condições de ser reeditado em
2001 e 2002, não fossem o contexto internacional mais adverso, a nossa crise de
energia, que também é transitória e será superada, e as incertezas naturais
conhecidas, associadas ao processo político doméstico, que fazem parte do
processo democrático em qualquer democracia moderna, e portanto, devem ser
vistos com enorme serenidade e tranqüilidade, embora sejam fatores de
incerteza.
Foi a combinação desses vários
fatores que nos fez tomar a decisão de buscar o acordo que resultou nesse
expressivo apoio. São quatro vezes a cota brasileira no Fundo Monetário
Internacional, e eu chego aqui ao meu segundo ponto, porque é algo extremamente
pouco usual, raramente verificado em países que não estão em crise – e o
Brasil não está em crise, e não entrará em crise – chegar a um
entendimento para um programa de 15 bilhões de dólares adicionais em menos de
duas semanas. Isto representa, é importante entendê-lo, que há um trabalho de
anos por trás disso. Há uma credibilidade que o Brasil conquistou ao longo dos
últimos anos pelo que fez em várias áreas, não em uma área apenas, pelo que
fez em termos da solidez construída no seu sistema bancário, que hoje é visto
como sistema bancário sólido, com as resoluções de problemas de bancos
privados, de bancos comerciais estaduais e de bancos federais. O Brasil, hoje,
é visto internacionalmente como tendo um sistema bancário extremamente sólido,
o que não é o caso de muitos países que tiveram crises no passado, e outros
países que ainda têm dificuldades ou crises a superar, derivadas de problemas
de percepção quanto à solidez do seu sistema bancário.
Na área fiscal, este trimestre
que termina em 30 de setembro deste ano será o décimo segundo trimestre em que
o Brasil vem cumprindo aquilo que se prometeu, e quero insistir mais uma vez –
eu vejo várias fisionomias aqui nessa audiência, que estavam aqui neste sala,
no dia 8 de setembro de 1998, quando nós, antes de qualquer conversa com o
Fundo ou qualquer governo do G7, apresentamos aqui uma Medida Provisória, um
Decreto Presidencial, em que dissemos o que estávamos fazendo, em resposta à
crise derivada da moratória Russa, três semanas depois que ela se instalou, e
as percepções que já tínhamos de grandes problemas em alguns grandes fundos
de hedges norte-americanos. Decidimos tomar medidas que representaram a criação
do Comitê de Controle Fiscal. Fixamos a meta para o final de 1998, faltando três
semanas e três meses para o final do ano, e dissemos que estávamos trabalhando
há algum tempo num programa fiscal para o triênio 1999-2000-2001, que teria
como propósito – está no texto da medida provisória do dia 8 de setembro
– gerar superávits primários, não por fazê-los apenas, mas que pudessem
estabilizar e colocar numa trajetória gradualmente declinante a relação dívida-PIB.
Isso foi feito cerca de um mês
antes das eleições de 1998. O Presidente Fernando Henrique Cardoso reiterou no
dia 23 de setembro daquele ano que era isto que faria se eleito fosse, e o foi,
com 15 milhões de votos de diferença sobre o segundo colocado em primeiro
turno, e é este programa que nós terminamos em final de setembro, início de
outubro. Foi com base nele que fomos buscar o apoio da comunidade financeira
internacional, e o obtivemos. O que fizemos deste então foi cumprir aquilo que
nós havíamos proposto. É um programa nosso, foi feito aqui, e foi apresentado
no exterior em busca de apoio.
E, mais importante do que
cumprimento de metas trimestrais, nós mudamos o regime fiscal do país ao longo
desse período. À época, não tínhamos a Lei de Responsabilidade Fiscal, que
é um marco na história das finanças públicas deste país, Não tínhamos
contratos completados, atos jurídicos perfeitos, com 25 das nossas 27 unidades
da Federação. Não tínhamos reestruturado a dívida de 180 municípios
brasileiros, e não tínhamos aprovado a legislação do fator previdenciário,
que resolveu o problema do déficit exponencialmente crescente do regime geral
da Previdência.
Queria mencionar essas questões
para mostrar a razão pela qual fomos capazes de, em menos de duas semanas, ter
o apoio da comunidade financeira internacional para um programa de 15 bilhões
de dólares norte-americanos. É em larga medida um resultado do reconhecimento
e da credibilidade angariada pelo país ao longo dos últimos anos. Foi essa a
razão pela qual as coisas puderam avançar com rapidez e com base na nossa
avaliação do que deveria ser feito nesse contexto, que é fundamentalmente
novo, uma clara e inequívoca demonstração de que este governo não abrirá mão
do seu compromisso com a estabilidade macroeconômica, com a preservação do
controle da relação dívida do setor público consolidado como proporção do
PIB em uma perspectiva do médio e longo prazo.
Não estamos respondendo ao
trimestre, ao semestre, ao ano-calendário. Estamos olhando anos a frente, e
mostrando que temos todas as condições de estabilizar e colocar numa trajetória
declinante uma dívida, que como proporção do PIB, terá um pequeno aumento
temporário, associado a este contexto internacional e doméstico um pouco mais
adverso, como o flagrante exagero em que chegou a alguns momentos a flutuação
do câmbio no Brasil, a necessidade de elevação de taxa de juros temporária
também. Portanto, foi com a base nos nossos números e nos nossos cálculos e
na nossa proposta que angariamos esse apoio.
Quais são os benefícios que
esse acordo traz ao país? Os benefícios que o acordo traz ao país são:
mostrar claramente que o Brasil hoje é um país que tem respaldo, apoio e uma
credibilidade conquistada, não com palavras, não com discurso, mas com ações
efetivas. Não estamos com declarações de intenções sobre o futuro. Temos
uma história razoavelmente bem sucedida para mostrar, e compromissos com a
preservação da inflação sob controle, com responsabilidade fiscal, com
respeito aos contratos, com respeito à restrição orçamentária e com a criação,
o que é mais importante, das bases para um crescimento sustentado com melhoria
social no futuro, que era a direção que estávamos.
Tive a oportunidade de mencionar
numa ocasião recente que nós, brasileiros, ao longo dos últimos oito anos,
superamos a crise da hiperinflação em 1994; a crise mexicana no final de 94 e
início de 95; a crise asiática, que envolveu Indonésia, Tailândia, Malásia,
Coréia e Filipinas, no final de 97; a crise Russa e das falências de alguns
fundos de hedges norte-americanos; a crise e as expectativas negativas derivadas
da nossa própria flutuação cambial, com o exagero inicial a partir de janeiro
e fevereiro de 1999; a crise de energia será superada, não tenho dúvida, num
período breve; e vamos superar essas turbulências que hoje nos afetam, como
afetam o resto do mundo.
Tenho dito que não podemos
escolher o mundo em que vivemos, é este que está aí, e ele tem riscos,
incertezas, turbulências, volatilidades, instabilidade de toda ordem. Foi
assim, será assim, sempre teremos algum problema em alguma parte do mundo, ou
algumas dúvidas sobre o funcionamento do conjunto, mas esse é o mundo em que
vivemos, e nós não escolhemos. O que podemos escolher é a natureza, a forma,
o tempo, a coerência e a consistência da resposta de política econômica do
governo em termos macroeconômicos, em termos microeconômicos, em termos
estruturais e políticos-institucionais. Foi assim que superamos todas essas
crises a que fiz referência, e é assim que superaremos a atual, com uma
combinação de esforço do Governo Federal, do Congresso Nacional e da própria
sociedade brasileira, sem a qual não teríamos derrotado a hiperinflação,
superado as outras crises e também não estaríamos caminhando para superar a
crise de energia no momento.
Portanto, a questão que se
coloca aqui do nosso ponto de vista é não perder o sentido, a visão, uma
perspectiva, tanto em relação ao passado, mas principalmente em relação ao
futuro. Acho que a superação da crise de 99 é um bom exemplo. Permitiu depois
que nós mostrássemos quão equivocados estavam aqueles que achavam que 99
seria um ano marcado por queda de produto de 4% ou 5%, inflação de 40% a 80%.
Permitiu também ao longo de 2000 uma redução da taxa de juros, uma apreciação
do câmbio, um crescimento de 4,5% do produto interno bruto. Isto é algo que
está a nosso alcance, à medida em que superemos também estas turbulências.
O apoio internacional é
importante nesse sentido, e não temos nenhum complexo em fazê-lo. O Brasil é
membro-fundador. Foram poucos, se não me engano, no máximo trinta, os países
fundadores do Fundo Monetário Internacional, 55 anos atrás. Somos membros
plenos, de pleno direito. Temos uma posição permanente desde 1946 no conselho
de administração do Fundo. Temos hoje um diretor-executivo, que é um dos mais
influentes, não pelo peso específico da participação brasileira no Fundo,
mas pela sua competência, profissionalismo, experiência amplamente
reconhecida. O Brasil é uma presença significativa na direção do Fundo, e
temos esse benefício de termos tido um desempenho considerado extremamente razoável
ao longo dos últimos anos. Foi essa a razão pela qual chegamos rapidamente a
esse acordo.
Quais são os benefícios? Os
benefícios são exatamente permitir que o Brasil atravesse esse período de
turbulência com um volume expressivo de recursos, preventivo, é bem verdade,
à sua disposição. Isso é um benefício que não é irrelevante, como a
experiência mostra. Há países que o têm, e que conseguem mobilizá-lo com
relativa facilidade, e há outros que não conseguem fazê-lo com relativa
facilidade. Nós o conseguimos, e eu estou convencido de que isso é algo
positivo para o país, porque não fora este apoio provavelmente teríamos mais
pressão sobre o câmbio, mais pressão sobre os juros futuros e menos
possibilidade de crescimento e de superação das dificuldades do momento.
Os custos envolvidos são os
custos normais de um país que reconhece que não deve ficar paralisado, à
espera deque alguma coisa positiva ocorra, ou lamentando-se, lamuriando-se sobre
um evento, um contexto internacional que não lhe é tão favorável quanto
almejaria. Portanto, a resposta de política econômica é a resposta
apropriada, e a fazemos porque achamos que deve ser feito. Alguns de vocês
talvez se lembrem que no dia 12 de abril deste ano decidimos, sem consultar
ninguém, sem ouvir a opinião de ninguém do resto do mundo, que era de nosso
interesse, à luz das circunstâncias, aumentar o superávit primário para 2002
de 2,7% para 3% do PIB. Uma decisão nossa, à luz dos nossos cálculos, que
mostravam que era uma resposta importante para lidar com exercícios de dinâmica
da dívida e sua evolução.
Os eventos, desde então, nos
mostraram que era de nosso interesse um esforço adicional, tanto em 2001 quanto
em 2002. Nunca pensamos ir adiante de 2002. Portanto, vejo com ironia declarações
absolutamente descabidas de alguns que consideram que nós teríamos considerado
a possibilidade de um acordo que ingressasse no período do novo governo. Nós
dissemos, quando da apresentação da agenda 2001/2002, que este governo não
deixaria de governar até 31 de dezembro de 2002, que é quando termina este
acordo que fizemos agora. É uma responsabilidade deste governo, que não tem
nenhum problema em assumi-la claramente. Um novo governo, qualquer que ele seja,
que for eleito pelo voto popular em outubro do ano que vem, tomará as decisões
que lhe pareçam mais apropriadas à luz das circunstâncias. Nós estamos
tomando decisões que cabem a este governo, e da qual ele não pode e não deve
se furtar, e achamos que isso é algo benéfico para o país, não apenas em
2001 e 2002, mas também, adiante, porque ele mostra um compromisso com a
estabilidade macroeconômica, a criação das bases para um crescimento e a
preservação das inflação sob controle, que acho que é interesse da maioria
da população deste país.
Os quatros elementos principais
que eu gostaria de mencionar aqui serão detalhados depois, e estaremos
distribuindo algumas tabelas. Uma delas é o cronograma de desembolso potencial
desses 15 bilhões de reais. Eu digo potencial porque vários de vocês se
lembram do acordo de 1998, no qual foram, em princípio, disponibilizados para o
Brasil cerca de 41,5 bilhões de dólares, dos quais 9,5 bilhões, que eu vou
deixar à parte, são do Banco Mundial e BID, e têm um processo mais demorado,
dependem da análise de cada projeto. Mas do Fundo Monetário Internacional e de
vinte Bancos Centrais foram disponibilizados cerca de 32 bilhões de dólares,
dos quais sacamos 20 bilhões. Não utilizamos e pagamos em um ano 18,2 bilhões
desses 20 bilhões. Portanto, ficamos com pouco menos de 1,8 bilhão de dólares
de dívidas para com o Fundo, derivados do empréstimo tipo stand-by. O resto,
uma parcela ponderável, sequer usamos. Do que usamos, devolvemos praticamente a
totalidade um ano depois.
Este novo programa tem caráter
de prevenção, muito embora tenhamos acordado as possibilidades de desembolso.
Por exemplo, a aprovação formal desse programa pelo conselho de administração
do Fundo está prevista para o dia 14 de setembro de 2001. Quando da aprovação,
o Brasil terá direito de sacar, se lhe parecer necessário, cerca de 3 bilhões
694 milhões de direitos especiais de saque. Como vocês sabem, a cotação do
direito especial de saque frente ao dólar norte americano varia a cada dia. Na
cotação de hoje, isso é um pouco mais que 4,6 bilhões de dólares. A tabela
contempla as outras possibilidades de saque em dezembro de 2001, março de 2002,
junho de 2002, agosto de 2002 e novembro de 2002. Ela estará disponível para
os interessados.
Outra questão importante do
acordo diz respeito à parte fiscal, e na parte fiscal, sempre, desde de 1998, o
nosso propósito era olhar a evolução da dinâmica da dívida do setor público
consolidado em relação ao PIB, em uma perspectiva de médio e longo prazo, não
nos próximos meses ou nos próximos 12 meses. Essa nossa análise nos levou à
conclusão de que era razoável, apropriado e adequado que fizéssemos uma elevação
do resultado fiscal primário em 2001 dos 3% que estavam originalmente
contemplados para 3,35% do Produto Interno Bruto da economia brasileira. Achamos
que esses 3,35% são perfeitamente alcançáveis à luz do desempenho das contas
do setor público dos primeiros sete meses do ano, e insistimos nas nossas
conversas com os diferentes membros do staff, da alta administração do Fundo
que isso era o máximo que era razoável fazer neste ano de 2001, e demonstramos
que isso era o suficiente.
Para 2002, olhando de novo a dinâmica
da dívida e sua relação com o PIB numa perspectiva de médio prazo,
propusemos um máximo. Havia opiniões de que o número deveria ser em muito
superior a isso, mas dissemos que não iríamos acima de um máximo de 3,5% do
Produto Interno Bruto em termos de resultado primário do setor público
consolidado, isto é, governo central, estatais federais, estados e municípios
e suas empresas, a totalidade do setor público, que é o que nós discutimos. Nós
não discutimos a composição desse resultado. Discutimos apenas o agregado e a
questão da dinâmica da dívida.
No que diz respeito às metas de
inflação, simplesmente confirmamos o nosso sistema de meta de inflação. A
meta era 8% em 1999, fizemos 8,9%; a meta foi cumprida porque era 8%, mais 2,
menos 2 pontos percentuais. No ano passado, a meta era 6%, e também foi
cumprida. O IPCA ficou em 5,97%. Neste ano, a meta é 4%, mais 2 menos 2, e vocês
já nos ouviram, inclusive aqui nesta sala, mencionar as razões pelas quais
usamos a margem de mais 2 menos 2. Primeiro, porque não trabalhamos com
conceito de núcleo inflacionário. Segundo, porque a margem é para ser usada
em caso de choques de ofertas de duração transitória e temporária. Portanto,
não temos qualquer problema em usar a margem quando parecer justificado. Quem
tiver dúvidas sobre isso e quiser ver as exposições técnicas apropriadas tem
à sua disposição as atas do Copom e o relatório trimestral de inflação do
Banco Central.
A meta para o ano que vem é
3,5%, mais 2 menos 2, e já disse que notei que o coordenador da terceira
campanha presidencial do presidente de honra do principal partido de oposição,
em 1998, professor Guido Mantega, numa entrevista à Agência Estado no dia 8 de
junho deste ano, comentando essa questão de meta de inflação, disse, e cito
textualmente: "O ideal seria uma meta de inflação de 4%, com mais 2 menos
2, e não os 3,5%, mais 2 menos 2, que o Governo estabeleceu para 2002". Já
disse aqui que não tenho a menor idéia de qual é o apoio, o respaldo, o
endosso que esta oposição tem o partido do professor, mas quero dizer que, se
esta posição pudesse eventualmente vir a ser endossada pelo partido, isso
significaria uma enorme contribuição ao país e ao seu futuro. E, se não
pode, seria interessante que soubéssemos também o que esse partido propõe
para lidar com o problema da preservação da inflação sob controle no futuro.
Então, metas de inflação são essas.
É sabido por aqueles que
acompanham os detalhes do acordo que convencemos o Fundo Monetário
Internacional a retirar dos programas tradicionais e do Memorando Técnico de
Entendimento a questão do Crédito Doméstico Líquido, alegando que não era
apropriado para um regime de taxa de câmbio flutuante e meta de inflação,
como o do Brasil. Depois de muita discussão, eles concordaram em fazê-lo.
Dissemos que tínhamos sistemas de metas de inflação, que para nós é meta
anual, e não trimestral. Mas para efeito de apresentação ao Conselho de
Administração do Fundo eles pedem que conste lá uma trajetória da inflação,
que envolve trimestres, e isso estará sendo apresentada aos senhores também
nessas tabelas.
O ponto central para cada
trimestre une as diferenças de um ponto percentual para cima e para baixo e de
dois pontos percentuais para cima e para baixo. Mas não mudamos em nada as
metas de inflação, anunciadas aqui em junho de 99, junho de 2000, junho de
2001, e anunciaremos em junho de 2002 a meta de inflação para 2004. Não houve
nenhuma alteração nesse nosso compromisso, que é nosso. O Fundo apenas tomou
conhecimento do nosso compromisso, como tomou conhecimento de outras decisões
nossas também.
O último ponto, que é um
elemento importante do acordo que eu gostaria de mencionar, diz respeito ao piso
de reservas internacionais, que como vocês sabem estava, até o acordo vigente,
fixado em 25 bilhões de dólares. Esse piso foi rebaixado para 20 bilhões de dólares
ao longo de todo o período de vigência do atual acordo. Isso é um elemento
importante. Dr. Armínio dirá algo a respeito. Representa uma mudança
importante, significativa do ponto de vista daqueles que olhavam, não as
reservas brutas totais do país apenas, mas simplesmente a diferença entre o
total das reservas brutas e o piso de reserva, e esse era o número equivalente.
Ao reduzir o piso de reservas internacionais, este valor é aumentado em 5 bilhões
de dólares, o que é algo relevante para esta discussão.
Para algo que se pretendia
introdutório, acabei falando um pouco demais. Tive a oportunidade de ler hoje o
ex-ministro Antônio Delfim Neto, num artigo no jornal Valor. Ele chama a
atenção para a importância da postura e da atitude preventiva que tomou o
governo brasileiro, a elogia, e faz um comentário com qual estou de total
acordo sobre a importância de despolitização dessa questão. Nossas discussões
com o Fundo são discussões técnicas. A competência técnica do Dr. Amaury
Bier, Dr. Guilherme Dias, Dr. Ilan Goldfajn e daqueles que discutem não fica em
nada absolutamente a dever à competência técnica do outro lado da mesa. Temos
fortes e sólidos argumentos na defesa das nossas posições, e só posso olhar
com uma certa tristeza essa visão que ainda prevalece em alguns círculos neste
país de que o Brasil, simplesmente, aceita de maneira passiva, calada e
intimidada as exigências de uma instituição multilateral. Não é assim.
O debate econômico ganharia
maior racionalidade e o debate político mais maturidade se procurássemos
deixar de lado essa excessiva satanização e politização indevida de uma relação
que é madura, serena, responsável, com base em argumentos técnicos e não políticos.
Nós não temos nenhum receio de dizer que nos sentamos nessa discussão
absolutamente seguros de nossas posições, dos nossos números, e para nós são
questões que estamos propondo implementar porque achamos que são apropriadas
para a situação que estamos enfrentando hoje no país, e não porque alguém
impôs tais condições ao país. Isso é uma visão que quanto mais rapidamente
um dia pudermos deixar de lado melhor seria para um país que pretende ser
respeitado internacionalmente, como é o nosso caso. Um país maduro, responsável,
crível e que sabe o que quer em relação ao seu futuro.
Era isso que eu gostaria de dizer
como introdução, e obviamente teremos oportunidade, não só agora de entrar
em alguns detalhes, como nas idas ao Congresso, e lá iremos como fizemos inúmeras
vezes. Temos centenas de horas de presença na Câmara dos Deputados e no Senado
desde o inicio do primeiro mandato. Iremos lá tantas vezes quantas forem necessárias
para discussão, ou técnica ou política, e não temos nenhum receio de
enfrentar uma discussão política também sobre essas questões. Era isso o que
eu gostaria de dizer como introdução. Gostaria de passar a palavra ao Ministro
Martus Tavares e, em seguida, ao presidente Armínio Fraga.
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