24/01/2002
Brasil -
Memorando de Política Econômica
Desde a preparação
do último Memorando de Política Econômica (MPE) em agosto de 2001
a
economia global sofreu uma série de choques que provavelmente resultará
em um crescimento econômico mais lento e um ambiente externo mais difícil
do que se esperava anteriormente. Todavia
uma taxa de câmbio real mais
depreciada já vem estimulando uma melhora do saldo comercial
compensando parcialmente um crescimento menos intenso da demanda
interna
enquanto as políticas monetária e fiscal têm contido as
pressões inflacionárias e contribuído positivamente para manter a
confiança externa. A manutenção destas políticas
juntamente com
progressos adicionais na agenda de reformas estruturais
deixarão o
Brasil em posição de retomar mais rapidamente o crescimento do produto
e do emprego
à medida que o ambiente econômico global for se
recuperando ao longo de 2002.
-
Desempenho
Recente da Economia Brasileira
1. Os dados divulgados desde a preparação
do último Memorando de Política Econômica confirmam que a combinação
de choques econômicos adversos e de respostas necessárias de política
econômica já vinha reduzindo o crescimento brasileiro mesmo antes dos
acontecimentos de 11 de setembro. O crescimento real do PIB desacelerou
de 4
5 por cento no primeiro trimestre para 1
8 por cento no segundo
trimestre de 2001 (em relação aos mesmos trimestres de 2000)
principalmente devido ao menor ritmo da indústria de transformação.
No entanto
o crescimento da demanda por bens de capital nacionais e
importados
especialmente equipamentos de geração de energia e máquinas
agrícolas
indicam um forte nível de investimentos no primeiro
semestre de 2001. O desempenho econômico permaneceu fraco durante o
terceiro trimestre
com a produção industrial sazonalmente ajustada
caindo 1
8 por cento relativamente ao segundo trimestre e a utilização
da capacidade instalada da indústria alcançando o seu ponto mais baixo
desde 1999. A confiança do consumidor recuperou-se durante o terceiro
trimestre após a queda acentuada em junho decorrente do anúncio do
racionamento de energia; porém grande parte deste ganho foi perdido em
outubro
quando a deterioração do ambiente externo e suas implicações
para o Brasil tornaram-se mais evidentes.
2. As condições do mercado de trabalho
começaram a refletir a desaceleração econômica. O nível de emprego
caiu 0
1 por cento em agosto e 0
6 por cento em setembro quando
comparado aos mesmos meses de 2000
interrompendo uma seqüência de 22
meses consecutivos de crescimento. Todavia
uma queda ainda mais aguda
na força de trabalho fez com que a taxa de desemprego de 7 dias caísse
½ ponto percentual para 6
2 por cento entre setembro de 2000 e setembro
de 2001. Mas a despeito desse recente desempenho do mercado de trabalho
o resultado acumulado no último ano permanece positivo: a taxa de
desemprego de 7 dias registrou em média 6
2 por cento durante os
primeiros nove meses de 2001
bem abaixo dos 7
5 por cento observados
durante o mesmo período de 2000; o nível de emprego médio foi 0
9 por
cento mais alto quando comparado com os mesmos períodos; e
aproximadamente 250 mil novos empregos foram criados no setor formal
durante os últimos 12 meses.
3. O impacto da crise de energia sobre a
atividade econômica tem sido menor do que inicialmente se esperava
na
medida em que a população reduziu substancialmente a demanda de
energia em resposta aos incentivos de preços e às penalidades sobre o
excesso de consumo impostas pelo governo. Os investimentos das firmas em
capacidade de geração própria e em equipamentos de economia de
energia
assim como o incentivo aos instrumentos de compra e venda de
cotas de consumo contribuíram para minimizar o impacto potencial de
escassez de energia sobre a oferta agregada.
4. O governo espera que a necessidade de
economia de energia no próximo ano seja consideravelmente inferior à
de 2001
com uma redução das restrições quantitativas na maior parte
do país e uma maior utilização de mecanismos de preços para
restringir a demanda. O nível dos reservatórios das usinas hidroelétricas
melhorou satisfatoriamente na maioria das regiões
refletindo o sucesso
do programa de redução do consumo de energia assim como o aumento das
chuvas.<1> Além do mais
espera-se que a
oferta potencial de eletricidade aumente 13
4 mil MW em 2001-2002 devido
à compra de eletricidade de países vizinhos e ao início das operações
de 23 usinas termelétricas e de 15 hidroelétricas. Ademais
como
resultado da contratação de companhias geradoras de energia termelétrica
imediatamente disponível
a oferta de eletricidade pode ser
potencialmente aumentada em aproximadamente 4
0 mil MW. O governo
contratará uma capacidade extra até o limite a ser estabelecido pela Câmara
de Gestão da Crise Energética (GCE) como medida de precaução: o
equipamento será instalado
porém será colocado em operação apenas
se necessário. O custo fixo desta instalação será repassado às
tarifas em todo o território nacional. Caso a operação destes
geradores seja necessária
os custos marginais de operação serão
inicialmente suportados pelas distribuidoras que adquirirem esta energia
e serão repassados às tarifas na data de reajuste subseqüente.
5. Outras medidas têm
sido tomadas com o objetivo de estimular o aumento da oferta de
eletricidade no médio-prazo. O governo incluiu 9 usinas termelétricas
adicionais em seu programa prioritário de energia
que atualmente
garante o fornecimento de gás natural a 32 usinas que deverão aumentar
o total da oferta de energia para o período 2001/2003. Leilões de
licenças para a construção de 7 novas usinas hidroelétricas estão
programadas para o fim do ano.
6. O progresso feito na
melhoria do arcabouço regulatório do setor elétrico reduzirá a
incerteza relativa ao financiamento de projetos de longo-prazo e
incentivará novos investimentos no setor. As tarifas cobradas pelas
companhias distribuidoras serão ajustadas em conformidade com
estimativas mais realistas dos aumentos de custos. A nova fórmula levará
em consideração o impacto financeiro das alterações de custos
ocorridas no período de ajuste das tarifas.
7. A inflação tem-se
mostrado mais alta do que o esperado em 2001
principalmente refletindo
o impacto dos aumentos de preços dos alimentos e de preços
administrados. O repasse aos preços da depreciação do real de quase
40 por cento até outubro tem sido contido tanto pelas políticas
macroeconômicas quanto pelo enfraquecimento da demanda interna. A variação
em 12 meses do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) ficou em
6
5 por cento em setembro
dentro da banda de 5
0–7
0 por cento
estabelecidas no Acordo Stand-By para consultas informais com os técnicos
do FMI. O aumento acumulado do IPCA durante os primeiros nove meses do
ano atingiu 5
35 por cento
dos quais cerca de 2
14 pontos percentuais
refletiram reajustes nos preços contratuais (incluindo tarifas de
energia
telecomunicações e transportes
e preços dos derivados de
petróleo).
8. Os preços dos
derivados de petróleo no atacado foram reajustados no início de
outubro conforme a fórmula trimestral baseada nas variações da taxa
de câmbio e dos preços internacionais do petróleo. Além disso
foi
definido um cronograma de reajustes das tarifas de eletricidade a fim de
melhor refletir os custos marginais da produção e estimular os
investimentos privados no setor de eletricidade. Os reajustes também
visarão a reduzir ou eliminar os subsídios cruzados para o setor
privado
que deverão contribuir para aumentar a eficiência alocativa e
simultaneamente minimizar o impacto nos índices de preços ao
consumidor.
9. O saldo em conta
corrente foi fortalecido nos últimos meses
em linha com um real mais
depreciado e com a desaceleração da economia. A balança comercial
que se encontrava próxima ao equilíbrio no primeiro semestre de 2001
registrou um superávit de US$1
3 bilhão no terceiro trimestre de 2001
em comparação com um déficit de US$0
1 bilhão no mesmo trimestre de
2000. Esta melhora aconteceu em virtude de uma queda de 8
0 por cento
das importações e um aumento de 1
3 por cento das exportações no
terceiro trimestre (em relação ao ano anterior). Para os primeiros 9
meses do ano
contudo
o déficit em conta corrente foi mais alto do que
no mesmo período do ano anterior (US$17
4 bilhões
comparado com
US$15
6 bilhões). A principal razão por trás deste desempenho foi o
aumento das remessas de lucros e dividendos (US$1 bilhão)
aluguel de
equipamentos (US$0
9 bilhão) e pagamento de juros (US$0
6 bilhão).
10. Os acontecimentos de
11 de setembro tiveram um impacto muito negativo no acesso ao mercado de
capitais para os mercados emergentes em geral. Não obstante
os fluxos
líquidos de investimentos estrangeiros diretos (IED) para o Brasil
atingiram US$1
5 bilhão em setembro
ligeiramente acima do verificado
em agosto. Para os nove primeiros meses do ano
os IED líquidos ficaram
em US$15
3 bilhões
abaixo do nível extraordinário de US$22
6 bilhões
registrados no mesmo período do ano anterior. A emissão externa de bônus
no início do ano permitiu ao governo mais do que cobrir suas
necessidades de amortização externa para 2001. O setor privado
continua a ter acesso aos mercados de capitais internacionais
embora
tipicamente através de operações com garantias ou securitizadas com
taxas de juros mais elevadas. Algumas empresas do setor privado optaram
em pagar obrigações externas com recursos internos
em lugar de
renovar suas obrigações externas a taxas de juros mais altas. Para as
quatro semanas encerradas em 19 de outubro
a taxa de rolagem das linhas
de crédito interbancárias situavam-se em média em 103 por cento.
11. As reservas
internacionais brutas (RIB)
que se situavam em US$35
6 bilhões ao
final de julho
cresceram para US$40
1 bilhões ao final de setembro
refletindo principalmente o saque de recursos disponíveis ao país pelo
novo Acordo Stand-By aprovado em 14 de setembro. As reservas brutas
cresceram de 56 por cento da dívida de curto-prazo (com base na
maturidade residual) ao final de 2000 para 78 por cento ao final de
setembro de 2001. Ainda no final de setembro de 2001
as reservas
internacionais líquidas (RIL)
conforme medidas no âmbito do programa
ficaram em US$31
5 bilhões – ou seja
US$11
5 bilhões acima do piso
do programa.
12. Ao final de setembro
a dívida externa total totalizava US$214
1 bilhões (40 por cento do
PIB estimado)
praticamente inalterada desde o fim de 2000
e a
participação do setor público também permaneceu estável em US$95
9
bilhões. A componente de curto-prazo da dívida externa
medida com
base na maturidade original
decresceu para US$25
3 bilhões ao final de
setembro
a partir de um patamar de US$27
4 bilhões ao final de 2000.
Excluindo-se a dívida junto ao Fundo
a dívida externa do setor público
não-financeiro permaneceu em US$87
4 bilhões
abaixo do teto de
US$95
0 bilhões estabelecido pelo Acordo Stand-By (um critério de
desempenho do programa)
enquanto que a dívida externa de curto-prazo
do setor público não-financeiro era de US$0
5 bilhão
também abaixo
do teto estabelecido no âmbito do acordo.
13. O desempenho fiscal
permanece acima dos níveis programados. O superávit primário
acumulado do setor público consolidado alcançou R$41
2 bilhões em
setembro
R$6
8 bilhões (cerca de 0
6 por cento do PIB anual estimado)
acima da meta do programa. Todavia
refletindo principalmente a depreciação
cambial
a necessidade de financiamento do setor público (NFSP)
acumulada alcançou 7
5 por cento do PIB do período (R$65
9 bilhões)
em setembro. O BCB está publicando agora as estatísticas harmonizadas
da NFSP
as quais excluem da NFSP os efeitos sobre a valorização do
estoque da dívida interna indexada à taxa de câmbio induzidas pela
depreciação ou apreciação cambial . Utilizando-se esta metodologia
harmonizada
a NFSP foi de R$20
5 bilhões
cerca de 2
3 por cento do
PIB. De acordo com o aumento da necessidade de financiamento do setor público
a dívida pública líquida subiu para 51
9 por cento do PIB ao final de
setembro
em comparação com os 49
4 por cento do PIB registrados no
final de 2000 – ainda dentro da meta indicativa para a dívida pública
líquida.
14. Todos os níveis de
governo contribuíram para a melhora da situação fiscal. Em
janeiro-setembro de 2001 o superávit primário do governo central
atingiu 2
9 por cento do PIB do período
refletindo um forte desempenho
da arrecadação e contínua contenção de despesas. Os estados e municípios
registraram um superávit primário de 1
1 por cento do PIB em
janeiro-setembro de 2001 (os municípios foram responsáveis por 0
8 por
cento do PIB do período) em cumprimento da Lei de Responsabilidade
Fiscal e dos acordos de reprogramação de dívidas junto ao Tesouro
Nacional. O superávit primário das empresas estatais — 0
8 por cento
do PIB em janeiro-setembro de 2001 — reflete não somente o impacto
favorável da depreciação da taxa de câmbio sobre os lucros da
Petrobrás e de Itaipu
mas também o excelente desempenho de outras
empresas públicas em todos os níveis de governo. Em 31 de agosto
o
governo apresentou ao Congresso a proposta orçamentária para 2002
que
prevê aumento do superávit primário do setor público consolidado
para 3
5 por cento do PIB
ao mesmo tempo em que preserva as despesas
sociais e de investimento em áreas-chaves tais como geração e
transmissão de energia.
15. A estratégia de gestão
da dívida continua estendendo sua maturidade e aumentando sua duração
a despeito das turbulências do mercado. A maturidade média da dívida
federal competitiva securitizada aumentou de 15
8 meses ao final de 2000
para 24
8 meses ao final de setembro de 2001 (e de 29
9 meses para 35
7
meses para toda a dívida federal securitizada)
enquanto que a duração
média cresceu de 6
3 para 11
2 meses no mesmo período. No entanto
tendo em vista o aumento das pressões cambiais
o governo não
conseguiu reduzir ainda mais a participação da dívida indexado à
taxa de câmbio ou aumentar a participação da dívida pré-fixada. Ao
final de setembro
a participação da dívida indexada à taxa de câmbio
cresceu para 31
4 por cento da dívida federal securitizada
acima dos
22
3 por cento verificados no final de 2000. Isto reflete a depreciação
da taxa de câmbio (6 pontos percentuais)
assim como o impacto das
colocações de dívida indexada ao dólar principalmente depois dos
eventos de 11 de setembro (4 pontos percentuais).
16. Consciente do impacto
potencial de uma queda contínua do real sobre a inflação
o Banco
Central (BCB) adotou uma série de medidas regulatórias para aliviar a
pressão sobre a taxa de câmbio. Ao final de setembro
o BCB
estabeleceu uma reserva compulsória de 10 por cento sobre os depósitos
a prazo e aumentou de 60 por cento para 80 por cento a proporção mínima
das reservas compulsórias sobre os depósitos à vista que os bancos
devem manter junto ao BCB em uma base diária. Estas medidas reduziram
substancialmente o escopo dos bancos para a realização de operações
de curto-prazo que poderiam resultar em uma maior volatilidade da taxa
de câmbio. Além disso
a exigência de capital dos bancos para as posições
em moeda estrangeira foi alterada através da elevação da taxa de exigência
de 33 por cento para 50 por cento de exposição
e uma redução dos
limites de isenção de 20 por cento para 5 por cento da exigência de
capital dos bancos. Objetivando reduzir a demanda do setor privado por
proteção cambial por razões contábeis
a agência reguladora do
mercado acionário (CVM) e a Receita Federal (SRF) introduziram uma
regulamentação permitindo às empresas registradas na CVM amortizar as
perdas de seus balanços associadas à depreciação do real em 2001
durante os próximos 4 anos. O BCB continuou sua política de aumento da
liquidez no mercado de câmbio à vista mediante vendas diárias de
US$50 milhões. Além disso
de 11 a 13 de setembro o BCB reagiu à
extraordinária falta de liquidez nos mercados de câmbio vendendo
US$220 milhões adicionais no mercado à vista.
17. O crédito bancário
continuou a se expandir
embora a um ritmo mais lento
influenciado
principalmente pela desaceleração da demanda agregada
incertezas
relativas ao cenário doméstico e internacional e um aumento das taxas
de empréstimos bancários. O crédito total aumentou em 10
5 por cento
nos doze meses encerrados em setembro
em comparação a 16 por cento
acumulados nos dozes meses em maio de 2001. O crédito total cresceu
apenas 7
2 por cento no terceiro trimestre de 2001 (ano-a-ano)
principalmente refletindo a reestruturação da dívida e a recapitalização
dos quatro principais bancos federais em junho de 2001.
18. Como resultado da política
monetária mais restritiva e do aumento da aversão ao risco associados
à desaceleração do crescimento econômico
as taxas médias das operações
ativas de empréstimo bancário aumentaram de 54
7 por cento em maio
para 62
9 por cento em setembro
enquanto que o spread médio aumentou
de 38
2 por cento para 44
0 por cento no mesmo período. A participação
dos empréstimos com pagamentos atrasados entre 120 a 180 dias caiu de
7
2 por cento do total do crédito em maio
para 5
3 por cento em
setembro. Os indicadores prudenciais permaneceram estáveis de uma forma
geral
com a participação de empréstimos não pagos (categoria de
risco H) declinando para 3
6 por cento do total dos empréstimos e o
total das provisões bancárias alcançando R$21
7 bilhões ao final de
setembro
mais do que o exigido como provisionamento mínimo.
19. Não obstante o
ambiente econômico e político adverso
o Governo continuou a
implementar importantes reformas estruturais. Em novembro
após aprovação
do Congresso
o Presidente assinou nova lei das empresas de sociedade anônima
que amplia os direitos dos acionistas minoritários
confere à CVM
independência operacional
e melhora a transparência e a governança
corporativa. A Câmara dos Deputados aprovou emenda constitucional
introduzindo imposto que explicita a tributação doméstica sobre
derivados de petróleo
abrindo o caminho para a total liberalização
do mercado interno de petróleo em 2002. Essa emenda constitucional está
atualmente sendo debatida no Senado Federal. O Governo deu continuidade
também ao seu programa de privatização
leiloando com sucesso várias
licenças para prospeção de petróleo e concessões para usinas
hidroelétricas. Em setembro
o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) iniciou a publicação regular dos dados trimestrais
do PIB
por categorias de despesa
e o BCB começou a publicar os
agregados monetários amplos
redefinidos com base no padrão
internacional
satisfazendo as duas metas de divulgação estatística
definidas no âmbito do Acordo Stand-By.
-
POLÍTICAS
E PERSPECTIVAS PARA O RESTANTE DE 2001 E 2002
20. Os choques econômicos
que atingiram os mercados emergentes ressaltam a necessidade de uma gestão
de políticas macroeconômicas firme mas flexível e de progressos contínuos
nas reformas estruturais
a fim de aumentar a capacidade de recuperação
da economia e manter a confiança do mercado. Como tem ocorrido há
muitos anos
o governo permanece plenamente comprometido com seu
programa de reforma econômica e estrutural
incluindo as políticas e
medidas expostas no MPE anterior. Assim
a política fiscal continuará
objetivando alcançar um superávit primário do setor público
consolidado de 3
35 por cento do PIB em 2001
e de 3
5 por cento do PIB
em 2002; a política monetária permanecerá direcionada ao compromisso
da meta de inflação de 3
50 por cento para 2002
com uma margem de
mais ou menos 2 pontos percentuais; e a agenda da reforma estrutural
continuará focalizada nos setores financeiro e fiscal.
21. O cenário macroeconômico
para 2001 e 2002 baseia-se no crescimento real do produto de 2 por cento
em 2001 e de 2 a 2 ½ por cento em 2002
abaixo dos níveis projetados
no MPE anterior. Essas menores projeções de crescimento refletem um
ambiente externo mais difícil. A despeito de um menor crescimento das
importações por parte dos parceiros comerciais
a contribuição do
setor externo para o crescimento prevê um aumento em 2002
devido
principalmente a significativa depreciação do real. Do lado da oferta
espera-se que o crescimento em 2001 e 2002 seja puxado pela agricultura.
Estima-se para o setor de serviços um crescimento moderado
enquanto
que o crescimento no setor industrial – que recuou em meses recentes
– deverá mostrar uma recuperação ao longo do ano de 2002.
22. De uma forma geral
o
déficit em conta corrente deverá sofrer uma redução marginal
de US$
24
6 bilhões em 2000 para US$ 23
8 bilhões em 2001
em conseqüência
da melhora na balança comercial. Estima-se que o volume de exportações
cresça cerca de 9 por cento em 2001 graças à depreciação do real e
aos esforços para aumentar a participação das empresas brasileiras
nos mercados internacionais
bem como que o volume de importações
recue para um crescimento de 6 por cento
contra os 13 por cento
observados em 2000
devido aos efeitos dos preços relativos e à queda
do crescimento da demanda interna. Espera-se que os termos de troca
melhorem moderadamente
refletindo uma queda dos preços das importações.
23. O saldo em conta
corrente deverá melhorar substancialmente em 2002
registrando déficit
de menos US$20 bilhões com a ajuda do contínuo crescimento do superávit
comercial. Enquanto se projeta que o crescimento real das exportações
diminua para 6 por cento devido a uma demanda internacional mais fraca
uma demanda interna pouco aquecida e o impacto defasado de uma
substancial depreciação em 2001 deverão levar a uma queda no volume
de importações de cerca de 2 por cento. Prevê-se também uma melhora
dos termos de troca de aproximadamente ½ por cento. Como resultado
o
superávit comercial deverá ampliar-se para cerca de US$ 6 bilhões no
próximo ano
resultado consistente com as tendências mensais
recentemente observadas.
24. As projeções da
conta de capital para o restante deste ano e para 2002 estão baseadas
em pressupostos conservadores a respeito dos fluxos de investimentos e
das taxas de rolagem para os empréstimos. Estima-se que os IED líquidos
caiam de um nível recorde US$32
8 bilhões em 2000 para US$19 bilhões
em 2001 e US$16 bilhões em 2002
o que significa fluxos mensais nos próximos
15 meses equivalentes
em média
àqueles registrados em setembro deste
ano. Mesmo com estes níveis anuais reduzidos
estima-se que os IED líquidos
cubram cerca de 80 por cento do déficit em conta corrente em 2001 e 81
por cento em 2002. Refletindo o pressuposto de taxas de rolagem mais
baixas
espera-se que o total dos fluxos de investimento em carteira e
outros capitais de curto e longo prazos deva tornar-se ligeiramente
negativo no quarto trimestre de 2001 e em 2002. Não obstante
o balanço
de pagamentos deverá registrar superávit total ligeiramente superior a
US$6 bilhões em 2001
com reservas internacionais de cerca de US$39
bilhões e reservas internacionais líquidas (RIL) de cerca de US$30
bilhões. Para 2002
o balanço de pagamentos deverá totalizar déficit
de US$4 bilhões
com reservas internacionais brutas de US$35 bilhões e
RIL de cerca de US$29 bilhões.
25. O Governo objetiva
alcançar um superávit primário do setor público consolidado de pelo
menos 3
35 por cento do PIB em 2001 e de 3
5 por cento em 2002
conforme
definido no MTE anexo. A consecução destas metas fiscais
em um
ambiente econômico menos favorável
salienta o compromisso firme do
Governo com a consolidação fiscal. O cumprimento das metas fiscais será
facilitado pelo bom desempenho observado em todos os níveis de governo
à contenção da despesa
e aos esforços contínuos para melhorar a
eficiência do sistema tributário em apoio à sustentabilidade
macroeconômica — uma área que receberá assistência técnica do
Departamento de Assuntos Fiscais do FMI. Programas sociais prioritários
serão preservados
em conformidade com os presentes esforços do
governo em fortalecer as políticas sociais. A Lei de Responsabilidade
Fiscal continuará servindo como instrumento orientador na formulação
da política fiscal.
26. Esperam-se melhoras
adicionais nas finanças dos estados e municípios
no âmbito dos
acordos de reestruturação das dívidas com o Tesouro Nacional e da Lei
de Responsabilidade Fiscal. O governo central continuará a monitorar o
desempenho fiscal dos governos subnacionais e permanece comprometido com
o ajuste de suas metas fiscais para compensar eventuais falhas que
possam ocorrer naquele nível. As empresas públicas continuarão a
apresentar forte desempenho
ajudadas por melhores perspectivas de
flexibilização do programa de racionamento de energia na maior parte
do país
e pelo impacto de uma taxa de câmbio mais depreciada sobre as
receitas da Petrobrás e de Itaipu.
27. Refletindo
principalmente uma taxa de câmbio mais depreciada
a necessidade de
financiamento do setor público (NFSP) deverá subir para 8
2 por cento
do PIB em 2001 (ou 3
6 do PIB conforme a nova metodologia harmonizada do
BCB)
conduzindo a dívida interna do setor público consolidado para
cerca de aproximadamente 56
3 por cento do PIB. A gestão da dívida pública
continuará objetivando reduzir os custos de rolagem
alongar os
vencimentos
aumentar a duration
e diversificar o perfil indexado do
estoque da dívida. As metas fiscais para 2001 e 2002 são consistentes
com a estabilidade e o subsequente declínio gradual do endividamento do
setor público no médio-prazo.
28. O Departamento de
Assuntos Fiscais do FMI concluiu recentemente um Relatório sobre a
Observância de Padrões e Códigos (ROPC) relativo à transparência
fiscal no Brasil. Este relatório reconhece que nos últimos anos o
Brasil alcançou um alto grau de transparência fiscal
além de
apresentar melhoras substanciais na gestão das finanças públicas.
Como principais elementos desta melhora
o relatório destaca: a) a Lei
de Responsabilidade Fiscal
sancionada em maio de 2000
que estabelece
para todos os níveis de governo regras visando assegurar a sustentação
fiscal no médio-prazo e o rigor na adoção de requisitos de transparência;
b) a estrutura de despesas no médio-prazo com vista a uma melhor alocação
dos recursos orçamentários ao longo do tempo
conforme as prioridades
do governo e a estratégia de desenvolvimento regional; c) e o firme
cumprimento dos acordos de reestruturação das dívidas com a maioria
dos estados e com grande parte dos municípios
que tem sido instrumento
da promoção do ajuste fiscal sustentável dos governos subnacionais. O
relatório também salienta que o Brasil permanece muito bem posicionado
em relação aos principais indicadores de gestão fiscal e de transparência;
que a cobertura tanto de suas metas fiscais como de suas estatísticas
fiscais é louvavelmente ampla; que os mecanismos de controle externo e
interno são
em geral
bem desenvolvidos; que as estatísticas fiscais
em nível federal são de alta qualidade
tempestividade e detalhamento;
que o Brasil está na vanguarda dos países de mesmo grau de
desenvolvimento
no que diz respeito ao uso de meios eletrônicos de
disseminação de dados fiscais.
29. Em apoio às políticas
fiscais
o governo permanece comprometido com sua agenda de reformas
estruturais. O governo continuará buscando a aprovação no Congresso
Nacional de emenda constitucional permitindo a tributação doméstica
explícita de derivados de petróleo
substituindo a conta-petróleo no
orçamento e abrindo caminho para a liberalização do mercado interno
de petróleo no início de 2002. Em conformidade com os esforços
voltados para a reforma do sistema de seguridade social
o governo também
buscará a aprovação no Congresso Nacional de legislação permitindo
a criação de fundos de previdência complementar para o setor público.
Ademais
o governo continuará trabalhando com o Congresso Nacional com
vistas à aprovação de emenda constitucional para prorrogar para até
o final de 2004 a Contribuição Provisória sobre Movimentação
Financeira (CPMF)
cuja vigência atual termina em junho de 2002
além
de implementar medidas para evitar ou aliviar o impacto negativo da CPMF
sobre o mercado de capitais.
30. A política monetária
continuará a ser conduzida no âmbito do programa de metas inflacionárias.
Devido aos choque ocorridos neste ano
a inflação ao final do ano
deverá exceder o limite superior de 6
0 por cento para a meta de inflação
do BCB
e poderá também exceder a meta estabelecida no Acordo Stand-By
para consulta aos técnicos do Fundo. Com base nas políticas atuais
a
inflação para o ano de 2002 deverá ficar ligeiramente acima da meta
central do governo de 3
5 por cento. Os pontos médios e as bandas de
consulta estabelecidas no MTE anterior para o final de 2001
e março
junho e setembro de 2002
permanecerão em vigor (vide MTE anexo). O
comportamento da inflação continuará entre os aspectos considerados
durante as revisões trimestrais do programa
e o BCB continuará suas
consultas regulares com os técnicos do Fundo a respeito da evolução
da política monetária.
31. O BCB continua
comprometido com o regime cambial flutuante
e continuará a evitar a
fixação de qualquer meta para o nível da taxa de câmbio. Entretanto
em virtude das preocupações a respeito das implicações inflacionárias
da depreciação e da volatilidade das taxas de câmbio
o BCB tem
procurado compensar as recentes pressões sobre a taxa de câmbio
decorrentes de circunstâncias extraordinárias surgidas ao partir do início
de setembro com intervenções no mercado de moeda estrangeira
através
da venda de títulos indexados à taxa de câmbio. Entretanto
o BCB
continua acreditando que o aumento líquido dos estoques destes
instrumentos deve se limitar a circunstâncias extraordinárias
e mantém
o objetivo de reduzir o seu estoque
à medida em que as condições do
mercado assim o permitirem. O BCB está preparado para endurecer a política
monetária
se necessário
com a finalidade de defender a meta
inflacionária.
32. O governo continua
trabalhando junto ao Congresso Nacional na aprovação de uma nova lei
de falências. Além disso
o BCB permanece atuando para ampliar o marco
de regulação bancária e para fortalecer o seu sistema de supervisão
à distância (vide o MTE anexo). O BCB avança com seu programa de
privatização dos seis bancos estaduais federalizados: leilões para três
destes bancos estão previstos para acontecer no final do ano e os leilões
para os demais bancos estão previstos para junho de 2002. O governo
comprometeu-se em participar do Programa de Avaliação do Setor
Financeiro (PASF)
sendo que o trabalho preliminar com o pessoal do FMI
e do Banco Mundial já foi iniciado. As reformas do sistema de
financiamento habitacional estão sendo implementadas com o objetivo de
aumentar a eficiência nas transações a termo no mercado
bem como
oferecer melhor proteção para concedentes do crédito e proprietários
de imóveis. Além disso
o governo está desenvolvendo medidas para
reduzir as diferenças entre os padrões contábeis internacionalmente
aceitos e aqueles utilizados no Brasil.
33. O Brasil continua a
perseguir a liberalização comercial tanto na esfera regional como
multilateral
ao mesmo tempo em que continua ampliando a estrutura
institucional do Mercosul. Discussões no âmbito do Mercosul estão em
andamento com a finalidade de se desenhar um mecanismo de salvaguarda
capaz de permitir alguma flexibilidade na implementação da tarifa
externa comum. Ademais
o número de exceções da tarifa externa comum
para países-membros foi ampliada para 100 itens tarifários (exceto no
caso do Paraguai
que possui exceções adicionais) que podem ser
utilizadas até o final de 2002. A sobretaxa da tarifa de 2
5 por cento
será reduzida em 1 ponto percentual em janeiro de 2002 e mantida neste
nível até o final de 2002. Além disso
existem revisões em andamento
com os membros do Mercosul quanto à estrutura da tarifa externa comum.
O Brasil busca uma maior liberalização comercial regional juntamente
com os demais membros do Mercosul através da negociação
como bloco
regional
de acordos comerciais preferenciais junto à União Européia
e junto a outros países interessados na ALCA. Está sendo também
analisada a possibilidade de se negociar acordos comerciais bilaterais
com o México e a China. O Brasil está comprometido em participar
plenamente das próximas discussões acerca do possível lançamento de
uma nova rodada comercial no âmbito da Organização Mundial de Comércio.
A eliminação das restrições comerciais impostas pelos países
desenvolvidos às exportações brasileiras mais competitivas
como por
exemplo alguns produtos agrícolas
aço
têxteis e calçados
constitui uma importante prioridade para o governo.
34. O Brasil continua
melhorando sua base de dados estatísticos
incluindo (conforme
mencionado acima) o cumprimento satisfatório das duas metas de divulgação
estatística do Acordo Stand-By. Além disso
o país continua
trabalhando na preparação de um índice de preços ao produtor.
35. Em síntese
o Brasil não esteve
imune aos choques que atingiram a economia internacional
bem como ao
esperado declínio da atividade econômica global. Nesse contexto
para
que a data de disponibilidade dos desembolsos dos recursos associados à
segunda revisão não esteja próxima da data de cumprimento dos critérios
de desempenho do primeiro trimestre
solicitamos que a data da próxima
disponibilidade de recursos seja antecipada de 29 de março para 22 de
março. As medidas descritas neste MPE
acrescidas às medidas de políticas
anteriormente adotadas pelo governo
contribuirão para uma maior
consolidação da estabilidade econômica e para uma melhoria do
bem-estar social da população brasileira
deixando a economia em posição
para o crescimento mais rápido do produto conforme a evolução do
ambiente global no decorrer de 2002. Além das medidas descritas neste
MPE
o governo está pronto para ajustar sua política conforme necessário
a fim de assegurar a consecução dos objetivos do seu programa econômico
bem como deseja manter um contínuo diálogo estreito e construtivo com
o Fundo.
( 1 ) Baixos índices
pluviométricos e um recente declínio na economia de energia da região
Nordeste tornaram necessária a implementação de medidas adicionais de
racionalização do consumo de energia naquela região
incluindo a
decretação de três feriados oficiais em outubro e novembro e
penalidades mais rígidas para o não-cumprimento das cotas de consumo
de eletricidade.
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