13/11/1998
Memorando de
Política Econômica
(Versão não-oficial)
I.
Antecedentes
1. Desde o lançamento do Plano Real em 1º
de março de 1994
a economia brasileira vem logrando uma notável e
continuada redução da inflação
de uma taxa anual de mais de 2500 por
cento
em 1993
para menos de 3 por cento em setembro de 1998 – taxa
esta que o Brasil não apresentava há quase meio século. A baixa inflação
foi alcançada sem custo significativo para a atividade econômica ou
perda de renda. O PIB cresceu à taxa média real de 4
1 por cento no período
1994-97 e o PIB per capita a uma taxa anual real de 2
7 por cento. Este
desempenho econômico – que contrasta nitidamente com a estagnação da
renda real e com a alta inflação dos anos 80 e início dos 90 –
permitiu a manutenção de taxas relativamente baixas de desemprego até
1997
bem como uma significativa melhora dos padrões de vida do povo
brasileiro
especialmente os das faixas de mais baixa renda.
2. O progresso da estabilidade macroeconômica
e financeira tem se acompanhado de amplas reformas estruturais
as quais têm
contribuído para a modernização da economia e o crescimento da
produtividade. Tais reformas incluem a continuada abertura da economia
através da liberalização do comércio e dos fluxos de capital
o que
talvez seja o mais amplo programa de privatização da história
a
desmonopolização e desregulamentação de setores chave da economia
além
de um fortalecimento fundamental do sistema bancário (inclusive dos
bancos estaduais). Nesse contexto
não deve surpreender que o
investimento tenha aumentado de menos de 15.5 por cento do PIB
em 1994
para
estimadamente
18.5 por cento do PIB em 1998
e que o investimento
direto estrangeiro (IDE) tenha subido de cerca de US$ 2 bilhões para US$
23 bilhões durante o mesmo período.
3. A despeito do sucesso do Plano Real na
estabilização macroeconômica
bem como da reforma estrutural
e a
despeito dos esforços do governo para conter os gastos federais
modernizar o sistema fiscal e fortalecer a sua administração
além de
promover a disciplina fiscal em âmbito estadual
as finanças do setor público
não-financeiro (SPNF) permaneceram como fonte de preocupação.
Dever-se-ia observar
todavia
que o setor público define-se de forma
muito abrangente no Brasil – mais ainda do que em muitos outros países
– já que inclui a administração federal
a previdência social
o
Banco Central
os estados e os municípios
bem como as empresas estatais
estaduais e municipais. Deve-se levar em conta tal fato em qualquer análise
comparativa internacional das estatísticas do setor público. Já está
claro atualmente
após quatro anos de inflação em declínio
quão
diferente são o gerenciamento e a interpretação das finanças do setor
público em condições de inflação baixa e estável. Antes do lançamento
do Real
o desequilíbrio fiscal ex-ante era em grande medida transformado
em equilíbrio ex-post pela inflação crescente num contexto de receitas
indexadas e de gastos nominais só parcialmente indexados. Com o advento
da estabilidade nos preços
este mecanismo de ajuste
que mascarava até
certo ponto os graves problemas estruturais que afetavam o setor público
já não podia funcionar. As debilidades das finanças públicas
manifestaram-se na forma de uma notável deterioração do resultado primário
do setor público consolidado
o que
combinado com altas taxas de juro
tem contribuído para a manutenção de deficits gerais substanciais do
setor público (por volta de 5-7 por cento do PIB) em anos recentes
bem
como para um aumento constante da razão dívida do setor público/PIB.
4. A crescente despoupança do setor público
vem exigindo o recurso crescente à poupança externa para financiar o
aumento do investimento doméstico
o que tem levado a um aumento do déficit
na conta corrente da balança de pagamentos de menos de 0
5 por cento do
PIB
em 1994
para mais de 4 por cento do PIB em 1997. O crescente IDE tem
coberto quase 50 por cento desse déficit
mas a dívida externa bruta
total também tem aumentado para cerca de US$ 228 bilhões (mais de 28 por
cento do PIB) até meados de 1998. Deve-se notar que desde o início dos
anos 90
o governo brasileiro vem empreendendo um vasto programa de
liberalização comercial
com a virtual eliminação das barreiras não-tarifárias
e uma clara redução de tarifas
bem como um programa de integração
regional dentro do MERCOSUL. Este processo tem contribuído para um
aumento significativo das importações
especialmente de bens de capital
e intermediários
o que tem levado a um sensível aumento da
produtividade
embora também a um déficit temporariamente alto na balança
comercial de mercadorias e serviços.
5. Com o intenso agravamento do ambiente
financeiro internacional e a propagação da crise asiática a outros
mercados emergentes
no último trimestre de 1997
o real foi submetido a
um significativo grau de pressão. O Banco Central reagiu prontamente
duplicando sua taxa básica de empréstimo para 43
5 por cento
tendo o
governo lançado um pacote de medidas de aumento da receita e de cortes
dos gastos equivalente a 2
5 por cento do PIB. Este oportuno e decisivo
aperto das políticas logrou restaurar a confiança e propiciar um
gradativo retorno das taxas de juro a níveis pré-crise. As altas taxas
de juros durante os primeiros meses de 1998 e as medidas fiscais de emergência
entretanto
amorteceram a demanda doméstica – particularmente de bens
duráveis – e restringiram o crescimento econômico em 1998. A
desaceleração da atividade econômica contribuiu para um declínio
inflacionário ainda maior
mas também elevou a taxa de desemprego de
cerca de 6 por cento para 7
5 por cento em setembro de 1998. Parte desse
aumento reflete também as tendências estruturais no mercado de trabalho
em particular a racionalização e a modernização dos processos de produção
na indústria e serviços.
6. A conta de capital foi submetida a forte
pressão novamente em agosto de 1998
na esteira da crise na Rússia. A
reação inicial do governo foi a de adotar uma série de medidas
administrativas e fiscais a fim de relaxar os controles existentes sobre
as entradas de capital. A seguir
restringiu a política fiscal
realizando cortes nos gastos orçamentários federais equivalentes a 1
5
por cento do PIB do quarto trimestre
mais um corte equivalente a 0
3 por
cento do PIB do quarto trimestre em gastos já autorizados de
investimentos pelas estatais federais
uma redução nos desembolsos de
empréstimos pelos banco federais aos estados e municípios
a adoção de
uma meta obrigatória para o superavit primário do governo federal
além
da criação de uma comissão inter-ministerial de alto nível responsável
inter alia
pela garantia de consecução dessa meta. Este aperto fiscal
foi complementado por sucessivos aumentos das taxas de empréstimo do
Banco Central e da taxa de juros overnight
a qual alcançou 42
5 por
cento em fins de outubro. Essas medidas conseguiram
de fato
moderar a
taxa de escoamento de reservas
porém não conseguiram pôr termo por
completo ao mesmo. As reservas internacionais
que totalizavam US$ 70
2
bilhões em fins de julho
caíram para US$ 45
8 bilhões em fins de
setembro e para cerca de US$ 42
6 bilhões em fins de outubro. Embora a
taxa de perda de reservas tenha-se moderado substancialmente em outubro
tornou-se claro que se fazia necessário acelerar o ritmo das reformas. Em
importante discurso público proferido 11 dias antes das eleições
o
presidente Cardoso deixou claro ao País que um ajuste fiscal de vulto e
um esforço de reforma representariam a pedra fundamental de seu segundo
mandato.
II. O
Programa Econômico do Governo
7. Nos próximos anos
a política econômica
continuará a visar a promoção de um crescimento real da renda per
capita e de uma melhoria dos padrões de vida do povo brasileiro
especialmente dos grupos de mais baixa renda
dentro de um contexto de
baixa inflação e de reduzida vulnerabilidade da economia a choques
externos. O alcance dessas metas – particularmente no atual ambiente
internacional – dependerá fundamentalmente da capacidade de aumentar a
poupança nacional
financiar os investimentos adicionais necessários ao
aumento da produtividade
competitividade e oportunidades de emprego. O
ajuste fiscal de médio prazo do governo e o programa de reformas visam a
promover um contínuo aumento da poupança nacional
reduzir o ônus da dívida
pública e facilitar o declínio sustentável das taxas de juro.
8. A perspectiva macroeconômica para 1999
fica inevitavelmente condicionada pelo atual e difícil ambiente econômico
internacional. O crescimento das exportações
ao que se espera
será
moderadamente vigoroso
e as importações provavelmente diminuirão
em
vista da projetada redução da demanda doméstica. A conseqüente
contribuição do setor externo ao crescimento deverá ser considerável
mas é improvável que supere a queda da demanda doméstica
além do que
o PIB real poderá mostrar um declínio
em média
em 1999. Do quarto
trimestre de 1998 até o quarto trimestre de 1999
entretanto
o PIB real
deve refletir algum crescimento
pois se espera que a atividade econômica
se recupere no curso do ano e se acelere até 3 por cento e 4 por cento em
2000 e 2001
respectivamente. A rigidez das políticas monetária e
fiscal
bem como a manutenção do atual regime de câmbio
contribuirá
para manter a taxa de inflação por volta de 2 por cento em 1999
taxa
esta que se compara bem com as dos principais parceiros comerciais do
Brasil. Espera-se que o déficit da conta corrente externa caia de 4
2 por
cento do PIB
em 1998
para cerca de 3
5 por cento do PIB
em 1999
mantendo-se por volta desse nível nos anos seguintes
em que pese a
esperada recuperação da demanda doméstica. Refletindo o padrão
recente
estima-se que mais da metade do déficit em conta corrente será
financiada por investimento estrangeiro direto em 1999.
9. A fim de promover a confiança e
facilitar uma redução sustentada das taxas de juros já durante 1999
o
governo anunciou um programa de ajuste fiscal com grande parte do esforço
sendo realizado no seu primeiro ano de implementação. Este programa
estabelece como meta para o resultado primário do setor público
consolidado
um superavit equivalente a 2
6 por cento do PIB em 1999. Tal
superavit deve elevar-se até 2
8 por cento do PIB em 2000 e a 3
0 por
cento em 2001. Com base em estimativas conservadoras a respeito da evolução
de taxas de juros
das receitas de privatização e do reconhecimento de
encargos do setor público até então implícitos
espera-se que estes
superavits primários crescentes detenham o crescimento da dívida pública
líquida em relação ao PIB por volta de 2000.
10. Dentro deste arcabouço
espera-se que
as contribuições ao esforço de ajuste fiscal
sejam feitas por todos os níveis de
governo
como enfatizou o Presidente Cardoso em recentes pronunciamentos.
Todavia
o grosso dos ajustes está previsto para o âmbito federal
cujas
metas estabelecem superavits primários equivalentes a 1
8 por cento do
PIB
em 1999
2
0 por cento em 2000
e 2
3 por cento em 2001. A magnitude
deste esforço é melhor apreciada considerando-se que
na falta de
qualquer ação corretiva
o resultado primário do governo federal
provavelmente deteriorar-se-ia de um equilíbrio subjacente em 1998 a um déficit
de 1
7 por cento em 1999
e a déficits ainda mais altos em 2000 e 2001.
Em conjunto com o projetado declínio nas taxas de juros
espera-se que a
melhora do resultado primário federal leve a uma queda do déficit
federal global de
estimadamente
5
6 por cento do PIB
em 1998
para 3
6
por cento do PIB
em 1999.
11. A fim de assegurar a almejada melhora
o governo federal anunciou um abrangente conjunto de medidas destinadas a
poupar gastos e elevar receitas
totalizando cerca de 3.5 pontos
percentuais do PIB em 1999. Iniciativas que já foram sancionadas por
medida provisória ou leis de regulamentação
representam uma substancial parcela das receitas a serem geradas pelo
programa. Espera-se que as reformas administrativa e da previdência
social
recém aprovadas
signifiquem economias de gastos que
embora
inicialmente pequenas
cresçam com o tempo. De maior importância para
1999
foi a apresentação pelo governo ao Congresso
em 9 de novembro de
1998
de um orçamento revisto para 1999
incluindo cortes na conta de
custeio e capital que
comparados com o orçamento apresentado
anteriormente
totalizam 20 por cento desses gastos e representam 1 por
cento do PIB. Ao distribuir esses cortes entre as diferentes áreas de
gastos
o governo empenhou-se em preservar o tanto quanto possível os
gastos com saúde
educação e proteção social.
12. As medidas de aumento das receitas
incluem: uma elevação da CPMF de 0
2 por cento para 0
3 por cento
com
uma majoração temporária de 0
08 por cento para 1999; um aumento da
COFINS de 2 para 3 por cento
um terço do qual será compensado do
imposto de renda da pessoa jurídica; uma elevação de 9 pontos
percentuais na contribuição para o plano de aposentadoria do setor público
pelos servidores que ganhem mais de R$ 1.200 mensais; aplicação desta
contribuição aos pensionistas do setor público (à taxa de 11 por cento
para aqueles com pensões de R$ 1.200 por mês ou menos e de 20 por cento
para os demais); além de uma série de outras medidas com vistas
principalmente
a ampliar as bases dos atuais impostos e contribuições
bem como a eliminar distorções. Estas medidas fiscais visam ao problema
imediato do ajuste fiscal
mas o governo também lançará
brevemente
uma reforma fundamental do sistema de impostos indiretos destinada a sanar
as falhas estruturais do sistema (vide parágrafo 19). O governo tem
enfatizado que qualquer modificação pelo Congresso da legislação
proposta
que cause impacto adverso à posição orçamentária global
precisará ser compensada por medidas específicas de receitas
alternativas e/ou por novos cortes nos gastos.
13. Espera-se que estados e municípios
contribuam para o esforço de ajuste fiscal com uma mudança no seu
resultado primário consolidado de um déficit estimado em 0
4 por cento
do PIB
em 1998
para um superávit de 0
4 por cento
em 1999
elevando-o
para 0
5 por cento do PIB em 2000 e 2001. A fim de contribuir para
assegurar o alcance dessas metas
o governo federal fará observar com
firmeza os compromissos assumidos pelos estados no contexto do acordo de
reestruturação da sua dívida com o governo federal. O programa de
ajuste fiscal acordado com os estados inclui metas específicas para cada
estado
no que concerne ao resultado primário
o desempenho da receita
as razões folha de pagamento e gastos de investimentos/receita
bem como
privatizações e outras reformas
estruturais. Os acordos também dotam o
governo federal de poderes para
no caso de um estado deixar de pagar sua
dívida reestruturada como programado
reter a receita compartilhada com
aquele estado e até embargar suas próprias receitas. Em conjunto com a
negociação desses acordos
o governo e o Senado
atentos para o fato de
que o acesso irrestrito pelos estados aos fundos de empréstimo levou à
escalada da dívida estadual até meados dos anos 90
envidaram esforços
no sentido de limitar vigorosamente o recurso dos estados à contração
de dívidas. Especificamente
o Senado proibiu as emissões de novos títulos
estaduais
bem como a tomada de empréstimos por estados com déficit primário;
resoluções do Conselho Monetário Nacional reduziram substancialmente os
limites dos empréstimos bancários aos estados e municípios
bem como os
limites dos empréstimos no exterior por essas entidades. Ademais
a
privatização ou liquidação da maioria dos bancos estaduais
o
cumprimento de estritos padrões de prudência quanto aos ainda
existentes
bem como o atual processo generalizado de privatizações
eliminaram a maioria das alternativas de financiamento de déficits pelos
estados.
14. A privatização de várias empresas
lucrativas em anos recentes limita a contribuição que este setor pode
fazer ao ajuste fiscal nos futuros anos . Sem embargo
o governo tem como
alvo superavits primários equivalentes a 0
4 por cento do PIB
em 1999
0
3 por cento do PIB em 2000 e 0
2 por cento em 2001
refletindo
em
particular
os esforços para aumentar a produtividade
conter custos e
priorizar investimentos. O governo pretende
ainda
assegurar que as
empresas federais mantenham políticas flexíveis de preços. Em relação
à PETROBRÁS
que representa uma larga parcela do valor agregado dessas
empresas
o governo adotou uma nova política para assegurar uma transferência
automática de alterações nos preços do petróleo internacional para os
preços domésticos.
15. O governo federal planeja realizar
mudanças fundamentais no gerenciamento das suas finanças. Um elemento
chave em tais esforços será a nova Lei de Responsabilidade Fiscal
que o
governo enviará ao Congresso até dezembro. A nova lei estabelecerá um
arcabouço geral para orientar o planejamento orçamentário e sua execução.
Com vistas a garantir a solvência fiscal
a lei estabelecerá
entre
outros
critérios de prudência para o endividamento público;
proporcionará estritas regras para o controle dos gastos públicos;
estabelecerá regras permanentes para limitar os déficits orçamentários
bem como proibirá quaisquer novos refinanciamentos pelo governo federal
da dívida estadual e municipal. Além desses preceitos
a lei incluirá
mecanismos disciplinares para o caso de inobservância das suas metas e
procedimentos.
16. O governo considera a recém aprovada
emenda constitucional sobre a reforma da previdência social como um
importante primeiro passo nesta crítica área. Esta legislação
juntamente com o recém anunciado conjunto de medidas relativas às
contribuições para o sistema de aposentadoria do setor público
gerará
importantes economias durante os próximos anos. Não serão suficientes
entretanto
para garantir a justiça e o equilíbrio financeiro do
sistema. Para que se faça a previdência social
tanto dos trabalhadores
do setor público como privado
repousar sobre bases sólidas e tornar-se
mais eqüitativa
ao mesmo tempo em que se amplia o escopo para a escolha
individual
o governo contempla um conjunto complementar de iniciativas
legislativas a serem apresentadas ao Congresso no primeiro trimestre de
1999. O princípio orientador dessa rodada complementar será o princípio
do equilíbrio atuarial. Contas individuais serão estabelecidas para os
participantes
tanto do sistema privado (RGPS) como do sistema público (RPSP)
e o vínculo entre as contribuições acumuladas do trabalhador e a pensão
esperada será feito de maneira muito mais estreita.
17. O tamanho do RGPS será limitado pela
imposição de um teto de R$ 1.200 mensais no salário-base para a
contribuição do funcionário. A parcela da taxa paga pelo empregador
continuará a aplicar-se àquela porção do salário que exceda R$ 1.200
porém esta receita adicional não formará parte do salário-base do
empregado para fins de cálculo da pensão. Haverá
ainda
uma série de
reformas para melhorar as finanças dos planos de pensão do setor público
além do RPSP. Um plano de tamanho mínimo – 5.000 contribuintes – será
estabelecido. As contas individuais serão obrigatórias e um teto será
estabelecido sobre a razão das contribuições empregador/empregado à
taxa de 2:1
bem como vários gatilhos automáticos para aumentar as taxas
de contribuição no caso de se estabelecerem desequilíbrios financeiros.
Finalmente
um sistema regulador será criado para ajudar a assegurar o
cumprimento da nova legislação pelos planos do setor público.
18. A aprovação da reforma administrativa
foi uma das realizações importantes da primeira administração do
Presidente Cardoso. A fim de levar este trabalho de reforma a uma conclusão
bem sucedida
o governo já submeteu ao Congresso várias leis
regulamentadoras
com o objetivo de garantir que as reformas comecem a
produzir efeitos já em 1999. O principal objetivo da reforma é aumentar
a eficiência e reduzir o custo da administração pública. O período
probatório exigido agora de todos os funcionários públicos recém
contratados será ampliado e
pela primeira vez
os servidores poderão
ser demitidos por desempenho insatisfatório
com base em avaliações
periódicas. A regulamentação permitirá
ainda
aos governos pôr em prática
as propostas de Reforma Administrativa para eliminação de excesso de
quadro. Estas reformas aplicar-se-ão a todos os níveis do governo geral
e ajudarão os governos a alcançar as metas da Lei Camata
a qual
estabelece um teto para gastos com as folhas de pagamento governamentais
como porcentagens das receitas. Ao governo federal foram dados poderes
para suspender transferências constitucionais àqueles governos estaduais
que não atendam à meta da Lei Camata.
19. O atual regime tarifário indireto
brasileiro é ineficiente e indevidamente complexo; inclui impostos em
cascata que dificultam a competitividade do Brasil
sobrepõe impostos
diferentes cobrados pelos diversos níveis de governo em alíquotas
diferentes e com bases diversas
promovendo guerras tarifárias
dispendiosas entre os estados e aumentando o escopo para sonegação e
evasão de impostos . O governo está
por conseguinte
dando grande
importância à apresentação ao Congresso
antes do final deste ano
da
reforma tributária
que tratará destes pontos . Espera-se que a reforma
crie um IVA nacional
com uma estrutura de valor e uma base comum
compartilhada entre os diversos níveis de governo e administrado pelos
estados. O novo IVA substituirá alguns impostos existentes
simplificando
grandemente a administração de impostos e reduzindo distorções. Terão
que ser feitos ajustes apropriados no sistema de compartilhamento de
receita entre os diversos níveis de governo para garantir que quaisquer
perdas ou ganhos gerados pela reforma sejam compensados. Nenhuma mudança
de porte está sendo planejada nos impostos de renda e outros impostos
cobrados pelo governo federal. O governo pretende prosseguir com seus
esforços para aperfeiçoar a administração tarifária e
em particular
para introduzir legislação para fortalecer a Secretaria da Receita
Federal
concedendo-lhe maior autonomia
aperfeiçoando o treinamento de
autoridades tributárias e racionalizando sua estrutura de salário para
aumentar os incentivos para bons desempenhos. Continuará também – em
colaboração com outras Instituições Financeiras Internacionais - IFIs
- seu apoio aos esforços por parte de governos estaduais e municipais
para fortalecer sua administração tarifária.
20. Os problemas financeiros com a previdência
social foram agravados por um elevado índice de sonegação do imposto
nas folhas de pagamento. A administração da previdência social planeja
tomar medidas para tratar desta situação insatisfatória. Começará
cruzando suas próprias contas com informações da Receita sobre a renda
dos autônomos
cujo índice de sonegação é particularmente elevado.
Serão também tomadas medidas para aperfeiçoar os sistemas de
processamento e para melhorar as informações sobre pagamentos de
impostos e lucros. Finalmente
será criado um sistema projetado
especialmente para monitorar os recolhimentos dos 10.000 maiores
contribuintes do país. Prevê-se que este programa de reforma aumente a
receita previdenciária progressivamente ao longo do tempo
embora as
projeções da produção do esforço de ajuste em 1999 não façam
qualquer previsão para as mesmas.
21. O governo reconhece que existe escopo
considerável para racionalizar as operações do governo
e para aperfeiçoar
o processo orçamentário. O governo federal ainda está executando certas
funções que seriam mais apropriadamente atribuídas aos estados. De
forma mais geral
o governo começou a planejar a introdução no ano de
2000 de um sistema mais rigoroso de avaliação de projetos
para analisar
programas com base no seu sucesso em alcançar objetivos bem definidos com
custo mínimo. Todas as rubricas orçamentárias serão agrupadas em um
programa ou outro e será realizada uma avaliação ampla dos programas
existentes para verificar se ainda estão alinhadas com as prioridades do
governo.
22. Programas sociais com metas claras e
bem definidas desempenham um papel vital na redução da pobreza e no
desenvolvimento do capital humano. À parte do sistema previdenciário
a
maior parte dos programas sociais estão no domínio dos estados
mas o
governo federal é responsável pelo financiamento de uma parte de suas
despesas e tem seus próprios programas. A meta básica do governo federal
será a de aumentar a parcela do orçamento destinados aos níveis primários
de ensino e à assistência médica; para promover o uso mais eficiente e
o financiamento da saúde e do ensino
particularmente nos níveis mais
elevados; e para melhor direcionar as despesas sociais para os pobres.
Para tanto
o governo federal minimizará os cortes orçamentários nos
programas sociais que beneficiem os pobres
esforçando-se para melhorar
seu objetivo e eficiência . Estes esforços devem receber o apoio do
Banco Mundial e do BID.
23. Durante os últimos anos
o Governo
Brasileiro executou um dos programas de privatização mais ambiciosos do
mundo. Envolveu tanto o governo federal como os estaduais; abrangeu os
mais variados setores como telecomunicações
energia
portos
ferrovias
mineração
siderurgia
transportes urbanos e instituições financeiras
e tem sido bem sucedido na atração de participação substancial por
parte de investidores estrangeiros. Em 1999
o programa concentrar-se-á
nos serviços públicos – os quais
em vários países
permanecem no
domínio público. As companhias a serem privatizadas compreendem a
maioria das companhias estatais no setor energético – geração e
distribuição de energia –
alguns dos bancos estaduais remanescentes
como o Banespa
anteriormente pertencente ao Estado de São Paulo e
atualmente federalizado
o IRB - Instituto de Resseguros do Brasil
e
algumas empresas de serviço público de água
gás e esgoto. A concorrência
no recentemente privatizado setor de telecomunicações será fomentada
por meio de concessões ao setor privado. Simultaneamente
o governo
continuará sua revisão da estrutura reguladora para serviços e setores
públicos privatizados.
24. O processo de privatização e
desmantelamento dos monopólios públicos está contribuindo para o
fornecimento de bens e serviços melhores e produzidos com mais eficiência
e para a renovação e a modernização do estoque de capital do país. A
desregulamentação da economia e a participação crescente de capital
estrangeiro geraram importantes externalidades tecnológicas e de preço
aumento de produtividade
o aperfeiçoamento da alocação de recursos
modernização de práticas gerenciais
além de conectar as corporações
brasileiras com os principais "global players"
melhorando assim
as perspectivas a longo prazo e a eficiência da economia.
25. A meta prioritária da política monetária
é a inflação baixa permanente. O atual regime cambial é um meio
essencial para este fim. O Banco Central continuará aplicando uma política
de juros flexível apropriada para dar apoio ao Real
e ao mesmo tempo
salvaguardando as reservas cambiais. À medida que o esforço de ajuste se
consolide e a confiança for restabelecida
as taxas de juros poderão
declinar. O Banco Central continuará a se basear nos instrumentos de política
que vem adotando para orientar as taxas de juros a curto prazo:
especificamente
influenciará a liquidez bancária conforme for necessário
por meio de leilões de seus títulos e intervenções no mercado de
overnight
e utilizará a TBC e TBAN como dispositivos de sinalização
para orientar a formulação de expectativas sobre o curso geral das taxas
de juros.
26. No gerenciamento da dívida pública
interna
o Tesouro e o Banco Central darão prioridade ao alongamento
progressivo da maturação da dívida de modo a reduzir as necessidades de
refinanciamento bruto. O declínio esperado nas taxas de juros
à medida
que prêmios de risco sobre a dívida brasileira externa e doméstica
sejam reduzidas pela recuperação da confiança
proporcionará uma
oportunidade para começar a aumentar
a um custo aceitável
a parcela de
papéis pré-fixados na dívida pública. Nesse sentido
o Banco Central
planeja acelerar seus recentes lançamentos de títulos com vencimentos
seqüenciais a taxas fixas e variáveis
aumentando progressivamente o
prazo da parcela de taxa fixa
em linha com a demanda do mercado. É também
intenção das autoridades manter dentro de limites prudentes a parcela da
dívida pública indexada ao dólar na dívida total
e continuar
alongando seu vencimento conforme as condições de mercado permitirem.
27. Embora as taxas de juros elevadas do
ano passado tenham provocado tensão em alguns bancos menores no país
o
sistema bancário como um todo superou bem este período. A parcela de
inadimplência no total de empréstimos
aumentou de 6
9 por cento em
dezembro de 1997 para 8
3 por cento em agosto de 1998
enquanto as provisões
do sistema atingiram 145 por cento daquele total no mesmo mês. A aquisição
em 1998
de três bancos de grande e médio porte do país por grandes
bancos estrangeiros é um aspecto positivo da racionalização em
andamento do setor
que eliminou instituições mais frágeis e colocou as
outras em uma situação financeira mais sólida. Os índices de adequação
de capital entre os principais bancos privados nacionais estão na ordem
de 15 por cento (tier capital 1) ou mais
o que excede bem as recomendações
da Basiléia.
28. O aparato regulatório de supervisão
foi consideravelmente reforçado desde o início do Plano Real em
particular nos dois últimos anos. O índice mínimo de adequação de
capital aumentou de 8 por cento (tier um) para 10 por cento dos ativos
ponderados pelo grau de risco
em 31 de dezembro de 1997
e será de 11
por cento a partir de 1 de janeiro de 1999. Desde julho de 1997
os bancos
estão obrigados a manter reserva de capital contra o risco de operações
com derivativos que excedam as normas da Basiléia. A análise de risco de
crédito bancário também foi facilitada com a criação no transcorrer
de 1997 de uma Central de Risco de Crédito
que possibilita que as
autoridades determinarem o total de endividamento do tomador frente a
instituições financeiras nacionais. A supervisão bancária
que tem
sido o objeto de interesse do Banco Mundial
tem sido consideravelmente
fortalecida pela instituição de inspeções e abrangentes auditorias in
loco
e foram aprovadas medidas para garantir que se as operações de
filiais "off shore" não estiverem sujeitas a supervisão plena
a matriz deve fazer provisão total contra os ativos da filial. Lei
promulgada em março de 1997 estipula que os bancos subcapitalizados devem
ser recapitalizados no prazo de seis meses após serem notificados pelo
Banco Central
e exige um memorando de entendimento sujeito a auditorias
mensais. Em suma
progressos consideráveis foram feitos na implementação
dos 25 princípios básicos do Comitê da Basiléia de Supervisão Bancária
e o governo acredita que o Brasil pode estar cumprindo totalmente estas
exigências até o ano 2000.
29. As dificuldades do sistema bancário
estatal estão agora praticamente resolvidas. O número de instituições
financeiras estatais terá sido reduzido de 35 para 11
uma vez concluído
o processo de reestruturação
e sua parcela nos depósitos totais do
sistema financeiro brasileiro deve ser reduzida em dois terços para cerca
de 7 por cento do total até o final de 1999. O governo pretende sujeitar
os bancos remanescentes à mesma fiscalização reguladora e de supervisão
que os bancos privados. Todas as medidas acima descritas sustentarão a
confiança no sistema bancário ao fortalecer sua rede de segurança
que
está baseada em um sólido aparato regulatório e de supervisão
na função
de emprestador de última instância e em proteção para depositantes.
Nesse sentido
o governo planeja obter uma linha de crédito "stand-by"
para o fundo de seguro de depósito para fortalecer suas finanças
e
tomará as medidas necessárias para acelerar o equacionamento das pendências
relativas aos bancos sob intervenção e/ou liquidação
e aumentar as
taxas de recuperação de ativos.
30. O governo está integralmente
comprometido em manter o atual regime cambial. A política atual de
desvalorização gradativa do Real
em conjunto com as mudanças
estruturais em andamento e os ganhos de produtividade significativos da
economia brasileira
contribuirão para o fortalecimento do desempenho das
exportações e para um processo eficiente de substituição de importações
melhorando no tempo as contas do setor externo. Ao manter o atual regime
o Banco Central prosseguirá com sua política de abrir gradativamente a
banda cambial. Dentro desta banda
o gerenciamento do câmbio estará
voltada para a reconstrução de reservas e o aumento da competitividade
da economia.
31. O governo pretende continuar com a política
de liberação comercial
que caracterizou o primeiro mandato do
Presidente Cardoso. Continuará promovendo a integração da economia
brasileira com a de seus sócios do MERCOSUL
seus parceiros comerciais
regionais e também visará o aumento do comércio com países fora da
região. O Brasil não imporá restrições comerciais que sejam incompatíveis
com os compromissos da OMC ou
no contexto do programa com o FMI
restrições
por motivos da balança de pagamentos . O Brasil tem fortalecido a
capacidade institucional para tratar de mecanismos antidumping e outros
mecanismos não-tarifários de acordo com as regras da OMC . Não se prevê
que a recente adoção de normas de medição e de qualidade mais rígidas
taxas fixas de importação e o licenciamento não-automático para
importações selecionadas tenha um impacto significativo sobre os volumes
de importação. O governo continuará a promover a competitividade das
exportações brasileiras por meio de medidas voltadas para o nivelamento
do campo de ação para os exportadores brasileiros
facilitando o acesso
ao financiamento e ao seguro de crédito de exportação
de acordo com os
regulamentos da OMC.
32. A dívida externa brasileira não é
muito elevada com relação ao PIB (29 por cento)
e seu prazo médio de
vencimento é relativamente longo. O componente do setor público na dívida
externa representa não mais do que um terço do total
e a dívida a
curto prazo do setor público é inferior a US$6 bilhões. É intenção
do governo manter o aumento da dívida pública do setor externo dentro de
limites prudentes
em torno de US$10 bilhões em 1999. É também intenção
do governo promover uma prorrogação gradativa do vencimento médio do
total da dívida externa
conforme as condições do mercado permitirem.
Existe também espaço para aperfeiçoar a monitoração global da dívida
externa
e em particular para compilar e disseminar informações em tempo
mais hábil sobre a composição por tipo de instrumento e credor. O
governo tomará medidas para tratar destas deficiências na base de
informações
e
a este respeito
buscará assistência o Fundo ou de
outras agências relevantes.
33. Embora o mercado de trabalho brasileiro
não esteja envolvido por rigidez séria
certos regulamentos e políticas
do mercado de trabalho podem contribuir para uma maior flexibilidade e
para aumentar a produtividade de mão-de-obra e emprego formal. Face ao
recente aumento do desemprego – que resulta tanto de fatores estruturais
como cíclicos – a necessidade de reformar a legislação trabalhista e
aperfeiçoar as políticas de mercado de trabalho tornou-se mais urgente.
34. O governo tomou medidas importantes na
modernização da legislação trabalhista e no aperfeiçoamento das políticas
do mercado de trabalho. As seguintes medidas já foram implementadas: (i)
adoção de um sistema de demissão temporária de forma a reduzir as
dispensas finais; (ii) regulamentação de contratos em tempo parcial e
temporário; (iii) flexibilidade no expediente de trabalho de forma a
reduzir custos com horas extras; (iv) ampliação de benefícios do seguro
desemprego para trabalhadores empregados a longo prazo e (v) melhorias no
sistema de treinamento e retreinamento. Além destas medidas
a Administração
enviou recentemente ao Congresso uma proposta de reforma constitucional
que reduz as restrições para a organização de sindicatos e cria
incentivos para negociação coletiva direta entre sindicatos e
empregados. Estas medidas e propostas visam proporcionar uma rede de
segurança mais abrangente para os desempregados
reduzir a eliminação
de empregos
aumentar a proporção de contratos formais de trabalho e
promover a produtividade da mão-de-obra.
35. A base estatística do Brasil está
em
muitos aspectos
muito bem desenvolvida. Existem
entretanto
algumas áreas
deficientes que o governo pretende encaminhar em um futuro próximo. As
contas nacionais
em particular
incluem dados sobre os componentes de
demanda agregada em preços correntes
mas aqueles em preços constantes são
baseados em pesos desatualizados. A pesquisa oficial mensal do mercado de
trabalho está no momento restrita às seis maiores áreas metropolitanas
do país. As contas do governo central são apresentadas mensalmente
mas
a característica federativa do Brasil e a diversidade dos estados torna
esse padrão irrealista para o governo geral como um todo. As estatísticas
monetárias e fiscais têm de forma geral boa cobertura
mas necessitam
ser feitos aperfeiçoamentos na classificação setorial dos ativos. A
cobertura da dívida externa é boa
mas as estatísticas detalhadas estão
disponíveis somente com uma defasagem. O Brasil recebeu
recentemente
assistência técnica do Fundo em estatísticas monetárias e bancárias
e tem trabalhado com o Fundo para melhorar a oportunidade das estatísticas
sobre a dívida. Acelerará o trabalho nas contas nacionais e
como parte
deste esforço
pretende solicitar mais assistência técnica ao Fundo.
Como medida de seu compromisso para melhorar as estatísticas econômicas
brasileiras
o governo decidiu subscrever o SDDS
tão logo seja
tecnicamente viável
e planeja solicitar assistência técnica do Fundo
para assessorar-se sobre a situação do sistema estatístico
face às
exigências do SDDS.
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