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Brasília, 28 de fevereiro de
2003
Prezado Sr. Köhler:
- Tendo assumido há dois meses, o atual governo
já começou a cumprir seu compromisso de reforçar a estabilidade
macroeconômica, acelerar o crescimento econômico e melhorar as condições
sociais. Dado que a realização de nossos objetivos tomará tempo e
envolverá um esforço político abrangendo muitas direções, a principal
tarefa agora consiste em aumentar a confiança nas políticas econômicas e
atender às necessidades sociais mais urgentes. Esta carta descreve as
prioridades de política econômica mais imediatas do governo.
Arcabouço Macroeconômico
- Em 2002, o Brasil enfrentou um forte choque
econômico decorrente da deterioração do ambiente internacional, bem como
das dúvidas, por parte do mercado, acerca das condições da economia
brasileira. A economia respondeu a essas pressões com um forte ajuste da
conta corrente do balanço de pagamentos, equivalente a 3% do PIB, mediante
significativa melhora da balança comercial, como resultado da rápida
resposta do setor privado às mudanças macroeconômicas. As exportações
cresceram 8% em volume, mais do que compensando a deterioração dos termos
de troca, enquanto o setor financeiro provou sua robustez diante de
condições adversas. Sublinhe-se que o ajuste do balanço de pagamentos
deu-se sem recessão: estima-se que o PIB tenha crescido 1,5% e o emprego
cerca de 2%. Por outro lado, a brusca depreciação do Real resultou em um surto
inflacionário no final de 2002, com efeitos que têm se estendido em 2003.
A Tabela 1 apresenta de forma resumida as
variáveis macroeconômicas chave que respaldam o programa. A firmeza das
políticas adotadas até agora e a agenda de mudanças estruturais assinalada
pelo governo não apenas ajudarão o Brasil a crescer, como tornarão mais
perceptível a menor vulnerabilidade econômica brasileira. Isto é
importante, porque, apesar dos sinais de melhora na percepção pelos
mercados, o ambiente mundial continua frágil. Em particular, a perspectiva de
uma guerra no Iraque está enfraquecendo as expectativas de crescimento
mundial, além de estar agravando a aversão ao risco, por parte dos
investidores, causada pelo estouro da bolha no valor dos ativos e pela onda de
problemas de governança empresarial ocorridos nos países desenvolvidos.
Políticas Macroeconômicas
- O resultado fiscal em 2002 superou mais uma
vez as metas do programa, registrando um superávit primário para o setor
público consolidado de mais de 3,9% do PIB, com a dívida líquida do setor
público somando o equivalente a 56% do PIB aos preços do final do ano.
Depois de analisar as perspectivas de sustentabilidade da dívida pública,
o governo resolveu reforçar a política fiscal, propondo-se a alcançar um
superávit primário de 4,25% do PIB em 2003, ou seja ½ ponto percentual do
PIB acima da meta anterior. Um decreto de programação orçamentária e
financeira já foi publicado, com o estabelecimento de limites para a
despesa discricionária dos órgãos em conformidade com o novo superávit.
Os governos subnacionais e as empresas públicas federais deverão também
contribuir para o ajuste, em linha com a tendência projetada para suas
receitas e, no caso das empresas públicas, novas práticas administrativas.
Do nosso ponto de vista, deu-se um grande passo na direção de reforçar
substancialmente as finanças públicas e consideramos robusto o superávit
primário adotado. Conseqüentemente, os critérios de desempenho para o
resultado primário do setor público consolidado, os tetos de valores
indicativos da dívida pública para o resto do programa, bem como os
mecanismos para reavaliação das metas do superávit primário, estão
ajustados conforme proposto na Tabela A anexa. Dito isto, a trajetória da
dívida e as metas fiscais continuam sob nossa contínua avaliação. O
governo tem o compromisso de gerar, no médio prazo, superávits primários
suficientes para garantir o gradual declínio da relação divida/PIB. Com
este objetivo, metas fiscais para 2004-06 serão submetidas ao Congresso, em
abril, no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2004. Para
diminuir ainda mais a vulnerabilidade na área fiscal, pretende-se,
adicionalmente, e de acordo com as condições de mercado, alongar o prazo
da dívida, reduzir a exposição à taxa de câmbio e aumentar a
participação dos instrumentos prefixados. Este processo já foi retomado
em janeiro, com a duplicação do prazo médio da dívida colocada por
leilão, além do declínio na proporção da dívida indexada ao dólar.
- O novo governo confirmou seu compromisso com
os regimes de câmbio flutuante e de metas de inflação. Dentro deste
arcabouço, e em seguida à subida da inflação provocada pela
desvalorização cambial, o Banco Central do Brasil publicou uma carta
aberta descrevendo as causas da ultrapassagem da meta para 2002, as
perspectivas para 2003, e os objetivos a serem seguidos este ano. O Banco
Central também está enviando uma carta para o Fundo Monetário
Internacional, em decorrência do fato de a inflação, ao final de 2002,
ter superado o teto do programa. A política monetária tem-se mantido em
estado de alerta. O Banco Central respondeu ao surto de inflação com um
aumento dos depósitos compulsórios dos bancos e um aumento cumulativo da
taxa de juros de 8,5 pontos percentuais desde outubro último, de modo a
evitar que o choque decorrente da desvalorização cambial se propagasse ou
perpetuasse. O objetivo é levar a inflação a uma trajetória declinante e
consistente com a meta operacional adotada. Dada a inflação já acumulada
e o alto custo de alcançar as metas previstas ainda neste ano, decidiu-se
atingir estas metas de aproximadamente 4% de inflação anual em um período
mais longo, estabelecendo-se uma meta operacional de 8,5% para o final de
2003. Em consonância com tal procedimento, a banda para consulta referente
ao final de março, junho e setembro foi modificada conforme proposto na
Tabela A. A meta operacional é consistente com uma queda na inflação,
ainda que a taxa sobre 12 meses durante o período do programa deva
permanecer alta por conta da herança do último trimestre de 2002. O Banco
Central manterá a condução da política monetária voltada para o futuro,
com base nas projeções de inflação, além de continuar agindo de forma
rápida para atingir a meta operacional.
Políticas Estruturais
- O fortalecimento das bases da economia
exigirá profundas mudanças estruturais. Apesar de ainda estarmos no
processo de formular medidas específicas, já estabelecemos objetivos
claros para 2003, conforme descrito a seguir. O governo já começou
inclusive a construir um amplo consenso em torno da necessidade das
mudanças. Neste contexto, um grande passo à frente foi o acordo obtido com
os governadores dos 26 estados e do Distrito Federal com respeito aos
princípios a serem seguidos pelas reformas da Previdência e Tributária,
conforme descrito na Carta de Brasília, de 22 de fevereiro último.
- Um problema fundamental que o país terá de
enfrentar no futuro próximo diz respeito às pensões do setor público. O
governo deseja aumentar a eqüidade do sistema previdenciário, além de
reforçar as condições de sustentabilidade de longo prazo das bases
financeiras do sistema de previdência do setor público, como identificado
na Carta de Brasília. Com este propósito, estão sendo examinadas diversas
opções, incluindo o aumento da idade para a aposentadoria, a elevação no
número de anos de contribuição que dá direito a uma aposentadoria, assim
como uma revisão das regras que regem as pensões. Uma proposta de reforma
desenhada de forma a reduzir o déficit da previdência do setor público ao
longo do tempo será enviada ao Congresso até a metade do ano. A reforma
visará corrigir os efeitos regressivos na distribuição da renda do atual
sistema, além de melhorar as condições financeiras da previdência do
setor público já no médio prazo. Na hipótese de se verificarem custos de
transição, as reformas serão conduzidas de modo a garantir a
consistência com os objetivos fiscais para os próximos anos. A votação
do Projeto de Lei Complementar regulando a aposentadoria complementar para o
setor público (PL9) continua entra as prioridades do governo e fará parte
das reformas da previdência (Tabela B).
- Para melhorar a estrutura tributária, o
governo está desenvolvendo um programa de reformas focado na redução da
regressividade, do viés anti-exportações, da proporção de receitas
vinculadas, da guerra fiscal entre estados, dos custos de arrecadação e da
sonegação tributária. A reforma deverá ser neutra em termos de carga
tributária, mantendo as receitas de todos os níveis de governo, ao mesmo
tempo em que aumente a eficiência econômica. Desta forma, a reforma
tributária será um complemento importante para a reforma previdenciária,
contribuindo para mudar o panorama fiscal do país. O governo também está
atento para a necessidade de compensar qualquer redução na receita
tributária decorrente da projetada redução da alíquota da CPMF, bem como
para os efeitos sobre a vinculação das receitas do projetado fim da DRU.
Uma proposta de reforma tributária, consistente com a Carta de Brasília e
tratando das questões relacionadas à CPMF e a DRU, será submetida ao
Congresso até o final de junho. Conseqüentemente, a Tabela B estabelece um
novo parâmetro correspondente à reforma tributária, eliminando o
parâmetro estrutural anteriormente estabelecido para fins de março acerca
da CPMF e da DRU.
- Pretendemos seguir uma agenda adicional de
mudanças estruturais em outras áreas. Primeiro, o governo vai procurar
garantir uma aprovação rápida pelo Congresso da PEC que facilitará a
regulação do setor financeiro — um passo necessário para a passagem da
desejada lei que formalizará a autonomia operacional e a
responsabilização do Banco Central. Segundo, o governo continuará em seus
esforços para que se realizem progressos na venda dos quatro bancos
federalizados, como refletido no parâmetro estrutural proposto agora para
final de junho. Terceiro, para diminuir o spread bancário e aumentar a
disponibilidade de crédito para o investimento, o governo tem a intenção
de que uma nova lei de falências seja votada. Esta lei terá como objetivos
ajudar a preservar o funcionamento das empresas em dificuldades, cuja
sobrevivência seja viável, enquanto sua propriedade é transferida, além
de melhorar a definição na ordem de prioridade dos credores da massa
falida.
Políticas sociais e crescimento
- A retomada do crescimento, em conjunto com uma
melhor distribuição da renda, constituem o principal objetivo do novo
governo. Destarte, além das medidas descritas acima, o governo planeja
tomar medidas para aumentar a competitividade do país e melhorar o ambiente
para o crescimento de longo prazo. Com este propósito, o governo pretende,
entre outras ações, trabalhar com os parceiros comerciais para que as
barreiras ao comércio sejam reduzidas. O governo também está trabalhando
para aumentar a oferta de crédito para as pequenas e médias empresas,
inclusive por parte de instituições privadas e cooperativas de créditos
sujeitas a critérios prudenciais e de transparência. Neste sentido, o
governo já publicou uma medida provisória permitindo que mais de 2
milhões de empresas inscritas no SIMPLES possam ter acesso aos recursos de
cooperativas de crédito.
- A redução das enormes desigualdades na
distribuição de renda no Brasil é um elemento central da política do
governo. Ainda que o crescimento econômico possa ajudar na eliminação da
pobreza extrema, não será suficiente para que se alcance este objetivo.
Assim, o governo está desenvolvendo o programa da Fome Zero, sob o comando
de um ministério dedicado a esta tarefa. O Fome Zero é um importante
primeiro passo, mas o governo irá também delinear, nos próximos meses,
uma reforma mais abrangente dos programas de transferências e uma rede de
proteção social. Para coordenar este programa social, o governo criou o
Ministério de Assistência e Promoção Social, o qual irá avaliar os
programas já existentes e procurar formas para integrá-los de modo a
evitar duplicidades e focar os benefícios na população mais pobre. Estas
reformas permitirão que todos os brasileiros participem mais efetivamente
da riqueza nacional e do potencial do país.
- Temos a expectativa de que a implementação
deste programa garantirá um ambiente econômico estável, com um
crescimento sustentável e justo, que ao longo do tempo resultará em
diminuição da pobreza e melhora nos indicadores sociais e de capital
humano. Como sempre, o governo continua pronto a adotar medidas adicionais
para garantir a consecução dos objetivos estabelecidos. Também estaremos
mantendo uma política de diálogo estreito com o Fundo Monetário
Internacional.
Cordialmente
| Antônio Palocci Filho |
Henrique de Campos
Meirelles |
| Ministro da Fazenda |
Presidente do Banco Central
do Brasil |
Tabela
1. Parâmetros Macroeconômicos
|
|
2002 |
2003 |
|
Crescimento Real do PIB (%) |
1,5 |
2,8 |
|
Inflação (IPCA – percentual de crescimento em
12 meses) |
12,5 |
8,5 |
|
Conta corrente (% do PIB) |
-1,7 |
-1,3 |
|
Reservas oficiais brutas (US$ bilhões) |
38 |
50 |
Tabela A. Metas Quantitativas
Todas as definições, ajustes e requerimentos de informações, salvo os
aqui modificados, continuam idênticos àqueles estabelecidos pelo Memorando
Técnico de Entendimento anexo à Carta de Intenções de 29 de agosto de 2002.
| |
|
2002 |
2003 |
| |
CD, MI,BC,HP 1/ |
Fim de Dezembro |
Fim de março |
Fim de junho |
Fim de setembro |
| |
Programa |
Efetivo |
Programa |
Programa |
Programa |
| |
|
|
|
|
|
|
|
Metas Fiscais (R$ bilhões) |
|
|
|
|
|
|
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|
|
|
|
|
Piso do superávit primário do setor público consolidado 2/ |
CD |
50.3 |
52.4 |
15.4 |
34.5 |
54.2 |
|
Teto no estoque da dívida líquida do setor público consolidado |
MI |
895.0 |
881.1 |
945.7 |
961.1 |
985.6 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Metas do setor externo (US$ bilhões) |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Teto no estoque da dívida externa do setor público não financeiro |
CD |
96.5 |
91.4 |
95.6 |
95.2 |
94.9 |
|
Teto no estoque de dívida garantida pelo setor público |
CD |
1.6 |
0.6 |
1.6 |
1.6 |
1.6 |
|
Teto no estoque total da dívida de curto prazo do setor público
não financeiro |
CD |
3.5 |
0.1 |
3.5 |
3.5 |
3.5 |
|
Piso nas reservas líquidas internacionais 3/ |
CD |
5.0 |
14.2 |
5.0 |
5.0 |
5.0 |
|
Aumento na exposição do BCB nos mercados de câmbio futuro 3/ |
CD |
0.0 |
0.0 |
0.0 |
0.0 |
0.0 |
|
Aumento da exposição do BCB nos mercados a termo de câmbio 3/ |
CD |
0.0 |
0.0 |
0.0 |
0.0 |
0.0 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Metas monetárias (em pontos percentuais) |
|
|
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|
Variação do IPCA em 12 meses |
|
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|
|
|
Banda Externa |
BC |
11.0 |
... |
17.5 |
18.5 |
17.5 |
|
Banda Interna |
BC |
9.5 |
... |
16.0 |
17.0 |
16.0 |
|
Valor Central |
BC |
8.5 |
12.5 |
15.0 |
16.0 |
15.0 |
|
Banda Interna |
BC |
7.5 |
... |
14.0 |
15.0 |
14.0 |
|
Banda Externa |
BC |
6.0 |
... |
12.5 |
13.5 |
12.5 |
|
|
|
|
|
|
|
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|
Itens de Referência (R$ bilhões) |
|
|
|
|
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|
Receitas de Privatização (acumulado) |
HP |
6.1 |
3.6 |
0 |
0 |
0 |
|
Reconhecimento de Passivos (acumulado) |
HP |
22.1 |
14.3 |
2.9 |
5.3 |
8.6 |
|
Investimentos programados da Petrobrás |
HP |
... |
... |
3.1 |
6.2 |
9.6 |
| |
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1/ Critério de Desempenho (CD), Meta Indicativa (MI), Banda de
Consulta (BC) ou Hipótese do Programa (HP). |
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2/ A nota de rodapé na Tabela II.A.(i) do MTE e o parágrafo 16 da
Carta de Intenções de Agosto de 2002 ficam modificados para eliminar a
condição de que a conclusão das revisões dependa em se alcançar
acordo com respeito ao valor do superávit primário. |
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3/ Critério de desempenho contínuo. |
Tabela B. Parâmetros Estruturais
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Final de Maio de 2003 |
- Progresso na votação de uma nova lei de falências visando a
aceleração da restruturação de empresas em dificuldades e a
garantia dos direitos dos credores.
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Final de Junho de 2003 |
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- Progresso no processo de venda dos quatro bancos federalizados.
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- Apresentação ao Congresso de legislação para a reforma dos
regimes de aposentadoria dos servidores públicos civis, consistente
com os princípios enunciados na Carta de Brasília.
- Apresentação ao Congresso de legislação permitindo a criação
de fundos de pensão complementar para os servidores públicos
federais após a aprovação do PL 9.
- Apresentação ao Congresso de uma reforma fiscal conforme
explicado no parágrafo 8 acima.
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