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Brasília, 2 de dezembro de 2002
Exmo. Sr.
Horst Köhler
Diretor-Geral do
Fundo Monetário Internacional
Washington, DC 20431
EUA
Senhor Diretor-Geral:
- No período decorrido desde a aprovação do
novo Acordo Stand-by pela Diretoria Executiva, os mercados financeiros
permaneceram instáveis, devido tanto ao ambiente internacional
desfavorável quanto às dúvidas acerca da continuidade das políticas
macroeconômicas após a mudança de governo em janeiro. O sentimento do
mercado, desde as eleições presidenciais, apresentou melhoras, mas a plena
restauração da confiança até agora não se concretizou, e as taxas de
câmbio e de juros precisam retornar ainda a níveis compatíveis com os
fundamentos econômicos.
- O cenário macroeconômico fortaleceu-se com o
excepcional ajuste das contas externas: a expectativa para a balança
comercial em 2002 é de um superávit de pelo menos
US$ 12 bilhões, o dobro do nível projetado no programa. A
rápida recuperação das exportações foi um dos fatores decisivos para
essa melhora, o que reflete não apenas o impacto da depreciação, mas
também o crescimento da produtividade e a abertura de novos mercados. Por
conseqüência, o déficit em conta corrente deve cair para menos da metade
este ano como porcentagem do PIB, de 4,5% em 2001 para menos de 2% em 2002 e
2003. O crescimento real do produto deve atingir 1,5% em 2002 e se recuperar
para 2,5% em 2003.
- Todos os critérios de desempenho e
parâmetros estruturais do programa para o fim de setembro foram cumpridos.
O superávit primário do setor público consolidado no período de janeiro
a setembro de 2002 ultrapassou o critério de desempenho com larga margem, o
que nos permitirá atingir confortavelmente a meta anual. Todavia, a dívida
líquida do setor público foi superior à meta indicativa do programa em
virtude da depreciação da moeda. A taxa de inflação de 12 meses em
setembro estava abaixo do ponto médio das bandas de consulta do programa,
mas a expectativa de inflação elevou-se nos últimos meses. Por essa
razão, e de forma compatível com a natureza prospectiva da política de
metas de inflação, a política monetária tornou-se mais restritiva. A
taxa Over-Selic sofreu um aumento acumulado de 400 pontos-base desde meados
de outubro, e os requerimentos de reservas também foram elevados.
A política monetária está comprometida com o cumprimento da meta de
inflação de até 6,5% em 2003. Devido a efeitos estatísticos da
inflação em 2002, propomos que os pontos centrais das bandas de consulta
do programa para a inflação — e os respectivos limites para as bandas
inferiores e superiores de consulta — sejam ajustados para cima em 2
pontos percentuais, para 8,5% em dezembro de 2002 e 8,0% 7,5% e 7,0% em
março, junho e setembro de 2003.
- A manutenção de políticas econômicas
sólidas e o progresso continuado na agenda de reformas estruturais
garantirão a plena restauração da confiança do mercado nos próximos
meses. Não fosse a depreciação do real, a relação dívida/PIB já teria
começado a cair. Sem a restauração da confiança de mercado, as
políticas macroeconômicas teriam que ser revistas. Por exemplo, caso a
fraqueza da taxa de câmbio persistir, um ajustamento das políticas fiscais
em 2003 seria apropriado. Essa questão será melhor abordada durante a
próxima avaliação do programa, depois que o novo governo houver tomado
posse e houver tido a oportunidade de traçar sua estratégia fiscal. Por
conseguinte, não se propõem mudanças nos critérios de desempenho fiscal
delineados no Memorando Técnico de Entendimento que acompanhou nossa
solicitação de um programa com o FMI. No entanto, os tetos indicativos da
dívida estão sendo ajustados em conformidade com o cenário
macroeconômico atualizado, a saber: R$ 895 bilhões para o fim de
dezembro de 2002; R$ 915 bilhões para o fim de março de 2003;
R$ 905 bilhões para o fim de junho de 2003 e R$ 930 bilhões
para o fim de setembro de 2003.
- Durante o restante de seu mandato, o atual
governo está empenhado em trabalhar com o Congresso e o governo eleito para
avançar na aprovação de reformas estruturais fundamentais, quais sejam:
i) a emenda constitucional que abre caminho para uma nova lei que
estabeleça a autonomia operacional ao Banco Central, ii) a
legislação remanescente para instituir os fundos de previdência
complementar dos servidores públicos e iii) a medida provisória que
converte a contribuição social para o Programa de Integração Social
(PIS) num imposto sobre o valor adicionado (a promulgação dessa medida
constitui um critério de desempenho para o fim de dezembro nos termos do
programa). A nova base impositiva do PIS entrará em vigor em 1º de
dezembro de 2002 em caráter provisório, até que o Congresso aprove a
medida provisória expedida pelo governo em agosto último.
- O governo recém-eleito reiterou seu apoio ao
programa. Em seu primeiro pronunciamento à nação após as eleições, o
presidente eleito ressaltou que qualquer reorientação das despesas deve
respeitar a necessidade de manter a disciplina fiscal; sublinhou a
importância de manter a inflação baixa para proteger os rendimentos reais
dos pobres e enfatizou a necessidade de promover novos avanços na pauta de
reformas estruturais, com especial ênfase nas reformas tributária e
previdenciária. Declarações subseqüentes de porta-vozes do presidente
eleito repetiram esses temas e também assinalaram a importância de
desenvolver o arcabouço institucional para a autonomia operacional do Banco
Central. No futuro imediato, as autoridades do novo governo indicaram que
trabalharão com o governo atual para alcançar a aprovação das reformas
relacionadas no parágrafo 5.
- O governo acredita que as políticas descritas
nesta carta, bem como no Memorando de Política Econômica anterior, são
suficientes para garantir o cumprimento dos objetivos do programa, mas está
preparado para tomar medidas adicionais que venham a ser necessárias. As
autoridades brasileiras continuarão a manter o habitual diálogo franco com
o FMI a respeito de suas políticas econômicas.
Atenciosamente,
Texto da Carta de Intenção em
inglês (*)
| Pedro Sampaio Malan |
Armínio Fraga Neto |
| Ministro de Estado da Fazenda |
Presidente do Banco
Central do Brasil |
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