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Entrevistas
26/05/2003
Entrevista à
revista Veja: "Histeria
não baixa juros"
(Edição nº 1804 )
Eurípedes Alcântara e André Petry
Veja –
Nunca uma reunião do
Copom foi cercada de tanta pressão pela queda dos juros. Isso prejudica?
Palocci – É inadequado. Qualquer pessoa do governo pode e deve ter
opinião sobre a taxa de juros, mas o que não se deve fazer é insinuar, na
base da pressão, que o Copom tem de fixar esta ou aquela taxa em determinada
reunião. Não ajuda em nada histeria às vésperas das reuniões do Copom.
Todos estamos de acordo, governo e sociedade, que juro alto é danoso para a
economia. Os juros vão baixar, mas não com gritaria nos dias que antecedem
essas reuniões. As taxas de juro vão baixar porque estão sendo criadas no
Brasil as condições necessárias para que isso ocorra. Não vamos conviver com
taxas altas indefinidamente. Mas repito que não faremos nada por pressão política
e também não deixaremos de fazer nada apenas porque houve pressão. Vamos
fazer o que temos de fazer, tecnicamente. A política econômica tem um rumo
definido, e não vamos abrir mão desse rumo. Quem duvidar pode pagar para ver.
Veja –
Então o
vice-presidente José Alencar fez exatamente o que não deveria?
Palocci – Tenho ótimas relações com José Alencar. O que ele diz
fora do governo diz dentro também. Ontem mesmo (quarta-feira), pela manhã,
conversamos amigavelmente. Mas acho que, nesse caso, ele exagerou. Exatamente
porque fez pressão sobre uma reunião que estava por acontecer.
Veja –
Como se derrubam os
juros?
Palocci – Eu quero juros mais baixos. O presidente Lula também. Todo
mundo quer. A questão, porém, é que os juros são sempre, em qualquer
economia, decorrência do quadro geral do país. Não estão na esfera do
desejo. É um problema complexo, que tem implicações históricas. O Brasil não
possui uma boa história econômica. Os investidores lá fora não esquecem uma
moratória de um ano para o outro. Por isso, precisamos de tempo e, nesse tempo,
teremos de ser firmes e irredutíveis para provar cabalmente que, a partir de
agora, seriedade e estabilidade vão imperar. Daí porque, por exemplo, o
respeito aos contratos é tão importante.
Veja –
O debate econômico
no Brasil parece ter melhorado de qualidade. O senhor percebe isso?
Palocci – Penso justamente o contrário. O debate em alguns setores é
primitivo. Pressionar para mexer nos juros básicos, discutir a adequação de
uma política fiscal rigorosa ou a necessidade de combater a inflação e mesmo
debater a autonomia do Banco Central são questões superadas na maioria dos países.
Esses fatores são pressupostos da economia. Ninguém mais discute sua validade
ou necessidade. Em viagem ao exterior, quando converso com alguma autoridade
econômica sobre superávit primário, austeridade fiscal ou coisa parecida,
fico com a impressão de que meu interlocutor não está nem compreendendo aonde
quero chegar. Como se eu estivesse levantando um debate pré-histórico. Ninguém
mais questiona isso. O mundo discute microcrédito, financiamento. São essas
coisas concretas que levam ao crescimento e ao desenvolvimento. O resto é mero
pressuposto. Aqui, ainda achamos que política monetária pertence ao campo
ideológico, que ter ou não um Banco Central autônomo é uma questão ideológica.
Não é nada disso. Há bancos centrais independentes em países capitalistas ou
socialistas.
Veja –
Fala-se muito em fase
dois da economia. Ela virá?
Palocci – Existe a fase dois, mas não existe o plano B. A política
econômica é exatamente esta que estamos praticando, e vamos continuar com ela
até que, arrumada a casa, entremos na fase dois, que vem a ser a fase do
crescimento, do desenvolvimento, da geração de empregos, do aumento da renda.
É isso que estamos perseguindo. A fase agora é a de controlar a inflação,
reduzir ao máximo a instabilidade, produzir o máximo de credibilidade, arrumar
as contas do governo. Isso feito, entraremos na fase dois, de menor aperto monetário.
A fase dois é uma decorrência da fase um. O problema é que há setores que
querem inverter as coisas. Querem chegar à etapa do desenvolvimento, do
crescimento e dos empregos sem o ônus da primeira etapa. É preciso entender
que não haverá uma ruptura entre uma fase e a seguinte, não cortaremos uma
fita inaugural, não haverá um dia D de passagem para a etapa do
desenvolvimento. Ela virá como resultado do sucesso da sociedade brasileira na
fase dos ajustes.
Veja –
O governo de Fernando
Henrique pensava do mesmo modo, não?
Palocci – Acho que há várias diferenças. O rigor fiscal que o
governo do PT está adotando tem mais qualidade. Não penaliza a sociedade e
corta na carne as despesas do próprio governo. Isso é um avanço, e não um
aprofundamento da política econômica anterior. Além disso, no governo
passado, imaginava-se que, arrumada a casa e cumprida a primeira etapa, o
crescimento viria naturalmente, como que por gravidade. Nós achamos que,
enquanto a casa está sendo arrumada, é preciso pensar em ordenar o crescimento
que virá depois. Ou seja: temos de ter um projeto energético, pois, se faltar
energia, pára o desenvolvimento. Temos de definir os setores que merecem
investimentos públicos do BNDES. Não falo apenas de setores lucrativos, mas
daqueles que têm papel estratégico no desenvolvimento do país, ou que são
capazes de garantir um ciclo mais longo de desenvolvimento, ou das
microempresas, que têm papel relevante na economia. Temos de ordenar para que,
chegada a hora de alavancar o desenvolvimento, o país esteja preparado para dar
o salto.
Veja –
Os grupos que desejam
inverter as fases, começando pela segunda etapa sem antes cumprir a primeira,
existem dentro do próprio governo, não?
Palocci – É verdade, existem aqui e ali. Não existe nada organizado,
não vivemos uma divisão interna como houve no governo anterior, em que se
opunham Pedro Malan e José Serra. Isso não existe no governo atual. É
verdade, no entanto, que nem todos estão pensando do mesmo modo e ainda há
setores do PT que não acreditam, embora já devessem estar acreditando
fielmente, na orientação que estamos dando à política econômica do governo.
Veja –
Por quê?
Palocci – Durante a campanha, o PT fez uma inflexão muito intensa e
toda a sociedade brasileira viu isso. Só que alguns companheiros interpretaram
essa inflexão, particularmente quando lançamos a Carta ao Povo Brasileiro,
como se fosse uma jogada eleitoral. Na ocasião, eu me lembro de companheiros
falarem comigo, darem tapinhas nas costas e dizerem: "Bela jogada essa,
hein?". Na época, eu já dizia: "Esperem para ver, não é jogada
nenhuma, o que está dito ali é para cumprir". É o que estamos fazendo:
cumprindo o que dissemos na campanha. Descemos, inclusive, a detalhes. Até a
reforma da Previdência está no programa de campanha.
Veja –
Se o Brasil entrar
num círculo virtuoso de crescimento, o que mudará na política monetária?
Palocci – O que estamos fazendo agora é para arrumar a casa e,
portanto, não vamos mais tarde desarrumá-la. O que quero dizer é que a política
de austeridade fiscal, por exemplo, de controle severo das contas públicas, não
é uma política de emergência ou passageira. Ela veio para ficar. Neste
governo, queremos austeridade fiscal do primeiro ao último dia. Os demais
instrumentos de política monetária, como a política de câmbio, a política
de juros, enfim, vieram para ficar. Não estamos fazendo jogo de cena, nem vamos
desarrumar a casa depois. Isso seria uma loucura.
Veja –
Por que essa tarefa
coube logo ao PT?
Palocci – Tivemos a honra de ganhar a eleição, mas há um detalhe
interessante: só a esquerda é capaz de fazer certas reformas no Brasil. Estou
convencido de que para o Brasil, incluindo aí o povo brasileiro e também o
mercado brasileiro, é melhor ter um governo de esquerda que um governo de
centro. Isso porque a esquerda tem uma interlocução social, tem uma
legitimidade social que lhe dá condições objetivas de reformar. O governo
anterior quis, com sinceridade, fazer a reforma da Previdência. Mas não
conseguiu. Nós faremos.
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