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Entrevistas
12/02/2003
Entrevista à Veja: "Abaixo o
esquerdismo"
(Edição nº 1789)
Alvo preferido dos
radicais do PT, o ministro da Fazenda explica aos companheiros por que "a
vida é dura"
Thaís
Oyama
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Antonio Milena

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Palocci:
"Pacotes e invencionices eu me recuso a apoiar. Para uma economia
com estabilidade, tem de ter paciência"
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Veja – O senhor vem sendo
acusado por colegas de partido de ser o grande representante de um continuísmo
da política do governo Fernando Henrique. Como se sente na condição de
besta-fera do PT?
Antonio
Palocci – Besta-fera? Já está assim, é?
Veja, nós fizemos um programa para governar, não para ganhar a eleição. A
partir daí, nós nos colocamos questões novas e fizemos uma inflexão política,
considerando que para ir do Brasil de hoje para o modelo que buscamos
historicamente é necessária uma transição. Não há hipótese de fazer essa
transição de uma maneira que não seja segura e gradual, não há hipótese de
fazê-la sem usar elementos da antiga política e, em especial, não há hipótese
de que essa transição se dê sem alguns elementos que são permanentes em
qualquer projeto de governo. Por exemplo, o bom senso indica que qualquer
projeto pressupõe orçamento equilibrado. O bom senso indica que, se você tem
dívidas, tem de arrecadar mais para pagar essas dívidas; e o bom senso indica
que, se você tem um país que está vulnerável, tem de investir na
credibilidade desse país. São coisas que qualquer modelo de desenvolvimento
tem de preservar.
Veja –
Se
essas posições foram suficientemente discutidas dentro do PT, por que alguns
setores estão se insurgindo contra elas agora?
Palocci – Talvez
porque eles acreditem que, tendo apoio popular, temos um espaço para mudanças
bruscas e devemos aproveitá-lo. Mas eu estou muito convicto, e sei que o
presidente também está, de que as mudanças têm de ser feitas com segurança
no Brasil. Existe, no mundo de hoje, uma aversão completa a riscos. O que temos
é um quadro de total restrição. Então, nós temos de operar a construção
de um novo projeto nesse quadro de restrição, o que é difícil. As pessoas do
PT que têm uma visão de mudança a curto prazo talvez estejam desprezando os
riscos que essa postura embute.
Veja
– Por convicção ideológica?
Palocci
– Também, claro. Eu já fui da
esquerda do PT e entendo perfeitamente os argumentos deles. Mas, muitas vezes,
acho que falta uma certa compreensão, inclusive técnica. Por exemplo, num
debate a que fui, um deputado reclamou que não mexíamos no câmbio. Chegou a
dizer que o governo anterior intervinha mais no câmbio do que nós estamos
intervindo agora, como se isso fosse uma prova de que estávamos à direita
dele. Eu disse: "Olha, se eu puder não intervir nada no câmbio, eu vou
ficar muito feliz". Porque, obviamente, isso quer dizer que o câmbio está
se comportando adequadamente. Você intervém no câmbio quando está numa situação
de crise. Mas, para alguns, isso é sinal de ação governamental.
Veja
– O senhor sentiu-se traído
por ter sido grampeado no encontro com a bancada do PT?
Palocci – Isso eu
lamentei, sim. Acho que foi um rebaixamento do processo político. Seria mais
digno que essa pessoa que fez a gravação tivesse proposto um debate aberto. Já
participei de muitos assim. Agora, com o debate em si, não tive nenhuma chateação.
Já fiz outros muito mais duros que esse. Quando fiz os processos de abertura de
capital em Ribeirão Preto, os debates foram muito mais duros.
Veja –
O
senhor foi chamado de neoliberal, como agora?
Palocci
– Neoliberal foi o adjetivo mais
suave que me dedicaram.
Veja
–
Uma das críticas petistas
refere-se ao fato de o governo ter mantido na direção do Banco Central a
funcionária Tereza Grossi (acusada de irregularidades na época da desvalorização
do real) . Por que o governo tomou essa decisão?
Palocci
– O governo decidiu fazer uma transição
com a atual diretoria do Banco Central.
Veja
–
E Tereza Grossi veio no pacote?
Palocci
– Não é que veio no pacote. Foi
uma decisão tomada. Agora, o presidente Henrique Meirelles, ao longo dos meses,
vai nos propor eventuais mudanças que ele julgue necessárias.
Veja
–
O senhor não se sente
desconfortável por manter uma diretora que foi reiteradamente acusada pelo PT ?
Palocci
– Não, não me sinto. Discutimos
que haveria uma transição com a atual diretoria. Foi uma decisão tomada.
Agora, há algumas pessoas que querem agravar o debate em cima disso e o fazem.
Isso, para mim, não é importante.
Veja
– Se o senhor tivesse um minuto
para convencer a senadora Heloísa Helena de que o governo está na direção
certa, o que diria?
Palocci
– Eu pediria para ela
ver os números.
Veja
–
Que números?
Palocci
– Na véspera da eleição, o risco
Brasil estava a 2 400; o dólar chegou a quase 4 reais. O país não rolava título
nenhum e o mundo inteiro dizia que iríamos para o default. Essa foi a realidade
que nós pegamos. Começamos a transição e o resultado está aqui: o risco
Brasil caiu à metade, nós vendemos nossos papéis com extrema naturalidade,
rolamos toda a nossa dívida no período e estamos intervindo bem menos no câmbio,
embora isso pareça desagradar a algumas pessoas. Se alguém tiver alguma mágica
para fazer melhor, que me diga. Eu não tenho. Pacotes e invencionices que só têm
efeito de curto prazo eu me recuso a apoiar. Quem quer uma economia com
estabilidade de longo prazo tem de ter paciência. Tem de saber que a vida é
dura.
Veja
–
O discurso dos radicais
petistas é que o governo está governando para o mercado.
Palocci
–
Essa questão é fundamental: nós
não estamos aqui administrando para o especulador nem para o mercado. Nós
lidamos com o mercado, mas não administramos para ele. Estamos pensando no
povo, que é quem sempre paga a conta dos acertos e desacertos do governo. Em
todos os pacotes que deram errado, quem pagou a conta não foi o especulador.
Foi o seu João, que perdeu o emprego. Então, é preciso que essas pessoas
entendam que o que nós estamos fazendo é um movimento no sentido de melhorar
as contas do Brasil para que isso se reflita na vida das pessoas. Não é para
fazer bonito para o mercado, para atrair especulador. Até porque especulador
gosta é de confusão, não de estabilidade. E nós estamos investindo contra a
confusão.
Veja
– O senhor já foi membro da
Libelu (organização trotskista incorporada ao PT) e agora faz parte da ala
moderada do partido. O que aprendeu nessa experiência?
Palocci
– Aprendi que você pode ser de
esquerda, mas não pode ser esquerdista. Isso quer dizer que você não pode
deixar suas concepções ideológicas dominarem sua prática. Eu já defendi, no
passado, a estatização do sistema financeiro e dos transportes coletivos, por
exemplo. Mas, quando você começa a governar, vê que essas coisas não
funcionam na prática.
Veja
– O presidente Lula hesitou muito
antes de concordar com o aumento da meta de superávit?
Palocci
– O presidente Lula não é um
presidente de decisões apressadas. Felizmente, porque os líderes de decisões
apressadas mudam muito de decisão. Ele é movido a argumentos. Prefere sempre
amadurecer uma decisão e, quando a toma, ela é muito sólida. Com isso, eu vou
duas vezes por dia ao palácio e, às vezes, chateio o presidente falando sobre
o mesmo assunto várias vezes.
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