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Entrevistas
25/03/2004
Entrevista à
revista Exame: "Os
pilares não podem mudar"
(Edição de 25/03/04)
O ministro Antônio Palocci descarta qualquer plano
B e diz que só há uma solução para a economia: a solução clássica
Germano Lüders
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Palocci: "Precisamos dar
ao empresário segurança
para investir"
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Por André Lahóz, Cláudia Vassallo e
Eduardo Oinegue
EXAME
- Desde que assumiu o Ministério da Fazenda, não se pode dizer que Antônio
Palocci tenha conhecido dias tranqüilos. Há a pressão dos colegas e dos
aliados por verbas, o debate em torno da qualidade do trabalho que ele comanda,
e o tal plano B, que não existe no papel, mas é defendido por muitos de seus
pares em Brasília. O plano B consiste em convencer o presidente Lula a mudar a
política econômica. Palocci já havia se habituado a esse jogo, mas surgiu um
dado novo nos últimos dias, quando aliados do governo passaram a defender não
apenas mudanças na condução dos trabalhos na Fazenda. Eles querem a cabeça
do próprio ministro. Na sexta-feira, 19, ao voltar de uma viagem ao exterior,
Palocci recebeu EXAME para uma entrevista. Disse que o momento político
desfavorável não tem força suficiente para alterar sua pressão arterial (de
11 por 7), nem para alterar a política econômica, mas pede: "Chega de
intrigas, me deixem trabalhar". Eis a entrevista:
EXAME - Há algum tempo, o problema do governo Lula eram os radicais do PT,
que confrontavam os racionais, ala representada pelo senhor e pelo ministro José
Dirceu. Agora, em vez de debate ideológico, o governo enfrenta denúncias de
corrupção envolvendo um ex-assessor seu e um ex-assessor de Dirceu, acusados
de patrocinar uma patifaria. O que está acontecendo na Esplanada?
Palocci - O que está acontecendo chama-se eleição. Num ano
essencialmente político, as tensões, pressões e reivindicações são
maiores, e de certa forma se ampliam no governo do PT, um partido que sempre foi
muito aberto, democrático, tolerante com o debate político. Muitos políticos
estão mais emocionados. O importante é que o Brasil tem instituições fortes
e maduras. Se há denúncias no campo ético, os órgãos responsáveis devem
investigar. O governo não pode ficar paralisado por isso. O presidente Lula
espera ação dos integrantes do ministério. O mundo de hoje é muito
competitivo, não tolera e não aceita países que patinam em vez de tomar decisões.
EXAME - O senhor se refere às denúncias como se fossem fruto da
politicagem, não indicação de irregularidade. Mas há depoimentos e gravação
sustentando as acusações contra os ex-auxiliares.
Palocci - No que se refere à denúncia sobre o contrato da Caixa Econômica
Federal com a Gtech, a tal que envolve um ex-assessor meu, garanto que é apenas
politicagem. Não há irregularidade. Tive uma conversa muito clara com o
presidente da Caixa, o Jorge Matoso, pessoa de extrema seriedade, de grande
competência técnica. Ele informa que, da porta do banco para dentro, o
contrato cuja lisura está em discussão na imprensa ocorreu dentro dos
procedimentos normais. Se alguém fez alguma coisa errada do lado de fora da
Caixa, o Ministério Público e a Polícia Federal vão apurar.
EXAME - Que recado o senhor mandaria ao empresário que agora está se
perguntando se a denúncia vai chegar ao José Dirceu ou ao Palocci?
Palocci - Peço encarecidamente a todos: chega de intrigas, me deixem
trabalhar. A mim, ao José Dirceu e aos demais integrantes do governo. Ninguém
está livre de ter um ex-auxiliar envolvido em alguma história imprópria. Se
eu tiver de me preocupar com o que estão fazendo agora aqueles que serviram a
meu lado no passado, não conseguirei trabalhar. Para que eu possa me concentrar
naquilo que realmente interessa, vou ignorar discussões de natureza avessa à
minha pasta. Recomendo o mesmo aos empresários. Concentrem-se nas suas
atividades. O agente econômico que se deixar paralisar por denúncias vai ficar
para trás.
EXAME - O empresário não fica parado porque quer. Ele teme que as
denúncias respinguem na economia e prejudiquem seu negócio.
Palocci - Respeito o temor do setor produtivo, preocupado com um tipo de
conturbação do cenário que pode jogar expectativas para trás. Isso pode
fazer com que a retomada do crescimento seja mais claudicante, quando ela
poderia se dar de maneira mais vigorosa. Embora admita que os ruídos políticos
possam prejudicar uma retomada mais vigorosa, não acho que sejam mais fortes do
que o processo econômico em si.
EXAME - Mesmo quando políticos da base aliada pedem a sua cabeça e
um grupo de colegas de ministério pressiona por mais verbas?
Palocci - Houve duas referências à parte superior do meu corpo nos últimos
dias. Uma foi feita pelo presidente do PL, o deputado Valdemar Costa Neto, que
pediu a minha demissão. Trata-se de uma posição de confronto em relação à
política econômica. Esse tipo de declaração tem de ser tratada no campo da
política. Quem não é aliado não é aliado. A outra declaração falando
sobre o meu pescoço partiu do senador Tasso Jereissati, que defendeu minha
permanência no governo. Acho que estou no lucro. Agora, quanto aos colegas de
ministério, não me preocupa quando cobram liberação de verbas ou melhoria de
posições no plano econômico. Do ponto de vista pessoal, apesar dos comentários,
minha pressão arterial continua 11 por 7. Quando aceitei o ministério, sabia a
dimensão do desafio que iria enfrentar. O problema é que o excesso de falação
cria um ambiente ruim. Surgem os questionamentos que colocam em dúvida os próprios
indicadores nacionais. Precisamos evitar isso.
EXAME - De que forma o governo vai evitar isso, se não consegue
sequer montar um discurso ordenado, que evite confrontos e acusações internas?
Palocci - Temos de relativizar o ambiente de confusão. O PT favorece o
debate aberto, que muitas vezes parece conflituoso. Não considero negativa a
pressão para que o governo faça algo melhor. Governo que não enfrenta esse
tipo de pressão tende à letargia. É diferente quando o discurso empregado diz
que a economia tem de mudar. O Brasil se financiou no passado de três maneiras:
com inflação, com o aumento do endividamento e com aumentos de carga tributária.
Já sabemos o que acontece no fim do filme. O povo paga uma conta extraordinária
por essas invenções. Por isso não tem o Plano Lula ou o Plano Palocci. O que
tem é um ajuste clássico na economia, coisa simples, sem invenções. E essa
maneira clássica de fazer é mais lenta, mais sofrida, mais angustiante. Mas
ela é também a mais consistente.
EXAME - Um terço do governo Lula já se foi. Falta pouco mais de dois
anos para acabar o mandato. Como viabilizar o espetáculo do crescimento num
prazo tão curto?
Palocci - O primeiro ano do governo foi marcado por uma política de
fortes ajustes, sem os quais estaríamos convivendo com inflação elevada e
economia caótica. As medidas adotadas tiveram ação saneadora, mas não
produziram grandes notícias. Elas devem surgir agora. Este é o ano de
favorecer investimentos. Se o governo fizer isso, o país tem tudo para voltar a
apresentar taxas de crescimento altas no próximo período.
EXAME - O que o senhor chama de taxa alta de crescimento?
Palocci - Acredito que algo em torno de 5% nos recoloque num patamar de
crescimento adequado. Se puder ser mais, melhor.
EXAME - Para quando o senhor prevê essa taxa de crescimento?
Palocci - Não faço previsões. Minha tarefa é trabalhar para que o cenário
se concretize. Muitas vezes o Brasil se consome em grandes debates, como esse
que discute se o crescimento de 2004 vai ser de 3,4% do PIB ou 3,6%. Ou quem
sabe 3,7%. O número fechado não importa. O importante é que nos concentremos
em dar ao empresário segurança para investir.
EXAME - Infelizmente, ministro, fica a sensação ruim de que o
governo não está dando conta dessa missão.
Palocci - É muito mais complexo ordenar a agenda do crescimento do que a
agenda do ajuste. As discussões do ano passado foram duras, mas tudo se
resolvia rapidamente. Decidir aumentar o superávit primário de 3,75% para
4,25% do PIB consumiu duas reuniões do governo. Já para colocar de pé o
projeto de estímulo à construção civil investimos três meses de diálogo
dentro e fora do governo. Temos de cuidar do crédito, do spread bancário, do
mercado de capitais, da construção civil, dos contratos, das leis de falência,
do marco regulatório. A lista é extensa. Mas o Brasil pode ficar tranqüilo. Não
falta competência técnica à equipe montada pelo presidente Lula. E, ainda que
não no volume desejado, o governo tem mais dinheiro no orçamento de 2004, e
poderá investir três vezes mais do que investiu em 2003.
EXAME - O governo tem mais dinheiro em caixa porque a carga tributária
atingiu um patamar europeu. De acordo com um estudo recente, apenas os
dinamarqueses recolhem mais impostos sobre salários do que os brasileiros. Como
justificar isso?
Palocci - Não escondemos que a carga tributária está num nível alto.
Ao chegar ao governo, no entanto, o presidente Lula assumiu dois compromissos.
Um, de não aumentar a carga. O outro, de modificar a qualidade dos impostos,
para poder reduzi-los no médio e longo prazos. Estamos cumprindo o prometido.
Isso em si é uma boa notícia. Todos os ajustes feitos pelo governo federal nos
últimos dez anos baseavam-se em pacotes tributários. O nosso foi o primeiro
ajuste feito sem pacote tributário. No médio prazo, não é possível reverter
o quadro e baixar a carga porque existe uma dívida pública que precisa ser
rolada.
EXAME - Há outro ponto que atravanca o desenvolvimento, mas que não
tem ligação com a necessidade de financiamento do Estado. É a burocracia.
Qual é a explicação para o governo não ter feito nada sobre isso até agora?
Palocci - Temos um trabalho já em fase de conclusão que envolve órgãos
do governo federal, além de estados e municípios. A idéia é simplificar os
registros necessários à abertura de uma empresa. Queremos montar um sistema
pelo qual a Receita Federal e as Juntas Comerciais criem um sistema único no país
inteiro. A Receita trabalha nisso e já assinou convênio com 14 estados. Os
demais também entrarão. Em seguida, serão assinados convênios com todos os
municípios.
EXAME - O empresário poderá resolver tudo num único lugar?
Palocci - Ele não precisará ir a lugar algum. Fará a abertura da
empresa via internet, de casa. Precisará de apenas meia hora. Logo após o
cadastramento, o novo empresário já começará a operar mediante um registro
provisório. Depois, enviará os papéis à junta comercial e ganhará um número
definitivo. Uma segunda coisa que faremos contra a burocracia será combater a
informalidade por meio do estímulo ao empreendedorismo. Do jeito que as coisas
funcionam hoje, o cidadão olha o custo de se formalizar e não se arrisca.
Estamos criando a figura da empresa-cidadão, menor ainda do que a microempresa.
Sabe qual é o imposto que essa empresa formada por uma pessoa só vai pagar?
Nenhum. Somente se ela tiver uma renda grande no seu negócio vai recolher
imposto de renda.
EXAME - É bom saber que abrir uma empresa ficará mais ágil, e que
os pequenos poderão se formalizar. Mas e crédito para essa gente toda?
Palocci - Não desconhecemos que exista uma relação direta entre taxa
de juro e crédito, dívida pública e crédito. Mas é possível estudar formas
de estimular o empréstimo. Atualmente, os agentes financeiros trabalham
baseados num instrumento que rastreia os maus pagadores. Não existe no país um
instrumento que informe quem são os bons pagadores, com poder de até induzir a
redução do spread bancário. Essa nova lista, de cunho positivo, pode promover
a disputa no sistema de crédito. Quem não quer ter em sua carteira um bom
cliente? O novo sistema deverá ficar pronto em dois meses, no máximo. Outra
mudança em estudo atinge o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
EXAME - O que vai mudar?
Palocci - Vamos fortalecer o órgão, propor que o mandato de seus
membros suba de dois para quatro anos e mudar o ângulo da avaliação.
Atualmente, o julgamento a respeito das fusões e aquisições é feito após a
transação ter sido concretizada. E assim surgem situações como a da Nestlé
e da Garoto. Independentemente do mérito da decisão em torno do destino da
Garoto, a decisão levou dois anos e meio para sair. Vamos inverter isso. As
empresas pedirão autorização para fazer determinada aquisição, e o sistema
vai ter 90 ou 120 dias para responder sim ou não.
EXAME - Existe alguma chance de o Brasil conhecer uma nova política
econômica, o tal plano B, com o velho Palocci?
Palocci - Não sou daqueles que acham que ninguém pode dar opinião. Só
uma coisa precisa ficar bem clara: os pilares da política econômica não podem
ser alterados. Isso quer dizer que continuaremos orientados pelo superávit,
pela preocupação em colocar a dívida em ordem, em trabalhar pelo sistema de
metas de inflação, em ter câmbio flutuante, em seguir a Lei de
Responsabilidade Fiscal. Essas questões não podem mudar.
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