Entrevistas

31/03/2004


Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo: "A inovação no centro da política industrial"
 (Edição de 31/03/2004)

Antônio Palocci Filho
Ministro da Fazenda

Luiz Fernando Furlan
Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Eduardo Campos
Ministro de Ciência e Tecnologia

José Dirceu de Oliveira e Silva
Ministro-Chefe da Casa Civil 
 


A política industrial, tecnológica e de comércio exterior que o governo lança hoje tem como foco impulsionar a inovação como fator decisivo para o desenvolvimento. No mundo contemporâneo, a capacidade tecnológica de um país é o fator determinante da sua competitividade nos mercados globais.

Para tanto a mudança e a inovação são essenciais e elas só podem ocorrer a partir da interação entre criadores e usuários de conhecimento. Isso deve expressar-se em novos produtos, processos, gestão e patentes.

Durante os últimos 25 anos, o Brasil só teve políticas fragmentadas, localizadas nessa área. Os poucos recursos públicos não foram utilizados dentro de um planejamento capaz de integrar as ações do governo, das empresas, dos institutos de pesquisas e das universidades. Hoje, o desafio consiste em concentrar os limitados recursos financeiros públicos e canalizá-los para áreas prioritárias; atrair o interesse dos industriais para as vantagens da pesquisa industrial; sincronizar as atividades da universidade, dos institutos de pesquisa e da indústria; aumentar o número e melhorar a qualidade do capital humano envolvido; facilitar e reduzir o ônus da utilização de produtos e processos patenteados, entre outras medidas.

Nas últimas décadas, o Brasil mudou muito, modernizou-se, mas continua com a necessidade objetiva de ter um enfoque adequado em pesquisa industrial. O documento, já divulgado pelo governo, intitulado Diretrizes de Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior visa a preencher essa lacuna, a partir de duas questões: a inovação como motor do desenvolvimento e a integração das ações governamental, pública e privada.

Padecemos, ainda hoje, do diagnóstico feito há 40 anos por um texto do Conselho Nacional de Pesquisa que apontava um conjunto de providências para aumentar a competitividade, por meio da pesquisa industrial: "Entre as razões que impedem o desenvolvimento agressivo da pesquisa industrial no Brasil, figura o mal-entendido de que a pesquisa industrial deve ser realizada principalmente, ou mesmo exclusivamente, em instituições tecnológicas e laboratórios universitários, ao invés de constituir atividade das próprias empresas industriais." É certo que os institutos melhoraram e que algumas empresas já se apóiam de forma importante em pesquisas próprias ou em pesquisas feitas em comum com institutos públicos e privados.

Entretanto, é amplamente sabido que nos encontramos distantes de padrões satisfatórios de pesquisa de tecnologia industrial, nas empresas ou nos institutos e universidades. As firmas investem pouco em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e os institutos públicos têm reduzida autonomia, quase nenhuma flexibilidade administrativa e baixa orientação para buscar resultados no mercado. Mesmo assim, é certo que o Brasil desenvolveu um ambiente rico de pesquisas, formando a maior comunidade científica da América Latina.

Não cabe aqui culpar empresas e institutos de pesquisa, pois é difícil desenvolver um trabalho eficiente de pesquisa sem um ambiente propício e permanentemente voltado para a inovação. Queremos dar um primeiro passo nessa direção, criando um diálogo sistemático com o setor empresarial e acadêmico e articulando políticas consistentes, de modo a mobilizar eficientemente os recursos disponíveis, definir instrumentos e remover os gargalos que impedem o curso adequado da política industrial e tecnológica.

Não fazemos tábula rasa do passado, mas é notória a dispersão de forças no Estado brasileiro. São raras as empresas do país que têm projeção internacional e acesso aos mercados globais. Da mesma forma, temos perdido terreno a cada ano ante outros países, que conseguem progredir no registro de patentes e na inovação de produtos, enquanto nossa base industrial se tem mantido relativamente estagnada nesse terreno.

Nesse quadro, a política industrial, tecnológica e de comércio exterior busca simplificar os procedimentos do setor público; canalizar os recursos públicos disponíveis para áreas prioritárias; criar as condições de crédito e tributárias que, em consonância com a evolução da estabilidade fiscal do País, estimulem o investimento privado e a competitividade das empresas, entre outras providências.

Com esses objetivos, vamos atuar para evitar a dispersão de forças no governo. Por exemplo, hoje, os procedimentos para a aprovação de um PPB industrial (Processo Produtivo Básico) requerem o exame de três ministérios (Fazenda, Desenvolvimento e Ciência e Tecnologia), em prazos que chegam a três meses, com o escrutínio de algumas dezenas de pessoas e a assinatura dos três ministros da área. É mais do que saudável a simplificação de todo esse processo, com regras eficientes de análise e despacho técnico.

Também pretendemos modernizar instrumentos de crédito para trabalhar com novas realidades. Uma empresa de software, por exemplo, está presa à necessidade de apresentar garantias reais para receber financiamentos, quando o seu bem é intangível, produto da inteligência aplicada. Vamos proceder a uma análise sistêmica desse tema, em conjunto com o setor privado, de forma que os mecanismos de crédito se tornem efetivos e ajudem no desenvolvimento da competitividade dessas firmas.

O fundamental, agora, é reconstruir a capacidade de o País desenvolver uma política industrial e tecnológica articulada e voltada para resultados. O velho modelo de substituição de importações se esgotou ainda nos anos 1970 e nada de novo foi colocado no seu lugar. Apenas nos últimos anos do governo anterior emergiu uma política tecnológica adequada, embora de baixa integração com as instituições responsáveis pela política industrial.

Agora, buscaremos articular uma política de Estado que valorize os ganhos obtidos, disponha de novos instrumentos e articule as ações de governo em todas as suas esferas. Nosso governo está agindo para melhorar a eficiência das políticas públicas e agora vamos buscar uma interação nova com a indústria e os serviços de modo a desenvolver o mercado interno e a inserir as empresas nacionais competitivamente no mundo, reforçando a capacidade do País de atrair investimento externo produtivo, gerar empregos e distribuir renda.


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