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BRASÍLIA - Entre algumas
garfadas de filé com fritas, farofa e arroz, o ministro Antonio Palocci
deu ontem uma entrevista ao Estado. Revelou que o governo não fará
nenhuma intervenção heterodoxa no câmbio. Não vai impor controles na
entrada de capitais, como os que a Colômbia acaba de adotar. Também não
entram em cogitação nem uma retenção temporária dos dólares que
fossem apresentados para ser trocados por reais nem a cobrança de um IOF
na venda de moeda estrangeira - como alguns vêm pedindo.
Disse, também, que as
autoridades dos países ricos vão centrar o ajuste que vai sendo pedido
pela crise de confiança no dólar em medidas predominantemente fiscais
(controle dos recursos públicos) e não na coordenação dos mercados de
câmbio, como a que aconteceu em 1985, quando saiu o acordo do Hotel
Plaza, de Nova York. Em princípio, o câmbio internacional "vai
continuar solto".
Palocci mostrou também que é contra a intervenção na Varig. Quer uma
solução "de mercado". E passou elementos de como um
ex-trostkista, como ele, convive com os ex-stalinistas instalados no
governo. A seguir, os principais pontos da entrevista:
Neste ano foram muitas as pressões do PT contra sua política. Em
algum momento o senhor temeu que o presidente Lula optasse por um plano B?
Esta política não é minha; é do presidente. Este é um regime
presidencialista e, se o presidente Lula optasse por mudar a política, eu
a mudaria. Mas em nenhum momento ele vacilou sobre isso.
Os críticos dizem que o sr. coloca em prática a política do governo
FHC e do FMI. Há diferenças ou é tudo a mesma coisa?
Não me incomoda dizer que, em alguns aspectos a atual política mantem
pressupostos do segundo período do governo anterior. Mas o resultado
fiscal do nosso governo é melhor. O presidente Lula não se conteve no
sucesso econômico. Sua polítca está associada a novas medidas de inclusão
social que fazem a diferença. Exemplo: políticas de microcrédito, crédito
em folha de pagamentos, seguro para o pequeno produtor rural. A questão
dos pobres é parte da política econômica.
O que o sr. encontrou da chamada herança maldita?
Encontramos uma situação grave: risco alto, inflação alta, a dívida pública
no limite e a carga tributária, também. O País estava sem crédito para
exportação...
Mas o que se diz é que estava assim porque o mercado temia que o PT no
governo faria o diabo com a economia...
Tendo ou não um elemento eleitoral na crise, o que importava não era a
explicação mas a situação, e esta era dramática.
O presidente Lula e o sr. têm ouvido de gente amiga que esta é uma
política neoliberal, teleguiada pelo FMI. E que o governo PT está
traindo a classe trabalhadora. Isso dói em quem foi revolucionário, como
o sr.?
Nosso governo não é só arrocho. Os resultados estão saindo. Tem o
crescimento econômico, a indústria paulista está batendo recordes de
produção, a balança comercial tem enorme superávit...
Mas eles acham que o interesse do trabalhador está sendo passado para
trás...
Vejo isso com compreensão. Não fazem isso de má fé. Nossa história
teve muito de mágicas, que parecem dar certo no curto prazo mas a conta
vem depois. Não dá para resolver com tablita, banda diagonal endógena e
macumba. Este é um ajuste clássico que não deixa conta para o futuro.
Os críticos que previram crise cambial não fizeram a autocrítica.
As esquerdas do Chile e da Espanha aprenderam rapidamente que nenhuma
política social é sustentável sem rigoroso equilíbrio fiscal. Por que
as esquerdas brasileiras insistem nas gambiarras e nas mágicas?
Eles não entenderam ainda que a maior vítima é a área social. Desequilíbrio
social gera perda social; esforço fiscal libera recursos para projetos de
infra-estrutura e para projetos sociais.
O que d. Antônia, sua mãe, que é uma ativista, pensa das opções de
política econômica de seu governo?
Sobra tão pouco tempo para conversar de filho pra mãe e de mãe pra
filho que falo pouco sobre isso. Mas ela faz um trabalho social elogiável
e tem noção da importância do equilíbrio fiscal.
O que de sua cultura trotskista trouxe de útil para a condução da
política econômica?
O trotskismo me ensinou o valor da democracia e do contraditório. Foi lá
que aprendi a importância de uma boa peleja política, o que me ajuda a
enfrentar a crítica com abertura.
Serviu, também, para lidar melhor com os ex-stalinistas no governo?
As categorias políticas das esquerdas mudaram. O PT criou um ambiente
novo, superior às idéias desse tempo...
Por que a política social do governo não consegue decolar?
Ela está decolando, embora isso ainda não esteja sendo percebido.
Estamos falhando em mostrar isso. Veja a reforma agrária. O que melhor se
fez neste governo nessa área foi o Pronaf, o programa de atendimento à
agricultura familiar. Foi criado um seguro bancado pelo Tesouro para o
pequeno agricultor. Isso vai trazer muito mais resultado do que o volume
de assentamentos. O País assentava 50 mil, mas o campo perdia 100 mil que
já estavam lá.
O sr. é o administrador do cofre e ficou conhecido pela austeridade.
Mas neste fim do ano as despesas estão explodindo. O sr. está perdendo
controle?
Nós não tínhamos como avaliar os números. No ano passado, por exemplo,
pareceu que a carga tributária estava chegando aos 40% do PIB. Revistos
os números, conferiu-se que foi o PIB que subiu, e não a carga. Na nossa
avaliação, neste ano houve uma despesa maior com o funcionalismo, mas
foi um gasto bem administrado. Em proporção ao PIB, não houve grande
mudança. Mas dá para melhorar na qualidade do gasto público e o
Planejamento está cuidando disso. É preciso pôr mais dinheiro no
investimento e menos no custeio. Não é tirar do social; é melhorar o
gasto também no social.
Muita gente dentro e fora do governo está dizendo que a meta de inflação
do ano que vem é ambiciosa demais, o que obriga o BC a puxar demais pelos
juros, o que prejudica o crescimento. Como o sr. responde a essa gente?
A história não mostra que mais inflação leva a mais crescimento. Mais
inflação vai corroer a renda dos mais pobres. Este governo não tolera
inflação não só por opção técnica mas por opção política. É o
povo que não tolera a inflação e alija do poder o governo que não leve
isso a sério. Nos dois últimos anos, o BC tem acertado.
Outra crítica é a de que a política de metas de inflação é um
freio de mão num automóvel. Serve para segurar um carro parado mas não
para freá-lo a 120 por hora. Não é preciso dar uma ajuda à política
de metas para obter mais eficácia no controle da inflação?
O sistema de metas de inflação não é perfeito; tem suas deficiências.
Mas é o melhor que existe.
A gente pode não gostar do professor Gustavo Franco. Mas quando esteve
à frente do BC executou uma política de Estado. E, no entanto, agora ele
está sendo responsabilizado criminalmente por isso. O que o sr. acha
disso?
Essa decisão tem forte componente político. Tenho confiança em que os
deputados e senadores serão capazes de separar o que é jogo político de
eventual procedimento inadequado. Nesses dois anos de governo não deparei
com atitudes de governantes que nos antecederam que tenham agido de má fé.
Podem ter tido escolhas diferentes, mas agiram tendo em vista o interesse
público.
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