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Entrevistas
26/05/2003
Artigo publicado na revista Época: "Também quero
crescer"
As condições para baixar os juros estão sendo criadas
Antonio Palocci
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu na quarta-feira
um grupo de dez dos maiores empresários brasileiros para falar sobre
investimento em infra-estrutura para o crescimento econômico. 0 presidente
propôs parcerias entre o governo e empresários para que importantes
investimentos sejam feitos com a mobilização de capitais nacionais e também
com a atração de recursos externos.
0 encontro ocorreu no mesmo dia em que o Copom decidiu manter
inalterada a taxa básica de juros, a Selic, em 26,5% ao ano. Um cidadão
brasileiro desinteressado em embates políticos poderia perguntar,
legitimamente: não existe aí uma contradição? Como crescer se o juro é
reconhecidamente alto para empréstimos de longo prazo e para o capital de giro,
especialmente de pequenas empresas?
É preciso, nesse delicado assunto, não tomar a nuvem por
Juno. Nosso país está saindo de uma das mais sérias crises dos últimos anos,
maior até que a vivida na desvalorização do real, em janeiro de 1999. A
credibilidade de nosso país teve de ser resgatada. No plano econômico o Brasil
já fez tabelamentos e tablitas, moratórias externa e interna, câmbio fixo ou
flutuante, macumba e vodu. Todas essas experiências nos ensinam que a
estabilidade econômica é fruto do esforço sereno e permanente no campo fiscal
e monetário. Regras claras, transparentes. Sem mágicas. Colocamos a casa em
ordem no câmbio e nas contas do governo, lançamos o programa de reformas
previdenciária e tributária e melhoramos sensivelmente as condições de
financiamento de nossa economia, com a queda do risco país de 2.400 pontos para
cerca de 800 pontos. É preciso consolidar responsavelmente esse quadro.
Tenho dito que derrotamos a ameaça de descontrole
inflacionário, mas que a inflação ainda inspira grandes cuidados. A
inflação é o principal fator de corrosão da renda das famílias que menos
ganham e também a grande ameaça à retomada do desenvolvimento sustentável. A
melhora da distribuição de renda e emprego, com políticas sociais e de
educação decididas, é inseparável da retomada do crescimento. No momento, o
Copom julgou necessário manter as taxas de juros, mas está claro que as
condições para uma reversão das mesmas estão sendo criadas.
Nossa atenção está concentrada, agora, em definir
políticas inovadoras que tornem o país mais competitivo no mundo. Na última
década a vulnerabilidade externa do país aumentou muito fortemente, sem que
tivéssemos ampliado nossa presença no mercado internacional, com exceção dos
extraordinários progressos obtidos no agronegócio. 0 Brasil chegou a ter 1,39%
do comércio internacional em 1984, mas caiu para 0,97% em 2002. A última
década mostrou, porém, que os países que mais cresceram sustentavelmente
foram aqueles que com inflação sob controle aumentaram seu fluxo de comércio,
gerando saldos comerciais importantes e fortalecendo suas reservas
internacionais.
0 presidente Lula tem insistido na idéia de que chegou a hora
de deixarmos de culpar o mundo por nossas fragilidades. 0 buraco de quase US$
190 bilhões que construímos em nossas contas correntes entre 1985 e 2002 não
pode ser debitado na conta do Banco Mundial ou do FM1, mas de nós mesmos. Eis
por que estamos tão fortemente comprometidos com as reformas em discussão no
Congresso e com as demais que virão.
0 desafio maior, agora, além do fortalecimento de nossa
infra-estrutura quanto à energia e à logística, é construir uma firme
combinação de políticas industriais com políticas tecnológicas que
contribuam para ampliar e qualificar nossa pauta de exportações.
É neste desafio que se move agora o governo. Ministérios das
áreas de infra-estrutura, da economia e do desenvolvimento formulam caminhos e
estratégias. Condições de financiamento público e privado, além da
necessária articulação com os interlocutores do mundo empresarial e
trabalhista, estão em curso. A política econômica do governo Lula tem os dois
pés fincados no presente da estabilidade e os dois olhos bem abertos para um
futuro de crescimento.
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