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Entrevistas
06/04/2003
Entrevista
à revista Época: "Sem vontade de ser Malan"
Palocci acredita que está fazendo tudo diferente do governo passado. E já
comemora
Estela Caparelli
0 apelido "Malocci", difundido por um pelotão de petistas furibundos,
já pesa menos sobre os ombros do ministro da Fazenda. Antonio Palocci, às vésperas
de completar 100 dias no cargo, está convencido de que a estóica receita econômica
do governo Lula começou a dar certo. Na tela de seu computador, risco país, dólar
e inflação descrevem curvas descendentes e os mercados se comportam de maneira
otimista. Não é pouco para quem já suspeitou que o próprio chefe estava
insatisfeito com seu trabalho. Os sinais de irritação do presidente com a política
de juros altos obrigaram Palocci a abrir o jogo com ele: "Se você quiser
mudar a política econômica, nós mudamos", disse o ministro. Lula
preferiu mantê-la.
ÉPOCA - A política econômica do governo não tornou o senhor muito parecido
com o ministro Pedro Malan?
Antonio Palocci - É uma crítica comum, mas não me incomoda. A política econômica
não é a mesma por vários aspectos. Primeiro porque o governo passado aumentou
significativamente a carga tributária. Muita gente olha o constrangimento via
juros, mas não observa o constrangimento provocado pelo aumento de impostos. 0
presidente Lula decidiu não elevar a carga, o que é uma mudança importante.
Além disso, estamos determinados a reduzir a relação divida/PIB, porque é
isso que diminui o risco país de forma consistente e definitiva. Fazemos um
ajuste de contas que não precisará ser refeito a cada ano.
ÉPOCA - Quando ficará mais clara a diferença?
Palocci - Não estou preocupado com isso. 0 que nos preocupa não é a postura
do ministro Malan, uma pessoa pela qual tenho grande respeito. Acredito que a
política estava equivocada. 0 governo anterior acreditou e fez acreditar que
controlando a inflação o crescimento vinha. Não veio. É preciso estabilizar
o Brasil e crescer com distribuição de renda.
ÉPOCA - Algo foi mantido da política do ministro Malan?
Palocci - 0 que usamos são instrumentos de política macroeconômica, como
metas de inflação, câmbio flutuante, superávit primário. É isso que as
pessoas interpretam como continuidade. Mas esses instrumentos são usados no
mundo inteiro. Não queremos mudá-los, mas podemos ajustá-los. É preciso
planejar o crescimento, fazer políticas macroeconômicas, focar objetivos em
nossa balança comercial, diminuir o spread bancário. Ou seja, é preciso ter
uma política voltada para o desenvolvimento sustentado.
ÉPOCA - Instrumentos como metas de inflação são eficazes?
Palocci - Chegamos a duas conclusões. Primeira: não é um instrumento
perfeito, tem defeitos e dificuldades. Segunda: não há outro mecanismo mais
eficiente para o controle da inflação. É como democracia - não inventaram
nada melhor.
ÉPOCA - Quando teremos cortes nos juros altos que o PT sempre criticou?
Palocci - 0 juro é determinado pela política monetária focada nas metas de
inflação. E assim vai ser. Nós herdamos uma inflação em grande ascensão.
Era preciso um remédio amargo para uma doença grave. Pior que os juros é a
inflação. Ela desorganiza a economia e corrói mortalmente a renda das pessoas
mais pobres. Felizmente, as medidas adotadas estão dando resultados
significativos.
ÉPOCA - 0 partido mudou a maneira de pensar sobre os juros quando se
transformou em governo?
Palocci - Em nenhum momento da campanha falamos que a primeira coisa a fazer era
reduzir os juros. Optamos por não ter complacência com bolha de crescimento
baseada na inflação. Se iniciássemos o governo reduzindo juros sem levar em
consideração as contas do país, o resultado poderia ser desastroso.
Precisamos colocar as contas públicas em perspectiva de ajuste definitivo e, a
partir d4 ter condições de baixar juros.
ÉPOCA - Em que prazo?
Palocci - A mudança já está ocorrendo. Não podemos marcar uma data. É
preciso ter paciência, até porque vivemos uma guerra capaz de afetar o
crescimento de países fortes. Estamos na contramão da economia mundial, com
bons indicadores. Não há etapas do tipo "vamos fazer um período de
ajuste para depois fazer um período de crescimento". É preciso preparar o
período de crescimento para que, quando as condições forem ideais, como
aconteceu em 2001, ele possa ser implementado.
ÉPOCA - 0 PT sempre defendeu o aumento significativo do salário mínimo. 0 que
aconteceu?
Palocci - 0 presidente deu um aumento substancial. Em valores reais, é o valor
mais alto nos últimos dez anos. Este começo de governo tem sido um período de
colocar ordem na casa.
ÉPOCA - A intenção é dar o chamado choque de credibilidade?
Palocci - Não há choque de credibilidade. 0 governo do presidente Lula tem
credibilidade duradoura. Não queremos fazer uma política dura e curta. A crise
do ano passado não foi eleitoral. 0 Brasil sofreu foi um choque de contas
externas.
ÉPOCA - Além da unificação do ICMS, que mudanças podem ocorrer?
Palocci - A idéia é fazer com que a reforma não aumente nem reduza a carga,
mas melhore a qualidade dos impostos. Precisamos eliminar esse convite à elisão
que é a legislação do ICMS. Quando o empresário vê um imposto simples,
prefere pagar.
ÉPOCA - 0 que mais será proposto na reforma tributária?
Palocci - Achamos que a propriedade deve ser taxada progressivamente. No mercado
de trabalho, a proposta é a mudança na contribuição previdenciária sobre a
folha de pagamento para uma contribuição sobre valor agregado ou faturamento
das empresas. Hoje, há uma informalidade que é fruto do aumento de 10% da
carga tributária.
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