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Entrevistas
24/12/2004
Entrevista ao jornal
Correio Braziliense: "Não vai ter moleza"
Do Correio
Braziliense
08h44 - Em visita ao Correio Braziliense, o ministro da Fazenda, Antonio
Palocci, reiterou a defesa dos fundamentos da política econômica e reforçou a
necessidade de manutenção do superávit primário (receitas maiores que
despesas, sem gastos com juros) em 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano
que vem. “Não me venham falar em mexer no primário. Não vai ter moleza. Se
eu fraquejar nisso, acabou”. Palocci entende que o superávit é fundamental
para um ambiente macroeconômico estável, que estimule investimentos.
Segundo o ministro, em 2005 o país tem condições de crescer mais do que prevêem
vários analistas. “Muitos acham que podemos crescer 3,5%. Acredito que um
pouco mais de 4% é possível, mas vamos ter que trabalhar mais do que neste
ano”. Para Palocci, o Brasil passará em pouco tempo para o clube dos países
considerados seguros para investidores internacionais. “Eu apostaria em 2006
para conseguirmos a classificação de investment grade, a melhor categoria das
agências de risco. Mas, sendo ano eleitoral, o mercado vai cair na pressão”,
disse.
O ministro, o diretor presidente do jornal, Álvaro Teixeira da Costa, e o
diretor gerente, Evaristo de Oliveira, visitaram a nova redação do Correio,
que será inaugurada em janeiro. Palocci afirmou que mais do que nunca, vai
precisar do Correio porque não só sua filha adolescente, mas toda a família
está encantada com morar em Brasília. “Também estou virando um cidadão
brasiliense”, confidenciou.
O QUE ANTONIO PALOCCI DISSE
Distribuição de renda
“O Brasil já cresceu a 8% e não distribuiu nada. O governo tomou uma série
de medidas, inclusive na área econômica e isso está acontecendo agora.
Desoneramos os produtos da cesta básica de PIS e Cofins, o que significa menos
9,25% de imposto. Não é pouca coisa. Isso aumenta a renda efetiva das pessoas.
O consumo em supermercados, a renda e a massa salarial estão crescendo. Tiramos
o imposto do consumo popular, o que tem um efeito de combate à pobreza. É
muito difícil de medir, mas já está acontecendo. Quatro milhões de pessoas
passaram a ter conta bancária por causa da eliminação de taxas para os
trabalhadores de baixa renda. No crédito em consignação, já se emprestaram
R$ 12 bilhões com as taxas de juros caindo à metade. Essas pessoas saíram das
mãos de agiotas. Os gastos com a agricultura familiar passaram de R$ 2 bilhões
por ano para R$ 4,5 bilhões. Por causa desse conjunto de ações há um quadro
de melhoria nesse momento, que vai ser captado daqui a um ano, um ano e meio”.
Imposto de Renda
“Só 7,5% da população economicamente ativa paga Imposto de Renda. Não
queremos reduzir os descontos com saúde e educação. Hoje, quem ganha mais
pode descontar mais. O que nós queremos é aproximar os valores para que quem
ganha menos possa descontar tanto quanto quem ganha mais. Se você comparar com
o resto do mundo, o Imposto de Renda no Brasil é baixo em relação aos outros
tributos. O Brasil não tem um IR alto. Fui criticado por falar isso, mas vou
continuar falando. Dessas brigas eu gosto. Temos que discutir a realidade. Com o
modelo atual, não estamos distribuindo renda”.
Medidas de desoneração
“Fizemos um pit stop. Acho que temos que continuar fazendo um esforço para
reduzir tributos. Mas temos que ficar com um olho na sardinha e outro no gato.
Todo mundo pede menos tributo e mais despesa. Temos que equilibrar. Nosso
compromisso é de não subir a carga tributária. Em 2003, apesar de todas as
contas feitas, a carga caiu para 34,88% do PIB. Em 2004, tem gente falando em
40% do PIB. Duvido. Não sei nem se subiu porque o PIB está subindo mais do que
a arrecadação. Agora, precisamos observar o efeito das 21 medidas tomadas
neste ano para estimular o crescimento e a poupança. Vamos ver se podemos
adotar outras medidas. Se houver espaço, vamos fazer mais. É bom para a
economia ir cortando impostos”.
Superávit primário
“Se você reduzir o esforço fiscal, só vai se beneficiar no próprio ano. No
seguinte, perde. Gera desentendimento, mas não no conceito. Não tem nenhum
ministro dizendo para acabar com isso porque está atrapalhando. Cada um quer
levar um pedacinho, isso é normal. Alguns podem até pedir um pedaço quando vê
o tamanho do superávit. Aí eu respondo: ‘‘Você quer ver o tamanho da dívida’’?
Não tem jeito”.
País seguro
“É possível nos tornarmos um investment grade (países mais seguros para
investir) em alguns anos, mas se ficar num acordo com o FMI não é nem
considerado (investment grade). É muito difícil saber quando poderíamos virar
investment grade. É preciso saber se o mundo vai ajudar, se vamos conseguir
manter todos os instrumentos atuais intactos. Acho que o Brasil vai caminhar rápido.
O último estudo que eu vi, no ano passado, calculava que o Brasil poderia ser
investment grade em 2008. Só que ele previa para 2006 uma realidade que está
acontecendo agora. Hoje, é um cálculo conservador. Nossa dívida vai cair uns
6% do PIB, fechando em 52% do PIB este ano. Se 2006 não fosse ano eleitoral, eu
apostaria em 2006 para conseguirmos a classificação. Sendo ano eleitoral, o
mercado vai cair na pressão”.
Crescimento
‘‘No início do ano, eu achei que o crescimento seria de 4,5%. Vai superar
os 5,3%. Vai ser muito difícil repetir esse desempenho no ano que vem. Muitos
acham que podemos crescer 3,5%. Eu acho que um pouco mais de 4% é possível,
mas vamos ter que trabalhar mais do que neste ano. Alguns falam que o desempenho
vai ser menor porque devemos exportar menos. Mas, se isso acontecer, o consumo
interno vai ser maior e o mercado interno é 60% do PIB. Essa relação vai se
acomodando. O crescimento está forte”.
Empresas e bancos
“Pela primeira vez em muitos anos, a rentabilidade das principais empresas está
ganhando de lavada dos bancos, o que é um fato forte. Isso considerando as
maiores, sem a Petrobras. A Petrobras sozinha ganha dos bancos juntos”.
Previsões
“Em abril, alguns institutos estavam em dúvida se o Brasil estava em recessão
ou completa estagnação, e o Brasil estava crescendo a 7% do ano. Se você for
considerar esse tipo de debate, o Brasil já acabou há uns 10 anos. Eu ganho
todas as apostas de previsões com os economistas do ministério. Porque eu não
faço”.
Investimentos
“O empresário que quer investir quer ter certeza de que a situação vai
continuar boa por mais alguns anos. Ele pode até aplicar um pouco de dinheiro,
mas para pôr tudo que precisa, quer mais garantias. Ele não aposta. Por isso
é que eu insisto tanto nesse negócio de fazer superávit primário. Não me
venham falar em mexer no primário. Não vai ter moleza. Isso é algo que eu
preciso deixar claro. Se eu fraquejar amanhã nisso, acabou. Os empresários vão
dizer: ‘Já entendi. Agora o PT quer um pouquinho mais de votos e vai
amolecer’. Aí os empresários se retraem e guardam o dinheiro. Eu respeito o
debate, mas preciso garantir o bom ambiente. O nível de investimento está bom.
Eu me encontrei com quase todos os setores do aço e disse que eles têm que
investir”.
Contribuição dos bancos
“Aí não tem muita mágica. Os bancos têm regras prudenciais para aplicar
recursos. O processo está lento, mas está melhorando. É preciso garantir uma
tendência de queda visível da dívida pública. Os bancos têm que ver que no
longo prazo a moleza vai diminuir. A política econômica tem que dar sinais
fortes na realidade. Por isso, eu fico insistindo em fazer um resultado fiscal
para cair a dívida. Não vamos mexer no primário. Quando houver confiança de
que a política econômica se manteve por dois, três anos, as pessoas vão
voltar a pôr o dinheiro aqui. Elas já acreditaram umas dez vezes antes e, nas
últimas dez vezes, era mentirinha. Na hora H, puxavam o tapete delas”.
FMI
“Sair do FMI é importante, mas é preciso medir a decisão em termos práticos.
Você sai e fica sozinho no mar. Se você está pronto para velejar, veleja. Se
não estiver pronto, vai pegar um mar bravo”.
Déficit nominal
“No ano passado, foi 5,1% do PIB. Neste ano, deve fechar em 2,5% do PIB, que
é um nível de Maastricht (exigido na União Européia). O nominal é
discutido”.
Brasília
“Eu avisei a minha família que tenho um tempo para morar aqui e depois vamos
embora. A minha filha adolescente disse que eu poderia ir, mas ela ficaria. Está
apaixonada pela cidade. Virou brasiliense. Eu também gosto bastante de Brasília.
Também estou virando um cidadão brasiliense”.
Críticas dentro do governo
“As críticas, às vezes, dão trabalho. Mas o presidente Lula entrou sempre
na discussão. A opção de política não pode ser do ministro. Se não é do
presidente, não funciona. Não existe no governo nenhuma contraposição à política
econômica. Quem lida com saúde até entende a necessidade de fazer um superávit,
mas quer mais dinheiro para a saúde. Na minha relação com o José Dirceu
(ministro-chefe da Casa Civil), todas as dificuldades são nesse plano. Ele
fala: ‘O Congresso está pedindo isso’. Eu digo: Mas Zé, isso custa o
dobro. Não dá. Aí ele diz: ‘Bom, vê se você consegue alguma coisa’.
Isso é normal e sai na imprensa porque o PT é muito transparente. Ele nunca
propôs ao presidente um outro projeto econômico”.
Área social
“Quando o presidente unificou os programas sociais, a intenção era dar um
choque de gestão na área social, que é muito difícil e conflituosa. Acho que
vamos caminhar para isso. Há vários formatos para utilizar melhor os recursos.
O Patrus está fazendo um convênio com os municípios e vai, até janeiro,
divulgar uma nova sistemática de acompanhar e fiscalizar os gastos”.
Vinculação de recursos
“O Brasil pode ter um nível de vinculação das receitas, mas não tão rígido
como hoje. A vinculação para a saúde varia com o PIB. Quando saiu o PIB do
segundo trimestre, fizemos um corte de R$ 1,6 bilhão na saúde. Aí, saiu o PIB
do terceiro trimestre e liberamos R$ 700 milhões. Não faz sentido. O ministro
da Saúde não sabe com quanto pode contar e não tem como fazer um bom trabalho
de planejamento. Precisamos mudar a forma de discutir a questão”.
Previdência
“O Fernando Henrique fez a reforma da Previdência na área privada. Nós
fizemos na área pública. A terceira reforma é de gestão, de tapar os ralos.
Não precisa tirar nenhum direito do trabalhador. É preciso gastar melhor,
combater fraudes e picaretagens. A Previdência é uma máquina muito permeável
a distorções. O grande ganho institucional deste governo pode ser a reforma na
gestão da Previdência”.
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