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Artigo
18/06/2012
A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF CONVIDOU OS GOVERNADORES AO PALÁCIO DO PLANALTO NA
SEXTA-FEIRA 15 PARA ANUNCIAR A CRIAÇÃO DE UMA LINHA ESPECIAL DE CRÉDITO DE R$ 20
BILHÕES PARA OS ESTADOS, DESTINADA A ESTIMULAR O INVESTIMENTO NO PAÍS.
"O Brasil será o país da
produção, não da especulação"
Guilherme Barros
Depois do baixo crescimento do PIB no primeiro
trimestre, o governo partiu para o ataque. A prioridade é o investimento. Em
entrevista exclusiva concedida à DINHEIRO, o ministro da Fazenda, Guido Mantega,
afirma que não existe distinção entre estímulo ao consumo e o investimento. "A
cada oito medidas de estímulo ao investimento, tomamos duas para o consumo",
afirma. Mantega também rebate as críticas de excesso de intervencionismo na
economia. "Nunca existiu." Sobre a redução da euforia em relação ao Brasil, diz
que o entusiasmo só acabou para os especuladores. "O Brasil será o país da
produção, não da especulação." Para ele, o País vive hoje uma revolução com a
queda da taxa básica de juros. "Com a Selic neste patamar, as aplicações no
mercado financeiro vão ser deslocadas para o mundo real", diz Mantega, que ainda
aposta num crescimento do PIB acima de 3% para este ano.
DINHEIRO – O governo adotou várias medidas de
estímulo ao investimento, como o crédito especial de R$ 20 bilhões aos Estados.
É uma resposta às críticas dos que consideram insuficiente privilegiar apenas o
consumo para combater a crise?
MANTEGA – É um equívoco fazer essa dicotomia entre o
consumo e o investimento. Os dois têm de ser estimulados. O investimento não
ocorre sem um mercado de consumo e vice-versa. Temos estimulado o investimento
desde sempre, tanto que ele cresce há vários anos consecutivos.
DINHEIRO – Mas está em queda, agora.
MANTEGA – Em momentos de crise, o investimento
sempre se retrai. O investimento é mais sensível às expectativas e à crise
internacional. O que se tem de fazer, neste momento, é reproduzir a fórmula
vencedora que utilizamos em 2008/2009, que é estimular alguns programas de
consumo, aqueles que têm impacto maior na economia, mas, ao mesmo tempo, também
incentivar o investimento. Para cada oito medidas de estímulo ao investimento,
temos tomado duas para estimular o consumo.
DINHEIRO – Os investimentos públicos estão travados?
MANTEGA – Os investimentos do governo federal só têm
aumentado. Muitos tomam como base apenas um segmento, uma área específica, e se
esquecem do todo. Em vez de uma floresta, só olham uma árvore. O PAC, neste ano,
é maior do que em 2011. São R$ 42,5 bilhões, e, no ano passado, foi pouco mais
de R$ 30 bilhões. Será o maior PAC desde 2007, quando foi criado. Só nos
primeiros quatro meses deste ano, houve um aumento de 50% na liberação de
recursos do programa. É claro que alguns setores estão com um desempenho menor
do que no ano passado, mesmo porque só temos, até agora, os números de quatro
meses de execução. Ao longo do ano, isso muda.
DINHEIRO – O governo tem sido criticado pelo excesso
de intervencionismo na economia. Para muitos, a imagem do Brasil começa a ser
afetada. Como o sr. recebe essas críticas?
MANTEGA – Isso nunca existiu. O governo tem
dialogado com vários setores. No caso do setor financeiro, por exemplo, temos
tentado persuadi-lo com o diálogo e a concorrência. Não usamos nenhum
instrumento de coação com os bancos privados. Eu e o Tombini (Alexandre Tombini,
presidente do Banco Central) temos conversado com os presidentes dos bancos para
discutir a realidade brasileira, compartilhado com eles a situação e tentado
convencê-los de que é importante fazer uma política anticíclica, e não
pró-cíclica. Eles já quebraram a cara lá atrás ao fazer uma política
pró-cíclica. Também temos usado a arma da concorrência, ao estimular os bancos
públicos a liberar mais crédito.
DINHEIRO – Diminuiu a euforia com o Brasil?
MANTEGA – O que acabou foi o entusiasmo daqueles
setores especulativos que faziam arbitragem no Brasil. A arbitragem diminuiu,
porque nós criamos barreiras, como o IOF, diminuímos a sua rentabilidade, e,
também, porque a Selic vem caindo. Nós nos tornamos menos atrativos para os que
fazem arbitragem e mais atrativos para quem faz investimento direto. O
investimento direto foi recorde, no ano passado, ao atingir a marca de US$ 67
bilhões. Neste ano, em 12 meses, está em US$ 63 bilhões. O Brasil será o país da
produção, e não da especulação. Claro que aqueles que ganhavam dinheiro fácil
com a arbitragem estão contrariados.
DINHEIRO – Muitos defendem a desoneração de impostos
para ampliar os investimentos. O governo estuda medidas nesse sentido?
MANTEGA – O principal estímulo é a redução dos
juros. Nunca tivemos uma Selic nesse patamar. A Selic de 8,5% significa uma
revolução na estrutura produtiva e uma quebra de paradigma. O Brasil está
vivendo uma reforma estrutural, de magnitude que ainda não foi mensurada, com um
efeito gigantesco.
DINHEIRO – Essa pode ser a maior bandeira do governo
Dilma?
MANTEGA – Essa é a maior reforma estrutural que está
sendo feita no Brasil, neste momento. Não é a única, mas é a maior em termos de
impacto para a economia brasileira. A economia brasileira sempre foi prisioneira
de juros altos e dívida elevada. A queda dos juros não só alivia o setor
produtivo como também melhora a situação fiscal da União. A União paga menos
juros. A despesa financeira cairá entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, o
equivalente a 1% do PIB.
DINHEIRO – Isso permite ao governo gastar mais?
MANTEGA – Permite ao governo investir mais.
Caminhamos neste ano para um déficit nominal de 1,2% do PIB, um dos menores do
mundo. Isso acontece, em parte, por causa da redução dos juros.
DINHEIRO – E o déficit primário? O governo vai
cumprir a meta?
MANTEGA – O primário será de 3,1% do PIB. Vamos
cumprir a meta. O importante é que, com a Selic nesse patamar, as aplicações que
estavam no mundo financeiro começam a ser deslocadas para o mundo real. Quem
ganhava 1,5% ao mês não ganha mais isso na renda fixa. As pessoas vão acabar
buscando investimentos, no mercado imobiliário ou em debêntures, por exemplo.
Vão se sentir atraídas a aplicar em títulos ligados à produção. Quando essa
crise amainar, a bolsa vai se tornar bastante atrativa. Não há hoje onde ganhar
dinheiro no mundo. Quem aplica nos Estados Unidos, quem está correndo para o Fed
(o Banco Central americano), o pessoal que corre para o Bundesbank (o Banco
Central da Alemanha) está perdendo dinheiro. Assim que acalmar um pouco, para
onde eles vêm? Aqui ninguém está perdendo dinheiro.
DINHEIRO – O que garante tanto otimismo?
MANTEGA – O Brasil é um lugar seguro. Estamos hoje
com a melhor situação fiscal de todos os tempos. É um dos poucos países no mundo
em que a dívida em relação ao PIB está em queda. Vamos fechar este ano com menos
de 36% da dívida em relação ao PIB, o que nos garante uma situação sólida , além
de inflação baixa e sob controle e juros em queda. Os juros para investimento
são os menores da história. O BNDES tem R$ 150 bilhões para emprestar, e nós
ainda estamos aumentando as linhas de capital de giro do banco. Nestes últimos
três anos, o BNDES emprestou R$ 450 bilhões, um volume extraordinário
direcionado a investimentos.
DINHEIRO – O que falta para despertar o espírito
animal do empresário?
MANTEGA – Falta confiança. Essa crise atemoriza um
pouco, gera insegurança, mas tenho certeza de que o empresário brasileiro está
vacinado. Ele viu, como em 2008/2009, quando a crise foi pior, que nós passamos
por ela. O empresário sabe que o País é capaz de passar bem por uma crise, e
hoje temos mais força do que antes. Temos o dobro de reservas internacionais e o
compulsório do Banco Central está em R$ 400 bilhões. Estamos com todo o arsenal
pronto para ser usado se necessário for, e se não for necessário, melhor ainda.
DINHEIRO – O câmbio está no lugar adequado?
MANTEGA – O câmbio está melhor do que há um ano, e
isso dá competitividade para uma parte importante da indústria brasileira. Como
os mercados estão travados, não é possível enxergar isso agora. Com a crise, se
exporta menos. Mas, assim que destravar o mercado, os produtos brasileiros
estarão mais competitivos. Estamos melhorando a nossa competitividade sob vários
aspectos. Menor custo financeiro, menor custo tributário e menor custo cambial.
São os três pilares que melhoram a competitividade do produto brasileiro.
DINHEIRO – O sr. não teme que a queda do
investimento acabe se refletindo no emprego?
MANTEGA – Absolutamente. Claro que, se essa situação
persistir, pode acontecer, mas é por isso que temos que tomar medidas de
estímulo. Não podemos deixar cair o emprego. Já revertemos esse quadro. O setor
automobilístico, que ia conceder férias, desistiu e está vendendo mais. O setor
de linha branca também.
DINHEIRO – Depois desse trimestre fraco, qual a sua
previsão para o comportamento da economia no resto do ano?
MANTEGA – A rigor, a economia permaneceu no mesmo
patamar. O PIB tinha crescido 0,2% no trimestre passado, e ficou em 0,2%. O que
puxou para baixo foi a agricultura com a quebra de safra da soja, a quebra de
safra de fumo, a seca, foram problemas inesperados. Não foi a indústria que
derrubou. A indústria cresceu 1,7%, o que, anualizado, significa 6%. No segundo
trimestre, o PIB será certamente muito maior do que no primeiro. No segundo
semestre, vamos estar crescendo a um ritmo de 4,5%. E devemos fechar o ano acima
de 3%.
DINHEIRO – O que preocupa mais o governo? A
desaceleração na China ou a crise na Europa?
MANTEGA – A desaceleração na China já foi estancada.
De fato, houve uma desaceleração e o governo chinês, à semelhança do que
fizemos, vem tomando medidas de estímulo ao consumo e ao investimento mirando
mais crédito.
A China voltou a importar os produtos na mesma
magnitude que estavam importando antes. A Europa é o grande problema.
DINHEIRO – E qual a expectativa para a reunião do
G20 na próxima semana?
MANTEGA – A expectativa para o G20 é de ter uma
reunião que seja decisiva. Não dá para continuar empurrando com a barriga. Os
europeus estão presos numa armadilha, num círculo vicioso, no qual o setor
financeiro se deteriora, o produtivo está parado, e alguns países podem quebrar.
Eles precisam mudar a política econômica e de ajuste fiscal.
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