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Artigo
18/06/2012
É O QUE GARANTE O MINISTRO DA FAZENDA, CONFIANTE NA RECUPERAÇÃO DO PIB E NAS
POLÍTICAS DE INCENTIVO À INDÚSTRIA
“A economia está reagindo"
A Luiz Antonio Cintra
Com um tablet na mão direita, o ministro da Fazenda,
Guido Mantega, chega para a entrevista na sede do ministério, em Brasília, com
uma hora e meia de atraso. A agenda fora atropelada pela reunião que fechou o
plano estratégico da Petrobras, da qual o ministro é presidente do Conselho. Na
tela do computador, Mantega recomenda a leitura de um artigo sobre a arrastada
crise na Europa, principal assunto do encontro do G-20 no México, entre a
segunda-feira 18 e a terça 19.
No front externo, o Brasil será mais um a fazer
pressão para uma costura política que permita à Zona do Euro traçar uma saída
imediata e eficiente para a crise. Internamente, o governo busca fórmulas para
reativar a economia, cujo desempenho anda aquém das mais pessimistas previsões.
Mantega desqualifica a suposta obsessão do Planalto
pelos estímulos ao consumo, criticada nos últimos tempos inclusive por
economistas próximos ao governo. “Temos estimulado mais o investimento do que o
consumo”, garante o ministro. “Há uma reformulação da estrutura produtiva e
financeira muito importante. Não é imediato, mas é uma revolução que está sendo
feita e que não está sendo percebida porque a crise atrapalha um pouco.” A
seguir, os principais trechos da entrevista.
CartaCapital: Qual será a mensagem do Brasil no
encontro do G-20?
Guido Mantega: A nossa mensagem tem sido repetida em
várias reuniões. A união bancária é uma saída inteligente, mas o problema é que
demora a ser implantada, assim como a união fiscal, o melhor cenário para uma
união monetária. O que precisa ser feito é de grande envergadura entre esses
bancos. A menos que se queira ir pelo caminho da reestruturação (bancária), mas
aí é radical e perigoso. Os europeus precisam aumentar o firewall, que é pequeno
para o tamanho da encrenca deles. Eles aumentaram o mecanismo de estabilização
de 440 bilhões de euros para 500 bilhões, mas uma parcela está comprometida. Se
só a Espanha precisa de 100 bilhões para começar a brincadeira, imagine se a
Itália entrar nisso. Acaba o fundo. Metade dele foi para Grécia, Portugal e tudo
o mais. Falta um firewall à altura do que acontecerá com a saída da Grécia. Não
sei o que acontecerá em Atenas, o jogo está empatado. O Banco Central Europeu
terá de entrar. Os alemães conseguiram criar esses fundos com recursos
orçamentários, os países criam dívidas para esses fundos. É um mecanismo rígido
que foge da solução monetária que poderia ser dada pelo BCE. Ele poderia emitir
ad nauseam, mas não faz isso. Acredito que vão ter de colocar o BCE, pois ele
não tem limites. Ainda que não saneie tudo, daria uma sobrevida até surgir uma
solução mais adiante. O governo alemão está isolado. Com o (François) Hollande
na França, e mesmo o (Mario) Monti na Itália, que já mudou o seu discurso. O
governo alemão perde força política até internamente. É o momento de o G-20
dizer que a situação agora ficou grave de novo, que estamos hoje em uma situação
muito mais grave do que antes.
CC: Mas a Alemanha resiste.
GM: E o buraco ficou mais fundo. Os países que têm
margem precisam estimular a demanda. A China caminhou na direção correta.
Reduziu seu superávit comercial, estimula o mercado interno e dá oportunidade
aos demais países. A Alemanha não faz isso, como mostram os dados do comércio
internacional. Mas ela vai sentir na pele, pois o seu nível de atividade,
razoável no ano passado, está caindo. Então a mensagem é criar políticas muito
mais consistentes nas áreas financeira e econômica, uma combinação de políticas
fiscais e de recuperação da atividade. Exemplo: existe um banco europeu de
financiamento, um fundo, por que não aumentar o fundo e mandar fazer
investimento em vários países? Os EUA têm a sua parcela de responsabilidade. Por
que a economia está andando de lado? Eles não estão mal como a Europa, têm uma
situação financeira totalmente sob controle, mas a economia não deslancha. Não
cumprem o seu papel de dinamizadores da atividade econômica mundial. Se
tivéssemos os EUA mais ativos na área fiscal, teríamos perspectivas melhores.
Mas elas são ruins, tivemos dois meses consecutivos com as vendas do varejo em
queda por lá. Os americanos deveriam estar mais dinâmicos e os europeus, também.
São os dois maiores mercados consumidores do mundo.
CC: No inicio do ano, o senhor estava otimista,
falava em crescimento de 4,5% do PIB em 2012. O que saiu errado? É a conjuntura
internacional ou os problemas internos?
GM: É uma combinação. A conjuntura internacional
cria uma atitude mais prudente, mais temerosa dos investidores, o investimento
naturalmente se retrai. E tivemos uma redução forte do crédito, resultado do
travamento que houve no início de 2011, quando havia pressão inflacionária e o
clamor dos mercados para que se fizesse uma retração da política monetária. E
isso foi feito. O Banco Central foi muito rigoroso, aumentou os juros em 2011
criou medidas prudenciais, aumentamos o IOF para o crédito. Foi uma combinação
grande de medidas para um mercado que vinha de certo volume de crédito. De
repente, houve uma freada muito grande. Baixou a inflação, um dos objetivos
diante do surto inflacionário forte. No segundo semestre de 2011, fomos colhidos
pelo agravamento da crise internacional.
CC: Houve exagero na dose?
GM: Sem a crise internacional, não... Bom, talvez um
pouco, mas digamos que isso seria reparado se não houvesse o agravamento da
situação internacional no segundo semestre do ano passado. Isso criou a retração
que mencionei. E começamos a fazer políticas de estímulo. A partir de agosto de
2011, o BC começou a relaxar a Selic, mas ainda estávamos colhendo os frutos das
ações de restrição. Até dar a virada leva seis meses. E começamos a fazer
programas. Em agosto, fizemos o Plano Brasil Maior, e começamos a dar novos
estímulos ao investimento. Diga-se de passagem que os investimentos têm vários
estímulos no Brasil. Desde a criação do PAC, em 2006, estimulamos o
investimento. Em 2008 e 2009, implantamos programas especiais do BNDES,
triplicamos os recursos do banco, isso permaneceu. E reforçamos ainda mais os
estímulos em agosto passado, mas não foi suficiente. No início deste ano,
continuamos. Em dezembro, decidimos estimular a linha branca, móveis, e os
setores deram uma melhorada. Começamos a liberar mais recursos para o Minha
Casa, Minha Vida, que também aqueceu. E os bancos brasileiros ficaram em uma
posição defensiva. Falaram da inadimplência no financiamento de veículos,
reduziram fortemente (o crédito), então a economia deu uma desacelerada, o que
aumentou um pouco a inadimplência. Havia ainda os empréstimos do passado, alguns
exagerados, os bancos puxaram o freio. Foi aí que começamos a agir mais
fortemente e a reverter esse quadro. As taxas de juro continuaram caindo,
fizemos o Brasil Maior 2, com 28 medidas: a desoneração da folha de pagamentos,
que entrará aos poucos, o Reintegra, que devolve recursos ao exportador,
diminuímos o tempo para recuperar créditos de PIS/Cofins das exportações,
criamos um novo regime automotivo, reduzimos as taxas para a compra de bens de
capital. É um conjunto grande de medidas. A fundamental é a queda da Selic, hoje
no nível mais baixo da história. Criamos estímulos tributários, nas linhas de
financiamento direto à indústria e ao consumo naqueles pontos mais estratégicos:
linha branca, móveis e material de construção. E, finalmente, fizemos para
automóveis. E vamos reduzir as tarifas elétricas.
CC: E os bancos públicos entraram em ação.
GM: Colocamos os bancos públicos para aumentar o
crédito, mas é claro que isso não se faz do dia para a noite. A partir de maio,
houve uma melhora no crédito, principalmente dos bancos públicos, mas os
privados também estão vindo, ainda que com menor entusiasmo. A partir de junho,
já existe uma nova expansão, inclusive no setor automobilístico, que estava com
a inadimplência maior.
CC: Os spreads bancários estão em um nível que o
governo considera razoável?
GM: Absolutamente não, longe disso. O que está em um
nível mais favorável é a Selic. O câmbio, que foi a um patamar muito mais
competitivo para a indústria. São vários pilares de uma nova situação. A
economia está reagindo. Em maio e junho, a atividade econômica passou a rodar em
uma velocidade maior. No segundo semestre, será maior ainda. Temos um mercado
consumidor intacto, a massa salarial cresce e o emprego continua elevado.
Estamos próximos do pleno emprego, a massa salarial cresce 5% ao ano. A
população continua bem. O Brasil é considerado um dos mercados mais dinâmicos, o
varejo brasileiro é o mais atrativo e vai atrair investimentos externos.
CC: Mas o emprego industrial apresentou dois meses
seguidos de queda.
GM: Existem sazonalidades, podem pipocar aqui e ali
algumas coisas, mas o emprego de modo geral cresce. O último número que vimos
foi a criação de mais de 200 mil postos. No Caged de abril, o emprego industrial
havia crescido 30 mil postos. Pode ter alguma oscilação, mas vários setores
industriais estão entusiasmados: têxtil, móveis, calçados. Para cinco setores,
postergamos o pagamento do PIS/Cofins. Vamos ativar os investimentos dos
estados. Na sexta-feira 15 (a entrevista foi realizada na quarta-feira 13),
teremos uma reunião com os 27 governadores e anunciaremos uma linha de crédito
barato para potencializar os investimentos. Em 2009, fizemos isso. E rápido para
pegar os recursos, que só podem ser usados para esse fim. A Petrobras investirá
neste ano mais do que no ano passado. O polo de petróleo e gás depende muito da
Petrobras, ela é a demanda de todo o setor. Também na mineração as notícias são
boas. Depois vem a indústria automobilística, por isso demos incentivos e,
graças a tudo isso, o setor tem um grande programa para ampliar a capacidade
produtiva.
CC: Há um quase consenso de que os estímulos ao
consumo teriam chegado ao limite, que melhor seria apostar nos investimentos.
Como o senhor recebe essa crítica?
GM: Como um grande equívoco. Em primeiro lugar,
temos estimulado mais o investimento do que o consumo, tanto que o investimento
subiu no Brasil. Desde 2005 ou 2006, os investimentos cresceram mais do que o
consumo. Ainda que na crise os investimentos sejam mais sensíveis e tenha havido
uma queda. O investimento é a nossa prioridade, mas não existe investimento se
não houver mercado de consumo. Se deixarmos o mercado interno cair, não terá
investimento. Uma coisa é a contraparte da outra, as duas coisas estão
combinadas. Não existe país que cresça só com o consumo, que representa 60% do
PIB brasileiro. O consumo equivalia a 63% do PIB, o investimento era 15% e o
Estado significava mais 20%. Hoje o consumo caiu para 60%, esses 3% ou 4%
migraram para o investimento, que passou de 16% para quase 20%. É preciso haver
um equilíbrio entre investimento e consumo, é uma falsa discussão. Mas certos
movimentos levam um tempo até mostrarem seus efeitos. O novo paradigma fiscal e
monetário que estamos implantando terá um grande efeito dinamizador. Vale a pena
se deter sobre o que significa a mudança para uma situação fiscal mais sólida,
como a que temos hoje, e juros mais baixos.
CC: O que significa?
GM: Toda uma movimentação, novos ativos financeiros
ligados à produção que se multiplicam, investidores que vão atrás de debêntures
de infraestrutura, letras da dívida agrícola, da dívida imobiliária... Há uma
reformulação da estrutura produtiva e financeira muito importante que ninguém
percebe. Não é imediato, mas é uma revolução em curso e que não está sendo
percebida porque essa crise atrapalha um pouco.
CC: Nas últimas semanas, circularam notícias de que
o governo cogita rever a orientação da Petrobras de ampliação do conteúdo
nacional nas suas compras. Como presidente do Conselho da estatal, o senhor
confirma?
GM: A Petrobras não está revendo essa orientação.
Houve uma interpretação equivocada. Insinuou-se que a Petrobras não cumpriu os
investimentos programados, ambiciosos, porque fornecedores nacionais não
estariam entregando. Quem não conseguiu entregar foram os fornecedores externos,
coreanos, chineses, com atrasos de até 24 meses. A Petrobras é uma das empresas
que mais investem no mundo, nos últimos anos ganha inclusive da chinesa, e deixa
a Shell e a Esso no chinelo. No ano passado, foram 43 bilhões de dólares em
investimentos.
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