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Artigo
16/05/2012
"DÓLAR A R$ 2 NÃO PREOCUPA"
Ministro diz que ele "e a torcida do Flamengo" estão satisfeitos com o atual
patamar da moeda americana.
Artigo
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal Estado de São Paulo
ADRIANA FERNANDES , BEATRIZ ABREU , RENATA VERÍSSIMO / BRASÍLIA
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, faz um diagnóstico grave da crise
europeia. Ele admite pela primeira vez que o Brasil crescerá menos este ano. O
piso agora é 2,7%. No entanto, afirma que a crise trouxe duas vantagens ao País:
dólar mais alto e menos pressão inflacionária.
Em
entrevista ao serviço Broadcast da Agência Estado, Mantega demonstra conforto
com o novo patamar do câmbio, em torno de R$ 2. "Estou satisfeito. Eu e a
torcida do Flamengo." O ministro promete continuar as desonerações tributárias
para incentivar o crescimento da economia.
A
seguir, os principais pontos da entrevista.
Há
risco de os países da zona do euro entrarem em recessão?
A
estratégia que abraçaram era ineficaz e não tem sustentação política. Fazer
apenas um programa de austeridade não só trouxe problema de não trazer o
crescimento como levou ao agravamento da dívida. E agora, em 2012, vamos ter uma
bela de uma recessão.
É uma
situação sem saída?
A
população aceita fazer sacrifícios por um ano, dois e anos e até três anos
quando vê luz no fim do túnel. E o que viram é que a luz no fim do túnel era uma
locomotiva em sentido contrário. Se continuarem nessa perspectiva, o que vão
conseguir é quebrar vários países.
E qual
é a situação agora?
Estamos
num impasse. A situação se agravou. Mesmo a Alemanha entra em recessão, porque
corre o risco de ter o PIB próximo de zero. O PIB europeu para 2012 está entre
menos 0,3% e menos 0,5%. Ou seja, a zona do euro entra em recessão, mas sem
colher os resultados.
E como
sair desse impasse?
Eles
têm de mudar a estratégia: combinar a consolidação fiscal com estímulo ao
crescimento.
A
solução vem logo?
Essa é
a dúvida. Temos duas hipóteses. A primeira de que a Grécia saia da zona do euro,
o que causará uma reação e uma contaminação na Espanha, Irlanda e Itália, na
chamada periferia da Europa.
E
problemas com os bancos...
Se
tiver algum banco com dificuldades é na Grécia. O efeito Lehman Brothers agora
não é a quebra de um banco. É a saída da Grécia. Isso causará impacto nos
credores, embora eles estejam mais preparados porque essa hipótese está no radar
há algum tempo. Se o pior ocorrer, a turbulência vai demorar entre um mês e um
mês e meio.
Parece
que está se caminhando para esse desfecho.
Quando
acontece o agravamento, o pessoal acorda. Eles podem tomar medidas que evitem
isso. A situação está em nível 7 na escala Richter. Na escala 5, as commodities
ainda não tinham sido afetadas. Os emergentes já foram afetados.
E qual
é a segunda alternativa para a crise?
Que a
Grécia consiga sair da crise política. Nesse ínterim, a zona do euro redefine a
estratégia e recoloca na pauta o estímulo ao crescimento. Tem de ter também
consolidação fiscal. Combinar as duas coisas. Nós fizemos isso. Demos uma
apertada no fiscal, porém não inibimos o crescimento. Eles estão onerando. Nós
estamos desonerando e vamos continuar.
Para a
Europa é difícil falar em estímulos.
Existem
países em condições fiscais de fazer estímulos. A Alemanha será a primeira,
obrigada pela população. É o sinal das urnas. Não se pode ignorá-lo.
Como
podemos nos prevenir?
Temos
dois benefícios: pressão inflacionária menor por causa das commodities e do
petróleo e o câmbio. A desvalorização do real é uma vantagem. Quando anunciamos
o Brasil Maior, a primeira medida que coloquei foi ação permanente no câmbio. E
nós estamos entregando.
Preocupa o dólar em R$ 2?
Isso é
improcedente, e até saiu uma notícia de que a presidente Dilma disse isso. Ela
não disse e não pensa isso. O governo está preocupado com a competitividade da
indústria. Pode baixar o preço das commodities, mas se sobe o dólar há
compensação.
A
transmissão da alta do dólar para os preços é preocupante?
Traz um
pouquinho de preocupação, mas cada vez menos. A inflação é cada vez menor. O "pass
through", a chamada contaminação da variação cambial para a inflação, é pequena.
Está
todo mundo falando que o BC vai intervir vendendo dólar.
Não vi
essa tendência. Quem está na posição vendida gostaria que o BC fizesse isso. Não
acredito que o BC faça isso.
O sr.
está satisfeito com esse patamar?
Eu
estou satisfeito. Eu e toda a torcida do Flamengo.
O que
acontece na pior hipótese da crise europeia?
Talvez
a gente não consiga 4,5% de crescimento este ano. No segundo semestre teremos
uma situação melhor.
Poderemos crescer abaixo de 3%?
Não
existe essa hipótese. Teremos um crescimento maior do que em 2011. Você ter 2,7%
como piso de crescimento está muito bom.
De
quanto será o crescimento? Como estamos num momento de incerteza, não dá para
afirmar. Os emergentes vão desacelerar. Nós estamos prontos a reagir.
Como o
governo pode reagir?
Estamos
no caminho das desonerações. Não podemos sair enlouquecidos desonerando tudo
porque senão quebramos. Tem de ser de forma graduada com o resultado fiscal. Nós
estamos fazendo e vamos continuar fazendo. Por exemplo, novos setores que vão
entrar na desoneração da folha de pagamentos.
Com os
estoques altos, as montadoras precisam de ajuda?
Elas
têm mais um problema de crédito. As linhas de crédito se estreitaram e a
inadimplência aumentou.
Qual a
solução?
Tem de
aumentar as prestações, reduzir as taxas e exigir menos entrada. Tem de dar uma
flexibilizada. O governo tem os seus bancos que estarão fazendo isso.
Elas
querem desoneração.
A
indústria sempre quer. Isso não quer dizer que aceitamos.
O
mercado externo diz que o Brasil não é mais o queridinho.
Não
faço questão de ser o queridinho dos especuladores. Gosto de investimento
direto. O cenário criado no Brasil é de estímulo à produção e menos ganho fácil.
Se aqueles que faziam arbitragem não gostaram, eu fico feliz. Pararam e nos dão
menos trabalho.
Como
tem sido as conversas com os bancos?
Os
banqueiros estão caindo na nova realidade e vão se adaptar às novas condições da
economia. Nós queremos que os bancos sejam fortes. Agora, que deem crédito e não
exagerem nas taxas.
O que
os bancos disseram?
Disseram que vão reduzir. Faz parte da concorrência. Os bancos públicos vão
fazer. Podem me cobrar.
O
crédito não está reagindo.
Vai
reagir. Não é assim: aperta um botão e o crédito aparece. Até para os bancos
públicos se adaptarem às novas condições têm de fazer uma programação.
A
orientação é reduzir a Selic sem olhar inflação mais a frente?
O único
debate que não tem é em relação a Selic. Essa é uma questão do Copom. Podemos
contribuir para criar as condições adequadas, fazendo um resultado fiscal
adequado.
Como o
sr. avalia a inflação de abril?
Ela foi
menor do que o mesmo mês do ano passado. São quatro meses consecutivos com a
taxa menor que no ano passado. A inflação é assim mesmo, tem mês que tem uma
concentração. Teve uma concentração especial dos fumantes.
Há
pressão de alta em 2013?
Mal
estamos vivendo este ano e já tem gente dizendo que a inflação está caindo, mas
vai subir no ano que vem. Eu não entendo esse raciocínio. Ele é completamente
ilógico.
É
possível fechar o ano com a inflação no centro da meta?
Perguntem ao Banco Central. Ela é representativamente menor que em 2011 e nós
ainda temos a economia pouco aquecida, as commodities caindo no mercado
internacional e o petróleo também caindo. Portanto, as pressões são baixistas.
Mas
ainda tem aumento de bebidas.
O
governo não vai voltar atrás. Mas haverá noventena. Se a medida provisória sair
em maio, o aumento só será em setembro.
Se a
crise externa piorar, o governo poderá flexibilizar a política fiscal?
Vamos
examinar. Poderemos usar vários instrumentos que estão à nossa disposição. Mas
vamos pensar de forma positiva. Vamos dizer que, em vez de a crise piorar, os
europeus e os americanos também, porque eles não fizeram a lição de casa,
modifiquem a sua estratégia.
As
empresas que tomaram o empréstimo no exterior, porque o dólar estava baixo,
agora podem ter problemas?
Quem
mais tomou empréstimos são os bancos. Eu estou tranquilo quanto a isso. Em
geral, a gente olha e as posições são casadas. O sistema financeiro brasileiro
está muito sólido, como sempre esteve.
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