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Artigo
08/07/2012
"Sem os bancos públicos, crise hoje seria pior", diz Mantega.
Por Sergio Lamucci e Lucinda Pinto |
De São Paulo
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem
que a atuação dos bancos públicos - no crédito de longo prazo, no financiamento
ao consumidor ou no capital de giro das empresas - tem impedido uma
desaceleração mais acentuada da economia brasileira. Ao mesmo tempo, criticou a
retração das instituições privadas na oferta de crédito. Se o financiamento da
economia hoje dependesse apenas do setor privado, o quadro até poderia ser de
recessão, disse o ministro.
"Não quero aumentar o BNDES, mas sem ele não
teríamos investimento no Brasil", disse Mantega, em entrevista exclusiva ao
Valor, lembrando a importância dos bancos públicos para evitar um tombo ainda
maior da atividade econômica em 2009, quando o PIB encolheu 0,3%.
Bem humorado com a vitória do seu Corinthians na
Libertadores, Mantega afirmou que a oferta de crédito subsidiado pelo BNDES deve
permanecer enquanto as instituições financeiras privadas não assumirem o papel
de oferecer financiamento de longo prazo. "O setor privado não gosta disso. Mas
eu falo para eles: no dia em que vocês estiveram presentes, emprestando no longo
prazo, eu reduzo o BNDES."
Mantega criticou o que classifica de postura
pró-cíclica dos bancos privados, de emprestar muito quando a economia cresce com
força e de reduzir a oferta de crédito num momento em que a atividade se
enfraquece. Segundo ele, parte do aumento da inadimplência bancária,
especialmente no setor de veículos, se deve a exageros cometidos por algumas
instituições em 2010, o que gerou problemas específicos no segmento. Mantega
lembrou que, na ocasião, o crédito se expandiu a uma taxa de 30%. "O governo não
quer euforia, quer equilíbrio." Foi nesse contexto que, no fim de 2010, foram
adotadas medidas macroprudenciais (restrição ao crédito) para evitar os
exageros.
Mantega afirmou que o problema do setor de
automóveis, que ele classificou como "bolha", já está sendo diluído. A
inadimplência, contudo, também piora, porque os bancos passaram a adotar uma
política mais dura para conceder empréstimos e financiamentos, disse. "Quando há
uma ameaça de crise, de desaceleração, o banco usa critérios mais rigorosos,
corta o crédito e aumenta os juros."
Segundo o ministro, no período de expansão forte do
crédito, os bancos aprovavam de sete a oito de cada dez consultas por
financiamento. Com a desaceleração da atividade e a piora da crise externa, a
média de aprovação caiu para 2,5, afirmou ele, observando que a relação subiu
para 4,5 a 5. "Eles estão aprovando mais, mas vejo que alguns grandes bancos não
compareceram", afirmou Mantega.
De acordo com o ministro, Banco do Brasil e Caixa
Econômica Federal deverão continuar mais agressivos no crédito, cortando taxas e
elevando volumes de empréstimos. Questionado sobre a necessidade de
capitalização da Caixa, em função das regras de Basileia 3, Mantega disse que
será necessária alguma capitalização da instituição, sem antecipar detalhes
sobre a operação. "No devido momento, o governo vai capitalizar a Caixa."
Mantega também voltou a destacar o efeito negativo
da atual crise externa sobre a economia brasileira, tão intensa, segundo ele,
como a de 2008/2009. O epicentro agora é na Europa, onde as autoridades têm
demorado muito para agir. Para dar uma medida da gravidade da situação, deu como
exemplo a China: "Neste ano, se a economia chinesa crescer 8%, será muito",
disse ele, lembrando que em 2009 o país asiático conseguiu crescer 9,2%. "Quando
a China é atingida, é porque o negócio é sério."
Para o ministro, a incerteza externa tem ofuscado
"mudanças qualitativas importantes na macroeconomia brasileira", propiciadas
pelo novo mix de política monetária e fiscal. Dois preços relativos fundamentais
- os juros e o câmbio - estão em níveis muito mais favoráveis à produção e ao
investimento, disse Mantega. Quando a situação externa melhorar, o país estará
em condições muito melhores para competir.
Para dar mais competitividade à indústria, Mantega
afirmou que o governo deverá estender, no terceiro trimestre, a medida de
desoneração da folha de pagamento para mais setores industriais, além dos 15 que
deverão entrar no novo regime em agosto. Essa medida, que já beneficia quatro
segmentos, está alinhada à percepção de que, na crise, é preciso reduzir custos,
como os de mão de obra.
Segundo o ministro, a desoneração não será
generalizada, por causa do custo que ela representa para o governo. A
desoneração do INSS empresarial total custaria R$ 97 bilhões e, somente da
indústria, R$ 25 bilhões. O que já foi feito até aqui representa uma renúncia
fiscal de R$ 7 bilhões, sem considerar a cobrança de uma alíquota sobre o
faturamento, que compensa parte da desoneração da folha. "Vamos avançar, mas
temos de olhar o resultado fiscal." A necessidade de reduzir outros custos
também está na mira do governo, disse Mantega, citando as tarifas de energia
elétrica.
Segundo o ministro, os efeitos dessa "mudança
qualitativa na macroeconomia brasileira" ainda não são visíveis, em parte por
causa da crise externa, e em parte porque é necessário haver uma mudança de
mentalidade, para que as pessoas se acostumem a níveis de juros muito mais
baixos. No Brasil, a própria estrutura produtiva está habituada a privilegiar a
rentabilidade financeira. "Um claro exemplo disso é que as empresas têm
tesouraria, porque a rentabilidade financeira, quando se tem juros altos, é
maior do que a produtiva."
Mantega observou que o investidor está se adaptando
à realidade de que a renda financeira é mais baixa, porque o risco é baixo. "Se
você está num título público, sem risco, vai ganhar um pouquinho. Isso estimula
o investidor a partir para imóveis, para o mercado de capitais. Com isso, vamos
dar uma injeção no mercado capitais, nas debêntures, no setor produtivo."
Segundo ele, com juros menores do que os que vigoraram por tanto tempo no
Brasil, haverá, de um lado, estímulo à produção e ao investimento, e de outro,
incentivo ao consumo, especialmente se também houver queda dos spreads
bancários.
Para Mantega, a queda dos juros brasileiros nos
últimos meses é o que estaria por trás da onda de descontentamento de alguns
investidores estrangeiros com a economia brasileira. "O Brasil era o último peru
de Natal", disse Mantega, citando a imagem seguidamente empregada pelo
ex-ministro Antonio Delfim Netto. A alta rentabilidade e o baixo risco da
aplicação no país tornavam o espaço de ganho do investidor estrangeiro "uma
aberração", afirmou Mantega. "Aqui era ganhar dinheiro sem risco. Aí, de
repente, tiramos o peru."
Mantega reiterou que o governo não trabalha com uma
taxa de câmbio de equilíbrio, mas que enxerga o atual nível mais competitivo do
que foi no passado. "Eu disse que câmbio de R$ 2 é melhor do que a R$ 1,50, não
disse mais do que isso", afirmou. "Não sei qual é o câmbio de equilíbrio. E
ninguém joga limpo nessa questão."
Mantega lembrou que o Brasil continua a adotar
medidas para impedir entradas excessivas de capital, e não mostrou nenhuma
simpatia quanto à remoção do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que
incide sobre operações de derivativos, reivindicação constante de analistas de
mercado. "Vão ter que me convencer muito para tirar esse IOF. É o mercado mais
alavancado, e nós desmontamos essa alavancagem."
Mantega ressaltou ainda que não haverá mudança na
meta de superávit primário deste ano, de 3,1% do PIB. " Estamos acima da meta,
com 3,6%, 3,7% de superávit primário", disse, chamando atenção para o déficit
nominal (que inclui gastos com juros), que deverá melhorar em 2012, ficando,
segundo ele, na casa de 1,4% do PIB, abaixo dos 2,5% do PIB do ano passado.
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