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Artigo
08/01/2013
Artifícios
para atingir meta são "legítimos", afirma Mantega
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal Valor Econômico.
Cristiano Romero
O ministro da
Fazenda, Guido Mantega, atribui o aumento dos recursos previstos na rubrica
"restos a pagar" ao crescimento do orçamento e do número de programas federais
nos últimos anos. Em 2012, os restos a pagar somaram R$ 141,1 bilhões. O portal
Contas Abertas, especializado em contas públicas, prevê cifra de R$ 200 bilhões
em 2013.
Em entrevista ao Valor, Mantega, que está de férias numa praia do litoral
nordestino, disse não reconhecer esse valor. "Acredito que é muito menos que
isso." Os restos a pagar são despesas orçamentárias empenhadas, mas não
desembolsadas no ano do empenho. Nos anos recentes, os montantes previstos nessa
rubrica explodiram.
Especialistas acreditam que o governo use os restos a pagar como "orçamento
paralelo", com o propósito de realizar despesas sem anuência do Congresso. O
ministro se disse "abismado" com as críticas, que classifica de "estapafúrdias".
Valor: O que o senhor diz das críticas que têm sido feitas por especialistas à
política fiscal?
Guido Mantega : Estou abismado. Foram ditas coisas absurdas, por exemplo, que
tivemos uma despesa adicional de R$ 200 bilhões. É inimaginável que alguém possa
dizer isso.
Valor: Por que crítica é absurda?
Mantega : Porque é querer dizer que crédito é despesa, qualificar empréstimos
dados pelo BNDES como se fossem despesa primária do governo. É confundir alhos
com bugalhos. Fico estarrecido com esses raciocínios estapafúrdios. O governo
brasileiro está tendo comportamento fiscal mais sério que o da maioria dos
países. Continuamos mantendo a solidez fiscal, apesar do cenário adverso.
Valor: Mas o governo não cumpriu a meta cheia de superávit.
Mantega : Em 2012, tivemos queda da arrecadação por causa do nível de atividade,
fizemos muitas desonerações, mais de R$ 45 bilhões, o que significa também
arrecadar menos. O governo renunciou a receitas em benefício do contribuinte e
do investidor. É natural que isso torne mais difícil apresentar o resultado
fiscal, mas não há hipótese de o governo não cumprir a meta.
Valor: Por quê?
Mantega : Porque é obrigado pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e pela
lei orçamentária a fazê-lo. Tudo o que foi feito [para atingir a meta] é
legítimo e está dentro das normas legais. Tivemos que lançar mão do abatimento,
que está previsto na lei, portanto, não vamos fazer o primário cheio, de R$ 139
bilhões. A lei nos permite abater todos os investimentos do PAC. Vamos fechar
com mais ou menos R$ 38 bilhões ou R$ 39 bilhões [de abatimento do PAC]. Tivemos
alguma dificuldade para chegar ao resultado porque os Estados e municípios
também não cumpriram a sua cota fiscal.
Valor: Em quanto?
Mantega : Deveriam ter apresentado resultado fiscal de R$ 41 bilhões. Estimamos
que eles fizeram R$ 20 bilhões a menos. O governo federal tem que cobrir isso.
Não fosse isso, com o mero abatimento [do PAC], seria fácil cumprir a meta. Por
causa do problema dos Estados e municípios, reincorporamos recursos do Fundo
Soberano do Brasil (FSB). Esse fundo foi criado em 2008 com recursos que
arrecadamos, mas não gastamos. Fizemos essa poupança para que justamente pudesse
ser utilizada num momento de necessidade. É perfeitamente lícito utilizar esses
recursos.
Valor: Como será feito isso?
Mantega : Transferimos do FSB para o Tesouro R$ 12,5 bilhões. Como ainda não
sabemos o resultado definitivo de Estados e municípios em 2012, só saberemos no
fim de janeiro, pode ser que não tenhamos que usar todo o recurso. Por
precaução, colocamos esse crédito disponível, de modo que, se os governos
estaduais e prefeituras ultrapassarem esses R$ 20 bilhões de frustração da meta
fiscal, temos cobertura.
Valor: O governo usou também dividendos antecipados de estatais.
Mantega : Isso é perfeitamente lícito. Está previsto no orçamento. Todo ano
pegamos uma parte dos dividendos e uma outra parte deixamos lá para capitalizar
empresas e bancos estatais. Temos grande transparência nas contas públicas,
vamos cumprir as metas estabelecidas e terminamos mais um ano com dívida líquida
pública menor que a do ano anterior. Em 2011, terminamos com 36,4% do PIB. Em
2012, devemos ter terminado com 35%. É bom lembrar que, em 2011, fizemos esforço
fiscal acima do estabelecido no início do ano. Não sei como alguém pode
questionar a gestão fiscal do governo, que é uma das melhores do mundo. Não
temos nenhum dos problemas que têm os países europeus. Os Estados Unidos têm
déficit anual de 8,5% do PIB. No Reino Unido, é 8,3% do PIB. Estamos entre os
países com situação fiscal sólida e isso não é de hoje.
Valor: É desde quando?
Mantega : Para ser exato, desde 1999, no segundo mandato do presidente Fernando
Henrique Cardoso, o governo passou a produzir superávits primários e nós
mantivemos essa trajetória. Quando há uma crise internacional e uma redução da
atividade econômica, é claro que dificulta a obtenção dos resultados. Mesmo
nesses momentos, porém, temos obtido resultados primários muito bons. As
principais despesas do governo estão absolutamente sob controle.
"Governo brasileiro está tendo comportamento fiscal mais sério que o da maioria
dos países"
Valor: Quais são elas?
Mantega : A despesa de juros do governo, que é a maior da União, caiu de 5,8% do
PIB em 2011 para 4,9% do PIB em 2012. O número ainda não saiu, mas essa é uma
boa estimativa. O gasto com funcionalismo está em torno de 4,3% do PIB. Já
chegou a ser de quase 5%. Li que o governo estaria aumentando a despesa com
pessoal. Isso não procede. Nos últimos anos, diminuímos o déficit da previdência
social de 1,8% para 0,8% do PIB. Essas são as três principais despesas.
Portanto, é inaceitável que se afirme que as contas públicas não estão bem
administradas.
Valor: Uma crítica que se faz é a de que o Tesouro usa contabilidade criativa
para fechar as contas: empresta recursos a bancos federais, sem contabilizá-los
como despesa primária, e recebe dividendos desses bancos como receita primária.
Mantega : Quando o Tesouro capitaliza uma estatal por meio de recursos, aí é
despesa primária. Mas quando transfere ações [de uma empresa estatal para
capitalizar outra], não é uma despesa primária. Isso está previsto na lei, não
tem nada irregular.
Valor: Mas para emprestar aos bancos estatais, o Tesouro se endivida. A dívida
líquida não aumenta, mas a bruta, sim.
Mantega : São duas situações. A primeira é quando o Tesouro empresta recursos ao
BNDES e este empresta ao setor privado. Isso aumenta a dívida bruta, portanto,
está contabilizada. É dívida bruta e não líquida porque o BNDES vai devolver
esse dinheiro no vencimento. O BNDES empresta os recursos tomados ao Tesouro ao
setor produtivo e este pagará ao BNDES, e este ao Tesouro. Essa é uma operação
clara, explícita, contabilizada. É mais convencional do que faz o Federal
Reserve [banco central americano]. Ele empresta ao setor privado diretamente,
trocando por qualquer tipo de ativo, como fez na crise. Comprou não só papéis do
governo, mas também ativos do setor privado. Somos muito mais conservadores
porque nosso BC não faz isso. Temos um banco de desenvolvimento, que eles não
têm, que empresta diretamente à atividade produtiva. É muito melhor do que se
fosse o BC emprestando diretamente às empresas.
Valor: Qual a segunda situação?
Mantega : É quando capitalizamos as estatais colocando títulos [ações de outras
estatais] que estão em poder do Tesouro. Não é despesa primária. Significa que,
ao fazer isso, o Tesouro fica sem aquela ação. Depois, essa ação pode ser
recomprada. Qual é a excepcionalidade existente nisso? Dizer que fomos criativos
por criar o fundo soberano, eu concordo. Quero ver quem critica o fato de termos
criado uma poupança pública que foi usada no momento certo, de forma
anticíclica.
Valor: A dívida das estatais com o Tesouro saltou de R$ 10 bilhões em 2007 para
R$ 400 bilhões em 2012. Isso não representa um risco fiscal, à medida que o
ativo do Tesouro - os empréstimos do BNDES ao setor privado - pode não ser
inteiramente honrado?
Mantega : Não há como. O BNDES tem R$ 400 bilhões de ativo e passivo. O governo
emprestou para o banco e ele para a iniciativa privada. O BNDES tem a menor
inadimplência de todo o setor financeiro - 0,6%. É menor que a do Itaú e do
Bradesco, que por sinal são bancos sólidos. O Banco do Brasil e a Caixa
Econômica Federal, por sua vez, também possuem inadimplência de cerca de 2%,
metade da dos principais bancos privados. O BNDES e o BB têm lucros elevados. A
Caixa tem aumentado o lucro. Ouso dizer que os bancos públicos brasileiros são
mais sólidos que os privados, que já são muito sólidos. Não há risco nenhum.
Valor: Mas injetar recursos sem limite não mascara uma despesa?
Mantega : Os maiores bancos centrais do mundo colocaram no sistema US$ 9
trilhões, desde 2008, para cobrir buraco em bancos com dificuldade. Aqui,
emprestamos para a produção porque o BNDES não cobre buraco. Só pode emprestar à
produção. E as equipes do BNDES são extremamente rigorosas. É o que leva essa
inadimplência a ser baixa. Precisávamos ter investimento de longo prazo no
Brasil. A maneira com que procuramos enfrentar a crise de 2008 foi aumentando a
capacidade de investimento das empresas e, aí, o BNDES recebeu recursos e os
repassou ao setor produtivo.
Valor: Os "restos a pagar" não se transformaram numa espécie de orçamento
paralelo?
Mantega : Isso é um grande equívoco. "Restos a pagar" é algo que você empenhou
em um ano, mas que não foi executado naquele ano. À medida que vai aumentando o
volume de investimentos e programas que o governo realiza, é natural que os
restos a pagar cresçam. O governo não termina no ano fiscal. É preciso fazer uma
relação entre o volume de restos a pagar e o orçamento do governo. Dez anos
atrás, o orçamento federal era muito menor. Hoje, é de mais de R$ 1 trilhão. A
proporcionalidade entre restos a pagar e orçamento não deve ter mudado.
Valor: O portal Contas Abertas estima que, em 2013, os restos a pagar chegarão a
R$ 200 bilhões.
Mantega : Desconheço esse número. Acredito que é muito menos que isso. Claro,
vem crescendo ano a ano. Você registra o gasto, mas não o liquida porque a obra
não se concretizou. Tudo é perfeitamente inscrito no orçamento, com autorização
porque nada pode ser feito sem autorização legislativa.
Valor: Em 2013 o governo cumprirá a meta cheia de superávit?
Mantega : Veja, deixamos uma margem, assim como nos anos anteriores, que pode
ser deduzida. Evitamos deduzir na maioria dos anos. Quando não foi necessário,
não deduzimos. É uma espécie de válvula de escape. Se não tivermos isso,
estaremos descumprindo a LDO. Há no orçamento de 2013 válvula de escape de R$ 25
bilhões que poderíamos abater.
Valor: O que poderá ser abatido?
Mantega : Podemos abater a título de investimento ou de desoneração. Vai
depender se nós vamos fazer mais desonerações, e nós pretendemos fazer mais, e
do comportamento da economia. Neste ano a economia começou bem, vai ter um
desempenho melhor que o do ano passado. Não sou eu quem está dizendo isso, mas
todos os analistas. Com isso, a arrecadação será melhor. Se o país cresce 2,5%,
a arrecadação cresce menos de 2,5%. É algo como 0,7%, 0,8%, de elasticidade
negativa. Se o PIB cresce mais de 3%, a elasticidade fica positiva em 1,2%,
1,3%. Com mais crescimento, as empresas têm mais lucro e pagam mais Imposto de
Renda. A economia vai crescer mais de 3% e, com isso, a situação fiscal será
mais confortável do que em 2012. De qualquer forma, uma coisa eu posso garantir.
Valor: O quê?
Mantega : Vamos continuar reduzindo a dívida líquida, que é o dado mais
importante. Se sua dívida está diminuindo, é porque sua situação fiscal continua
melhorando. Temos essa ousadia de melhorar a situação fiscal, mesmo em anos de
vacas magras e crise econômica. A estimativa do BC é que terminaremos 2013 com
dívida líquida de 34% do PIB. Em nenhum momento nos passou pela cabeça abandonar
essa estratégia de solidez fiscal. Isso é algo sagrado para nós, nos garante a
confiança dos investidores. Não é questão de argumento, é só olhar os números.
Valor: Que números?
Mantega : No ano passado, tivemos mais de US$ 60 bilhões de investimento
estrangeiro direto, a segunda melhor marca histórica. Em 2012, as empresas e
bancos brasileiros captaram lá fora US$ 50 bilhões, um recorde. Elas não teriam
captado isso se não houvesse plena confiança no Brasil porque ninguém empresta
para mau pagador, para quem não vai bem. O Tesouro já está captando, em títulos
de dez anos, a uma taxa (3,5% ao ano) que o tesouro americano pagava antes de o
Fed começar essas rodadas de "quantitative easing" (afrouxamento monetário).
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