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Entrevistas
20/06/2011
"Os empresários podem investir que não vai faltar mercado"
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a Revista ISTOÉ Dinheiro
Denize Bacoccina
Depois
da tensão monitorando - sob intenso fogo amigo - a inflação, que chegou
perigosamente próxima do teto da meta do Banco Central (BC) nos primeiros meses
do novo governo, Guido Mantega, acompanha aliviado o cumprimento de suas
previsões:
Os
índices de preços já começaram a recuar e a economia se desaqueceu de acordo com
o planejado. Mantega garante que o País já está pronto para crescer, em ritmo
mais acelerado no segundo semestre, e para fechar o ano com expansão de 4,5% –
bem acima das previsões do mercado, que esperam menos de 4%. "Encarecemos,
propositalmente, o crédito nos últimos meses, para diminuir o ímpeto do
consumo", afirmou o ministro em entrevista à DINHEIRO. "Fechamos um pouco a
torneira, mas ela pode ser reaberta se for necessário." Sobre as novas
desonerações prometidas à indústria pelo ministro do Desenvolvimento, Fernando
Pimentel, o titular da Fazenda deixa claro que só vai abrir mão de receita se
esta for a decisão da presidente Dilma. "Neste momento, temos dificuldade em
fazer novas desonerações", disse na terça-feira 14, à tarde, pouco antes de uma
reunião sobre o assunto com a presidente Dilma. No dia seguinte, o risco Brasil
ficou mais baixo que o dos Estados Unidos (leia reportagem aqui), corroborando o
otimismo de Mantega. Confira a entrevista exclusiva:
DINHEIRO – Uma pesquisa do Datafolha mostra que a preocupação dos brasileiros
com a inflação aumentou e que a população teme uma piora da economia. Qual a
preocupação do governo com a inflação?
GUIDO
MANTEGA – O governo sempre tem que se preocupar com inflação, embora, neste
momento, ela esteja se desacelerando, em todos os indicadores. Em maio, já
começou a se desacelerar e em junho teremos um IPCA próximo de zero. Todos os
preços dos produtos "vilões" da inflação estão arrefecendo. O preço das
commodities diminuiu, o dos combustíveis e o dos alimentos, que tiveram alta por
causa da entressafra, também. O cenário agora é favorável e nos próximos meses
teremos uma inflação muito inferior à que tivemos no início do ano.
DINHEIRO – A previsão do Banco Central é de que a taxa chegue ao pico em agosto,
ultrapassando o teto da meta – de 6,5%. Isso não vai provocar um certo ruído?
MANTEGA
– O mais importante é a taxa anual da inflação, de janeiro a dezembro. Não
adianta ficar olhando os últimos 12 meses. É preciso decidir se olhamos para
trás ou se olhamos para frente. A inflação que temos que entregar é de janeiro a
dezembro de 2011 e esta ficará abaixo do teto da meta. Nos últimos cinco anos,
cumprimos à risca o regime de metas. A economia brasileira está demonstrando que
é capaz de conviver com taxas maiores de crescimento e enfrentar até episódios
de pressão inflacionária, o que chamamos de choque de oferta.
DINHEIRO – Houve choque de oferta de industrializados, com falta de produtos
nacionais?
MANTEGA
– Não, ao contrário, esses foram os preços que menos subiram. Mas é claro que a
economia estava mais aquecida até o início deste ano, e isso é transmitido para
o setor de serviços. O emprego em nível elevado, próximo do pleno emprego,
facilita a elevação dos preços do comércio e dos serviços, que têm menos
competição.
DINHEIRO – O mercado já projeta crescimento inferior a 4% para este ano. Qual é
a sua previsão para a inflação e o crescimento?
MANTEGA
– Minha previsão é de uma inflação entre 6,10% e 6,20%. A meta é 6,5%, ou seja,
vamos ficar abaixo. O crescimento será de 4,5%. O mercado muda com muita
frequência as suas previsões, faz previsões de curto prazo, enquanto o governo
olha mais o longo prazo. Nós desaceleramos no segundo trimestre, mas já vamos
crescer mais no segundo semestre.
Crescemos 1,3% no primeiro trimestre, ou 5,3% no ano. No segundo trimestre, o
crescimento já deve ser menor, em torno de 0,8%, o que dá um pouco menos de 4%
no ano. Mas o que interessa é a previsão anual. No terceiro e quarto trimestres
aceleramos de novo, e chegaremos a 4,5%. É um excelente crescimento para a
economia brasileira.
No ano
passado, crescemos 7,5%, mas não dá para crescer 7,5% todo ano. Por isso,
estamos fazendo alguns ajustes. O objetivo do governo é crescer, em média, 5%
nos próximos anos. Daí porque não devemos nos preocupar com a desaceleração em
curso. O governo vai manter o nível de investimento elevado, o emprego vai
continuar crescendo, talvez num ritmo menor, porque crescia de forma excessiva.
DINHEIRO – E qual a previsão de crescimento e inflação para o ano que vem?
MANTEGA
– Queremos crescer 5%. O BC anunciou que pretende se aproximar do centro da
meta. Eu prefiro não fazer previsão de inflação. Mas posso garantir que
estaremos mais próximos do centro da meta e nunca ultrapassaremos o teto.
Continuaremos com uma sólida política anti-inflacionária. Será um ponto de honra
manter a inflação sob controle.
DINHEIRO – O desemprego ainda cai mais neste ano ou já está no limite?
MANTEGA
– O desemprego varia, ao longo do ano. Neste ano, a curva deve ficar parecida
com a de 2010, com queda no fim do ano.
DINHEIRO – E o índice, pode ser menor do que no ano passado?
MANTEGA
– Acho que pode ser semelhante ou um pouquinho menor. Mas é bom ressaltar que
estamos com pleno emprego em algumas regiões. Por isso, é bom que o desemprego
caia, mas não pode cair muito mais do que isso ( 6,4%, segundo o IBGE). Estamos
com crescimento, coisa rara no mundo. Aos que ficam preocupados com a
desaceleração, quero deixar muito claro que a desaceleração é limitada. Não é
uma volta ao passado, com crescimento pífio.
É uma
moderação do crescimento, que estava um pouco acelerado, mas para manter o
crescimento sustentável. Vamos continuar estimulando investimento, dando
condições para as empresas se expandirem, vamos continuar ampliando a
infraestrutura, o setor de construção civil vai continuar bombando do jeito que
está, a indústria automobilística está indo bem. Vamos manter o desenvolvimento
na economia brasileira.
É claro
que tínhamos de enfrentar essa questão inflacionária, moderar o crescimento
também por causa disso, para que ele não gere déficit nas contas externas.
Queremos manter o déficit em transações correntes em torno de 2%.
DINHEIRO – E o crescimento é sustentável em 4,5%?
MANTEGA
– Ele é sustentável em 4,5%.
DINHEIRO – A indústria diz que já bateu no limite de contratações e que agora
pode até começar a desempregar. Somente a indústria de bens de capital projeta
um déficit de US$ 20,9 bilhões neste ano. O Ministério do Desenvolvimento
elaborou um pacote de medidas que prevê redução de impostos para esse setor. O
Ministério da Fazenda concordou com essas desonerações?
MANTEGA
– A indústria de transformação cresceu 10,4%, no ano passado, apesar de existir
no mundo uma crise no setor de manufaturados. Como a crise ainda não foi
superada em boa parte do mundo, temos uma demanda reduzida por manufaturados, o
que leva a uma concorrência mais acirrada. O Brasil tem um mercado crescente,
então é natural a cobiça dos outros países sobre o nosso. E a indústria
brasileira tem mais dificuldade em vender para o Exterior, porque os mercados lá
fora encolheram.
O
governo tem tomado uma série de medidas para melhorar a situação da indústria e
dos exportadores. Acabamos de mudar as regras para devolução mais rápida dos
créditos de exportação, temos reduzido o custo para investimentos de longo prazo
e o Ministério da Fazenda tem, permanentemente, um programa de desonerações que
vem sendo executado, à medida que as contas públicas permitem. Temos de
continuar desonerando a economia e, ao mesmo tempo, fazer um resultado fiscal
para que as contas públicas continuem sólidas. Na medida do possível, vamos
fazer novas desonerações.
"Neste
momento, temos dificuldade em fazer novas desonerações."
Linha
de montagem de montadora. Indústria reclama de falta de incentivos
DINHEIRO – Essas medidas previstas no plano elaborado pelo Ministério de
Desenvolvimento, de reduzir impostos para bens de capital, serão aprovadas pela
Fazenda?
MANTEGA
– A Política de Desen-volvimento da Competitividade (PDC) tem de conter
programas de política industrial e tecnologia, não se resume às desonerações.
Estas não têm de ser vistas em raia própria porque dependem da possibilidade de
o governo fazer essas desonerações.
DINHEIRO – Neste momento, qual é a chance de elas saírem?
MANTEGA
– Neste momento, temos dificuldade em fazer novas desonerações. Hoje, fazemos a
devolução do PIS/Cofins, em 12 meses. Em algum momento, puxaremos isso para
zero, mas não agora porque custa caro. Não está no horizonte.
DINHEIRO – A reforma tributária completa já foi descartada. O governo vai focar
na folha de pagamento e no ICMS?
MANTEGA
– A reforma completa ocorrerá um dia, mas, por enquanto, vamos fazendo por
partes. Estamos discutindo com os governadores a uniformização e redução do ICMS
interestadual. Isso vai acabar com os créditos tributários e facilitar as
transações entre os Estados. Já me reuni com todos os governadores, e há uma
tendência de aceitação. O governo vai dar compensação aos Estados que perderem,
embora, na minha opinião, todos ganharão com a mudança.
DINHEIRO – A alíquota muda para quanto?
MANTEGA
– Hoje, temos duas alíquotas, de 7% e 12%. Nossa proposta é reduzir para 2%, mas
há outras que pretendem reduzir para 3% ou 4% o ICMS cobrado na origem das
mercadorias. Com isso, não haveria mais acúmulo de créditos. O governo
compensaria essa mudança com uma política de desenvolvimento regional,
desonerando tributos federais e aumentando investimentos em infraestrutura. No
destino, cada Estado continua fazendo como quiser. A carga total não muda, mas
simplifica as operações.
DINHEIRO – Alguns Estados condicionam essa mudança à alteração no indexador da
dívida estadual com o governo federal. A Fazenda já concordou com essa mudança?
MANTEGA
– Essa é uma questão complexa. Os Estados têm razão em reclamar do indexador,
que acabou ficando maior do que a Selic. Mas isso mexe com a Lei de
Responsabilidade Fiscal e nós não queremos de jeito nenhum mexer nela. Podemos
até concordar em mudar, se for essa a condição para conseguir este grande acordo
entre os Estados. Mas com a garantia de que não muda mais nada na LRF, só esse
item.
DINHEIRO – Além desses dois pontos – folha de pagamento e unificação do ICMS –,
algum outro item da reforma tributária pode sair nos próximos meses?
MANTEGA
– Se nós conseguirmos fazer uma modernização do ICMS e uma desoneração da folha,
teremos feito uma grande reforma tributária. Além disso, vamos também melhorar o
Simples, aumentando o valor do faturamento das empresas que podem ser incluídas.
Isso depende de lei complementar e é mais fácil porque, quando se trata de
desoneração, todo mundo concorda.
DINHEIRO – A Confederação Nacional da Indústria disse, na semana passada, que a
indústria está segurando investimento porque há incerteza sobre o futuro do
mercado consumidor. Será que no ano que vem não estaremos na mesma situação de
agora, de ter de desacelerar a economia porque a indústria estará no limite da
capacidade?
MANTEGA
– Não acredito nisso. Posso assegurar à indústria e à sociedade brasileira que
nós continuaremos tendo um mercado de consumo sólido e em ampliação. É claro que
podemos não crescer 12%, 13% ao ano, mas o varejo vai crescer 8%, 10% ao ano.
Garanto que vai haver crescimento do mercado brasileiro, de modo a estimular a
continuidade dos investimentos. A massa salarial vai continuar crescendo, o
emprego continuará crescendo no País.
Fala-se
muito no setor manufatureiro, mas o agronegócio vai muito bem, o setor de
serviços vai muito bem, a construção civil vai bem. Mesmo vários setores
manufatureiros estão indo muito bem. Não há nenhum perigo de termos falta de
mercado consumidor no Brasil, nos próximos anos. Isso eu garanto. Não se pode
entender essa pequena desaceleração como algo que vai derrubar o mercado. Para o
ano que vem, temos o salário mínimo que vai crescer 13%, 14%, o que já é um
estímulo forte para a economia. Os projetos de investimento do governo continuam
em pé.
E, a
qualquer momento, se acharmos que o mercado consumidor está fraquejando, temos a
expansão do crédito. Nós encarecemos, propositalmente, o crédito nos últimos
meses, para diminuir o ímpeto do consumo. Não é para eliminá-lo. O crédito, que
antes crescia mais de 20%, agora cresce num ritmo de 13%. É um ritmo suficiente
para continuar estimulando a economia, mas, se preciso, podemos aumentar o
crédito. O governo tem o controle da torneira. Nós fechamos um pouquinho, mas
ela pode ser reaberta quando for necessário.
DINHEIRO – A FAO, Agência das Nações Unidas para Alimentação, previu mais uma
década de alta para as commodities. Qual o impacto para o Brasil?
MANTEGA
– Extremamente positivo. O Brasil é um dos países que será beneficiado porque
tem possibilidade de crescimento da área plantada. O agronegócio movimenta 30%
do PIB, incluindo uma parte da indústria voltada para a produção de caminhões,
tratores, colheitadeiras.
DINHEIRO – E o impacto para a inflação, que subiu por causa das commodities, no
ano passado?
MANTEGA
– Tem esse lado, mas nós temos como controlar a inflação, por outros meios. Mas
um cenário positivo para as commodities não quer dizer que elas vão crescer 50%,
ao ano, como em 2010. Quando se fala em alta, é de 10% ao ano.
DINHEIRO – Quem o Brasil vai apoiar na eleição do Fundo Monetário Internacional?
MANTEGA
– Agora, os candidatos serão sabatinados pelos nossos diretores. Passarão por
uma análise mais profunda, dirão quais os projetos, como vão abordar as
reformas. Queremos saber quanto o Brasil vai ter a mais de percentual de voto.
DINHEIRO – Esse é o principal ponto para o voto brasileiro?
MANTEGA
– O principal ponto é aumentar a participação dos emergentes. O objetivo é que
os emergentes tenham o mesmo peso dos países em desenvolvimento. Nós saímos de
uma proporção de 60% e 40%, para 55% e 45%, com a reforma que se completa em
2012. Temos de consolidar essa reforma e continuar avançando, de modo que
tenhamos um equilíbrio de posições. Depois que houver essas discussões,
tomaremos a nossa decisão. |