Entrevistas

07/05/2011

MINISTRO DA FAZENDA DIZ QUE INFLAÇÃO ATINGIU PICO EM ABRIL E RECUARÁ NOS PRÓXIMOS MESES SEM AFETAR CRESCIMENTO
Governo vai tentar "persuadir" empresas e trabalhadores para evitar repasses para salários, diz ministro

Entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal Folha de São Paulo

MARIA CRISTINA FRIAS
RICARDO BALTHAZAR

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, acha que a inflação atingiu seu pico no mês passado e recuará nos próximos meses. "Estamos num momento de inflexão", disse em entrevista à Folha. Ele manteve a previsão otimista de que o país crescerá 4,5% neste ano, apesar dos sinais de que a economia está esfriando. Mas concordou com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que recomendou aos brasileiros que poupem seu dinheiro em vez de consumir.

Como o sr. avalia o estouro da meta de inflação?

Guido Mantega - Não vi nenhum estouro. Deu 6,51%. Tecnicamente, é 6,5%. O índice veio abaixo das expectativas. As commodities estão caindo fortemente no mercado internacional. Os alimentos começaram a cair. A pressão dos serviços diminuiu. A trajetória de queda da inflação já começou. Estamos num momento de inflexão.

Várias categorias de trabalhadores vão renegociar seus salários nos próximos meses, com a inflação no pico. Podem surgir novas pressões?

O desafio que temos é impedir que essa inflação seja transmitida aos preços futuros. Estamos tentando persuadir, conversando com os empresários. Estamos tomando medidas para reduzir o consumo e o crédito desde o ano passado. Estamos reduzindo os gastos do governo. Tivemos resultado excelente do ponto de vista fiscal.

O crescimento da arrecadação de impostos contribuiu mais para esse resultado do que a contenção dos gastos. Os gastos do governo estão crescendo a uma velocidade menor que a do PIB (Produto Interno Bruto). A receita está bem porque a economia continua crescendo, é bom que se diga. Vamos ter um crescimento importante neste ano, de 4,5%.

O governo acha mesmo que dá para sustentar isso tudo?

É sustentável. Estamos conseguindo calibrar a redução da demanda, do crédito e dos gastos, mas não é para derrubar a economia. Os investimentos vão continuar.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, recomendou aos brasileiros que poupem. O sr. concorda?

Seria bom que a população poupasse um pouco. A renda cresceu, as pessoas estão com dinheiro e estão gastando. Se pudessem dedicar uma parte desses recursos para a poupança, seria bom.

O sr. disse outro dia que o ex-presidente Lula poderia ter "retaliado" a Vale por discordar de sua política de investimentos. O que quis dizer? O presidente teve um comportamento democrático. A Vale demitiu os funcionários por suas razões e não estava em sintonia com algo importante para o país naquele momento. Falam em ingerência, mas não tem o menor sentido. O governo conversa com as empresas e procura defender os interesses do país.

Mas o que seria "retaliar"?

Estamos aqui trabalhando no subjetivo. Em vez de olhar aquilo que realmente aconteceu, a gente fica especulando coisas que talvez pensaram. Concretamente não houve nada. O presidente simplesmente se queixou. Isso não atrapalha o funcionamento da Vale. Em algum momento eles farão as siderúrgicas que nós gostaríamos e isso está absolutamente superado.

Tem gente se mexendo na praça para lançar seu nome como candidato do PT a prefeito de São Paulo no ano que vem. O sr. está interessado?

Li isso na Folha. Não estava sabendo. Ninguém me consultou. O PT tem muitos candidatos bons e não precisam de mim. Estou concentrado no meu trabalho.

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