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Entrevistas
26/04/2010
Ministro da Fazenda afirma que o mercado superestima previsões, mas que o país pode crescer 6% sem pressão inflacionária
"Crescimento de 7% é um exagero"
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a Revista ISTOÉ
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um otimista, como ele próprio admite.
Mesmo com o
repique
inflacionário do primeiro trimestre, Mantega está confiante de que o País
encerrará o ano com
a inflação dentro da meta estipulada pelo governo. Para ele, não faltam
instrumentos do governo para
conter a alta de preços sem precisar, necessariamente, ampliar a taxa de juros.
Não opino sobre
as decisões do Comitê de Política Monetária, diz. Reticente quanto à
política monetária, Mantega
é enfático sobre os resultados de sua gestão à frente do Ministério da
Fazenda e não aceita
insinuações de que a atual política econômica é um continuísmo dos anos de
Pedro Malan. Que
fique claro, é tudo diferente.
Disposto
a ficar no governo até o último dia, garante que não pretende se envolver na
campanha da ex-ministra
Dilma Rousseff. Mas, mesmo assim, não perde a chance de cutucar o principal
adversário do
PT: Serra só conseguiu fazer os investimentos que fez porque nós permitimos
que São Paulo ampliasse
seu limite de endividamento."
Istoé
-
Na
última semana o sr. disse que o governo estaria disposto até a zerar a
alíquota de importação do aço
se houvesse aumento abusivo de preços. Existe uma pressão da indústria para
recuperar as margens
de lucro perdidas no ano passado?
Guido
Mantega -
É
natural que em um ano de aquecimento econômico alguns setores queiram recuperar
suas margens.
Agora, é preciso fazer isso dentro de certos parâmetros, porque, se exagerar
na dose, a inflação
volta mesmo e aí o governo terá que tomar medidas que vão impactar a
economia.
Istoé
-
O
governo já identificou esse problema?
Guido
Mantega -
A
indústria siderúrgica deu indicativos de que pretende aumentar os preços.
Como sabemos que o minério
de ferro está para sofrer reajustes altos no mercado internacional, não
gostaríamos que isso contagiasse
o aço porque ele é um insumo importante para uma grande cadeia produtiva:
carros, máquinas
e equipamentos, indústria naval.
Istoé
-
Há
outros setores que preocupam o governo?
Guido
Mantega -
Há
uma atenção com a construção civil, pesada e leve, mas até agora os
principais insumos da cadeia
não estão pressionando os preços.
Istoé
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Muitos
investimentos foram postergados por conta da crise e agora a economia está
aquecida. Corremos
risco de ter inflação de demanda?
Guido
Mantega -
Antes
da crise, os investimentos estavam crescendo quase 14% ao ano. Já houve uma
retomada desse
investimento. Há ainda capacidade ociosa e a indústria não retornou ao nível
de produção do período
de pré-crise. A inflação está sendo gerada na parte de alimentos,
principalmente por conta das
chuvas do início do ano. Mas agora que as coisas estão voltando ao normal a
inflação já está cedendo.
Posso garantir que nos próximos meses os preços dos alimentos irão cair.
Istoé
-
Então
o sr. acredita que não haja necessidade de alta de juros para segurar a
inflação?
Guido
Mantega -
Se
houver um surto inflacionário causado por demanda, não por um choque de oferta
passageiro, aí devemos
tomar medidas. Além dos juros, o governo tem muitos mecanismos para combater a inflação.
Istoé
-
O
sr. ficaria surpreso se o Copom anunciassse na quarta-feira 28 uma elevação de
um ponto percentual
ou mesmo 0,75 ponto percentual, como está esperando o mercado?
Guido
Mantega -
Não
costumo me manifestar sobre o Copom. Ele tem autonomia, faz as análises e
chegará a uma conclusão.
O que posso dizer é que os índices que estão sendo divulgados nesta semana
mostram uma
queda da inflação.
Istoé
-
Mas
qual é a sua opinião? É necessário um aumento dos juros?
Guido
Mantega -
Não
vou opinar na véspera da reunião do Copom. Quem sabe, depois.
Istoé
-
Há
quem diga no mercado que podemos crescer 7%. O País tem capacidade para crescer
a uma taxa
dessa?
Guido
Mantega -
Acho
esse número exagerado. Estão projetando o crescimento do último trimestre do
ano passado, que
é um período de recuperação, mas não estão levando em consideração que
estamos retirando vários
estímulos que a economia tinha. Acabou a redução do IPI para automóveis,
está acabando a redução
do IPI para móveis, acabou o estímulo para a linha branca, enfim, as vendas
não serão as mesmas.
Istoé
-
Há
um otimismo exacerbado ou isso faz parte de uma pressão do mercado para ver os
juros subirem com
mais intensidade e rapidez?
Guido
Mantega -
Acho
que o mercado costuma exagerar, tanto para mais quanto para menos. Eles são
ciclotímicos, às
vezes exageram para menos, às vezes exageram para mais. Neste momento, o
exagero é para cima.
Acho que podemos crescer 5,5% ou 6%, sem inflação maior, o que é importante.
Istoé
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O
PSDB e o próprio ex-governador José Serra têm batido na tecla de que os
ganhos econômicos e sociais
do governo Lula são uma continuidade do governo FHC. O sr. se sente dando
continuidade à gestão
de Pedro Malan?
Guido
Mantega -
Não
vou fazer comparações, mas quem quiser comparar vai ver que a economia está
crescendo muito
mais do que antes. Crescemos o dobro do que crescíamos no passado, então algo
deve ter mudado.
Em sete anos vamos ter dez milhões de empregos com carteira assinada criados.
É claro que
o governo anterior deu uma contribuição. Agora, em termos de modelo de
crescimento, mudamos
por completo. É uma nova política econômica, que fique bem claro. O Estado
tem um outro papel,
agora ele incentiva e impulsiona a economia, o que não acontecia. Muita coisa
mudou. Não é uma
continuidade simplesmente.
Istoé
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Uma
das principais bandeiras do ex-governador José Serra será a questão do ajuste
fiscal, e ele deve
mostrar que investiu um volume considerável de recursos em obras de
infraestrutura e manteve um
superávit fiscal igual ou superior ao do governo federal. As contas públicas e
o inchaço da máquina
são o calcanhar de aquiles do governo nessa eleição?
Guido
Mantega -
Os
governos estaduais só conseguiram ter uma melhoria em sua gestão, em primeiro
lugar, pelo impulso
de crescimento que nós demos. Crescimento é o melhor antídoto para as contas
públicas. Se
não houvesse um crescimento do PIB como tivemos, não haveria aumento do ICMS,
do ISS, do IPTU.
A segunda razão é que o governo federal abriu um espaço fiscal para os
Estados se endividarem.
Sem o aval do Ministério da Fazenda, os Estados não podem contrair novas
dívidas para
investimento com organismos como o BNDES ou o Banco Mundial. Só em São Paulo
demos quase
R$ 14 bilhões de espaço fiscal para o Estado contrair empréstimos para
investir em infraestrutura.
Istoé
-
O
sr. entende então que as grandes obras realizadas por José Serra são mérito
também do governo federal?
Guido
Mantega -
Eu
diria que metade dos investimentos de São Paulo se deu por conta da Secretaria
do Tesouro, com
a minha autorização. Não sei ao certo quanto foi investido em São Paulo, mas
pelo menos metade
vem dessa autorização que nós demos. Além disso, as obras também têm
participação do PAC.
Sem a ampliação do espaço fiscal, duvido que São Paulo e os outros Estados
tivessem o desempenho
que tiveram. Além disso, em São Paulo o governo injetou mais R$ 4 bilhões ou
R$ 5 bilhões
nos cofres do Estado ao comprar a Nossa Caixa e permitiu ao governador Serra
fazer os investimentos
que fez. O que é ótimo, nós trabalhamos de forma republicana. Então, ele
teve todo o apoio
necessário para fazer as obras que fez. No Rodoanel foi mais de R$ 1 bilhão de
recursos federais.
Istoé
-
E
a questão das contas públicas? São Paulo de fato conseguiu equilibrar suas
contas, enquanto as críticas
aos gastos de custeio do governo federal são crescentes.
Guido
Mantega -
As
contas públicas federais são dez vezes melhores do que no governo anterior. A
nossa dívida pública
é menor. É só comparar. O Serra foi ministro do Planejamento, assim como eu
fui. Então, ele sabe
muito bem como era a dívida pública. Era 54% do PIB. Agora, por causa da
crise, chegou a 42%,
mas vai voltar a cair e será entregue em torno de 35%.
Istoé
-
A
economia será o cartão de visitas e a principal bandeira da ex-ministra Dilma
Rousseff como candidata
à Presidência. O sr. será um cabo eleitoral atuante?
Guido
Mantega -
Vou
me dedicar à gestão da economia. Estarei ocupado com a economia e não vou me
dedicar à campanha
política. Ajudarei nas horas livres, nos fins de semana ou com uma
interlocução. Dilma é minha
amiga, minha companheira.
Istoé
-
O
esboço do plano de governo apresentado pelo PT fala muito em fortalecimento do
papel do Estado e
recebeu críticas fortes do setor produtivo. O sr. pretende fazer algum tipo de
interlocução entre empresários
e a candidata do governo para aparar possíveis arestas?
Guido
Mantega -
O
que tende a acontecer em caso de uma vitória da candidata situacionista é uma
continuidade do que
está acontecendo agora. É claro que em um outro patamar. A estratégia básica
é a mesma, o papel
do Estado será o mesmo. Não li esse documento do PT, mas acho que ele foi
distorcido. Certamente
o Estado em nossa gestão teve papel diferente, é isso o que estamos vendo. Um
Estado que
fomenta o crescimento, faz parceria com o setor privado e transferência de
renda. Esse é o Estado
que temos e não há choque com o setor privado, pelo contrário. Enfim, será a
mesma coisa.
Istoé
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Mas
quais são as garantias de que não haverá uma mudança de rumo no papel do
Estado em um eventual
governo de Dilma?
Guido
Mantega -
Eu
posso garantir. Conheço o pensamento da ministra Dilma e tenho certeza de que
essa é a linha que
ela vai seguir.
Istoé
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O
sr. pretende dar essa garantia ao setor produtivo, convencê-lo de que nada vai
mudar?
Guido
Mantega -
Não
cabe a mim fazer o trabalho político. Estou dedicado à gestão. Mas estou
esclarecendo, conheço
o pensamento dela, trabalhamos juntos todos esses anos. E sei que a proposta
dela é continuar
exatamente nessa linha, porque é uma linha de sucesso.
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