|
Entrevistas
22/07/2010
Ministro explica que medida permitirá que grandes projetos, como a usina de Belo Monte, possam lançar debêntures para a conclusão dos empreendimentos
'Vamos reduzir os impostos sobre investimentos'
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal O Estado de S. Paulo
O Ministério da Fazenda vai reduzir o imposto de renda para os financiamentos
de longo prazo e permitir que grandes
projetos de investimento em infraestrutura, como as hidrelétricas de Belo Monte
e do Rio Madeira, possam lançar debêntures
para captar o dinheiro necessário à conclusão desses empreendimentos.
"Quem comprar esses papéis não precisará pagar o imposto de renda",
anunciou o ministro Guido Mantega em
entrevista à Agência Estado. Os incentivos fiscais e outras medidas em estudo,
antecipadas por Mantega, vão dar novo fôlego ao mercado de capitais brasileiro
e, ao mesmo tempo, permitir que o
financiamento de longo prazo seja assumido pelo setor privado.
O
que é preciso para que o setor privado assuma o papel do BNDES?
É
preciso que fique claro que essa atuação do BNDES se deu como resposta à
crise internacional. O banco foi um dos
principais instrumentos que o governo utilizou para retomar os investimentos.
Essa ação foi extremamente bem sucedida
porque nós impedimos que o PIB caísse 2,5% a 3%, em 2009.
Mas
a economia não está ficando excessivamente dependente disso?
Não.
A economia, em um momento de escassez de crédito, exigiu essa reação. Acho
curioso que alguns analistas carimbados
venham fazer críticas ao BNDES. É só você ler os artigos e você vai ter uma
dúzia, todos "ex-isso", "ex-aquilo", um é responsável por
hiperinflação, outro por aumento da dívida
pública, outro por crise cambial... Eles quebrariam o País de novo.
Qual,
afinal, é o valor do subsídio?
Esse
subsidio está entre R$ 5,5 bilhões a R$ 6 bilhões este ano. O valor total
depende da taxa Selic. Esse subsídio pode ir
a zero daqui a três ou quatro anos, quando a Selic encostar na TJLP (Taxa de Juros
de Longo Prazo, que referencia os empréstimos dados pelo BNDES).
Mas
isso depende de outras coisas, como mudar a remuneração da poupança?
Tudo
a seu tempo será feito. Agora, o que nós queremos é que o setor privado
responda a esse desafio de ampliar o
financiamento no Brasil.
E
como se faz isso?
Estamos
pensando em uma debênture para projetos específicos livre de IR. Uma
debênture financeira voltada para projetos
de infraestrutura. Por exemplo, debênture Rio Madeira, que seria emitida
para o projeto e teria isenção de imposto. Essas medidas deverão ser
aprovadas até o fim do ano, porque em 2011
será necessário um volume de recursos maior. Nós queremos que o setor privado
responda a esse desafio, então temos que dar condições para que ele o faça.
É claro que vamos ter que reduzir tributos,
seja em operações ligadas a projetos específicos, seja em função de prazos
mais longos de aplicação, então temos que fazer alongamento das aplicações,
independentemente do projeto,
Emissões
mais longas terão taxação mais favorável?
Isso.
Emissões que de fato sejam mais longas, porque hoje existe meio que um
"engana que eu gosto", em que você
emite título mais longo, mas ele circula no curto prazo. Hoje se faz
aplicação curta e acaba pagando IR como se
fosse de longo prazo. Tem que ser a sério.
E
como resolver isso?
Temos
que dar um jeito em que, se o aplicador quer liquidez imediata, a sua
remuneração será menor. Se quiser mais
rendimento do que liquidez, nós vamos fazer um ativo que seja menos
taxado.Também temos que aumentar o financiamento imobiliário, porque a
poupança está chegando ao limite. Nós
podemos aperfeiçoar os CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários, títulos
que têm origem em financiamento de
imóveis). Para pessoa física, CRI não paga IR. Estamos estudando desonerar
também para pessoas jurídicas.
Como
o BNDES financiará sem os recursos do Tesouro?
O
próprio BNDES vai ter que captar mais no mercado e menos no governo, porque o
governo não vai mais repassar. Ele vai ter
que emitir debêntures, terá que captar mais no mercado doméstico e externo,
como Banco Mundial e BID.
Tem
discussão sobre compulsórios? Em que termos?
Tem.
A discussão é se reduz ou não o compulsório sobre a poupança para aumentar
os financiamentos imobiliários. A forma
clássica de financiar habitação é pelo CRI. Então, é (preciso) dinamizar
o mercado de recebíveis. Hoje é desonerado só para pessoas físicas e não
para empresas e vamos homogeneizar, por um
acordo com o setor privado. Queremos desenvolver o mercado
secundário de debêntures, que é muito acanhado e que precisa ser padronizado.
O BNDES pode dar liquidez para o mercado
secundário, não entrar só como vendedor, mas como comprador.
O
BNDES vai continuar com operações como as com a Friboi e a Marfrig?
Com
toda a certeza. Quem faz é o BNDESPar, que tem caixa próprio e só dá lucro.
O
governo pensa em desonerar o IOF ?
Há
proposta nesse sentido, mas não temos nenhuma decisão. Nós cobramos IOF em
operações de curtíssimo prazo, que paga
IOF diário.
Por
que o empresário iria captar no mercado se ele tem o BNDES?
Se
tem um mercado que cresceu muito nos últimos anos, foi o mercado de capitais. O
BNDES empresta, as empresas se fortalecem e
vão ao mercado de capitais. Há uma complementaridade dessas
ações.
O
aporte do Tesouro ao BNDES é página virada?
Claro.
Tendo ultrapassado a crise é outro cenário que nós temos. O cenário exige
respostas. Nós não vamos permitir que o
nível de investimento caia no Brasil, que os grandes projetos não se viabilizem.
O Brasil necessita de grandes financiamentos. Eu quero que o setor privado
assuma (o papel). E eu tenho certeza que vai
assumir e tem as condições para isso. E o próprio BNDES fará isso
de outras formas, captando no mercado com novos instrumentos.
Haverá
incentivo fiscal para os fundos de pensão?
Para
o fundo de pensão, o incentivo será assim: se ele vai aplicar num projeto
carimbado de investimento de infraestrutura e
comprar a debênture, não paga o imposto. Eu tenho certeza que não só
os nossos fundos de pensão, mas outros estarão interessados.
O
sr se sente injustiçado com as críticas as suas previsões para inflação ?
Não.
As nossas previsões de inflação e de crescimento estavam acertadas. Eu falei:
o primeiro trimestre vai acelerar e, no
segundo trimestre, vai desacelerar. E aconteceu. Mas tem gente que espera
o resultado para chegar à conclusão.
O
sr. é a favor de uma revisão da política de salário mínimo?
Em
relação a essa questão, quero fazer um alerta. A política de salário
mínimo foi muito acertada, desde que não se
aprovem alguns projetos que em vez de beneficiar os trabalhadores vão prejudicá-los.
Se atrelar todas as aposentadorias ao mínimo, vai prejudicar todo mundo, porque
os próximos governos não vão dar
aumento.Tem alguns projetos temerários, que não devem ser aprovados, como o
fim da contribuição para inativos. Aumenta
o déficit do setor público. Algo que já estava pacificado.
Por
que, então, continuar com a política de indexar o mínimo ao PIB?
Naquele
momento era adequado e deu resultado muito bom. Não gerou inflação e o
mercado consumidor aumentou. O próximo
governo vai decidir essa questão.
O
governo vai desistir da estatal de seguros?
De
jeito nenhum. Nós estamos num entendimento. A nossa proposta é a criação de
uma seguradora. Nós não queremos entrar
inibindo o setor privado, muito pelo contrário, queremos aproximar as duas propostas.
Uma estatal será criada. Se será uma agência ou uma seguradora, vamos
discutir nos próximos 15 dias. Vamos
amadurecer juntos.
|