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Entrevistas
20/07/2010
MANTEGA NEGA NOVOS APORTES AO BNDES
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ao Valor que o custo de equalização das
taxas de juros do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), executado pelo
BNDES, é de R$ 5 bilhões por ano. Esses dados, segundo Mantega, estão contabilizados no Orçamento da União, na rubrica de subsídios financeiros.
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal Valor Econômico
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o custo de equalização
das taxas de juros
do Programa de Sustentação do Investimento
(PSI), executado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) é de R$ 5 bilhões ao ano e que esses dados estão contabilizados
no Orçamento da União, na rubrica de subsídios financeiros. Mantega negou que
o governo esteja estudando um novo aporte de
recursos para o BNDES e afirmou que, agora, o banco terá
"que andar com as próprias pernas". O ministro antecipou que o
governo estuda novos mecanismos para
estimular a entrada do setor privado no financiamento de investimentos de longo prazo.
Uma alternativa em estudo é o incentivo à emissão de debêntures para
empreendimentos específicos.
Para
Mantega, a maturação dos investimentos realizados nos últimos anos permite
que o Brasil cresça, sem pressão
inflacionária, entre 5,5% e 6% ao ano. Ele estima um crescimento de "um
por cento ou um pouco menos" no segundo
semestre deste ano, e projeta que, no segundo semestre, o Brasil
estará em ritmo de expansão de 5,5%. Ele não quis falar sobre a decisão do
Copom de amanhã, mas afirmou que, em sua
opinião, a economia brasileira "já entrou no trilho de um crescimento
sustentado". Mantega não acredita que vá sobrar receita com o maior
crescimento da economia previsto para este
ano. ""Mas se sobrar, ela não será gasta", afirmou. A seguir,
trechos da entrevista que o ministro concedeu
ao Valor.
Valor:
A desaceleração do ritmo de crescimento da economia já indica que é
possível parar o processo de elevação da
taxa de juros?
Guido
Mantega: Isso quem tem que responder é o Banco Central. O que posso dizer é
que a economia brasileira já entrou no
trilho de um crescimento sustentado. O que estava ocorrendo no início
do ano era o resultado do estímulo que foi dado para a economia se recuperar da
crise. Com os estímulos, a economia
recuperou o espaço perdido durante a crise. No ano passado, o país praticamente
não cresceu. Nós retomamos aquele patamar anterior à crise e a economia tende
a estacionar num patamar de crescimento
sustentado, de 5% a 6%, que é o que nós planejamos. Tem aqueles
analistas de plantão que se entusiasmam com as próprias análises, que diziam
que a economia estava superaquecida. Eu dizia
que estava aquecida e não superaquecida, que iríamos retirar
todos os estímulos e a economia voltaria a um patamar mais baixo. Foi o que
aconteceu. Como os estímulos iriam acabar, a
população antecipou as compras e, por isso, o resultado do primeiro
trimestre incorporou uma parte do segundo trimestre. Isto significa que nós
esperamos um segundo trimestre com um
crescimento bem inferior aos 2,7% do primeiro trimestre.
Valor:
Qual é a sua estimativa para o crescimento do segundo trimestre?
Mantega:
Estimo que de um por cento para baixo. Mas lembrando que dos 2,7% do primeiro trimestre,
uma parte pertenceria ao segundo trimestre. Em março, as vendas de automóveis dispararam;
em abril, houve uma queda; em maio, uma pequena recuperação e, em junho, as
vendas já atingem o patamar médio que devem
ficar. Nós devemos comemorar a sólida recuperação do Brasil
da crise internacional. Este ano, o Brasil vai crescer 6,5% a 7%, o que será,
entre os grandes países, o segundo maior
crescimento do mundo, perdendo apenas para a China. Esse é o maior crescimento
desde 1986. Porém, como a população está crescendo muito menos, será o
maior crescimento do PIB per capita dos
últimos 30 anos. A nossa previsão é que o crescimento que será registrado
no segundo semestre deste ano, anualizado, não dará mais do que 5,5%, que é
uma taxa muito boa para o Brasil.
Valor:
O mercado futuro de taxa de juro está apontando para uma redução em relação
às estimativas anteriores.
Mantega:
O DI para 2011 só hoje está caindo 0,36. Na semana passada, ele deu uma boa despencada.
Valor:
Alguns analistas já acreditam em elevação da Selic menor do que 0,75 ponto
pelo Copom.
Essa
também é a sua expectativa?
Mantega:
Eu não tenho expectativa nenhuma em relação ao Copom. O BC é autônomo e faz
a sua análise. Mas o DI 2012 já deu uma
subidinha... É que também depende um pouco da economia internacional,
que teve alguns fatos adversos nesses últimos dias. Irlanda, Hungria etc., tudo
isso às vezes mexe. Não sei o que vai
acontecer com a taxa de juros, nem quero saber, mas com a inflação está
acontecendo aquilo que eu também previa no início do ano. E, mais uma vez, os
apressadinhos disseram que nós estávamos
perdendo o controle da inflação. Eles faziam uma correlação entre superaquecimento
e elevação da inflação. Nós dissemos que era choque de oferta, pois foram
os alimentos que puxaram essa inflação. Mas
tinha gente dizendo que era pressão de demanda...
Valor:
Qual é a sua previsão para o comportamento da inflação neste resto de ano?
Mantega:
O IPCA zero em junho foi um choque na cabeça desses analistas, que tiveram que
refazer todas as contas. Até o Focus
(boletim publicado pelo Banco Central com estimativas do mercado) que
é lento, já reviu para baixo. Ele chegou a estimar 5,6% de inflação para
este ano, o que era evidentemente um
equívoco. Como ele revisa a cada semana, ele vai acabar acertando no final do ano.
É mais ou menos como aquele relógio quebrado que, em algum momento, acerta a
hora. Tem uns analistas que são que nem
relógio quebrado: uma hora eles acertam.
Valor:
Mas a inflação do setor de serviços não está resistindo muito?
Mantega;
Quando a economia cresce 5,5% a 6%, ela tem uma inflação. É normal. Por isso,
a nossa meta de inflação não é zero, não
é dois por cento. Tem uma razão para isso. Existe uma certa inflação
no Brasil. O problema é ela estar dentro da meta que nós estabelecemos. No
sistema de metas, o governo diz para a
sociedade qual é a inflação que será perseguida e acabaremos alcançando.
Quando se tem um ano de atividade mais baixa, como no ano passado, é normal que
a inflação fique abaixo do centro da meta.
Quando se tem um ano de aquecimento salutar da economia,
se tem uma inflação um pouco maior. O setor de serviços é o setor que mais
sobe a inflação no momento de aquecimento.
Mas ele vai para cima e vai para baixo também. Quando cai o nível
de atividade, cai o preço. Mas isso não ocorre com os manufaturados, que podem
ser importados. A inflação do setor de
manufaturados é bem comportada, mesmo com o aquecimento da economia.
Valor:
Para o sr., a inflação deste ano está mais perto de 5% ou de 5,5%?
Mantega:
Mais perto de 5%. E 5% está dentro da meta. Por isso é que se tem a margem de
dois pontos percentuais para baixo e para
cima do centro da meta. Mas é claro que há setores mais aquecidos
do que outros. O setor da construção civil está mais aquecido por duas
razões. É o setor no qual o governo está
investindo, dirigindo recursos, estimulando infraestrutura. Além disso, o governo
vem estimulando a construção de habitações. Em 2009, nós financiamos quase
900 mil unidades habitacionais, o que foi um
recorde. É um setor que gera empregos e essa é uma das razões
por que o estimulamos.
Valor:
Este cenário favorável da economia brasileira para este ano não pode ser
afetado pelos problemas da economia dos
países desenvolvidos, como os da Europa? Existe a possibilidade do duplo
mergulho?
Mantega:
A hipótese sempre existe, mas mesmo o principal defensor dessa tese, que era o
Nouriel Roubini, mudou de ideia. A crise
financeira deixou grandes problemas para os países que não estavam
bem estruturados. Portanto, eu acho que a probabilidade do duplo mergulho é
baixa, porque a própria crise de 2008 gerou
um G-20 forte e os países aprenderam a administrar a crise. Podemos ter
um problema na União Europeia, como tivemos, mas não quebra, não vai às
últimas consequências, porque se tem como
remediar.
Valor:
O que se teme agora é que uma retirada dos estímulos fiscais dos países
desenvolvidos provoque uma nova crise e
alguns falam que é necessária nova rodada de gastos.
Mantega:
Na última reunião do G -20 prevaleceu a posição de não retirada dos
estímulos e de não se exagerar no ajuste
fiscal. Ajustes fiscais muito rigorosos levam a crescimento baixo e, portanto, a
perpetuar uma deficiência fiscal. Isso nós
recomendamos e está no comunicado. Todos concordaram que
os países europeus terão que fazer ajuste fiscal, pois estão muito
endividados. O problema é a dosagem do
ajuste, é fazer um ajuste que não seja hostil ao crescimento.
Valor:
Alguns analistas questionam os custos do PSI e dizem que eles não são
conhecidos.
Mantega:
O Programa de Sustentação do Investimento (PSI) vai até o fim deste ano. É
um programa muito eficiente e é um dinheiro
bem gasto. Ao contrário do que se diz, o custo desse programa, o subsídio,
está explícito no orçamento, que subiu muito.
Valor:
Como o sr. avalia a afirmação de que o governo criou uma nova "conta
movimento" na relação do Tesouro com o
BNDES?
Mantega:
Acho um grande equívoco. O BNDES teve que entrar em campo em um momento em que faltava
crédito na economia brasileira e havia o risco de se ter uma depressão dos
investimentos. Nós impedimos isso justamente
com essa atuação específica. Nós colocamos crédito no BNDES que não
estava chegando aos investidores. O crédito que colocamos lá não é a fundo
perdido, não é jogar dinheiro fora, como
fizeram em outros países, que taparam buracos. Nós não tapamos nenhum buraco.
Com a exceção de uma pequena parcela que foi capital de giro, uns R$ 11
bilhões a R$ 12 bilhões, mas R$ 200
bilhões foram para investimento.
Valor:
A crítica é que não se sabe direito qual é o custo.
Mantega:
Sabe-se perfeitamente qual é o custo. No caso do PSI, nós fizemos
equalização de taxa de juros. O PSI tem
subsídio de R$ 5 bilhões ao ano. Se uma linha de crédito era de 4,5% ao ano e
o custo da linha era de, digamos, 8%, nós
equalizamos e isso está registrado no Orçamento. É só você ver
como aumenta essa despesa, de subsídio financeiro do governo. Ela está lá
registrada. Esse custo se paga pelo efeito,
pela eficácia que a medida tem. Se não tivéssemos tomado essa medida, teríamos
uma demora na recuperação do investimento e da atividade. Se o investimento
cai e cai o consumo, o PIB cai, a
arrecadação cai. Não se fatura PIS e Cofins, não se fatura ICMS, nem IPI. Então,
o subsídio é pago pela recuperação da atividade econômica.
Valor:
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, tem dito que está discutindo
alternativas para a redução do funding do
BNDES. Quais são essas alternativas?
Mantega:
Nós tivemos essa intervenção em um momento de crise. No pós-crise teremos
que trazer o crédito privado para dentro
dessa equação.
Valor:
O que será feito para estimular o setor privado a entrar mais na oferta de
crédito, seguro e garantia?
Mantega:
O primeiro passo foi criar a letra financeira para os bancos privados. O
Ministério da Fazenda está estudando
medidas há algum tempo e ainda é cedo para falar nisso. É como se fosse um
amadurecimento do sistema financeiro, que financiava, em 2003, R$ 400 bilhões,
agora estamos com R$ 1,5 trilhão. Então,
estamos ganhando escala, e precisamos de outros mecanismos. Pretendemos
estimular debêntures voltadas para empreendimentos específicos. O setor
privado precisa entrar mais nisso.
Valor:
Haverá novo aporte do Tesouro no BNDES?
Mantega:
Não há novo aporte pensado para o BNDES. O BNDES tem nível de recursos
próprios entre R$ 60 bilhões e R$ 65
bilhões por ano. O BNDES também terá que aprender a captar no mercado.
Pode colocar debênture, pode captar no mercado internacional e também terá
que andar com as próprias pernas. Mas não
vamos descuidar da infraestrutura. Então, o BNDES ficará mais focado
na infraestrutura e o setor privado poderá entrar, por exemplo, no
financiamento industrial de longo prazo, de
exportações, construção civil, produtos manufaturados.
Valor:
Aumentou a capacidade de o Brasil crescer sem gerar inflação?
Mantega:
Estamos desde 2004 com o investimento aumentando. Isso ganhou muito impulso a
partir de 2006 e 2007 com o PAC. O PIB
potencial está entre 5,5% e 6%, pois podemos complementá-lo com
importações.
Valor:
Isso muda a visão da política monetária?
Mantega:
Não muda, porque quando há o sistema de meta de inflação, a autoridade
monetária só pode olhar para a inflação.
Não pode olhar para outras coisas e não interessa se a economia está crescendo
a 3%, 4%, 5% ou 7%. A missão do Banco Central é olhar para a inflação de
curto, médio e longo prazo. Mas certamente
revolucionamos o produto potencial.
Valor:
Com crescimento maior, haverá maior receita. O que o governo fará com essa
receita adicional?
Mantega:
Não há receita adicional, porque tivemos que fazer desoneração por causa da
crise, tivemos que fazer equalização do PSI,
que tem subsídio de R$ 5 bilhões ao ano, tivemos problemas com
Estados e municípios, que registraram queda na arrecadação, e com os quais
gastamos R$ 3 bilhões. Então, ainda estamos
pagando essa conta.
Valor:
Em abril, o sr. anunciou um corte de R$ 10 bilhões nos gastos do governo
federal. A arrecadação adicional com o
maior crescimento vai recompor os gastos?
Mantega;
O volume da arrecadação foi comprometido no início do ano e isso faz falta.
Não estou achando que vai sobrar dinheiro,
porque fazer 3,3% do PIB de superavit primário este ano não é meta
fácil. Uma meta de pós-crise e ainda pagando o preço da crise... Faremos,
porque é um compromisso e está na LDO, mas
não será fácil. Não vai sobrar dinheiro.
Valor:
E se sobrar dinheiro, o que será feito? Poderá ir para o Fundo Soberano?
Mantega:
Se sobrar não será gasto. Mas não acredito que sobrará. Porque a projeção
de crescimento de 7% é assim: cresceu muito
no primeiro trimestre e nos outros trimestres haverá queda
de atividade e acho que vamos terminar de forma equilibrada e não vai dar para
reforçar o Fundo Soberano.
Valor:
No ano passado, gastou-se mais porque era ano de crise. Este ano, a economia
está em retomada e se poderia fazer o
movimento contrário...
Mantega:
2010 ainda tem resquício do período de crise, não é um ano totalmente
normal. 2011 será um ano normal, com todos
os estímulos eliminados, portanto, com arrecadação normalizada. Eu recomendaria
ao próximo governo perseguir a meta de 3,3% de superávit, porque reduz a
relação dívida/PIB, e se a arrecadação
for mais forte recomendo não gastar e destinar ao Fundo Soberano.
Valor:
Mas a meta poderá não ser 3,3% porque a LDO de 2011 fixou a meta nominal de
superávit de R$ 125,5 bilhões. Por que
isso?
Mantega:
Fixamos essa meta porque o PIB está sujeito a revisões, felizmente para mais.
No ano passado, fixamos uma meta. Aí o IBGE
revisou o PIB de 2007. Estávamos em 2009, de repente o PIB
de 2007 passou de 5,7% para 6,1%, isso significa que tivemos que avançar 0,4
ponto percentual para cumprir a meta, que era
em percentual do PIB. Não é bom ,porque nos vemos às voltas com outro
dado. É melhor estabelecer a meta que equivale a 3,3% do PIB em determinado
momento e não sujeita a volatilidade.
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