Entrevistas

02/08/2010

Na semana passada, quando o governo divulgou o pior resultado na conta de transações correntes desde 1947, com déficit de 2,3% do PIB, o ministro da Fazenda estava tranquilo

"O déficit nas contas externas é o preço do nosso sucesso"

Entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a Revista ISTOÉ Dinheiro

“É o preço a pagar pelo nosso sucesso”, afirma Guido Mantega. “O Brasil está crescendo mais do que os outros países, por isso está importando mais”, diz. Mas ele confia que a situação é passageira e será resolvida quando a economia mundial se recuperar e aumentar a demanda pelas exportações de produtos brasileiros. Para ajudar as empresas a aproveitar melhor as oportunidades no mercado doméstico, ele promete anunciar em dois meses medidas que vão baratear os investimentos e a tomada de crédito. Confira a entrevista à DINHEIRO.

DINHEIRO – Como está a economia neste momento?

GUIDO MANTEGA – Houve um ajuste no primeiro trimestre em relação ao ano passado, quando tinha crescido pouco. Ela deu uma acelerada, voltou ao patamar anterior à crise e se acomoda neste patamar, um pouco acima. Estávamos crescendo 6,5% quando veio a crise. No primeiro trimestre crescemos 9%, e no segundo trimestre devemos ter crescido 7%. No terceiro, cresceremos 6% e no quarto, 5%, mais ou menos. E, na média, vai dar em torno de 7%. Acelerou bastante e desacelera ao longo do ano. Esta é a trajetória. E esta desaceleração foi provocada pelo governo.

DINHEIRO – Precisa desacelerar ainda mais?

MANTEGA – O crescimento já está onde deveria estar. Há pequenas variações porque com o crescimento há diminuição do estoque e agora ele está sendo recomposto. A alta dos juros só exerce efeito no longo prazo. Os juros que foram aumentados em abril e maio vão ter efeito no último trimestre do ano. Isso vai ajudar a dar uma desacelerada. Mas não vamos ter este ano um crescimento abaixo de 6,5% a 7%. Este crescimento já está assegurado pelos resultados até agora.

DINHEIRO – Não pode comprometer o desempenho do ano que vem?

MANTEGA – As projeções de mercado são de 4,5% para 2011. A minha projeção é de 5,5%. E acho que está de bom tamanho para o primeiro ano de um novo governo. Sempre há um período de acomodação. O crescimento deste ano é o maior que o Brasil já teve em 24 anos. É o maior crescimento per capita em 30 anos. O presidente Lula fechará o governo com chave de ouro. Não só com relação ao Brasil do passado, mas com relação ao mundo. Das grandes economias, só perde para a China.

DINHEIRO – O rombo nas transações correntes em junho, de US$ 5,18 bilhões, foi o pior em 63 anos. Não é preocupante nesse momento de dependência de capitais externos?

MANTEGA – O Brasil nunca foi tão pouco dependente do capital externo. Não é um rombo. É um déficit de transações correntes um pouco maior, que se deve ao sucesso do Brasil em relação aos outros países. O Brasil está crescendo mais do que os outros, por isso está importando mais. As exportações crescem menos porque tem menos mercado lá fora. É o preço a pagar pelo nosso sucesso. Mas isso é passageiro. A recuperação dos outros países vai reequilibrar este jogo a partir do ano que vem. Também temos remessas das empresas estrangeiras que têm que fechar as contas lá fora e aproveitam o real valorizado para mandar recursos. Estamos numa situação excepcional. O déficit em transações correntes este ano será em torno de 2,3% do PIB, mas a partir de 2012 ele volta a cair. Já tivemos resultados piores, de 4% a 5% do PIB, no começo da década. A diferença é que agora temos dívida externa líquida negativa [NR: as reservas em moeda estrangeira superam as dívidas]. Nunca tivemos isso antes. Não há nenhuma dificuldade em fechar as contas.

DINHEIRO – O investimento direto também está prejudicado este ano.

MANTEGA – Está mais fraco, mas isso é reflexo da deficiência lá fora. E outro ponto é que estamos com investimento direto das empresas brasileiras no Exterior. Só este ano, já foram aplicados R$ 8,5 bilhões lá fora. Temos também a balança de serviços, com o aumento dos gastos de turistas brasileiros no Exterior. Mas é um fato transitório, que não ameaça o nosso crescimento nem traz vulnerabilidade. Estamos no melhor momento das nossas contas externas.

DINHEIRO – O que achou da última elevação da Selic em 0,5 ponto percentual, pelo Copom? O aumento dos juros deve ser contido?

MANTEGA – Não comento o resultado do Copom, o Banco Central tem a sua autonomia. É o que eles acharam que estava correto. Ele não tem reflexo imediato na economia.

DINHEIRO – Mas pode ter um reflexo negativo no futuro, não?

MANTEGA – A economia tem política monetária, política fiscal e o programa de investimentos. Nós temos que administrar a economia, ela não vai ao seu livre sabor. Temos que ir influenciando. Se em algum momento precisar de um estímulo adicional, ela terá. Acho que não precisa porque o investimento é o item que mais está crescendo, cerca de 20% sobre o ano anterior.

DINHEIRO – O Banco Central aumenta os juros, o País gasta mais com isso e ao mesmo tempo o governo tem que dar um estímulo adicional para a economia. Não seria um contrassenso apertar de um lado e desonerar do outro?

MANTEGA – É, o sistema de metas de inflação só olha para a inflação. O Banco Central não está olhando o nível de atividade, está olhando a inflação. Se ele sinalizou, acha que a inflação está sob controle. O IPCA caiu, foi abaixo de zero. Nós estamos vendo no Brasil o coroamento de uma política de crescimento que gera muito emprego. Criamos 1,5 milhão de empregos este ano. Falta mão de obra em alguns setores.

DINHEIRO – Isso não pode ser um limitador para o crescimento dos próximos anos?

MANTEGA – É por isso que nós não queremos um crescimento de 10% neste momento. Se houvesse um crescimento de 10%, faltaria mão de obra. Já estamos importando trabalhadores. Mas não haverá falta de gente para dar conta deste crescimento. É por isso que moderamos o crescimento, para que não fique insustentável.

DINHEIRO – O sr. prevê 5,5% de alta do PIB para 2011. É este o nível de crescimento para os próximos anos?

MANTEGA – Não, vai voltar a acelerar. Acho que nos próximos anos o Brasil terá condições de crescer 6,5%, 7%. Podemos ter 6% em 2012, 6,5% em 2013 e depois pode voltar a 7%. E aí estaremos alcançando o patamar de crescimento sustentável. Estamos aumentando a capacidade produtiva do País.

DINHEIRO – O BNDES recebeu aporte de R$ 180 bilhões do Tesouro. Se o BNDES não terá mais o dinheiro do Tesouro, quem vai financiar os investimentos?

MANTEGA – O BNDES foi fundamental para enfrentar a crise. E a injeção do Tesouro foi fundamental para que ele sustentasse os investimentos. Mas o BNDES já tem uns R$ 65 bilhões de recursos próprios. Emprestou R$ 137 bilhões no ano passado e neste ano deve emprestar uns R$ 130 bilhões. Mas, daqui para a frente, queremos que o setor privado entre mais no financiamento de longo prazo. O avanço que precisamos é habilitar o setor privado para investir em infraestrutura.

Vamos ter um crescimento no mercado de debêntures, de letras financeiras, de capitais. E o BNDES vai diminuir sua presença nos próximos anos.

DINHEIRO – Nos próximos anos ou já no ano que vem? Vão faltar R$ 60 bilhões.

MANTEGA – Já no ano que vem. O BNDES também terá instrumentos de captação. O BNDES vai emitir debêntures, vai pegar dinheiro no Exterior. Os empresários brasileiros já voltaram a pegar dinheiro lá fora porque é mais barato. Especialmente empresas de exportação, que têm um hedge natural. Vamos ter que diversificar o funding para o longo prazo. Para ajudar o setor privado a viabilizar os investimentos, vamos mudar algumas regras. Por exemplo, vamos tirar Imposto de Renda de debêntures. Dentro de uns dois meses, teremos um conjunto de medidas para favorecer e estimular a tomada de crédito.

DINHEIRO – Mesmo com o mercado lá fora ainda complicado?

MANTEGA – O mercado lá fora está complicado, mas não para o Brasil. Também faltam oportunidades de aplicação. Eles não querem financiar os americanos, os europeus, mas os brasileiros eles querem financiar. Para o Brasil não falta crédito externo.

DINHEIRO – O sr. está preocupado com uma nova queda na economia mundial?

MANTEGA – Não, não estou. Os governos já aprenderam, e principalmente com o G20, a não deixar as crises se aprofundarem. O cenário europeu está sob controle. Eles estão com dificuldades, mas não há perigo de quebra, de país que não vai pagar a conta, de bancos quebrarem. Vão ter um crescimento mais lento, um tempo de recuperação. Vai levar uns dois anos. Os Estados Unidos já estão se recuperando. O cenário lá fora não é muito favorável, mas o Brasil tem o mercado interno.

DINHEIRO – O Brasil vai mesmo fazer o superávit primário cheio, de 3,3% do PIB?

MANTEGA – Nós perseguiremos o superávit cheio, mas temos a flexibilidade de poder abater os investimentos do PAC. Temos uma margem, uma válvula de escape. Com o PIB subindo, a meta de superávit fica ainda maior. Mas, de qualquer maneira, a dívida pública está caindo. Se vai ser 3,3% ou 3,1%, não faz a menor diferença. Ainda há o fundo soberano. Ele tem R$ 16 bilhões, aplicados em títulos do governo. É 0,5% do PIB, que podemos usar no superávit.

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