|
Entrevistas
23/12/2009
Para ministro, teoria de perturbação em ano eleitoral é falsa e BC não deve subir juros
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal O Globo
BRASÍLIA. Orgulho é o que se vê na fisionomia do ministro da Fazenda, Guido
Mantega, ao falar sobre a economia brasileira
durante a crise mundial iniciada em 2008. Em entrevista, afirmou que o candidato
à sucessão do presidente Lula que falar em mudar a política econômica “vai
perder”. Mantega descartou o cenário que
teme o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles — que em entrevista
ao GLOBO afirmou que a eleição presidencial pode trazer tensão à economia:
— Essa teoria é falsa — sacramentou
Mantega.
Citando
Meirelles, afirmou que não há motivos para alta de juros em 2010. Na área
cambial, lembrou ter alertado o presidente
Lula em 2006 sobre a necessidade de agir para conter a valorização do real —
o que teria desencadeado o aumento da compra de reservas internacionais. Hoje, a
cotação do real (acima de R$ 1,70) se
aproxima ao patamar de 2006: — O câmbio nunca é uma questão resolvida,
mas a tendência é benigna.
O
GLOBO: O senhor acredita que o ano eleitoral pode gerar tensão e prejudicar a
economia em 2010?
GUIDO
MANTEGA: Essa teoria de que ano de eleição é ano de perturbação na economia
é falsa. Era verdadeira no passado, porque
toda vez que você tinha eleição você tinha uma crise econômica. Em
1989, você tinha quase uma hiperinflação. Você não tinha reservas, podia
sofrer um ataque especulativo. Em 2006, isso
já não foi verdadeiro. A eleição não atrapalhou a economia. Em 2010, com
mais razão, essa perturbação não vai acontecer.
O
que garante isso?
MANTEGA:
A economia está mais sólida, temos mais reservas, situação fiscal boa,
inflação baixa, emprego aumentando,
população mais satisfeita e candidatos responsáveis. Nenhum deles vai jogar fora
esse trabalho que foi feito. Política econômica eficiente e que dá resultado
não se muda. Se algum candidato ousar dizer
que vai mudar a política social, acabar com o Bolsa Família, reduzir o ritmo
de crescimento, vai perder. Pode até aparecer alguém que mude, mas ele só vai
ter 6% dos votos, que é o percentual de quem
acha o governo ruim ou péssimo.
Qual
será a sua contribuição para eleger o sucessor do presidente Lula?
MANTEGA:
Minha maior contribuição à eleição do sucessor do presidente é continuar
fazendo uma política econômica eficiente.
Existe uma preocupação em relação à política fiscal.
MANTEGA:
Existia até ontem (quando foi anunciado que a arrecadação teve o melhor
novembro da história)
Mesmo assim, oposição e economistas têm criticado a política fiscal do
governo Lula, apontando que a forte alta de
gastos, como pessoal, compromete as contas públicas. Aponta-se um salto na
dívida pública bruta. O senhor não vê
nenhum risco?
MANTEGA:
Tem analista que é pago para encontrar problemas. No caso da dívida (bruta):
essa conversa surgiu com os empréstimos ao
BNDES. Mas eles vão ser devolvidos, em qualquer empresa não
é dívida. Realmente gastamos com servidor, mas porque aumentamos o número de
policiais federais, de professores.
Educação é um gasto salutar. E vamos acabar 2009 com 5,09% do PIB (de
gastos com pessoal), que é mais ou menos o mesmo do governo Fernando Henrique.
E aprovamos o teto para aumento da folha de
pagamento da União, que é uma salvaguarda importante.
Há
risco de não cumprimento das metas de superávit fiscal?
MANTEGA:
Não. Vamos entregar 2,5% do PIB este ano e 3,3% em 2010. E a dívida voltará
à trajetória de queda.
Muitos analistas têm visão curta, projetaram resultado enquanto a receita
caía, sem vislumbrar que ela subiria. A
ordem é calibrar. Fizemos contingenciamento, pergunte aos ministros se
receberam tudo que orçaram.
O
crescimento mais forte em 2010 pode gerar pressão por alta de juros?
MANTEGA:
Eu não acredito que o Banco Central (BC) aumente juros porque ele não fará
nenhuma elevação desnecessária. O
presidente do BC deu uma entrevista para O GLOBO (no último domingo)
dizendo que acredita que não há necessidade de subir, que a inflação estará
comportada em 2010. Se tem outras pessoas
sinalizando em outra direção, eu acredito mais no presidente do BC.
As
medidas adotadas para conter a forte valorização do real frente ao dólar
foram suficientes?
MANTEGA:
Com as medidas que nós tomamos, nós seguramos os excessos.
Além
disso, a tendência é que o Fed (BC americano) suba os juros (atraindo capital
para o mercado dos EUA). Nós temos um
déficit em transações correntes que eu acho que vai ficar em, no máximo, 3%
do PIB em 2010. Isso vai durar um ou dois anos, que é o período em que a
economia mundial está desaquecida. Depois,
voltaremos a exportar e a diminuir o déficit corrente. Eu acho que o real não
vai se sobrevalorizar.
|