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Entrevistas
21/12/2009
O ministro Guido Mantega afirma que a valorização do real, ao contrário do que desejam os investidores financeiros, não é um problema superado
Alerta ligado
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a Revista Carta Capital
Cauteloso com as palavras, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sabe que, se
deixar, corre o risco de ver as ideias que
defende dentro do governo serem deturpadas pelo viés financista que domina
o debate econômico no País. Foi assim poucos dias atrás, quando circulou a
informação de que Mantega estaria
despreo-cupado com a valorização do real em relação ao dólar. Subtexto implícito:
os negócios cambiais seguiriam adiante, como desejam os investidores
financeiros, sem cuidados maiores com os
desdobramentos do dólar barato sobre o setor produtivo.
Na
sala de seu gabinete em São Paulo, na sede regional da Caixa Econômica
Federal, onde recebeu CartaCapital para a
entrevista a seguir, Mantega apresenta a sua versão. Diz que esse não é um problema
superado, mas “encaminhado”, o que é bem diferente. E completa: “Se os
empresários brasileiros forem corajosos e
souberem aproveitar esse câmbio que não vai perdurar a vida toda, é um
momento também de eles irem às compras de empresas no exterior”.
CartaCapital:
Recentemente, circulou a notícia de que o senhor considera a questão da
valorização do real um problema superado,
após a criação do IOF de 2%. É verdade?
Guido
Mantega: Não é um problema superado. O que eu quis dizer é que ele está
encaminhado, estancamos a -valorização do
real. Em setembro, o dólar estava a 1,90 real e aí começou a cair, cair...
e prenunciava que cairia a até 1,55. Havia um forte fluxo de capital externo no
País, certamente exagerado. Havia um apetite
muito grande pelo Brasil. E isso é razoável, claro, o Brasil hoje
tem solidez, rentabilidade e crescimento. É uma combinação difícil de
encontrar no exterior, somos um dos poucos
países com crescimento vigoroso. Não sou contra a entrada de capital estrangeiro,
investimentos produtivos, IPOs. Sempre fui favorável ao mercado de capitais,
pois ele significa um capital barato para os
empresários que querem se expandir. Minha preocupação é com os
excessos.
CC:
O capital de curto prazo foi a alvo do IOF de 2%, não?
GM:
Sim, porque o capital paga 2% na entrada, então se ficar apenas um mês talvez
não consiga ganhar mais que 2%, terá de
ficar um ano, um ano e meio. O Pais não perde a atratividade, apenas tira
a atratividade daqueles movimentos de curto prazo. Esse capital de curto prazo
cria volatilidade, o que não é bom. Com
essa medida, conseguimos reduzir a volatilidade. E, nesses dois meses, o real
deixou de se apreciar.
CC:
Mas ainda há volatilidade.
GM:
Temos cambio flutuante. Para o Brasil, foi o melhor regime cambial, o fixo não
funciona, principalmente quando outros
países têm cambio flutuante. O que tenho dito no G-20 aos meus colegas
ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais e que não podemos ter
assimetrias de políticas entre os vários
países. Não podemos ter os EUA deixando o câmbio se depreciar, acompanhados
pela China e outros países asiáticos, o que causa desequilíbrios cambiais
prejudiciais a todos. Não podemos manter
essa situação. Falei queo0 Brasil adotou uma medida, mas o certo é que
os países em conjunto fossem mais homogêneos na questão cambial. E houve
apoio, por exemplo, do presidente do Banco da
Inglaterra e do presidente do Banco Central Europeu.
CC:
E como reagiram as representantes dos EUA e da China?
GM:
A China não será demovida por nenhuma pressão, ela já foi feita. Nas
reuniões no FMI, essa questão veio à tona
varias vezes, todo mundo reclamando. E a China permaneceu impassível. Quando
viu o dó1ar se depreciar, ela disse "vou junto" e acabou, não têm
conversa. Mas acredito que os EUA não
poderão permanecer por muito tempo com essa taxa de juros de 0,25%, mesmo porque
não ajuda em nada a eles, só cria desequilíbrios. É como se o dó1ar não
valesse nada. Em breve, os EUA deverão
elevar o juro, mesmo que permaneça baixo para os padrões tradicionais. Se subir
de 0,25% para 1%, causara uma valorização do dólar que será suficiente para
reverter os mercados cambiais.
CC:
A conjuntura não é preocupante para as exportações brasileiras?
GM:
A queda das exportações foi proporcional á queda do comércio internacional,
não houve uma substituição do Brasil pela
China. Ao contrario, ate mantivemos um patamar mais elevado de exportações
conta da China.
CC:
Isso no caso das commodities?
GM:
Sim, mas podemos em determinado momenta exportar um pouco mais de commodities,
em outro mais manufaturados. Prefiro exportar
mais manufaturados, mas também gosto de exportar mais
commodities, principalmente quando o preço delas este elevado. O que me
interessa e ganhar valor. Então, se neste
momento conseguimos atenuar um problema de queda do comercio internacional,
exportando mais commodities e produto primário, não vejo problema. A economia mundial
ainda vai levar uns dois ou três anos para se recuperar. Neste ínterim,
teremos de contar mais com o mercado interno.
Tivemos perdas em relação á China? Talvez alguma perda pontual sim, mas
de modo geral a China nos fez mais bem do que mal. Neste ano, aumentamos as
exportações ao mercado chinês em 60%.
E acho que essa combinação de fatores é passageira. E se os empresários
brasileiros forem corajosos e souberem
aproveitar este cambio que não vai perdurar a vida toda, é um momento também
de eles irem às compras de empresas no exterior. Com isso, poderão firmar
posições em outros mercados. E alguns
estão fazendo isso.
CC:
A recente injeção de 80 bilhões de reais no BNDES e a renovação das
isenções fiscais são realmente
necessária?
GM:
O investimento só se recuperou nos últimos meses. Como e normal, ele sofreu
uma queda, já que, quando surge uma crise, a
primeira coisa que se retrai e o investimento. O Brasil precisa de mais
investimento em infraestrutura, em 100gistica, energia, transporte, saneamento.
Dar dinheiro ao BNDES significa dar dinheiro
ao investimento. E temos de pensar no pós-crise. Outros países vão liderar
o crescimento e é necessário atrair as empresas a se instalar no Brasil.
CC:
Mas não é justamente ai que a volatilidade do câmbio atrapalha?
GM:
Mas hoje existe volatilidade com o euro, com o dó1ar, ainda estamos em um
momento próximo à crise. Mas, se olharmos
para o gráfico de volatilidade, estamos quase que em uma reta, tendendo um
pouco para cima (para a desvalorização do real). A tendência é diminuir essa
volatilidade, caminhando para uma
desvalorização do real, essa é a minha percepção do que vai acontecer.
CC:
Nesse mundo pós-crise a que a senhor se refere, a China surge como protagonista
importante.O que podemos aprender com os chineses?
GM:
A China é um grande protagonistas, mas eu diria que não e só ela. Eu diria
que a índia e o Brasil também são. Hoje,
sob certos aspectos, a economia brasileira e mais atraente do que a chinesa.
A economia chinesa para manter o ritmo de crescimento teve de fazer um esforço
fiscal muito maior do que nós fizemos. Ela
injetou um volume brutal de crédito na economia, a ponto de ter provocado
uma bolha na Bolsa de Xangai, e deteriorou as contas fiscais, que são piores do
que as nossas. Claro que eles têm muitas
reservas e tudo o mais ... Mas temos um regime jurídico mais firme
do que os chineses, as nossas regras em relação a capitais externos são muito
mais transparentes e, digamos, muito mais
liberais do que as de China e índia, que têm varias restrições. Agora
a China ainda está se transformando em uma economia industrial, então a taxa
de crescimento dela é grande. Mas a própria
China vai sofrer mudanças importantes, pois vai estimula o mercado interno
e vai ter' um saldo comercial menor. Outro exemplo e o mercado de capitais
brasileiro, muito mais avançado do que o
chinês.
GM:
Como a crise foi feia e poderia ter causado imensos estragos em todos os
países, alguma lição foi aprendida. A
principal e que o mercado não pode funcionar desregulamentado. O que acontece
é que, em alguns países, o sistema
financeiro é poderoso, avesso a regu1amentação. Não o nosso, que
é muito bem comportado. Aqui no Brasil, o sistema é solido e ás vezes até
conservador em excesso, não cometeu os
pecados que cometeram por 1á. Poderá ter cometido outros pecados, como
diria Mino Carta, mas esses não foram cometidos. Qual é o risco? O governo
norte-americano entrou com um projeto de
regulamentação e, no G-20, estamos estimu1ando a criação de
uma nova instituição que trata de regu1amentação dos mercados de
derivativos, por exemplo.
CC:
E essas propostas caminham?
GM:Estão
caminhando, mas não posso garantir que serão levadas a bom termo. O governo
Obama apresentou uma proposta ao Congresso e
haveria avanço. Mas lá a resistência é maior porque Wall Street
é poderosa e influencia muito, inclusive os Congressistas. Por isso não sei se
esse projeto vai avançar. Na Europa, sim,
vai avançar porque os europeus são mais conservadores .•
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