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Entrevistas
14/08/2009
O ministro da Fazenda diz que há muito tempo o Brasil se prepara para ser um país forte e saudável
"Crescemos sem desequilíbrio"
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a Revista Época
Ao fechar os números do segundo trimestre de 2009, o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) informou que,
nos últimos 12 meses, o Brasil cravou um crescimento positivo de 1,3%.
Embora seja uma prova de que o país venceu a recessão, é um índice
modestíssimo sob qualquer ponto de vista.
Quando se recorda que, em setembro de 2008, o mundo afundava na pior crise em 80
anos e que a economia de muitos países segue em estado vegetativo, a
recuperação brasileira tornou-se caso de
estudo dentro e fora do país. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega,
que esteve no centro do esforço de recuperação, recebeu ÉPOCA para uma
entrevista. Eis os principais trechos.
QUEM
É
Nascido
em Gênova, Itália, Guido Mantega é ministro da Fazenda desde 2006. No governo
Lula, foi presidente do BNDES e ministro do
Planejamento
O
QUE FEZ
Para
enfrentar a crise mundial, o Ministério da Fazenda lançou medidas de estímulo
ao crescimento
O
QUE PUBLICOU
Livros
de economia, entre eles Economia política brasileira e Acumulação monopolista
ÉPOCA
– Como está a economia brasileira, hoje?
Guido
Mantega – O Brasil não só está saindo da crise, mas também sai mais
fortalecido. É visto hoje como um dos
países mais dinâmicos do mundo. O nível de investimentos estrangeiros
cresceu.
Nossa Bolsa de Valores foi a que mais se valorizou, em dólar, no mundo. O
Ministério do Trabalho diz que vamos criar 1
milhão de novos empregos até o fim do ano. Acho que vamos criar 600 mil. Nosso
Natal será um dos melhores do planeta.
Acredito que, na virada do ano, nossa economia vai estar crescendo
4% e que vamos entrar num novo ciclo de crescimento pelos próximos seis ou sete
anos.
ÉPOCA
– Essa recuperação se apoiou em gastos e estímulos do governo. Esses custos
não podem atrapalhar mais à frente?
Mantega
– Isso não vai acontecer. Estamos gastando pouco. A China vai gastar 13% do
PIB. Os Estados Unidos, 5,6%. Estamos
gastando US$ 30 bilhões, ou 1% do PIB. Se você medir o deficit, teremos
um deficit de 1,9% em 2009. Deveremos ficar com 0,8% em 2010. O deficit da
Índia será de 10%. O dos EUA 13%, e o da
China 3%.
ÉPOCA
– Mas as exportações continuam sendo um problema.
Mantega
– Perdemos US$ 40 bilhões. O setor de calçados levou uma trombada. A
siderurgia também. As exportações da
indústria automobilística caíram 30%. A recuperação aí será mais lenta, até
porque depende de algo que não podemos controlar, o mercado externo.
ÉPOCA
– O governo não cometeu nenhum erro?
Mantega
– Depois que as coisas acontecem, você sempre pode dizer que poderia ter
feito melhor.
Mas
os resultados mostram que em geral acertamos, tanto nas medidas econômicas como
em fazer um pouco de pressão. Reduzimos o
IPI da indústria automobilística, que mobiliza 28% da produção industrial.
Liberamos o compulsório dos bancos, mas condicionamos o pagamento da
remuneração à oferta de crédito para
compra de automóveis. O Tesouro também colocou R$ 100 bilhões no BNDES,
como empréstimo a quem quisesse fazer investimentos. Oferecemos outras
garantias. Os juros caíram. Tudo começou a
melhorar.
Gastamos
1% para sair da crise. A China vai gastar 10%
e os Estados Unidos 5,6%
ÉPOCA
– Qual é a raiz da recuperação?
Mantega
– É como se há muito tempo o país viesse se preparando para se tornar um
país mais forte e saudável. Fizemos
mudanças institucionais e econômicas importantes, em diversos governos. Antes da
crise, tivemos três anos de altos investimentos, de aumento nas exportações,
de crescimento nas reservas. Pela primeira
vez na história recente, o Brasil apresentou um crescimento sem desequilíbrio.
Antes o país crescia, mas gerava inflação. Ou crescia e gerava dívida
externa, ou gerava deficit. Nós crescemos
sem inflação, pagamos nossa dívida com o FMI, fizemos mais de US$ 200
bilhões em reservas. Entramos na crise sem inflação e sem dívidas em dólar.
Estávamos crescendo quase 7%. Nossa
preocupação era pisar um pouco no freio para evitar pressões inflacionárias.
Os países que mais sofreram foram aqueles que produziam grandes
desequilíbrios, como os Estados Unidos, que
usavam a poupança externa para pagar o consumo da população e mantinham
deficits gigantescos, num castelo de cartas que só poderia cair.
ÉPOCA
– Por que o Brasil ficou diferente?
Mantega
– Essa foi uma crise financeira, e o Brasil é um país conservador do ponto
de vista financeiro. Pelas regras
internacionais, um banco pode fazer empréstimos equivalentes a 11 vezes seu
patrimônio. Nos EUA, os empréstimos dos bancos de investimento passavam de 30
vezes. No Brasil, a média é emprestar
apenas 6,5 vezes. Veja você que, às vezes, o conservadorismo é bom.
ÉPOCA
– Como explicar isso?
Mantega
– Os bancos sempre puderam ganhar muito com nossas taxas de juro, que sempre
foram altas. Mesmo hoje, com juros baixos, o
spread cobrado pelos bancos continua alto. Isso não é certo, pois
voltamos a ser um país normal e podemos ter juros normais. A diferença está
em nossos controles, que são rigorosos e
não deixam os bancos esconder seus problemas. O controle não pode ser
100%, porque existem operações fora do Brasil, mas chega a 90% do setor
financeiro. Outro fator são os bancos
públicos. Na crise, eles elevaram o crédito em 25%, em comparação a pouco mais
de 3% dos bancos privados. Hoje, representam 40% da oferta de crédito privado.
ÉPOCA
– Quando o senhor constatou que estava diante da pior crise em 80 anos?
Mantega
– Quando o Lehman Brothers caiu (15 de setembro de 2008). Até então,
ninguém sabia o que estava acontecendo. Os
problemas eram escondidos, a sujeira ia para debaixo do tapete.
Ocorreu,
de repente, a paralisação total de crédito. Zero. As portas se fecharam, e a
economia parou. Lembro que eu encontrei o
Paulson (Hank Paulson, então secretário do Tesouro dos Estados Unidos),
logo depois, em Washington. Você podia ver a crise no rosto dele. Estava
branco, parado. A expressão era de quem
havia tentado de tudo e já não sabia mesmo o que fazer. Todo mundo estava assim.
No Brasil, os empresários se apavoraram. Muitos começaram a dar férias
coletivas, a suspender a produção. Houve
certo exagero. Porque o país estava bem, queríamos sair da crise e agíamos
para isso. O presidente Lula nos disse para ser ousados e agir com rapidez. O
Brasil foi rápido para fazer uma política
contracíclica.
ÉPOCA
– O senhor acredita que a crise mundial acabou?
Mantega
– Não acredito na volta da recessão, pelo menos enquanto a maioria dos
países concordar que é preciso manter
políticas de estímulo ao crescimento. O mundo está saindo da recessão, mas o
risco de retorno não está eliminado. Uma
das lições da crise é entender que os mercados não podem ser
deixados à solta, sem uma intervenção do Estado. A recuperação só foi
possível porque todos aceitaram isso. Caso
contrário, o mundo teria ido para uma depressão.
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