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Entrevistas
13/08/2009
Governo fará nova rodada de incentivos à indústria
Fazenda deve lançar em 2010 pacote para diminuir o custo dos investimentos e
estimular exportações; entre as medidas está a desoneração da folha de pagamento
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a Folha de S. Paulo
Um ano após a eclosão da crise e com o país ensaiando uma retomada do
crescimento, o ministro Guido Mantega (Fazenda) revelou à Folha que o governo
vai lançar, no início de 2010, nova rodada de incentivos para elevar a
competitividade da indústria nacional e compensar o impacto negativo da
valorização do real. Classificadas por ele como medidas para um cenário
pós-crise, num ambiente de maior concorrência internacional, elas deverão
diminuir o "custo financeiro e tributário" de investimentos e de
empresas exportadoras. O ministro citou a desoneração da folha de pagamento
como uma delas.
Guido
Mantega (Fazenda) durante entrevista em Brasília; ministro diz que questão
fiscal não será entrave para a União
A
questão fiscal -queda na arrecadação- não deve ser um entrave para o governo
promover novas medidas de fomento à economia, afirma o ministro da Fazenda,
Guido Mantega. Ele prevê a recuperação da receita em 2010 e diz que, se for
preciso, usará os mais de R$ 14 bilhões do fundo soberano para
"estímulos econômicos".
A retomada do crescimento, na visão de Mantega, não deve levar o governo,
contudo, a desmontar todas as medidas anticrise adotadas até aqui. Ele defende,
por exemplo, que o governo mantenha mais dinheiro em poder dos bancos para
estimular o crédito. "Não há intenção de voltarmos, nesse momento, ao
nível de compulsório anterior", afirmou, em referência aos recursos que
as instituições são obrigadas a recolher ao Banco Central -o chamado
depósito compulsório.
Comemorando o resultado das medidas adotadas durante a crise, Mantega diz que,
sem elas, o país fecharia este ano com uma queda no PIB de pelo menos 1,5%.
Agora, prevê que o país fechará 2009 com um crescimento de 1%, e de pelo
menos 4% no ano que vem.
Ao fazer um balanço da crise mundial, o ministro afirmou que, no final, o
presidente Lula "até que tinha razão" ao dizer que a crise no Brasil
seria uma marolinha. E disse que a principal lição da crise é que "não
se pode deixar os mercados fazerem o que bem entenderem". O que, em sua
avaliação, justifica a maior intervenção do governo Lula na economia.
"Até admito que somos mais nacionalistas", afirmou. Duvida, porém,
que isso vá ser usado contra o PT nas eleições. "Não vão usar esse
discurso, porque vão quebrar a cara."
FOLHA
- Com a volta do crescimento no segundo trimestre, qual é a intensidade da
recuperação?
GUIDO
MANTEGA - Hoje estamos com o crédito bastante recomposto. Não é 100% ainda, o
custo financeiro é elevado, os "spreads" [diferença entre a taxa que
o banco paga ao captar dinheiro e a que cobra ao emprestar] estão elevados,
porém há uma recomposição razoável do crédito. O mercado consumidor está
indo bem. Acredito que podemos encerrar o ano com um crescimento de 1%.
FOLHA
- O que teria acontecido se o governo não tivesse tomado medidas anticrise?
MANTEGA
- Estamos fazendo um estudo, não temos o resultado completo, mas as medidas
fiscais e monetárias devem ter produzido um efeito entre 2% e 2,5% do PIB a
mais.
Se tivermos 1% positivo de PIB neste ano, se não fossem as medidas, cairíamos
1,5%. É uma estimativa.
FOLHA
- Com a volta do crescimento, vai haver prorrogação das desonerações para a
indústria?
MANTEGA
- Não há, neste momento, nenhuma intenção de prorrogar essas medidas. Eu
não vou aqui jurar, porque a gente está sempre observando a situação da
economia. A velocidade [do crescimento] no último trimestre será em torno de
4%.
FOLHA
- E as medidas monetárias, como a liberação dos compulsórios, dinheiro que
os bancos têm de recolher ao BC?
MANTEGA
- Até o ponto em que nós discutimos, não há intenção de voltarmos neste
momento ao nível de compulsório anterior. Deve permanecer do jeito que está.
Não é o caso de retornar esse dinheiro, mesmo porque ainda temos R$ 160
bilhões de compulsório. Agora, é uma coisa que não depende apenas de mim, é
uma questão que depende do Banco Central.
FOLHA
- As taxas de juros voltarão a subir em 2010?
MANTEGA
- A redução da taxa de juros não tem necessidade de ser revertida. Não vejo
nenhum motivo para subir, mas eu não tenho a última palavra nessa questão. A
inflação está muito bem comportada, não há razão para mexer na equação.
FOLHA
- Mesmo em 2010?
MANTEGA
- Em 2010 estamos ampliando o produto potencial do país, a economia brasileira
está pronta para funcionar sem inflação com um PIB de 5%.
FOLHA
- Voltando à questão dos compulsórios, os bancos vão usar esse excesso de
dinheiro para aumentar o crédito?
MANTEGA
- Não posso garantir, mas, se eles não canalizarem, vão perder dinheiro.
FOLHA
- Qual a taxa de juros ideal no final do governo Lula?
MANTEGA
- Não sei se no final do governo Lula, mas em algum momento no futuro o Brasil
terá uma taxa básica com um juro não maior que 2% a 3% reais. Não mais que
isso, não há necessidade.
FOLHA
- Quais são os problemas pela frente?
MANTEGA
- O Brasil ainda tem inúmeros problemas a enfrentar até se tornar uma
potência de primeira grandeza. Ainda há resquícios da crise. Temos uma queda
do comércio internacional, isso afeta o setor exportador e não foi resolvido.
Temos o problema do câmbio valorizado desestimulando as exportações
brasileiras e dando, digamos, uma condição menos competitiva [às
exportações].
FOLHA
- Como resolver esse problema?
MANTEGA
- Não será de forma artificial nem com manipulação de câmbio. Somos adeptos
do câmbio flutuante, deu certo no Brasil, mas temos de ser agressivos na compra
de reservas. E temos que tomar medidas que aumentem a competitividade da
indústria brasileira, reduzir custos. Se o câmbio está destinado a ser
valorizado por uma série de razões, boas até, temos de compensar isso. Temos
de dar taxas de juros cada vez mais baixas para o exportador brasileiro, para o
investimento que vai gerar essa exportação.
FOLHA
- Quais são as medidas em estudo nessa área?
MANTEGA
- Um programa de redução de custos, para aumentar a competitividade da
economia brasileira no pós-crise.
FOLHA
- Mas há espaço fiscal para tomar essas medidas?
MANTEGA
- Pensamos em medidas que serão implantadas a partir do início do próximo
ano. Então já se beneficiarão da recuperação da arrecadação. Faremos
novas medidas de caráter de redução de custo financeiro e de custo
tributário no ano que vem. Medidas pensando no cenário pós-crise, no qual o
mundo será diferente.
FOLHA
- Diferente como?
MANTEGA
- Teremos uma competição muito mais forte no comércio exterior, porque o
mercado encolheu. Vamos ter de disputar mais os mercados.
FOLHA
- Quais medidas serão lançadas no ano que vem?
MANTEGA
- Reduzir o custo da folha de pagamento, por exemplo.
FOLHA
- A questão fiscal não é outra grande dor de cabeça hoje? Será difícil
cumprir a meta de superavit primário neste ano.
MANTEGA
- É verdade que é mais difícil. Mas reduzimos o superavit primário também.
E se há um país em condições de cumprir é o Brasil. Mais do que todos os
nossos parceiros.
FOLHA
- O governo pode usar o fundo soberano nessa política de aumento de
competitividade?
MANTEGA
- No limite, pode. Não gostaria de usar o fundo soberano para sustentar gastos
correntes. Prefiro cortar gastos correntes a usar o fundo para isso. Poderei
usar o fundo soberano para novos estímulos econômicos, por exemplo, uma nova
desoneração de folha [de pagamento].
FOLHA
- Não seria ideal comprimir gastos correntes?
MANTEGA
- Não só é ideal como é uma labuta diária deste ministério. Este
ministério não estimula o gasto.
FOLHA
- Mas a ideia de colocar limite para crescimento dos gastos com pessoal acabou
não dando certo.
MANTEGA
- Está lá com o Romero Jucá [líder do governo no Senado]. Ele colocará em
pauta.Combinei com ele de incluir em alguma medida que esteja tramitando, ainda
neste ano. Nossa proposta é de 1,5%. Sei que eles têm a proposta de 2,5%. Se o
PIB crescer a 4%, estaremos diminuindo a relação da despesa corrente com o
PIB.
Não vou fazer um escândalo se for 2,5%. Eu prefiro 1,5% porque fica mais
controlado. Se passar de 2,5%, já teremos um limitador dos gastos.
FOLHA
- Como o sr. avalia a atuação do BC na crise?
MANTEGA
- Eu diria que o BC teve um desempenho excelente na crise, reagiu rapidamente,
todas as decisões foram tomadas em conjunto. Foi uma ação conjunta nos campos
financeiro, monetário e fiscal, que foi muito bem-sucedida.
FOLHA
- Qual a principal lição desta crise?
MANTEGA
- Não se pode deixar os mercados fazerem o que bem entenderem, principalmente
no campo financeiro. É preciso ter regulação pública, uma fiscalização
intensa. Não é recomendável acumular desequilíbrios fiscais e externos.
FOLHA
- A crise mostrou um lado ainda mais intervencionista e nacionalista do governo
Lula.
MANTEGA
- Até admito que somos mais nacionalistas. Mas vejo isso como uma virtude. O
nosso nacionalismo é para defender o interesse do emprego e da produção
brasileira, sem xenofobia.
FOLHA
- Não é característico do governo Lula ser intervencionista?
MANTEGA
- O Estado tem um papel importante no estímulo ao crescimento porque já vimos
que os mercados erram e acabam levando as economias a crises. Discordo que haja
filosofia estatizante. O que há, sim, é que damos importância maior ao Estado
para desenvolver certas tarefas, como planejar o desenvolvimento e estimular
determinados setores. E está dando certo.
FOLHA
- A polêmica estatizante versus privatizante pode ser usada em 2010 contra o
governo Lula.
MANTEGA
- Não vão usar esse discurso porque vão quebrar a cara.
FOLHA
- Afinal, vivemos ou não uma marolinha?
MANTEGA
- A crise bateu nos portos brasileiros mais como uma marolinha, de fato. Acho
que o nosso presidente até que tinha razão. Quando ele falou isso, foi no
início da crise, que não tinha chegado com toda sua virulência. E ele sempre
soube que o país estava em condições mais sólidas.
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