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Entrevistas
07/08/2009
MINISTRO DIZ QUE BRASIL SAI MAIOR DA CRISE, MAS QUE INVESTIMENTO E CRÉDITO
AINDA PRECISAM SE AJUSTAR
Elevar
investimento é o maior desafio, afirma Mantega
Entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal Folha de S. Paulo
FERNANDO
CANZIAN
ENVIADO ESPECIAL A WASHINGTON
O
Brasil já cresce a uma taxa anualizada de 4% desde julho e aumentou as reservas
em dólares para US$ 211 bilhões, ante os US$ 205 bilhões pré-crise.
Prometendo reforçar o rigor fiscal em 2010, o ministro Guido Mantega (Fazenda)
apresentou ontem esses dados a investidores em Washington.
Entre
as maiores preocupações da plateia, as contas públicas e os gastos no ano
eleitoral.
"Se
por algum motivo não houver o crescimento previsto de 4,5% em 2010, faremos
cortes no Orçamento. Se tivermos que elevar juros no ano eleitoral, vamos fazê-lo.
Mas não é essa a expectativa", disse.
Antes
do encontro, Mantega falou com à Folha. "O Brasil sai melhor do que entrou
nessa crise", afirma. O maior desafio, diz, é elevar os investimentos.
FOLHA
- O sr. diz que o pior já passou para o Brasil. Quando o país voltará ao
patamar pré-crise?
GUIDO
MANTEGA - Saímos dela, mas não resolvemos todos os problemas. Deixamos para trás
as taxas negativas de crescimento e caminhamos com um PIB positivo. O mercado
doméstico segurou o crescimento. Daqui para a frente, temos de resolver outras
questões. Como alavancar o investimento. Mesmo no crédito, há questões a
resolver. Pequenas e médias empresas estão em dificuldade. Por isso estamos
viabilizando os fundos garantidores.
Tudo
isso vai levando à volta da normalidade, de modo que poderemos retomar taxas
semelhantes às do passado. Mas é claro que não vamos voltar aos níveis
anualizados de 7%.
FOLHA
- No último trimestre antes do agravamento da crise, o Brasil crescia 6,8% ao
ano e o investimento, 20%. Estava aquecido demais?
MANTEGA
- Estava. Não o investimento, que estava ótimo. Mas a taxa de 6,8% estava
aquecida. Estávamos tomando medidas para dar uma segurada. Aí veio a crise.
Voltar a 7% não é o nosso projeto. Mas a 4,5% ou 5% é perfeitamente factível.
[O investimento produtivo] está rodando baixo, mas tomamos medidas que ainda não
surtiram efeito. Baixamos os juros para equipamentos. O custo tributário está
menor.
O
investimento caiu mais de 20%, mas agora deve estar crescendo entre 1% e 1,5% ao
mês. Com os estímulos para as construções pesadas e leves e com os
investimentos da Petrobras, isso estimulará outros investimentos em mais
segmentos.
Todo
o setor de construção vai voltar a investir. Outro ponto é que os Estados estão
investindo muito mais, com encomendas para metrô e outras obras de
infraestrutura. Metade desses investimentos ocorrem devido ao espaço fiscal
concedido pelo governo.
FOLHA
- Em relação aos gastos públicos, principalmente federais, analistas já
avaliam que o aumento da taxa de juros no mercado futuro sinalizaria a
necessidade de aperto mais à frente. O que o sr. diz?
MANTEGA
- Isso é movimento especulativo ou projeção errada dos analistas, pois as
contas públicas brasileiras estão absolutamente sólidas. Basta ver que no
pior ano de crise mundial ainda conseguimos fazer um certo superávit primário
(economia para pagar a dívida pública) e manter a relação dívida/PIB
estabilizada.
Em 2010, quando economia e arrecadação voltarem a crescer, vamos voltar a uma
situação mais confortável do ponto de vista fiscal. Enquanto na maioria dos
países a dívida pública está crescendo, ela vai continuar caindo no Brasil.
É a prova cabal de que nossa política fiscal é séria. Esses analistas vão
quebrar a cara. Vão errar.
FOLHA
- O sr. vê a expansão do crédito voltando ao patamar pré-crise?
MANTEGA
- Ele não vai voltar ao mesmo patamar e não precisa. O crescimento do crédito
estava excessivo. Dois ou três anos de crescimento de 34% era muita coisa. É
ótimo que a economia tenha mais crédito, mas vamos graduar isso. Vamos passar
agora a um patamar de crescimento do crédito de 15% ao ano. Está de bom
tamanho.
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