Entrevistas

06/11/2009

Para Mantega, mundo precisa manter planos de incentivo


Entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o jornal Valor Econômico

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, terá nesta semana encontros bilaterais com representantes de Rússia, Índia e China, paralelos à reunião do G-20 financeiro, na cidade escocesa de Saint Andrews. O objetivo é incrementar o comércio entre os quatro maiores países emergentes do mundo. Mantega revela que serão discutidas duas importantes propostas. A primeira delas é tentar criar um intercâmbio em moeda local. A segunda é verificar se há condição de criar um Convênio de Crédito Recíproco (CCR).

O intercâmbio em moeda local está disponível desde 2008 para argentinos e brasileiros fazerem e receberem pagamentos de transações comerciais em suas respectivas moedas, o que dispensa a conversão em dólar. O CCR foi criado no âmbito da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), em 1982, para facilitar o comércio entre 12 países da região. É um sistema de compensação de pagamentos, em dólares, operado pelos bancos centrais para dar garantias recíprocas de conversibilidade, transferência e reembolso.

Na avaliação de Mantega, o desafio imediato do G-20, principal fórum mundial de articulação das políticas econômicas, é obter uma recuperação mais rápida da atividade nos países avançados, mas, para que isso ocorra, devem ser preservados os programas de estímulo para enfrentar a crise que desestabilizou o mundo a partir da segunda quinzena de setembro do ano passado. Essa é a advertência que Mantega vai levar aos seus colegas - ministros da economia e presidentes de bancos centrais - na reunião marcada para a primeira semana de novembro.

Se os governos têm de continuar apoiando fortemente o setor produtivo, o ministro também admite que é difícil encontrar o ponto de equilíbrio porque, por outro lado, há um empoçamento de liquidez decorrente das ações de socorro financeiro que evitaram o colapso dos mercados. Esse excesso de dinheiro circulando no mundo está provocando desequilíbrios nos países que têm câmbio flutuante e uma situação macroeconômica mais sólida - Brasil, Austrália e Nova Zelândia, por exemplo - e, portanto, atraem esses capitais.

Adotar algum tipo de defesa das moedas locais contra a entrada de capitais especulativos é um dos itens da pauta do G-20, segundo o ministro da Fazenda. O Brasil já deu o primeiro passo, tributando em 2% esse movimento de recursos estrangeiros, mas o ministro defende que medidas cambiais funcionam melhor se forem aplicadas em conjunto.

A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva de Guido Mantega ao Valor.

Valor: Qual é a sua análise do cenário financeiro mundial?

Guido Mantega: Vários dos problemas colocados pela crise financeira já foram superados. A instabilidade dos grandes bancos americanos e europeus saiu da pauta e há uma estabilidade do crédito. O mercado interbancário voltou a funcionar e o fluxo para os países emergentes também voltou, embora irregular e premiando os mercados mais eficientes. Não ouço ninguém reclamando de crédito. Claro que as economias centrais ainda não se recuperaram. A volta é lenta e outro problema é o rescaldo da crise. Há alguma demora na retomada porque os países avançados já viviam sérios problemas antes da crise financeira mundial. Já sofriam ineficiências que se evidenciaram, como falta de dinamismo e competitividade. Empresas já eram ineficientes antes da crise e tiveram de ser ajudadas pelos governos. Não sei como os países avançados vão fazer, mas sairão muito machucados da crise. Não há risco sistêmico, embora já tenham quebrado mais de cem instituições financeiras nos Estados Unidos.

Valor: E os ativos tóxicos dos bancos nos EUA e na Europa?

Mantega: Estão sendo digeridos. Com o retorno da atividade econômica, há valorização de alguns desses ativos, mas o problema está sendo equacionado lentamente. O maior desafio é que ainda falta demanda nos países avançados para estimular a economia. Nos programas de estímulo que foram criados, olharam mais para a parte financeira e menos para a demanda. No Brasil, fizemos diferente e demos estímulos diretos à demanda. Já estamos todos saindo da crise. A maioria dos países, a partir do terceiro trimestre deste ano, terão números positivos de PIB, porém, ainda abaixo do patamar pré-crise. É como se tivessem caído num poço profundo e a volta é uma escalada. Está crescendo, mas não voltou ao que era. Nos países avançados, caiu a renda e as famílias ficaram mais pobres. China, Índia e Brasil se destacaram e saem mais rapidamente porque tinham situação melhor antes da crise. Nesses países, ajudou o dinamismo da economia, a competitividade, e eles liderarão o processo de crescimento mundial. Não há dúvida quanto a isso. O G-20 se consolidou como instituição importante na coordenação da política econômica mundial e tem dado contribuições para essa reconstituição. Nunca houve um diálogo como temos agora. Os ministros da Fazenda conversam várias vezes por ano, além das reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nunca vi isso na história do capitalismo. É a primeira vez que há diálogo frutífero entre os que comandam as principais economias do mundo. Discutimos em pé de igualdade. Não há mais um grupo de países que dita as normas porque a crise acabou com isso. Ninguém é dono da verdade. Não fosse o G-20, a crise seria pior.

Valor: Qual é o desafio mais imediato do G-20?

Mantega: Conseguir a recuperação mais rápida das economias avançadas e isso significa a manutenção dos programas de estímulo. Não pode haver uma redução prematura dos incentivos onde ainda não houve a retomada da atividade. Alguns ministros não estão acostumados a conviver com déficits elevados e dívidas monstruosas. De repente, um país como o Japão tem uma dívida de 200% do PIB. Imagine se o Brasil estivesse assim. Nós estamos em 43%. Nos EUA, o déficit nominal é de mais de 10% ao ano. Entendo, mas alguns ministros querem se precipitar e desativar alguns programas, o que é errado. O Brasil está numa situação mais confortável e pode pensar em desativar parte dos estímulos fiscais. Temos de alertar para que não parem de estimular enquanto não for consolidada a retomada do crescimento. Na última reunião, disse que era cedo para discutir estratégias de saída dos incentivos. Expliquei que ainda tínhamos de pensar na saída da crise. Outro problema é o empoçamento de liquidez decorrente das ações anticrise para irrigar os mercados.

Valor: Qual é o risco desse tipo de excesso?

Mantega: Isso criou uma liquidez em dólares, mas esse dinheiro não está sendo absorvido pela produção. Esses ativos, num primeiro momento, foram para os EUA em busca da segurança dos "Treasuries". Agora, com a estabilização dos mercados, esses investidores querem remuneração melhor e o excesso de liquidez passa a buscar oportunidades em países que apresentam condições mais vantajosas como, por exemplo, Brasil, Austrália e Nova Zelândia. Eles mostram capacidade de crescimento e têm bolsas de "commodities" que são, no momento, boas alternativas. Qualquer fundo de investimento tem essa opção Para quê ficarem aplicados em dólares se têm nas "commodities" melhores rentabilidades? Esse excesso causa desvalorização do dólar porque não há demanda forte pela moeda americana. O problema atual é o desequilíbrio do fluxo de capitais causado pela fraqueza do dólar, afetando a competitividade de muitos países. Para agravar esse quadro, alguns países asiáticos não seguem as regras do câmbio flutuante. Isso cria um mercado irregular e distorcido. Essas moedas asiáticas estão atreladas ao dólar e o fluxo de investimentos vai para os outros países, provocando apostas na valorização de moedas locais e nas respectivas bolsas. Hoje, o "carry-trade" é feito na bolsa quando o investidor pega dinheiro emprestado em dólar, custando nada, e aplica na bolsa brasileira. Quando sai, converte em dólares e realiza o ganho.

Valor: No âmbito comercial, há alguma conversa adiantada com Rússia, Índia e China?

Mantega: Temos entendimento com a Rússia para intensificar o comércio. Espontaneamente, isso já aconteceu. Em 2009, o comércio com a China saltou 60% e podemos fazer isso com a Rússia quando eles superarem os problemas da forte queda da atividade. Temos uma agenda importante com Rússia, Índia e China para elevar a corrente de comércio. Vamos aproveitar mais os tamanhos desses mercados e a complementariedade das cadeias produtivas. Já iniciamos uma pauta para ter intercâmbio em moeda local. Não avançamos muito ainda porque tínhamos outras prioridades.Montamos equipes técnicas para desenvolver o tema. Paralelas à do G-20, temos pautas bilaterais com China, Rússia e Índia. Neste ano a agenda foi infernal. Não fosse isso, já teria ido à Rússia e à Índia. Em 2010, os contatos serão muito mais intensos. Os quatro países do Bric têm uma aliança entusiástica.

Valor: O intercâmbio em moeda local repete o modelo que já existe com a Argentina?

Mantega: Há duas possibilidades. Intercâmbio em moeda local e algo como o CCR (Convênio de Crédito Recíproco) da Aladi (Associação Latino-americana de Integração).

Valor: Na reunião do G-20 será discutida alguma barreira contra a entrada de capitais especulativos?

Mantega: Esse é um tema que vou discutir com meus colegas. Vamos analisar como enfrentar essa irregularidade, essa anomalia do mercado cambial. Se for enfrentada em conjunto, é mais eficaz. Medidas cambiais funcionam melhor em conjunto.

Valor: O senhor vai defender algo como o IOF, mas articuladamente?

Mantega: Não necessariamente. Podemos encontrar outras medidas. Vou colocar essa discussão na mesa do G-20. O ideal seria que os Estados Unidos subissem a taxa de juros porque o dólar se valoriza. Levei essa questão ao G-20, mas ela é um subproduto de outro tema que já está lá. São os desequilíbrios comerciais. Alguns acumulam muitas reservas e são fortemente exportadores. A questão cambial, de certa forma, é o espelho do desequilíbrio comercial. Vou dizer que temos de olhar os dois lados da moeda. Os americanos vivem um dilema porque o dólar fraco perde espaço como moeda internacional, mas isso favorece a produção interna. O PIB que terão em 2009 seria muito pior se o dólar não fosse desvalorizado.

Valor: Austrália e Nova Zelândia estão adotando medidas semelhantes à do IOF?

Mantega: Nas economias asiáticas, as medidas são compras agressivas de dólares para que a moeda não se desvalorize. A China administra o dólar dessa maneira. Compra tudo e regula a oferta de dólares no mercado cambial local. As restrições são muito maiores que no Brasil. Daí, sobram mais dólares para Brasil, Austrália e Nova Zelândia que têm câmbio flutuante. Esse sistema funciona bem quando todos o praticam e se autorregulam. Se isso ocorresse na Ásia, haveria melhor equilíbrio dos fluxos de capital. O Brasil é o "objeto do desejo" porque, pelo conjunto de suas condições, tem o crescimento mais sólido pela frente, mercado interno importante, regras claras, transparência e presença maior de capital externo em relação ao PIB. O mundo deve crescer 1,5% ou 2% em 2010, mas o Brasil crescerá 5%. Os mercados se antecipam a isso, a esse novo ciclo de crescimento.
Nosso país tem bolsa de valores que reflete demanda e perspectiva de lucros. Teremos pré-sal,
Copa do Mundo em 2014, Jogos Olímpicos em 2016, grandes empreendimentos de infraestrutura, etc. Somos o país do presente e do futuro, mas alguns já falam que avançou e deixou de ser emergente. Há consenso sobre o sólido crescimento do país nos próximos anos. Ao contrário da maioria dos países, a crise não afetou os fundamentos da economia brasileira. Diante desse otimismo, há tendência ao exagero porque o mercado tem fortes imperfeições e o Brasil acaba recebendo uma carga de capital muito grande. Em outubro, tivemos uma avalanche. A entrada, até o dia 23, chegou a US$ 12 bilhões. Claro que houve o IPO do Santander, mas esse tipo de operação não é episódica, faz parte do contexto. Esse excesso em relação ao Brasil, em outubro, foi o que motivou a medida do IOF para segurar o entusiasmo excessivo. É melhor prevenir que remediar. O Brasil não é avesso à entrada de capitais.

Valor: Com o IOF o Brasil vai exportar seu mercado de capitais?

Mantega: Não acredito nisso. Temos uma reação pontual. O Brasil continua oferecendo condições sólidas aos investidores estrangeiros. Várias empresas não negociam ADRs (recibos de ações de companhias brasileiras) em Nova York. As que já têm, como Petrobras e Vale, negociam grande parte disso lá fora. Não muda nada.

Valor: A BM&F Bovespa pode perder o melhor do mercado de capitais?

Mantega: Para nós, o que interessa é continuar atraindo capital estrangeiro para irrigar as empresas brasileiras que vão investir. Vai haver mais IPOs e esse dinheiro vai para a produção. O governo vai continuar estimulando essa atividade. Não temos dados precisos. Mesmo com ADR lá fora, o dinheiro tem de voltar ao Brasil. Se ficar lá fora, não é IPO. Para os interesses do país, não tem problema, é só a comissão da bolsa que diminui. Com a atratividade da bolsa brasileira, não acredito que 2% de IOF vão tirar o incentivo dos investidores. Mesmo com esse tributo, continuamos sendo muito mais interessantes do que outros mercados. A bolsa brasileira, nos últimos 12 meses, foi a que mais se valorizou. Desde outubro de 2008, o salto foi de 180%. Nesse período, a bolsa americana teve crescimento de 25%. O pedágio é pequeno, 2%, mas nossa bolsa tem os ativos mais valiosos. Aqui estão as empresas e os bancos mais rentáveis. O investidor sabe disso.

Valor: Austrália e Nova Zelândia adotaram medidas parecidas com a do IOF?

Mantega: Não, mas os jornais australianos e turcos defenderam o que nós fizemos. Na imprensa internacional, o apoio foi total. O "Financial Times" foi entusiástico. "The Economist" identificou o problema. O mercado não é perfeito e está desequilibrado. O dólar desvalorizado é bom para os americanos porque produzem mais e exportam mais. Para nós, é ruim. Como já dizia Mario Henrique Simonsen, câmbio mata a economia. A China deve ao câmbio desvalorizado, em grande parte, seu desempenho nos últimos 20 anos. Isso vale para Coreia, Alemanha no pós-guerra, Japão etc. Não quero mudar o câmbio flutuante. O Brasil já usou câmbio não-flutuante e se deu mal, mas não podemos fazer papel de bobo e deixar a economia ser desequilibrada por excessos. O IOF não é a salvação da lavoura ou a medida definitiva. Apenas jogou um pouco de água na fervura. Quero que a panela continue quente, que a bolsa continue se valorizando porque tem méritos, mas a economia não pode se descolar de seus fundamentos. É preciso equilíbrio entre produção e os ativos financeiros que a representam.

Valor: Antes da crise, o senhor chegou a falar em plano de aceleração das exportações. O que aconteceu com essas medidas?

Mantega: Temos de eliminar os exageros e continuar estimulando a competitividade. Sempre frisando que o câmbio é fundamental. Só com o câmbio mudamos os preços relativos em até 50%. Na Argentina, a cotação do dólar está em 3,8 pesos, mas, há pouco tempo, peso e real estavam um para um. Com relação à China, nossos custos são 30% superiores. Isso é o câmbio. Temos de fazer um esforço descomunal para aumentar a produtividade e reduzir custos tributário, financeiro e de logística. No ano passado, fizemos equalização de taxas com o BNDES para financiar exportações com taxas menores. Esse é um ramo que dá para explorar mais e baratear mais.

Valor: Vêm mais medidas nesse sentido?

Mantega: Estamos fazendo isso permanentemente. Neste ano, já barateamos o custo do exportador e continuaremos nesse sentido. Há muita coisa no "pipeline".

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