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Entrevistas
19/10/2008
BANCOS PÚBLICOS IRÃO SUPRIR O MERCADO
Mantega vê como vantagem sobre outros países o Brasil ter três bancos estatais
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal Folha de S. Paulo
DO COLUNISTA DA FOLHA
O
ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirma que o Brasil tem algumas vantagens em
relação aos outros países. Entre elas, os R$ 260 bilhões do compulsório e
os mais de US$ 200 bilhões das reservas, que antes eram defeitos e hoje são
virtudes. "Se faltar real, nós temos. Se faltar dólar, nós temos",
diz Mantega. Outra vantagem é o fato de ter três bancos estatais (Banco do
Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES).
FOLHA
- Por que o Brasil está mais preparado para enfrentar a crise?
GUIDO
MANTEGA - A economia brasileira tem hoje muitas vantagens em relação às
demais. O interessante é que, no passado, essas vantagens eram até
consideradas defeitos. Hoje, são virtudes. Nós temos, por exemplo, um nível
de compulsório que eles não têm. O chamado mundo desenvolvido, se é que
ainda pode se chamar assim, tem menos de 10% de depósito compulsório, e nós
aqui tínhamos 53% sobre os depósitos à vista. Aquilo que era um defeito no
passado virou uma vantagem para nós. A acumulação de reservas também foi
muito criticada. Hoje, temos US$ 200 bilhões de reservas externas e R$ 260 bilhões
de compulsório. Nós temos tudo isso de margem de manobra para irrigar o
mercado. Se faltar dólar, nós temos. Se faltar real, nós temos. Essa é uma
grande vantagem. Outra vantagem é que temos bancos estatais, que eles também não
têm. Temos três bancos estatais fortes. O Banco do Brasil, que é o maior
banco do país em volume de ativos, a Caixa Econômica Federal e o BNDES. São
bancos absolutamente sólidos que podem operar. Se, por exemplo, diminuir a
liquidez de algum banco privado, os bancos públicos aumentam a liquidez. Os
bancos públicos estão operando com mais margem de liquidez.
FOLHA
- Eles estão instruídos para isso?
MANTEGA
- O BNDES e a Caixa Econômica, que são bancos totalmente de controle estatal,
estão instruídos para liberar mais crédito. O Ministério da Fazenda
transferiu recursos para o BNDES para que ele possa cumprir os programas de
financiamento. A Caixa Econômica está instruída para injetar liquidez,
comprar carteiras de bancos e tudo o mais, e o Banco do Brasil eu não posso dar
instrução porque é um banco misto. Ele é controlado pelo setor público, mas
também possui acionistas privados. Não dou instrução para o Banco do Brasil,
mas sei que ele não está fazendo nenhuma restrição de liquidez.
FOLHA
- Qual o principal problema do país hoje?
MANTEGA
- Os principais problemas que estamos tendo aqui são de liquidez. Estamos
acompanhando os problemas causados pela crise e respondendo a eles. São
problemas gerais de liquidez e setoriais, como os do crédito para a exportação.
Outro setor que também apresentava problema de liquidez eram os bancos pequenos
e médios, o que foi solucionado com o compulsório específico. Também
adotamos medidas para ajudar o setor agrícola.
FOLHA
- O que o governo pretende fazer para apoiar a construção civil?
MANTEGA
- Construção civil não tem problema imediato, mas sim necessidade de injeção
de recursos para capital de giro no ano que vem. Vamos liberar mais R$ 3 bilhões
para o setor no ano que vem, além dos R$ 20 bilhões da Caixa Econômica
Federal, para evitar problemas de financiamento.
FOLHA
- O dinheiro virá de onde?
MANTEGA
- Não há ainda uma decisão. Mas poderá vir do BNDES ou da Caixa Econômica
Federal.
FOLHA
- O sr. se encontrou na sexta-feira passada com Fábio Barbosa (Febraban e
Real), Marcio Cypriano (Bradesco) e Roberto Setubal (Itaú). O sr. acha que os
bancos estão com má vontade em conceder os empréstimos?
MANTEGA
- Diante das condições excepcionais no mundo todo, os bancos brasileiros
tomaram uma posição prudencial, que é o da fuga para a qualidade. Eles não
bloquearam a liberação do crédito, só que estão liberando menos e os custos
dos empréstimos ficaram mais elevados, e os prazos de financiamento, mais
curtos.
FOLHA
- Diante dessa crise, o sr. vê necessidade de o Banco Central aumentar os
juros?
MANTEGA
- Quem cuida de juros é o Copom. A reunião será na semana que vem e tenho
certeza de que o Copom vai ter uma posição sensata em relação a essa situação.
FOLHA
- O sr. sabe quantas empresas brasileiras sofreram perdas em operações de alto
risco no mercado de derivativos de câmbio?
MANTEGA
- Ninguém tem esse número e simplesmente porque não tem como auferir. Não há
um sistema de controle. Até estou pensando em implantar um sistema de controle
para acompanhar melhor esse mercado de derivativos.
FOLHA - Alguns analistas compararam essas operações ao "subprime". O
sr. concorda?
MANTEGA
- É um absurdo exagerado [dos analistas].
FOLHA
- O sr. tem idéia de quanto tempo pode durar essa crise?
MANTEGA
- Não tenho idéia [do tempo de duração da crise]. A crise pode durar todo o
ano de 2009. A diferença do passado é que os governos são muito agressivos na
sua intervenção. Apesar de Keynes não ser muito citado, ele é muito
utilizado pelos governos.
FOLHA
- O sr. é keynesiano?
MANTEGA
- Sou corintiano e keynesiano desde criancinha.
FOLHA - Nessa hora, somos todos keynesianos?
MANTEGA
- É isso que me espanta. Sempre fui keynesiano e nunca mudei de pensamento.
Agora, tem muito liberal e ortodoxo que fala que o Estado tem de dar dinheiro
para os bancos. Fico estarrecido em ver a sanha estatista de alguns liberais de
carteirinha.
FOLHA
- Houve uma virada do jogo?
MANTEGA
- Nós temos que reconhecer que o Paulson [Henry Paulson, secretário do Tesouro
norte-americano] relutou muito em tomar as medidas que tomou. O Paulson vem do
sistema financeiro, é um republicano de carteirinha, portanto é um liberal.
Para ele, estatizar um banco é pecado mortal. Não sei se ele será perdoado
pela igreja liberal e irá para o céu. Ele mesmo declarou que era contra a
estatização dos bancos, mas pior é não ter crédito para as empresas e os
indivíduos. Veja que todo mundo fica pragmático rapidinho e vira keynesiano e
não confessa.
FOLHA
- O capitalismo sai arranhado?
MANTEGA
- Não, isso faz parte do capitalismo. O capitalismo possui ciclos. Há o ciclo
de expansão, depois tem uma crise, e aí a economia se reacomoda. No ciclo de
expansão sempre se cometem excessos. Desta vez, houve excesso de liquidez,
irresponsabilidades e o uso de derivativos que não existiam antes. Não é o
fim do capitalismo, não é o fim da sociedade de consumo. Quando a gente está
no meio da turbulência, parece que o mundo vai acabar. Não vai acabar. As
medidas que estão sendo tomadas pelos governos dos países avançados são
medidas adequadas, corretas e que vão fazer efeito em algum momento.
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