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Entrevistas
13/03/2008
"Estamos dando um sinal"
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal O Globo.
Flávia
Barbosa, Martha Beck e Sergio Fadul
BRASÍLIA.
Antes mesmo de saber o efeito que o novo pacote cambial terá sobre o mercado, o
ministro da Fazenda, Guido Mantega, já se prepara para agir caso a enxurrada de
dólares que vem entrando no Brasil não seja estancada. Em entrevista ao GLOBO
minutos antes de anunciar oficialmente o pacote, ele indicou que a alíquota de
1,5% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre aplicações
estrangeiras em renda fixa pode ser aumentada no futuro: "Estamos dando um
sinal de que nós vamos atuar nessa esfera. Para bom entendedor..."
Os investidores estrangeiros aplicam no Brasil porque a rentabilidade é muito
alta em função da Selic. Essa taxação de 1,5% do IOF será suficiente para
tornar o mercado nacional menos atrativo?
GUIDO MANTEGA: Hoje, a remuneração que você consegue mundo afora é baixíssima.
Mas, se você aplica em real, a economia está sólida e a inflação está
baixa, então, o rendimento é seguro e maior aqui. Estamos tirando
rentabilidade do investidor. Estamos dando um sinal de que nós vamos atuar
nessa esfera. Eu estou mudando de atitude. Para um bom entendedor...
Por que as medidas não interferem diretamente na cotação da moeda?
MANTEGA: Somos refratários a medidas radicais. O Brasil não precisa de medidas
abruptas. Faremos medidas graduais para que haja efeito no médio e longo prazo.
Não quero que haja amanhã uma convulsão do câmbio. Não faremos nada pirotécnico.
Bancos e exportadores já afirmaram que não utilizavam o benefício pelo qual
poderiam deixar 30% de suas receitas no exterior. Por que o fim da cobertura
cambial mudaria esse quadro?
MANTEGA: Eu tenho conversado com grandes exportadores e tradings que dizem que têm
usado os 30% e que há demanda.
Antes mesmo de o governo isentar do Imposto de Renda as aplicações de
estrangeiros em renda fixa, esses investidores já encontravam forma de aplicar
nos papéis do governo por meio de operações trianguladas com bancos, sem
tributo. A nova taxação do IOF para essas operações não poderá trazer de
volta esse instrumento?
MANTEGA: Os bancos vão ser vigiados. Estaremos monitorando a instituição
financeira e caberá a ela fazer a cobrança do IOF. Se o investidor vier para a
bolsa e migrar para renda fixa, ele vai ter que pagar IOF.
O dado mais importante sobre o crescimento de 5,4% do PIB em 2007 é mesmo o
forte aumento do investimento?
MANTEGA: O investimento é fundamental. Significa que o país está crescendo e
gerando capacidade produtiva. Além disso, a taxa de investimento é de 17,6%
(do PIB), o que mostra que a economia está crescendo com produtividade em alta.
Ou seja, o investimento menor está gerando um produto maior. Isso muda um pouco
as concepções do passado de que, para crescer 5% você precisava ter um nível
de investimento de 22%, 23% ou 24%.
Mas quem puxa esse investimento, o setor público ou o setor privado?
MANTEGA: A maioria esmagadora vem do investimento privado. O setor confia hoje
no Brasil. Anteriormente, o investidor não fazia investimentos por temer alguma
mudança brusca nas condições econômicas. Isso mudou. Tanto que estão
fazendo mais investimentos. Estão ganhando com aumento da escala de produção
e não aumentando preços.
O crescimento de 5% que o senhor prevê para a economia em 2008 é plausível
com a atual taxa de juros, hoje em 11,25% ao ano?
MANTEGA: Sim, esses 5% são viáveis com a taxa de juros que está aí colocada.
Mas ainda há gordura para que esses juros caiam mais.
MANTEGA: Felizmente ainda há gordura para cair mais. Mas o copo está cheio. Não
olhe para o que está faltando, olhe para o que foi acrescentado. Houve mais
crescimento e melhoria da economia brasileira.
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