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Entrevistas
23/08/2007
CPMF só pode cair em quatro...
"Praticamente não tem mais classe E no País. A classe E se extinguiu. E a D está indo para a C"
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal Gazeta Mercantil
Tales Faria, Claudia Dianni e Juliana Rocha
Após a
entrevista a este jornal, o ministro foi se encontrar com o governador de Minas
Gerais, Aécio Neves (PSDB), a quem apresentou sua proposta de reforma tributária
com compensações aos estados pela aprovação da CPMF com recursos exclusivos
para União. Segue, abaixo, pontos da entrevista como Mantega.
Gazeta
Mercantil - O Brasil sentiu menos essa nova crise. O País está melhor?
Guido
Mantega - A The Economist deste semana (mostra a revista) fala do aumento da
classe média na América Latina, o que significa principalmente Brasil e México.
Está surgindo no Brasil uma classe média emergente, resultado do novo ciclo
econômico que se baseia no robusto mercado interno. Este não existia e agora
é constituído por segmentos da população que eram muito pobres e não tinham
acesso ao consumo básico e passaram a tê-lo. Hoje, eles têm acesso não só
à alimentação, mas também a bens de consumo duráveis.
Gazeta
Mercantil - Com essa nova classe média, as pesquisas devem mostrar alguma
distorção na popularidade do presidente Lula, que não vai bem entre este
segmento?
Mantega
- Primeiro, vamos ver de qual classe média estamos falando. O artigo do The
Economist se refere a uma classe média que ganha R$ 2 mil, R$ 2.500 por mês,
ou seja, de R$ 24mil a R$ 30 mil por ano. De 2005 para cá, a coisa ganhou
impulso no segmento que sai da classe E D. Praticamente não tem mais classe E
no Brasil. Ontem alguém me dizia que um instituto foi fazer uma pesquisa com a
classe E e não encontrou a classe E. A classe E se extinguiu. E o pessoal da
classe D está passando para a classe C e B. Está havendo uma ascensão social
no Brasil, de segmentos que estavam fora do mercado de crédito, que não tinham
conta em banco e acesso ao consumo. Consumiam o essencial para sobreviver.
Portanto, é uma classe média emergente. A alta classe média, entre os 10% de
maior nível de renda, de fato a maior parte teve perda de renda principalmente
em 2003 e 2004. Esse segmento já tem mais oferta de e aumento de salário. Hoje
a classe média tem acesso a automóveis e compra de casa própria como nunca
teve no passado, mas é mais suscetível a apelos de mídia, influências ideológicas.
Uma parte me parece que tem influência de pensamentos de oposição ao governo
e mesmo com benefícios econômicos maiores. Essa outra classe média,
emergente, que advém dos segmentos mais pobres da população, é menos
influenciada pela mídia porque acompanha menos os jornais, não tem acesso. E
é mais inf luenciada pela mudança da sua realidade concreta. Essa nova classe
média se beneficia de aumento de emprego, de salário, inclusão bancária,
redução da inflação, valorização do real e um aumento expressivo do crédito.
Se somar tudo isso, o feito renda para essa população, a capacidade de consumo
deve ter duplicado, desde 2003.
Gazeta
Mercantil - Um ortodoxo não diria que, se o País vai crescer, não seria
melhor manter os juros?
Mantega
- Um ortodoxo diz: Não é que esses caras estão dando certo? Ortodoxo tem
medo de crescimento. Mas não acredito que o Copom pense desta maneira. Uma
coisa é ser ortodoxo, outra é ser conservador. E o Banco Central tem que ser
conservador pela sua natureza. O ortodoxo tem medo do crescimento porque ele
acha que crescimento inevitavelmente leva à inflação. O que não é verdade.
Temos período de baixo crescimento com alta inflação. Essa correlação é
falsa. Hoje o Brasil está trilhando o crescimento equilibrado, ou seja, com
aumento do investimento, a oferta aumenta mais do que a demanda. A meu ver, a
Formação Bruta de Capital Fixo (que mede a taxa de investimento) vai crescer
uns 10% esse ano em relação ao ano passado. Portanto, será o dobro da taxa de
crescimento do PIB. Isto é crescimento equilibrado, crescimento de 5% do PIB
com aumento do investimento de 10%. O crescimento com inflação é aquele com
expansão irrefreada do consumo sem reação da produção. E com a economia
fechada, como no passado. Não tinha acesso a importação de produtos. Vamos
pegar o período do Plano Real: baixou a inflação, teve aumento de crédito,
aumentou o consumo desenfreadamente, mas não tinha produção e a economia era
fechada, não tinha importação. Estamos vencendo o tabu de que o Brasil não
podia crescer mais do que 3% ou 3,5% sem criar inflação.
Gazeta
Mercantil - Se a economia vai tão bem, por que o Brasil continua em segundo
lugar no ranking de maior juro real do mundo?
Mantega
- A taxa de juros caiu de forma considerável. Não se pode olhar só a Selic,
mas o custo financeiro, que no Brasil tem caído expressivamente. Tem hoje o
mercado de capitais responsável por boa parte do crédito da economia. No ano
passado, o mercado de capitais foi responsável por R$ 125 bilhões de crédito
colocados sem intermediação financeira para as empresas. Isso é crédito
barato. Talvez a turbulência atrapalhe um pouco. Mesmo assim, vamos ter quase
R$ 50 bilhões de IPO (oferta pública de ações), que significa barato para as
empresas. A Taxa de Juros de Longo Prazo do BNDES, que esse ano é responsável
por mais de R$ 60 bilhões, é a mais baixa de toda a história, de 6,25%. A
taxa do crédito agrícola nós baixamos de 8,75% para 6,75%. Mesmo a Selic vem
caindo há 14 reuniões consecutivas do Copom, de 19,5% para 11,5%.
Gazeta
Mercantil - Essa classe média emergente beneficiada pela economia real,
influenciada pela mídia como o senhor diz, também não é influenciada pelo
estrangulamento na infra-estrutura, como problemas nas rodovias e no setor aéreo?
Mantega
- A classe média é sim influenciada pelo problema aéreo, que é um problema
real e está sendo resolvido. É influenciada também pelo tráfego, o problema
das cidades, que não tem nada a ver com o governo federal. Mas imagino que com
esse aumento do consumo de veículos, pela classe média, eu nunca vi tanto
carro novo nas ruas do País. Até eu fiquei com vontade de trocar de carro.
Essa classe média está sendo beneficiada. Imagino que vocês vão sair daqui
para comprar um carro. Ou podem ir à Caixa Econômica Federal para comprar a
casa própria, que também está acessível à classe média. Temos um boom na
construção civil, que vai beneficiar a classe média. Aqueles que não tinham
a casa própria, terão a oportunidade.
Gazeta
Mercantil - Mas e os gargalos na infra-estrutura?
Mantega
- Outro dia, li no Financial Times que o governo precisa tomar medidas para
melhorar a infra-estrutura porque está havendo um estrangulamento e problemas
no principal aeroporto do país. O jornal falava do aeroporto de Heathrow
(Londres), que está com movimento extraordinário. E falava da infra-estrutura
da Grã-Bretanha, que não cresce na proporção devida para o crescimento do país.
E a União Européia cresce devagar e ultimamente estão crescendo um pouco
mais, entre 2,5% e 3%. Ou seja, estão se preocupando com a infra-estrutura com
um crescimento deste. Nós, que estamos crescendo mais vigorosamente, temos que
nos preocupar sim. E é claro que a infraestrutura para o comércio exterior,
por exemplo, foi fortemente demandada estes anos todos. Em quatro anos nós mais
do que duplicamos o nosso comércio exterior. Esta infra-estrutura brasileira
que ficou 20 anos sem ter investimento está sendo demandada agora de forma mais
robusta. De fato, responde como pode. Mas acho até que se saiu razoavelmente
bem. Ninguém disse que deixou de exportar por causa de infra-estrutura.
Encareceu sim, mas é por isso que o governo fez um programa chamado PAC, para
aumentar robustamente o investimento em infra- estrutura. Ninguém mais fala em
vôo de galinha. Nem em vôo de urubu. Embora ainda tenham alguns urubus aí. As
aves do mau agouro continuam.
Os urubus
estão por aí... A Gazeta é um jornal crítico, mas positivo. Acho mesmo que
tem que criticar o governo, apontar as deficiências, mas também detectar as
coisas positivas que estão acontecendo no País. A Gazeta Mercantil tem esse mérito.
Gazeta
Mercantil - Tem urubu dentro do governo também?
Mantega
- Não. No governo não. GazetaMercantil - A crise internacional vai obrigar à
redução dos investimentos em infraestrutura e maior ajuste fiscal? Mantega -
Por que isto aconteceria? Os empresários estão aumentando os investimentos. O
setor de bens de capital está crescendo 16%. Os recursos do governo para
infra-estrutura estão crescendo. O setor de energia elétrica pode até ter
aumento de custo, mas não faltará energia no País, porque nós temos um
programa de usinas termoelétricas, energia nuclear e hidrelétricas que vai
garantir o suprimento de energia. A hidrelétrica do Rio Madeira, por exemplo,
foi liberada com a licença ambiental.
Gazeta
Mercantil - Não haverá apagão?
Mantega
- De jeito nenhum. O máximo que pode acontecer se a demanda por energia crescer
de modo expressivo é uma elevação do custo da energia. O governo tem na sua
carteira várias dezenas de termoelétricas a gás, a carvão, a óleo diesel. E
mais energia nuclear que garantirá energia por toda a nossa década e também a
década futura, a de 2010.
Gazeta
Mercantil - Em quanto o preço da energia pode subir nesse cenário de mais
escassez de energia?
Mantega
- O governo voltou a fazer planejamento na área elétrica, o que tinha sido
abolido do País. O governo anterior achava que o mercado ia dar conta de
regular oferta e demanda e deu naquilo que vocês já sabem. Passamos a fazer
planejamento. Temos uma carteira enorme de projetos que vamos licitar e o setor
privado vai fazer as linhas de transmissão. O aumento do que se construiu já
foi espetacular. As linhas de transmissão que fizemos possibilitam maximizar o
uso da energia, distribuir melhor para as áreas onde há escassez. As pessoas
esquecem que estamos fazendo 12 mil quilômetros de linhas de transmissão no País,
o que corresponde a cobrir a Europa inteira. Queremos que a iniciativa privada
assuma todas as concessões possíveis, também no transporte rodoviário. O
transporte ferroviário já está nas mãos do setor privado. Temos até uma
recuperação da indústria de vagões e locomotivas, que tinha sido extinta,
abolida. O governo está cuidando da Ferrovia Norte-Sul, que está caminhando
muito bem. Em setembro vocês vão ver o avanço no segundo balanço do PAC,
como o governo vem aumentando seus investimentos. Não posso adiantar nada, mas
o resultado é melhor do que o esperado.
Gazeta
Mercantil - O senhor garante que não vai ter apagão energético. E nos
transportes?
Mantega
- Na área de transportes não há a possibilidade de apagão. Pode ter aumento
de custo, encarecimento. O único apagão que pode haver é o elétrico. E eu
garanto que não vai acontecer nas próximas duas décadas. De fato perdemos
tempo. E quando digo nós, me refiro aos governos anteriores. Esta área precisa
de planejamento de longo prazo. Não se planeja uma dúzia de novas usinas
hidrelétricas da noite para o dia. Tem que ser com dez anos de antecedência. Há
essa deficiência que estamos procurando suprir agora, então, temos que correr
mais porque o País ficou 20 anos investindo pouco e agora temos que compensar.
Não é da noite para o dia.
Gazeta
Mercantil - O que o balanço do PAC vai trazer de inesperado?
Mantega
- Há críticas de que o governo não está conseguindo fazer os investimentos,
que as obras não estão andando. Isso é falso. O País desacostumou a fazer
investimento em infra-estrutura. Como ficou 20 anos marcando passo, a demanda
era baixa. Então, faltava fome e a vontade de comer. O País não tinha apetite
para os projetos. E, com a crise fiscal, o governo investia pouco. Nós saímos
desse círculo vicioso. De repente, se percebeu que o País está crescendo há
quatro anos consecutivos. A média de aumento do PIB nos últimos quatro anos,
incluindo 4,7% este ano, vai ser 4,3%. Mudamos o patamar do crescimento. Nesse
quadro, a demanda por infraestrutura aumenta. Temos que correr atrás do prejuízo
lá de trás e acelerar os investimentos. Temos que recuperar o tempo perdido em
termos de infra-estrutura. Isso requer um esforço maior do governo e da
iniciativa privada.
Gazeta
Mercantil - Como aumentar esse esforço por investimentos?
Mantega
- Temos várias iniciativas, por exemplo, desonerações fiscais para
investimentos. Estamos barateando o custo do capital não só em termos
financeiros, como em termos tributários. Vocês viram que a imobilização do
capital custa menos, como para um projeto hidrelétrico. Baixamos o PIS e o
Cofins, reduzimos tributos.
Gazeta
Mercantil - Mas a redução é seletiva...
Mantega
- A arrecadação aumentou, sim. A carga tributária, para cada uma das empresas
brasileiras, diminuiu. Eu desafio alguém a me mostrar que uma empresa está
pagando mais tributos. A menos que seja uma absoluta exceção que eu não
percebi. Só subiu tributo no Brasil para cigarro e bebida, só para artigos
absolutamente supérfluos. Para qualquer outro ramo de atividade produtiva, os
impostos diminuíram. Até o Imposto de Renda nós diminuímos. O governo
anterior não deu a menor bola e deixou a classe média pagando mais porque não
reajustou a tabela. Nós reajustamos duas vezes. Reduzimos também o custo da
formalização da empregada doméstica, deduzindo do Imposto de Renda. Além da
alíquota zero para PIS e Cofins para vários produtos.
Gazeta
Mercantil - Então como a carga aumentou no ano passado?
Mantega
- Estamos diminuindo a sonegação e boa parte desse aumento de arrecadação
deve-se à formalização da economia brasileira. Para as empresas que pagam os
tributos corretamente, os impostos estão caindo. Todas as empresas que investem
tiveram redução de tributos. Reduzimos também para os exportadores. Mudamos o
regime de exportação, aquele em que a empresa exporta até 60% da sua produção
e praticamente não paga tributos. Antes o limite era de 80%.
Gazeta
Mercantil - Como a formalização ajudou a aumentar a carga?
Mantega
- O tributo que mais cresceu foi o INSS. Esse aumento de funcionários com
carteira assinada significa que as empresas estão registrando os funcionários
e pagando os impostos. As alíquotas de INSS aumentaram? Que eu saiba, não. Só
se foi à minha revelia e não me contaram. E tem outra razão: para terem
acesso ao mercado de capitais, e muitas empresas querem abrir o capital, elas têm
que estar com o balanço em dia. Para obterem créditos do BNDES, têm que estar
formalizadas. As empresas brasileiras estão com lucros maiores. Não só os
bancos, que têm os lucros maiores, mas as corporações.
Gazeta
Mercantil - Os empresários não continuam reclamando?
Mantega
- Essa história de que a tributação impede o crescimento das empresas é
conversa fiada. As empresas estão crescendo. O faturamento das empresas
brasileiras está crescendo e o lucro também. Portanto, a carga tributária não
é nenhum obstáculo para o crescimento. As empresas tiveram lucros maiores,
tributados como é devido. Estão pagando sobre o lucro. Sem subir a alíquota
do Imposto de Importação, nós estamos arrecadando mais porque as importações
estão aumentando. Isto mostra que o volume está aumentando. Essa arrecadação
é salutar porque se dá pelo crescimento da produção, do faturamento, da
formalização e do lucro das empresas.
Gazeta
Mercantil - O senhor já disse que o governo não pode prescindir da CPMF.
Por quê?
Mantega
- Temos que continuar reduzindo os tributos no Brasil. De fato, a carga tributária,
embora esteja diminuindo, continua elevada para as empresas brasileiras, que
precisam competir com os outros países onde a tributação é menor. Temos que
reduzir a carga tributária para as empresas. Mas não pode ser de uma forma
irracional e intempestiva. Tem que ser com critério, com planejamento e
naqueles setores que tenham impacto econômico- social maior para o País. O
governo tem que olhar para a necessidade de desoneração e ao mesmo tempo olhar
para o equilíbrio fiscal. Este sim é sagrado para este governo. O Brasil abraçou
a responsabilidade fiscal e não vai abrir mão dela. Acho curioso que nesses
dias de crise muita gente ainda pergunta se não vamos fazer ajuste fiscal no País.
Respondo que não porque há quatro anos e meio estamos fazendo o maior ajuste
fiscal já visto neste País. Nunca tivemos um superávit primário desta
magnitude. No Brasil, alguns segmentos têm memória curta. Imagina se nós fôssemos
fazer ajuste fiscal só no momento de turbulência? Estaríamos quebrados. O
aperto fiscal deve vir antes. Por isso as contas públicas hoje estão
equilibradas e prontas para enfrentar uma turbulência como essa, com o menor
dano possível para o País.
Gazeta
Mercantil - O senhor ouve muitas críticas por causa do superávit?
Mantega
- O Estado como um todo está fazendo cerca de R$ 100 bilhões de superávit
primário. Vem gente me cobrar se não vou fazer um esforço adicional. Neste
caso, seria cortar investimentos. Os que estão cobrando o ajuste fiscal são os
que querem um Estado mínimo. Li hoje uma manifestação do Maílson da Nóbrega
(ex-ministro da Fazenda). Este, quando teve ocasião, nunca fez ajuste fiscal. E
vem falar que devíamos fazer ajuste fiscal adicional. Um ajuste adicional agora
significaria, sem necessidade, redução de investimentos e programas sociais do
governo. É o famoso tiro no pé. A economia está crescendo. Em uma turbulência,
a economia que se sai melhor é a que tem superávit em conta corrente,
reservas, as contas fiscais equilibradas, a inflação baixa.
Gazeta
Mercantil - Por quanto tempo a CPMF deve continuar existindo no Brasil?
Mantega
- A CPMF é um tributo necessário para o País neste momento. Representa R$ 36
bilhões e não podemos prescindir deste valor para viabilizar as despesas
sociais. Hoje, 42% da CPMF vai para o Fundo Nacional de Saúde, 20% para a
Previdência Social e 19% para o Fundo da Pobreza.
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