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Entrevistas
19/09/2007
"A locomotiva
do mundo é a China"
Ministro da Fazenda
minimiza os efeitos da crise financeira internacional e diz que todos querem
investir no Brasil
Entrevista do
ministro da Fazenda à Revista Istoé.
POR HUGO
STUDART
De fala
mansa, mas verve afiada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não tem papas na
língua para classificar o governo FHC: um "desastre" nas políticas
fiscal, de juros e no comércio exterior. Mas ele reconhece a importância da
estabilização trazida pelo Plano Real e pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O
ministro acredita que a crise financeira internacional provocada pela bolha
imobiliária americana é séria, mas não afetará o Brasil, como ocorreu nas
crises anteriores. Tanto que os avaliadores de riscos, como o Moods, "um
dos mais conservadores", diz que o Brasil já está próximo de conseguir o
investment grade. Para Mantega, mesmo que o Brasil seja atingido, nós
sofreremos menos, porque hoje dependemos mais do mercado interno - que está
crescendo a taxas "chinesas" - do que do externo. A seguir, trechos da
entrevista exclusiva concedida a ISTOÉ na terça-feira 11.
ISTOÉ
- O sr. disse que o Brasil não corria riscos com a crise financeira
internacional. Mas as turbulências nos mercados mundiais continuam.
Guido
Mantega - Estamos diante de uma turbulência internacional relativamente séria,
talvez parecida com a crise da Rússia de 1998, que veio depois da crise asiática.
Os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa já colocaram mais de US$ 400
bilhões no mercado financeiro. Nos últimos dias voltaram as turbulências
porque os analistas começaram a ver sinais de recessão nos EUA. O ponto de
interrogação é saber se isso vai afetar o mercado mundial, especialmente as
economias da China e da Índia.
ISTOÉ
- Por quê?
Mantega
- Porque juntas China e Índia hoje são mais importantes para o comércio
mundial do que Estados Unidos e Europa. O PIB americano representa 20% do PIB
mundial, o da China 16% e o da Índia 6%. Além disso, esses dois emergentes
crescem a taxas quatro vezes maiores do que as americanas. A locomotiva do mundo
não é mais americana, e sim chinesa. O grande temor não vem dos Estados
Unidos. Se eles tiverem uma retração só um pouco maior do que a atual, mas os
emergentes continuarem vigorosos, não haverá grandes conseqüências para a
economia internacional.
ISTOÉ
- Mas então quais são os riscos reais para a economia brasileira?
Mantega
- O risco maior é esse, o de a recessão americana afetar as economias da China
e da Índia, provocando uma retração do comércio internacional. E qual é a
exata situação do Brasil nesse contexto? Nós estamos demonstrando na prática
que o Brasil ganhou uma grande resistência a turbulências internacionais. Se
esse episódio tivesse acontecido apenas cinco anos atrás, no final do governo
Fernando Henrique, ou mesmo no início do governo Lula, isso iria significar
fuga de capitais, desvalorização aguda do real, taxa de juros na estratosfera
e a atividade econômica seria paralisada, com forte desemprego. Mas neste
momento, a crise americana só está atingindo mercados derivativos, de renda
variável e mercados futuros.
ISTOÉ
- Mercados especulativos?
Mantega
- Eu não os chamaria disso, mas de segmentos de renda variável. Eles tinham se
valorizado muito antes dessa turbulência. Agora estão queimando um pouco da
gordura que acumularam. Nosso setor financeiro tem poucas conexões com os
segmentos internacionais contaminados. Além disso, nossa economia real está
muito sólida. Mesmo na hipótese de que haja uma retração do comércio
mundial, o Brasil será pouco atingido. Tanto que no meio dessas turbulências
tivemos uma promoção entre os avaliadores de riscos. O Moods, um dos
avaliadores mais conservadores, está até dizendo que o Brasil está muito próximo
de conseguir o investment grade, o grau de economia segura para investimentos.
ISTOÉ
- Caso a crise provoque a retração do comércio mundial, quais empregos serão
atingidos no Brasil?
Mantega
- A grande vantagem do Brasil é que hoje nosso crescimento depende mais do
mercado interno do que do externo. E o interno está crescendo a taxas muito
expressivas. O consumo, especialmente nas classes C e D, está crescendo 10% ao
ano, a taxa chinesa. Então, se tivermos retração das exportações, teremos
em compensação o impulso do mercado doméstico. Se diminuírem as exportações
de sapatos para a Europa, ou se cair o consumo de aço na China, em compensação
você está vendendo muito mais aço para a indústria automobilística e a
construção civil.
ISTOÉ
- Parecem medidas inspiradas naquelas do presidente Roosevelt nos anos 30 de
estimular o consumo popular para tirar os EUA da depressão.
Mantega - Só que a nossa política econômica é mais bem-sucedida do que a de
Roosevelt. Ele ficou até 1939 com essa política, o New Deal, e a economia
americana só teve um boom quando começou a Segunda Guerra Mundial. Até então,
ele havia minimizado a crise. Já o governo Lula, em pouco tempo, conseguiu um
ciclo de crescimento sustentável.
ISTOÉ
- Não estamos colhendo as boas sementes da estabilidade econômica plantad as lá
atrás pela dupla Fernando Henrique e Pedro Malan?
Mantega
- Nossa política econômica não tem nada a ver com a do Malan. Os fundamentos
produtivos do Brasil foram plantados por Getúlio Vargas e por Juscelino, muito
lá atrás. O governo anterior manteve o Plano Real, que foi um avanço no
combate à inflação, e deu uma contribuição com a Lei de Responsabilidade
Fiscal. Mas lembro que, nos seus primeiros quatro anos, o governo Fernando
Henrique foi um desastre fiscal. A política de juros foi outro desastre. Também
foi um governo titubeante em relação à política de comércio exterior e não
foi ousado o suficiente para fazer um superávit fiscal à altura. A primeira
coisa que o governo Lula fez foi aumentar o superávit. Fomos mais duros e mais
ousados do que o governo anterior.
ISTOÉ
- Mas agora não estamos vivendo uma bolha inflacionária causado pelo aumento
do consumo?
Mantega
- É um exagero falar em bolha. Estamos vivendo um momento em que alguns preços
de alimentos tivetiveram uma alta relevante. É normal a oscilação de preços
de alimentos. Estamos na entressafra, combinado com um período de escassez
internacional de trigo, carne, leite e derivados. Eles subiram. Em compensação,
temos pela frente a maior safra agrícola da história. Serão 130 milhões de
toneladas de grãos. Isso vai atenuar o efeito dessa inflação de alimentos.
Mas não tem inflação geral da economia brasileira.
ISTOÉ
- Tecnicamente, qual a diferença? O consumidor está efetivamente pagando mais
caro pelos alimentos.
Mantega
- O IPCA está em torno de 4% projetados para 2007, para uma previsão de
crescimento de 5%. Significa que o brasileiro não está perdendo renda. Em
2006, a inflação foi de 3,14%, mas foi um ano de taxa excepcionalmente baixa.
A meta de inflação era 4,5% e foi 3,14%, para um crescimento de 3,7%. Isso
mostra uma economia saudável.
ISTOÉ
- Qual o risco do Banco Central voltar a elevar a taxa de juros?
Mantega
- Você não consegue combater a inflação de carne, de leite ou de trigo
subindo os juros porque eles têm preços estabelecidos pelo mercado
internacional, são commodities que subiram lá fora e aqui também. Juro não
é remédio para esse mal que nos acomete. O BC não olha apenas para um ou dois
preços, mas para o conjunto de números da economia, que estão muito
comportados. Estamos com uma taxa de crescimento do consumo muito elevada, 10% a
mais do que no ano passado, mas a oferta de produtos também está crescendo, o
que impede a chamada inflação de demanda. Além disso, o Brasil hoje é uma
economia globalizada. Se o produtor nacional resolve elevar seus preços, nós
vamos importar o produto e ele vai ter que competir.
ISTOÉ
- O sr. já disse várias vezes que era hora de baixar os juros e ainda assim o
Banco Central manteve sua política ortodoxa. O que garante que agora será
diferente?
Mantega
- Para o Banco Central precisar elevar os juros, é preciso que a inflação
como um todo suba no Brasil. Ela subiu um pouco, mas ainda está dentro da meta
de 4,5%. Subir o preço do queijo não é razão suficiente para mudar a política
monetária. No momento, não vejo no horizonte riscos de inflação. Porque
estamos abaixo do centro da meta de inflação, que é de 4,5%. Se nós tivéssemos
uma meta muito ambiciosa de inflação, de 3% como centro, o BC já deveria
estar subindo a taxa de juros para perseguir essa meta. Mas ainda não há razão
para preocupação.
ISTOÉ
- Depois de mais de uma década de crescimento pífio, tudo indica que o Brasil
deverá crescer em 2007 a uma taxa próxima a 5%. É sinal de que já
encontramos o bom caminho?
Mantega
- Digamos que já estamos na rota do crescimento sustentável e que devemos
repetir esse desempenho nos próximos anos. No passado, a gente crescia a taxas
mais elevadas, mas em compensação o déficit público ou a dívida externa
aumentavam. Hoje, estamos crescendo com a inflação sob controle e diminuindo
tanto a dívida externa quanto a pública. Criamos as condições para que o
Brasil possa crescer nos próximos dez anos a taxas de 5% ao ano, com inflação
baixa. E o melhor: o Brasil vai crescer 5% com ou sem turbulência
internacional. Por isso todo mundo quer investir no Brasil.
ISTOÉ
- Se estamos tão bem assim, por que prorrogar a CPMF?
Mantega
- Porque ela é necessária para garantir o equilíbrio fiscal que conseguimos.
São R$ 36 bilhões ao ano, dos quais 42% vão para a Saúde, 22% para a Previdência
e 20% para o Bolsa Família. Se perdermos a CPMF, teremos que desviar recursos
de outras atividades para a saúde e para o combate à pobreza.
ISTOÉ
- Não lhe parece um escárnio que o governo queira prorrogar o CPMF justamente
quando a saúde pública volta a enfrentar uma crise?
Mantega
- Para a oposição, está muito confortável falar mal dos tributos. Estamos
enviando R$ 44 bilhões para a saúde, mais do que toda a CPMF. O mais curioso
é que foi a oposição quem criou a CPMF. Ela está sendo contraditória. Diz
que o Brasil precisa de mais recursos para a saúde e ao mesmo tempo quer matar
o filho que criou. Deveria dizer: vamos aumentar o valor da CPMF para melhorar a
saúde.
ISTOÉ
- Mas o sr. e todo o PT criticaram a CPMF quando foi criada no governo FHC...
Mantega
- É verdade, a vida é assim. Hoje, a CPMF faz parte da arrecadação do
governo e é importante que seja mantida. O que não quer dizer que eu não seja
favorável à desoneração tributária. Só que você não pode eliminar todos
os impostos.
ISTOÉ
- O governador José Serra disse que o governo Lula não tem plano, que arrecada
por arrecadar.
Mantega
- Ele deve estar confundindo este governo com o governo Fernando Henrique. A
população está melhorando de vida e o Brasil nunca contou com tanto prestígio
internacional quanto agora. O problema do Serra é mais de dor-de-cotovelo do
que de uma boa análise econômica.
ISTOÉ
- Mas a arrecadação bate recordes a cada mês.
Mantega
- No Brasil, há uma confusão entre arrecadação e carga tributária. Nós já
estamos reduzindo os impostos para os setores que geram mais crescimento e
empregos, como a construção civil. Mas a arrecadação está subindo porque o
País está crescendo, os empresários estão tendo mais lucros e pagando mais.
E boa parte desse aumento da arrecadação é combate à sonegação.
ISTOÉ
- O governo Lula começou ultraortodoxo na economia e agora o sr. vem falando de
implementar o social-desenvolvimentismo. Do que se trata?
Mantega
- O governo Lula tinha que fazer um ajuste fiscal no início, mas nunca foi
ultra-ortodoxo. Desde o início fizemos programas sociais. Agora estamos
combinando um crescimento mais vigoroso com diminuição da desigualdade social.
No passado, o desenvolvimentismo não cuidava da área social, a economia
crescia mais, só que com desequilíbrios. Agora estamos num novo modelo. O bolo
cresce mais, tem mais fermento, e as fatias são divididas ao mesmo tempo com
toda a população, e não só com a elite, como acontecia no passado.
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