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Entrevistas
12/04/2007
Governo
vai desonerar folha de pagamento de quem emprega mais
Entrevista do
Ministro da Fazenda ao jornal Valor Econômico.
Por Claudia Safatle e Arnaldo Galvão
O
Reduzir a tributação sobre a folha de pagamento da indústria intensiva em mão-de-obra e renovar as medidas de redução do 'spread' bancário são os dois próximos focos de medidas que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está preparando para reduzir custos e compensar a competitividade pedida pela valorização da taxa de câmbio.Em entrevista ontem ao Valor, pouco antes de embarcar para Washington, onde participa da reunião anual do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial (BIRD), Mantega deixou bastante clara sua posição sobre a apreciação da taxa de câmbio. "Não está acontecendo nenhum disparate com o câmbio brasileiro. Está menos favorável ao exportador do que estava em fevereiro de 2003 ou fevereiro de 2004. Há razões bastante óbvias para isso".
Para ele, os problemas do país, agora, "são problemas do crescimento", que se distinguem substancialmente dos problemas da crise, da estagnação, do desemprego. "Essa questão do câmbio é um problema, mas isso é típico de uma economia que cresce e se fortalece". O governo não vai recorrer a qualquer artificialismo para lidar com isso, garantiu o ministro.
Sobre a possibilidade de reduzir tarifas de importação ou criar tarifas de exportação para algumas commodities, ele respondeu: "Não sei. Isso não está em consideração". Reiterou que o país não se lançará em aventuras na área cambial e sublinhou: "Temos de admitir que, no Brasil, a moeda se valorizou porque há razões de fundo e não por razões especulativas". Com gráficos e tabelas em mãos, Mantega mostra que a valorização do real "não é tão grande quanto estão propagando". Para ele, com base numa cesta de moedas, a apreciação está ao redor de 10% (base 1994).
"O primeiro desafio é reduzir o impacto da tributação sobre a folha de pagamento das indústrias de mão de obra intensiva. Temos que diminuir também o custo financeiro, o spread bancário que é muito alto. Esse é outro desafio", alinha o ministro, lembrando que a maneira mais fácil de se lidar com esses dilemas "é atacar o problema pelo câmbio", erro no qual o governo Lula não pretende incorrer, garantiu. A seguir, a integra da entrevista:
Valor:
Câmbio e juros continuam sob intensa discussão. O dólar tende a cair
abaixo de R$ 2. O que o sr. acha que deve ser feito?
Guido
Mantega: Não adianta fazer discussões
teóricas sobre juros e câmbio. O que interessa é o resultado. Os
economistas gostam muito de discussões abstratas, mas o importante é a
prova do pudim. E nesse caso, a economia brasileira está crescendo e
entramos em um novo ciclo de crescimento de longo prazo depois de vinte e
tantos anos de crescimento errático, esporádico e aleatório.
Valor:
Há projeções indicando o dólar a R$ 1,95 até o fim do ano....
Mantega:
Cheguei no Ministério da Fazenda no final de março de 2006 e no início
de maio o câmbio foi a R$ 2,06. Vinham aqui banqueiros, neste sala,
dizendo que o câmbio estava mergulhando e ia a R$ 1,80. Não foi, e ainda
tivemos relativa estabilidade cambial no país. Hoje estamos exatamente no
patamar de 2006.
Valor:
Mas com reservas cambiais de mais de US$ 100 bilhões. Não é muito?
Mantega:
O que mudou é que, em três anos de governo, acumulamos US$ 59 bilhões
de reservas. Só nos últimos 12 meses foram US$ 50 bilhões. Houve uma
atuação mais agressiva. A apreciação da taxa de câmbio real, a partir
de uma cesta de moedas dos países com os quais o Brasil mais tem comércio,
não é tudo isso que dizem. Claro que quando o câmbio estava menos
valorizado, era muito melhor para o exportador. Mas estamos num patamar de
câmbio mais condizente com a situação estrutural da economia
brasileira. Ele está menos favorável ao exportador do que em fevereiro
de 2003 ou fevereiro de 2004. Mas há razões bastante óbvias para isso.
Valor:
O sr. diria que há certa tendência do empresário brasileiro de querer
corrigir todos as deficiências do seu setor com a taxa de câmbio?
Mantega:
Não. O que há é que outras economias não praticam o câmbio flutuante.
Esse é o problema. Se todos praticassem o câmbio flutuante, mesmo as indústrias
brasileiras que dependem mais do câmbio - as que usam mão-de-obra
intensiva - seriam tão ou mais competitivas que as de países que usam
artificialismos que não usamos. Esse é o nosso dilema. A China não tem
câmbio flutuante. Se as empresas chinesas competissem nas mesmas condições
que as nossas, derrotaríamos essas concorrentes mesmo nas indústrias de
mão-de-obra intensiva. Não podemos usar as mesmas práticas da China por
inúmeras razões.
Valor:
Quais?
Mantega:
O regime político é diferente. Lá as decisões são muito mais
centralizadas e, nesses casos, eles fazem o que querem. É outra lógica.
Nós optamos por não utilizar artifícios. Às vezes, o artifício dá
resultado no curto prazo, mas falha no médio e longo prazos. É como uma
represa. Já fizemos essa bobagem no passado. Você fixa o câmbio, ele
fica estável durante um tempo, mas a represa vai enchendo, se acumula uma
especulação, uma pressão para desvaloriza-lo. Quando isso vem, é uma
pancada que desequilibra a economia. Neste erro nós não incorreremos.
Valor:
Quando o ex-secretário de Política Econômica Júlio Gomes de Almeida
disse que deixou sobre as mesas das autoridades as saídas para resolver o
problema do câmbio e bastava ter a decisão política, ele estava se
referindo a quê?
Mantega:
Pergunte a ele. As saídas para o câmbio
não serão por meio de artificialismos. Não há mágica a ser feita.
Valor:
Mas o governo pode baixar as tarifas de importação ou criar tarifas de
exportação, não?
Mantega:
Não sei. Isso não está em consideração. Somos contra mágicas que
outros países fazem. O Brasil já se meteu nessas aventuras com câmbio e
inflação e não deu certo. Temos de admitir que, no Brasil, a moeda se
valorizou porque há razões de fundo e não por razões especulativas.
Valor:
A valorização não é, sobretudo, por causa da diferença entre os juros
internos e externos que permite um bom ganho de arbitragem para os que
aplicam aqui?
Mantega:
Também é por isso. É principalmente porque há mais oferta que demanda
por dólares. Há um fortalecimento dos fundamentos da economia
brasileira. A moeda reflete a força e a estabilidade da economia. O
risco-Brasil caiu muito mais que o dos emergentes. Fatores favoráveis ao
Brasil levam a essa percepção totalmente positiva. São poucos os críticos.
Valor:
Como assim?
Mantega:
O futuro chegou. O Brasil sempre
foi o famoso país do futuro. O pessoal que perceber isso com antecipação
vai até ganhar dinheiro. Os analistas estão enxergando isso antes. O
BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - voltou a ser realidade. Somos um
dos BRICs e já somos a oitava economia do mundo. Vamos passar a França e
saltar para o sétimo lugar. Somos membros do G-7 e vamos pleitear um
lugar nesse grupo. O México tem PIB de US$ 1 trilhão e o nosso é de US$
1,8 trilhão. E estamos crescendo. Era isso o que faltava. A inflação
foi controlada, a dívida pública está indo pelo caminho certo, mas não
havia crescimento. Agora, verificamos que há crescimento. Nos últimos três
anos, crescemos acima de 4%. O Brasil não só tem fundamentos sólidos,
como também está crescendo. E acelerando o crescimento de forma
extremamente positiva, porque a poupança está subindo. Outro fato
importante é que o investimento está crescendo o dobro da demanda. Isso
é fator de equilíbrio, significa que teremos oferta. Quais são os
problemas históricos do Brasil? Era crescer e levar uma trombada da inflação,
da dívida pública ou da crise externa. Vinha um trem e acabava com a
festa. Não há mais esse trem no nosso caminho.
Valor:
Mas ainda temos vários problemas....
Mantega:
Todos os países têm problemas. Nós temos os nossos, mas agora são os
problemas do crescimento. Uma coisa é ter problemas da crise, da estagnação,
do desemprego. Essa questão do câmbio é um problema, mas isso é típico
de uma economia que cresce e se fortalece. Claro que há setores que não
estão indo bem.
Valor:
O sr. disse em entrevista recente que o baixo crescimento da indústria de
transformação lhe preocupa. A maneira de lidar com isso é tributária?
Mantega:
Não excluo nenhuma possibilidade. A saída tributária é a que faz mais
sentido. Para ser mais específico, são indústrias de mão-de-obra
intensiva. Temos de dar uma solução e diminuir o peso da folha de
pagamento. A saída teórica é essa. Já sabemos qual o caminho a ser
trilhado. Uma certa valorização do câmbio é inevitável e não
queremos artificialismos. A valorização do real não é tão grande
quanto estão propagando. É algo entre 8% e 10%. O problema existe, mas
é menor do que se diz.
Valor:
E o país terá que conviver com ele por longo tempo?
Mantega:
Não disse isso. Disse que você tem de reagir com aumento de
produtividade e redução de preços e custos. Essa é a maneira de se
adaptar. Como posso reagir a esse câmbio valorizado? Já está havendo
aumento de produtividade e essa foi uma das revelações do novo PIB. As
indústrias brasileiras são produtivas. Se não fossem, teriam perecido.
O setor têxtil e de confecção, por exemplo, é sobrevivente. É o que
mais enfrenta concorrência dos asiáticos. Nossas vantagens são
produtividade, design, qualidade etc. O calçado brasileiro é muito
melhor que o chinês. Temos de diversificar mercados. Nossa mão-de-obra
é melhor que a chinesa. E eles não pagam previdência e outros direitos
trabalhistas. Por isso digo que temos de baixar o custo da folha.
Valor:
Como o sr. sugere isso?
Mantega:
Não tenho ainda a resposta, mas dou o caminho. A maneira que vinha
sendo sugerida - passar a tributação da contribuição previdenciária,
por exemplo, para o faturamento - resolve um problema, mas cria outros. Já
há sobrecarga de tributos sobre o faturamento. Teríamos de aumentar a
Cofins. Temos de estudar os impactos relativos.
Valor:
Reduzir o gasto público não seria melhor e mais rápido?
Mantega:
Como fazer isso com mais de 90% de rigidez na despesa? E cada dia
aparece gente inventando uma nova despesa, que não pode ser
contingenciada.
Valor:
Quais são os problemas de passar a tributação da folha de pagamento
para o faturamento?
Mantega:
É sobrecarregar o faturamento e atingir empresas que estão puxando a
economia. São indústrias que têm folhas pequenas, mas são do setor
manufatureiro. Esse é o caso da indústria automobilística, responsável
por 9% de toda a indústria de transformação. Ela continua sendo um pólo
de desenvolvimento importante. As montadoras se adaptaram, mantendo o
valor das suas exportações. No mercado interno, estão se regozijando.
Essa é a diferença entre o Brasil e outros países. Nós temos uma
estrutura produtiva complexa. Esses países são produtores de meia dúzia
de commodities e, portanto, estão bem com a alta das cotações de petróleo,
cobre, metais, agricultura, pecuária etc. Mas quando vier um ciclo de
baixa de preços, o PIB deles não será mais o mesmo. O nosso produto
continuará bem, porque temos estrutura forte dentro do país.
Valor:
O país está num processo de desindustrialização?
Mantega:
Não acredito. Acredito na diversificação da estrutura produtiva
adequada à globalização e à presença da China na economia
internacional. O que muda no paradigma da economia mundial são os novos
fatores da globalização intensa, a presença de novos atores que trazem
novas condições. Os países têm de se adaptar. O Brasil está com a
economia aberta.
Valor:
É pouco aberta, se comparada com outros emergentes....
Mantega:
É suficientemente aberta para nos colocar na dança da globalização.
Não temos barreiras à importação e elas crescem a mais de 20% ao ano.
Alguns países asiáticos têm abertura de 70% da economia, quando o
Brasil tem 24% [corrente de comércio como proporção do PIB]. Mas um país
que tem 70% de abertura depende totalmente do mercado internacional.
Quando esse cai, o país vai junto. Temos de continuar bombando no mercado
internacional, aumentando 'market share' e importando mais. Nossa vantagem
é o mercado interno que os outros não têm. A política econômica que
estamos conduzindo está robustecendo o mercado interno, o que é a marca
de um crescimento diferenciado. O Brasil já tem crescimento acima de 4%.
Portanto, deixou de ser uma economia de crescimento moderado e passou a
ter crescimento acelerado e sustentável.
Valor:
O que é para o sr. um crescimento acelerado?
Mantega:
Acima de 4%. É acelerado para nós, que somos um país emergente de
estrutura complexa. Essa taxa não é acelerada para China e Índia. Para
as necessidades do Brasil, 5% estão de bom tamanho. Se for mais, melhor.
Prefiro crescer 5% com inflação baixa, dívida externa decrescente e
superávit nas transações correntes. Crescer 10% com inflação e déficit
provoca vários 'calcanhares de Aquiles'. Havendo um revertério,
interrompe-se o crescimento.
Valor:
Quais são os calcanhares de Aquiles, hoje?
Mantega:
Já os eliminamos.
Valor:
O país poderia, então, ter estrutura flexível no balanço de
pagamentos, com déficit em conta corrente num ano, superávit no outro?
Mantega:
Pode. Não precisamos de superávit comercial de US$ 46 bilhões. O
importante é continuar aumentando o comércio internacional e ter
reservas elevadas que dão garantia. Todo mundo respeita uma grande
reserva. Quem não respeita US$ 100 bilhões? Com R$ 200 bilhões,
respeitam mais ainda. Nessas condições, ninguém tenta um ataque
especulativo.
Valor:
Por tudo o que o sr. está dizendo, câmbio e juros não estão sob
discussão?
Mantega:
Não estão, porque o câmbio é resultado da situação favorável do
país. Se o país estivesse sob suspeita, o câmbio não estaria
valorizado.
Valor:
O que o sr. acha que pesa mais na formação do câmbio, o ganho de
arbitragem ou saldo comercial de US$ 45 bilhões?
Mantega:
Certamente é o saldo comercial e o fortalecimento dos fundamentos da
economia. A arbitragem também pesa, mas é um problema em eliminação.
Valor:
O sr. vai aos EUA e fará uma visita às agência de rating na semana que
vem. Por que elas ainda não colocaram o Brasil como grau de investimento?
Mantega:
Há uma certa demora em avaliar corretamente as condições de um país.
Na América Latina, alguns países têm rating melhor que o do Brasil e
isso não faz sentido. As agências demoram, mas a mudança das estatísticas
econômicas também foi uma surpresa. Nosso rating (BB) está errado. Já
poderíamos estar duas casas acima, no "BBB", que já é grau de
investimento.
Valor:
O sr. anunciou que proporá isenção da CPMF nas operações de crédito.
Como garantir que a redução do custo financeiro será repassada ao
tomador final dos empréstimos?
Mantega:
Faremos de modo que isso será garantido. Não temos definido todo o
instrumental. Vamos enviar o projeto da CPMF só com a prorrogação por
quatro anos. Depois, teremos de fazer outra medida, se formos reduzir a
CPMF setorialmente.
Valor:
Por que não desonerar a CPMF horizontalmente?
Mantega:
Setorialmente o impacto é melhor. Se tirarmos para todos o que
poderia ser desonerado, a alíquota cairia de 0,38% para 0,34%. Ninguém
iria perceber. O crédito vai ser barato.
Valor:
O que significam as mudanças na diretoria do BC?
Mantega:
O BC se guia pelos mesmos princípios e fundamentos. A substituição
de um diretor não muda a política monetária. Ela continua sendo a mesma
porque está sendo bem-sucedida.
Valor:
Mas a política fiscal mudou. O superávit primário de 4,25% do PIB foi
abandonado ...
Mantega:
Mas o investimento está bombando. Viu como a percepção foi
positiva? O Brasil está num novo ciclo de desenvolvimento. É algo que
nunca tivemos. O crescimento é sustentável pelos fundamentos sólidos da
economia, mas também porque distribui mais renda e gera mais emprego.
Outra novidade é o papel do Estado. O PAC é o primeiro plano de
desenvolvimento que não foi feito para enfrentar crises. Estamos criando
um mercado de massas.
Valor:
Se o sr. tivesse de escolher apenas duas reformas importantes para o país,
quais seriam?
Mantega:
Tributária e previdenciária. No mercado de trabalho, vamos diminuir
a tributação sobre a folha de pagamento.
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