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Entrevistas
09/08/2007
Mantega
estuda uso da CPMF para abater INSS
Entrevista do
Ministro da Fazenda ao jornal Valor econômico.
Claudia Safatle e Sergio Lamucci
O
ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que levará para negociação no
Congresso, em troca da prorrogação da vigência da CPMF e da Desvinculação
das Receitas da União (DRU), uma proposta de desoneração da folha de
pagamento das empresas. Fará o mesmo junto ao Fórum Nacional da Previdência
Social. Ele já dispõe de uma série de alternativas para fazer a
desoneração. "Não há solução simples. Cada 1% de desoneração
do INSS significa renúncia de R$ 3,5 bilhões", disse. Mas indicou
duas opções: só desonerar da contribuição previdenciária as empresas
de mão-de-obra intensiva ou permitir abater a CPMF da contribuição a
pagar do INSS, que recai sobre a folha. "São várias alternativas,
tenho que escolher uma e o momento adequado para implementá-la",
disse o ministro.
Mantega
apresentou na semana passada, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a
proposta da Fazenda de abertura do capital da Infraero, empresa estatal
que administra os aeroportos do país. Ele estima que esse processo levará
uns 12 meses, pois tem de reestruturar toda a empresa, implementar regras
de governança e mostrar ao mercado que ela é uma empresa bastante
lucrativa. O novo presidente da Infraero, Sérgio Gaudenzi, foi escolhido
por sua capacidade de gestão, disse Mantega, e não por ser da base
aliada (PSB). Mantega assinala que é preciso despolitizar algumas áreas
do governo, tornando-as de ocupação estritamente profissional. A seguir,
os principais trechos da entrevista.
Valor:
O sr. apresentou ao presidente Lula o projeto de abertura de capital da
Infraero. Como será a abertura de capital de uma empresa que está tão
complicada?
Guido
Mantega: O fato de uma empresa querer abrir o capital indica que ela
tem que passar por uma reestruturação, melhorar a governança e se
habilitar a colocar ações no mercado. Ela só vai conseguir se mostrar
que tem uma boa gestão e que vai ser rentável. Isso já estava no
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A abertura de capital de
uma empresa estatal é salutar, porque traz os ventos privados para dentro
da empresa e é um bom modo de capitaliza-la para fazer novos
investimentos.
Valor:
O novo presidente da Infraero, Sérgio Gaudenzi , entrou com essa missão?
O que muda do ponto de vista da gestão?
Mantega:
Ele já entra com essa missão. A Infraero tem um patrimônio grande e
gerencia um negócio que vai de vento em popa. Tirando os problemas que
estão ocorrendo agora, é um negócio de demanda crescente.
Valor:
O fato de ele ser ligado a um partido político (PSB) não indica ao
mercado que a profissionalização não vai chegar à cúpula da empresa?
Mantega:
Não acredito que ele entrou lá por ser do PSB, mas porque era presidente
de uma empresa, a Empresa Espacial Brasileira, e teve um bom desempenho.
Valor:
Qual é a sua proposta?
Mantega:
Prefiro não apresentar a proposta enquanto ela não for implantada. Vai
ter uma auditoria profunda, que pode levar quatro, cinco, seis meses. Com
vontade, é possível vir a abrir o capital em 12 meses. Eu já entreguei
o projeto ao ministro Nelson Jobim. Tendo em vista esse problema aéreo
que surgiu, nós vamos dar prioridade a essas providências.
Valor:
Na infra-estrutura, o governo tem o PAC, mas não consegue fazer os
investimentos. O Tesouro Nacional mostrou que dos R$ 11,3 bilhões dos
Projetos Pilotos de Investimento (PPI), o governo conseguiu gastar em seis
meses R$ 1,18 bilhão. Como é que se supera isso?
Mantega:
É que o volume cresceu. Por muitos anos, o Brasil investiu pouco em
infra-estrutura, porque o país crescia pouco e havia pouca exigência. É
claro que havia a crise fiscal do Estado, mas não é apenas por causa
disso. Quem mais investe em infra-estrutura não é o Estado. É o setor
privado. Veja que o que nós investimos é uma parcela pequena do total,
principalmente depois das privatizações. A partir de 2002, 2003, o setor
ferroviário, por exemplo, começou a investir. Se você comparar com o
passado, é R$ 1,5 bilhão, R$ 2 bilhões por ano. No setor rodoviário, o
governo procurou colocar um pouco mais de recursos, mas apostou nas
concessões. Aí houve um problema típico do Estado. As concessões começaram
no governo anterior com um modelo que foi condenado pelo Tribunal de
Contas da União (TCU). Tentamos remendar o modelo, para poder apressar,
mas também não deu certo. Refizemos duas vezes e, finalmente,
conseguimos desembocar num modelo de concessão e os sete lotes de
rodovias vão entrar em licitação até outubro.
Valor:
E não se fala mais em Parcerias Público-Privadas (PPPs)?
Mantega:
Não há necessidade, porque são sete lotes concessionados. Diga-se de
passagem que nós conseguimos um pedágio que vai ser o mais baixo. Serão
os pedágios mais baixos de todo o país e mesmo assim garante uma
rentabilidade razoável. E o custo de capital caiu no país. Aleluia, nós
finalmente conseguimos chegar a um modelo que o TCU aprovou.
Valor:
As PPPs foram uma aposta errada?
Mantega:
Não foi uma aposta errada, há Estados que estão usando PPPs. O que tínhamos
para oferecer eram esses sete lotes de rodovias, que são o filé mignon
da malha federal. Como eles são rentáveis, não é necessário dar
dinheiro.
Valor:
A infra-estrutura do país vai aguentar um crescimento econômico mais
forte?
Mantega:
Por mais que se diga que há ineficiências, nós conseguimos mais do que
duplicar o comércio exterior para US$ 260 bilhões de movimento de
exportações e importações e tudo sai pelos portos e aeroportos. A
infra-estrutura deu conta. Isso significa que as intervenções feitas
nesse período viabilizaram o funcionamento. Precisa melhorar, por isso
fizemos o PAC. Se não tivesse infra-estrutura, o país já teria parado.
Acho incorreto falar em apagão de infra-estrutura. É correto dizer que há
um problema de infra-estrutura. Por causa do crescimento, seja do comércio
exterior como da economia interna, é necessário priorizar investimentos
em infra-estrutura e, principalmente, criar as condições para o setor
privado investir. O Estado jamais terá capacidade para fazer o que é
necessário.
Valor:
Mesmo nas estradas, portos e rodovias?
Mantega:
As estradas serão por meio de concessões. O Ministério dos Transportes
tem R$ 8,5 bilhões neste ano. Para os portos, há cerca de R$ 2 bilhões
até 2010.
Valor:
Há coisas que são incompreensíveis. Dizem que não há, no país,
dragas suficientes para os portos. Para trazer dragas do exterior tem que
mudar a lei da cabotagem. E por que ainda não se mudou?
Mantega:
De fato há essas dificuldades. É preciso mudar a lei. Mas o que nós
mudamos de leis nesse país é impressionante. É só ver como está
congestionado: há 17 MPs trancando a pauta do Senado. O governo faz o máximo,
trabalha a todo vapor nessa matéria.
Valor:
Mas há ou não risco de um colapso na infra-estrutura?
Mantega:
Não há colapso. O máximo que pode ocorrer é demorar um pouco mais a
carregar e descarregar. Colapso é quando pára. Pode aumentar o custo do
frete, é o maior problema que se pode ter, é o navio, ao invés de
demorar dois dias, demorar, três, quatro, cinco dias. Havia mais reclamação
há dois anos, então alguma coisa melhorou ou o pessoal se resignou. Não
creio que seja resignação.
Valor:
Com o país crescendo a 4,5%, 5% ao ano, os técnicos dizem que vai faltar
energia em 2011.
Mantega:
Vamos lá. Etanol e biodiesel vão muito bem, há investimentos sendo
feitos em todo o Brasil. No caso do gás, houve um estímulo muito grande
ao consumo e nós consumimos tudo o que havia pela frente. Mas foram
descobertas jazidas no Espírito Santo e a Petrobras vai duplicar a produção
de gás. Daqui a pouco, nós vamos estar produzindo mais do que consumimos
da Bolívia apenas com o que foi achado. O petróleo não é problema.
Valor:
E as hidrelétricas?
Mantega:
O etanol ajuda o setor hidrelétrico, porque dá para queimar bagaço de
cana. E bagaço de cana, se juntarmos tudo, dá uma meia Itaipu daqui a
pouco. O pessoal quer um preço maior e não entra no leilão. Há uma
certa pressão para que o governo aumente o preço e o governo não quer
aumentar. Todo mundo sabe que o Brasil tem um dos maiores potenciais
hidrelétricos do mundo. No máximo, é uma questão de tempo para
aproveitar esse potencial. Acabamos de ter a licença ambiental do rio
Madeira. O que era o principal problema está sendo solucionado. Mas,
independentemente do rio Madeira, nós podemos fazer dezenas de termelétricas
a carvão, à gás, a óleo diesel, em todo o país. Além disso, há a
energia nuclear. Está tudo colocado sobre a mesa. Nós temos o plano A, B
e C.
Valor:
O setor privado está convencido disso? O presidente da Vale do Rio Doce,
Roger Agnelli, tem dito que os investimentos na próxima década estão
limitados pela percepção de que pode faltar energia.
Mantega:
Ele tem os interesses dele, eu não vou entrar nessa questão. Mas eu
quero dizer que não vai haver falta de energia. A questão é descobrir a
composição mais adequada entre energia hidrelétrica e as termelétricas.
Na pior das hipóteses, haverá energia termelétrica, que é mais cara. O
problema não é se vai faltar energia, porque não vai, é preço. Eu
repito, não vai faltar, nem agora, nem em 2009, nem em 2011. Digo isso,
porque eu sou membro do Conselho Nacional de Energia e sei dos planos
detalhadamente. Na semana passada, nós tivemos um detalhamento. Vocês
devem ter visto que o interesse pelo rio Madeira aumentou. Esse é o
empreendimento que vai mobilizar a engenharia nacional, as construtoras,
empresas de aço, de ferro.
Valor:
Muitas vezes não faltam recursos e sim execução. O que está sendo
feito para melhorar isso?
Mantega:
No caso dos portos, por exemplo, criamos um ministério específico e
destacamos o Pedro Brito, que é um bom gestor.
Valor:
Não é preciso despolitizar a Docas, por exemplo, para os investimentos
em portos avançarem?
Mantega:
Acho que em certos setores é necessário despolitizar totalmente. Eu sou
partidário do governo de coalizão, há muita gente entre os aliados tão
boa ou melhor do que nós, mas alguns setores têm que profissionalizar ao
extremo. Aqui não pode dar nenhum chabu, o setor de portos é assim.
Setor público é assim. Você tem que fazer uma licitação, tem que
fazer audiência pública, é necessário ter licença ambiental. Essas são
as complicações. Mas temos de respeitar o meio ambiente.
Valor:
Sempre há a questão de um possível descasamento da oferta e da demanda
agregada, que pode pressionar a inflação no futuro. O sr. acha que o próprio
aumento do consumo impõe ao setor privado e ao governo se virarem para
aumentar a oferta?
Mantega:
Claro, se você tem uma pressão de demanda, o pessoal vem animado para
ganhar dinheiro. Empresas que precisam de energia buscam elas mesmas os
meios de produzi-la. Nós tivemos que mudar o patamar de expectativa. O país
ficou muito tempo com uma expectativa baixa e uma exigência baixa. Além
disso, ao longo do tempo, você deixou alguns instrumentos se degradarem.
Houve uma deterioração. A capacidade de planejamento no setor elétrico
decaiu, porque se achava que o setor privado ia resolver tudo e não
resolveu. Tivemos que recompor, isso levou algum tempo, criou-se a Empresa
de Pesquisa Energética e voltou-se a fazer planejamento de longo prazo.
Valor:
O sr. acha que o crescimento, este ano, supera 4,5%?
Mantega:
Se crescermos 4,5% este ano teremos completado quatro anos consecutivos
com crescimento do PIB acima de 4%, na média de 2004 a 2007. Acho que
este ano o PIB ficará entre 4,5% e 5%. Os estudos dos Brics (feitos pelo
banco Goldman Sachs, que indicam que em 2050 Brasil, Rússia, Índia e
China serão ao lado dos EUA os mais ricos do mundo) dizem que o Brasil
precisaria crescer 3,5% ao ano por 20 anos. Estamos acima e eu garanto até
2010 um crescimento de 5%. Não quero mais do que isso. E olha que a coisa
vem com vontade. Os resultados da indústria foram muito bons.
Valor:
No momento em que o consumo das famílias e do governo está crescendo
bem, não seria a hora de o governo conter um pouco as despesas para poder
reduzir mais os juros? As despesas continuam crescendo acima do PIB.
Mantega:
É fácil falar, mas vamos ver como conter. O governo tem aproximadamente
R$ 405 bilhões de receita administrada na órbita federal. São R$ 188
bilhões gastos com a Previdência Social. A maior elevação de receita
que tivemos de janeiro a junho vem do INSS. A arrecadação cresceu 13%.
Os gastos com pessoal são outros R$ 130 bilhões, saúde, R$ 45 bilhões,
educação quase R$ 20 bilhões, com o Bolsa Família, Loas e sucedâneos,
são mais R$ 30 bilhões. Então, cortar onde? O que fizemos foi garantir
que haja pelo menos R$ 20 bilhões em investimentos.
Valor:
Não falamos de corte, mas de crescer menos que o PIB.
Mantega:
Não há desperdício, a a máquina esta sendo bem administrada. Este ano
não demos aumento (de salário) para ninguém.
Valor:
Mas deu reajuste para todos no ano passado. O sr. acha, então, que não
é possível conter a despesa corrente, e que é inevitável que ela cresça
acima do PIB?
Mantega:
Aumento de despesa com educação é uma deliberação do governo. O
Estado tem obrigação de cuidar de educação e saúde. Esse é um
governo que faz o social, que não abre mão de ter um bom programa de
educação, que custa dinheiro. Vamos gastar em segurança. Vai ter o PAC
da segurança.
Valor:
O sr. vê risco de crise externa a partir das turbulências que estão
ocorrendo no mercado externo?
Mantega:
É um ajuste do mercado. O mercado internacional ficou muito alavancado,
hoje há mais recursos financeiros do que ativos para investir e passou a
disputar ativos até com risco maior e rendimento menor. Alguns mercados
foram inflados. O que está ocorrendo agora é o que ocorre periodicamente
na economia capitalista, uma "desalavancagem", uma rearrumada
que não necessariamente vai resultar em crise. Nós tivemos uma
rearrumada assim em maio do ano passado. Durou duas a três semanas e
alguns ativos se desvalorizaram. É uma turbulência financeira e não
produtiva. Eu não posso jurar, porque não dá para adivinhar o que vai
ocorrer, mas eu não acredito que essa turbulência vá se transformar em
crise. Acho que a economia global está sólida. Há excesso de ativos
financeiros, é verdade. O grande problema no mundo é que existe o
mercado de derivativos, que alavanca dez vezes.
Valor:
E pode afetar o mercado de capitais no Brasil?
Mantega:
Está havendo uma valorização dos ativos das empresas brasileiras. O
Brasil fez 10% dos IPOs do mundo. Não é pouco.
Valor:
As empresas brasileiras, capitalizadas, estão investindo?
Mantega:
Claro, elas estão se capitalizando para fazer investimentos, porque senão
elas estão fritas. A empresa tem que dar dividendos, tem que mostrar
serviço. Uma coisa que não se olha muito, que é uma novidade na
economia brasileira, é a conta de capitais do balanço de pagamentos, que
subiu uma barbaridade. O movimento financeiro de 2006 foi US$ 16 bilhões.
No primeiro semestre deste ano está positivo em US$ 60 bilhões. Isso tem
uns US$ 20 bilhões em investimentos diretos, tem investimentos genéricos,
que pegam os IPOs e aplicações em renda fixa, que dá outros US$ 20 bilhões.
Depois vem o movimento de pré-pagamento de exportação e importação.
Se você pegar os investimentos diretos e mais os recursos para as bolsas,
dá metade disso aqui. Só essa outra metade já não é suficiente para
valorizar o câmbio?
Valor:
Com a turbulência, houve uma desvalorização. Isso foi bom?
Mantega:
Tivemos essa turbulência, mas veja que, por outro lado, a estrutura
produtiva brasileira se adapta. Quando o câmbio estava em R$ 2,50 diziam
que se caísse mais a balança comercial iria para o vinagre e a indústria
doméstica, para o ralo. Foi para R$ 2,30 e não aconteceu nada. E
continuou caindo. A estrutura se adapta. De repente tem um tremendo de um
mercado interno que não havia antes, que está "bombando". A
economia se readapta, o mercado interno substitui o externo.
Valor:
A prorrogação da CPMF e DRU, pelos prazos regimentais, já não será
aprovada até setembro. Para continuar cobrando o governo tem que aguardar
a noventena...
Mantega:
Se for só continuidade, se não mudar nada, não há noventena. Isso o
Supremo já disse em decisão no dia 17 de dezembro de 2003. Já há uma
jurisprudência.
Valor:
O sr. acha que o Congresso vai manter o 0,38%?
Mantega:
Vou trabalhar para isso. A CPMF representa R$ 36 bilhões de receita/ano.
Valor:
Mas o sr. reconheceu que a CPMF distorce o crédito de curto prazo e disse
que ia mudar isso. Desistiu?
Mantega:
É uma questão de opção. Seria bom reduzir a CPMF, que tem certa redundância.
Mas acho que há reduções mais importantes para o conjunto da economia,
como a desoneração da folha de pagamentos das empresas.
Valor:
O que ainda falta para decidir pela desoneração de folha?
Mantega:
Não há solução simples. Cada 1% de desoneração do INSS significa renúncia
de R$ 3,5 bilhões. Aí há várias opções: concentrar a desoneração só
no setor de mão-de-obra intensiva, abater a CPMF do imposto que recai
sobre o INSS, sobre a folha. São várias alternativas, tenho que escolher
uma e o momento adequado para implementá-la.
Valor:
Momento adequado?
Mantega:
Você acha que devo entregar assim?
Valor:
O sr. está falando de negociar com o Congresso mediante a aprovação da
renovação da CPMF e DRU?
Mantega:
E com o fórum da Previdência também.
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