Entrevistas

04/05/2007

"Brasil caminha para a sustentabilidade"

Entrevista do Ministro da Fazenda ao jornal Gazeta Mercantil

Por Simone Cavalcanti

Aparentemente satisfeito com o desempenho da economia brasileira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reforça a crença de que se melhorar, estraga e rebate as críticas de economistas mais ortodoxos de que não haverá expansão sustentável do Produto Interno Bruto (PIB) se o governo não reduzir o tamanho do Estado na economia, ou seja, não fizer o trabalho árduo de conter gastos públicos. "O País tem uma situação fiscal sustentável com superávit primário contínuo e redução do déficit nominal? Tem. Então caminha para a sustentabilidade", afirma.
Mantega discorda claramente da avaliação de tributaristas de que desonerações pontuais deixam mais complexo o sistema tributário prejudicando a economia. Para ele, desonerações são importantes para impulsionar alguns setores e há disposição para novas reduções de tributos.

Gazeta Mercantil - A leitura que economistas têm feito é a de que a situação está favorável no Brasil e no mundo, mas que o crescimento econômico brasileiro pode não ser sustentável após 2008 se as reformas estruturais não forem feitas...

Guido Mantega: De que reformas estamos falando?

Gazeta Mercantil : Estamos falando das reformas de sempre: a previdenciária, fiscal com menos gastos do governo para poder reduzir a carga tributária...

Mantega: Não entendo esse raciocínio de que as reformas influem no crescimento. O que importa é o resultado fiscal. O País tem uma situação fiscal sustentável com superávit primário contínuo e redução do déficit nominal? Tem. Então caminha para a sustentabilidade. Independentemente disso, as reformas estão sendo feitas. A Tributária está a caminho, sendo feita e trabalhada e discutida com os governadores, deve ir até o início do segundo semestre para o Congresso Nacional. O Fórum da Previdência deverá propor uma Reforma de Previdência, que também será feita. E os efeitos de uma reforma previdenciária são mais de expectativa porque não haverá nenhum efeito imediato porque 2007 e 2008 já estão dados os resultados fiscal e da dívida brasileira, que por sinal está caindo.

Gazeta Mercantil : A leitura é de que há propensão a gastar...

Mantega: Esse governo é propenso a investir mais, e, não, a gastar mais. É um governo que investe mais. O investimento extremamente salutar para as finanças públicas é o que leve a uma produção e a um PIB (Produto Interno Bruto) maiores e ao crescimento da arrecadação.

Gazeta Mercantil : Mas a qual investimento está se referindo?

Mantega: Estou falando dos investimentos em infra-estrutura que o governo faz. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), por exemplo, aloca um volume maior de investimentos para a infra-estrutura. Sem ela o País não vai crescer.

Gazeta Mercantil : Há investimentos previstos no Orçamento que nem saíram do papel...

Mantega: Quem disse que não sai do papel. Tem uma trajetória a ser seguida, que é normal. Se você olhar a liquidação de gastos com investimentos no primeiro trimestre deste ano é 70% maior do que o mesmo período do ano passado e assim por diante. Está havendo, sim, investimentos dentro do curso normal das contas públicas, que começa o ano mais lentamente e depois acelera. Está havendo sim um investimento maior do governo, o governo controla gastos sim. Prova disso é que nós mandamos ao Congresso lei para dar parâmetro ao crescimento do gasto com funcionalismo e estamos discutindo no Fórum da Previdência como equacionar o problema do déficit previdenciário. O governo está perfeitamente coerente.

Gazeta Mercantil : O superávit primário foi estabelecido há quase dez anos. Não há uma necessidade de já se pensar em superávits nominais?

Mantega: Nós estamos reduzindo o déficit nominal gradualmente. Neste ano teremos um déficit nominal de menos de 2%. No ano passado, tivemos, 3%. Caminhamos para um déficit nominal zero. Mantida essa trajetória das contas públicas (com superávit primário) e da economia vamos zerar o nominal até 2010. O Brasil nunca teve essa situação tão confortável do ponto de vista das contas públicas. Hoje estaríamos cumprindo o acordo de Maastricht (acordo entre os países da União Européia para manter o déficit fiscal em no máximo 3% do PIB). E neste ano estaremos abaixo do limite de Maastricht, vamos para 1,7% ou 1,8% do produto. No ano que vem, para 1,3% e assim até zerar o nominal. Melhor que isso, impossível.

Gazeta Mercantil : Tributaristas alegam que desonerações pontuais, como as realizadas por esse governo, fazem mal para a economia. Qual a sua avaliação sobre essa crítica?

Mantega: Nós não fazemos desonerações pontuais, fazemos desonerações setoriais. Fizemos desonerações no setor de construção civil porque esse tem grande potencial de crescimento e era preciso reduzir custos e pelo que temos visto foi muito bem sucedida essa desoneração. Fizemos reduções de impostos no setor de alta tecnologia porque aumenta o valor agregado. As medidas do PAC são fundamentalmente desonerações horizontais que pegam toda a indústria pois desoneramos investimentos.

Gazeta Mercantil : Há mais medidas desse tipo para empresas prejudicadas pela alta concorrência chinesa e a desvalorização do dólar?

Mantega: Temos que continuar reduzindo tributos e focar isso nos setores de mão-de-obra intensiva. Reduzir o custo da folha de pagamentos é uma das idéias que queremos colocar em prática, além de continuar reduzindo o custo financeiro. As medidas estão sendo estudadas, mas ainda serão amadurecidas.

Gazeta Mercantil : Mas isso não deixa mais complexo o sistema de tributação brasileiro?

Mantega: Nós não precisamos ter medo de uma complexidade. O importante é o resultado.

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