Entrevistas

01/07/2007


Ministro nega que haja aumento de gastos

Mantega afirma que despesas estão se desacelerando e arrecadação está crescendo, por isso contas estão "melhorando"

Entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal Folha de S. Paulo

Titular da Fazenda descarta interferir no preço do leite e diz que câmbio e infra-estrutura são os desafios que há pela frente

DO COLUNISTA DA FOLHA

Nesta segunda parte da entrevista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, diz que não considera justas as críticas de descontrole dos gastos governamentais por parte de economistas.

Segundo ele, houve até uma desaceleração no ritmo de expansão dos gastos públicos em relação ao ano passado.

Nos primeiros cinco meses deste ano, os gastos cresceram 12,5%, e, em 2006, 15,1%. "Houve, portanto, uma desaceleração no crescimento dos gastos", afirmou. "Não é verdade o que estão dizendo sobre aumento de gastos. As contas não estão se deteriorando."

São esses números, de acordo com Mantega, que permitiram os resultados favoráveis das contas públicas em maio.

Mantega afirmou também que o governo está atento a qualquer movimento de aumento de preços, apesar de não ver riscos de uma alta da inflação. De acordo com o ministro, no caso do aumento de 40% do preço do leite, não há muito o que fazer, já que se trata de uma commodity.

"O leite aumentou de preço porque subiu no mercado internacional", disse. "No capitalismo, isso acontece."

A boa notícia em relação ao aumento do preço do leite, segundo Mantega, é que deverá crescer o número de produtores. "Há muito tempo o leite perdia dinheiro no Brasil. Vai ter mais gente produzindo leite", disse.

 

FOLHA - Como o senhor vê as críticas em relação aos aumentos dos gastos do governo? O sr. acha que esteja ocorrendo um certo descontrole dos gastos?

GUIDO MANTEGA - De janeiro a maio de 2006 sobre 2005, a receita cresceu 11,4%. Em 2007 sobre 2006, o crescimento foi de 13,5%. Já na despesa, em 2006 sobre 2005, o aumento foi de 15,1%. Em 2007, 12,5%. Houve, portanto, uma desaceleração no crescimento dos gastos. Não é verdade isso que se está dizendo sobre descontrole dos gastos. Você tem de um lado a arrecadação melhorando -entre outras coisas, por causa do crescimento e da formalização do trabalho-, e, por outro lado, você tem o gasto público crescendo, porém em ritmo desacelerado.
É por isso que estamos hoje com um superávit primário muito acima da meta. O resultado de maio foi o melhor da série, apesar de ser um mês que costuma ser pior. As contas não estão se deteriorando coisa nenhuma. Estão até melhorando.

FOLHA - O governo tem alguma preocupação no futuro com a inflação diante dessa pressão de demanda na economia?

MANTEGA - Estamos vigilantes. Eu tenho uma secretaria no Ministério da Fazenda que vigia preços, a Secretaria de Acompanhamento Econômico, e, se houver algum problema, nós vamos lá, abrimos importação, baixamos tarifa, e, se em algum momento houver alguma pressão, nós vamos agir.

FOLHA - Como o governo trata o aumento de 40% do preço do leite?

MANTEGA - Não é o caso do leite. O leite aumentou de preço porque subiu no mercado internacional. Houve uma seca na Austrália e o preço do leite e de seus derivados subiu. No capitalismo, acontece isso. Às vezes, pode ocorrer uma seca no Sudeste do país e vai faltar milho. O preço sobe. O problema é: a cesta de consumo do trabalhador subiu ou não? Não subiu. Pelo contrário, até caiu.

FOLHA - Nesse caso do aumento do preço do leite, o governo pode tomar alguma atitude para frear esse processo?

MANTEGA - Nesse caso do leite, não, porque não é uma coisa artificial. Não é um dumping, não é um cartel, o leite é uma commodity. E não há como lutar contra a corrente quando se trata de uma commodity. Subiu mesmo e isso vai até estimular a oferta aqui. Havia muito tempo o leite perdia dinheiro no Brasil. Vai ter mais gente produzindo leite.

FOLHA - Como sr. vê o problema da sobrevalorização do câmbio? O que pode ser feito pelo governo?

MANTEGA - Há alguns problemas para resolver. O câmbio, a infra-estrutura, esses são os desafios que temos pela frente, como o de aumentar a oferta de energia elétrica e o de mitigar o efeito do câmbio sobre alguns setores.

FOLHA - O Mercosul barrou o aumento de tarifa para os setores de confecções e calçados?

MANTEGA - Não barrou, não. O Paraguai quer que a gente leve os empresários do setor têxtil para conversar com os de lá. O Paraguai não é contra. Apenas argumentou que não pode contrariar os empresários de lá e, por isso, pediu para ajudá-los a convencê-los. Por isso, vamos levar os empresários lá. Já o Uruguai acabou de adotar medidas que estimulam o setor a crescer e, por isso, não quer dar mais vantagens, mas nós vamos convencê-los. É assim que funciona um bloco econômico. Nós vamos ser bem-sucedidos. A Argentina já topou, não acredito que o Paraguai seja difícil, e o Uruguai será um pouco mais difícil.

FOLHA - O BNDES será o gestor da política industrial no país?

MANTEGA - O Ministério do Desenvolvimento e o BNDES têm essa tarefa de continuar expandindo a política industrial. Já existe uma política industrial no país. Quando a gente faz aquele financiamento especial de R$ 3 bilhões que anunciamos com taxas menores para o setor têxtil, aquilo é política industrial.

O BNDES e o Ministério do Desenvolvimento estão pensando algo de mais impacto e, quando tiverem, eles vão discutir conosco evidentemente porque sempre tem medidas tributárias envolvidas ou equalizações que o Tesouro faz.

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