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Entrevistas
01/07/2007
Só
há uma meta de inflação, diz Mantega
Para
o ministro da Fazenda, é "estupidez" cogitar que o governo deseja que
o Banco Central eleve a inflação do país
Entrevista
do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal
Folha de S. Paulo
Mantega
diz que taxa de 4,5% para 2009, anunciada na semana passada após reunião do
CMN, é uma flexibilidade do modelo
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
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| O
ministro Guido Mantega e o presidente do BC, Henrique Meirelles, anunciam
meta de inflação. Foto: Carlos
Humberto - 26.jun.07/Efe |
Na terça-feira passada, o CMN (Conselho Monetário
Nacional) anunciou que a meta de inflação para 2009 seria de 4,5%, mas
surpreendeu o mercado ao "autorizar" o BC a perseguir 4%. O anúncio
gerou muita polêmica e críticas duras de diversos economistas.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ficou irritado com as críticas. Na sexta,
em entrevista à Folha, em São Paulo, poucas horas após ter
desembarcado da viagem ao Paraguai, onde participou da reunião do Mercosul, ele
negou a existência de duas metas de inflação.
"Só tem uma meta, o sistema de metas não mudou, e o comportamento do
Banco Central em relação às metas será exatamente o mesmo", afirmou.
"Alguém achar que nós queremos que o BC eleve a inflação do país, como
alguns chegaram a cogitar, é uma estupidez."
Mantega reconheceu que o governo adota, hoje, uma linha desenvolvimentista, mas
afirmou que isso não significa que irá permitir mais inflação. "Nós
sabemos que a inflação aborta o crescimento no futuro."
A seguir, a entrevista:

FOLHA - Como o senhor recebeu
as críticas ao anúncio da meta de 4,5% da inflação para 2009?
GUIDO MANTEGA - Daqui a dois anos, ninguém vai falar de meta de inflação,
nem de inflação, nem nem de juros porque esses assuntos não serão
suficientemente interessantes para serem tratados nos jornais. Ninguém vai
ligar porque a inflação vai estar baixa, a economia, crescendo, os juros,
baixos, e, aí, quando for fixada a meta de inflação, ninguém vai querer
saber. Essa questão será irrelevante. Serão mais relevantes questões do tipo
o país vai crescer 5%, 6%, 7% ou se vamos alcançar a Índia no crescimento. Ou
a valorização do câmbio.
Hoje, a imprensa gasta não sei quantas páginas para falar de um assunto de
baixa relevância, se foi 4% ou 4,5% a meta de inflação para 2009, como se
isso tivesse alguma importância. O mais relevante é que o governo está
fazendo uma política monetária séria, consistente, que está mantendo uma
inflação até abaixo do centro da meta, além de estar conseguindo a proeza de
fazer o país crescer com a inflação e o juro em queda. Esta é a conjuntura
que deve ser levada em consideração.
Em 2009, o BC estará fazendo a mesma política monetária de hoje, que é uma
política rigorosa. Alguém acredita que esse BC vai relaxar em relação à
inflação? Alguém vê alguma possibilidade de isso acontecer? Nenhuma.
FOLHA - O que causou confusão
foi o fato de terem sido anunciadas duas metas?
MANTEGA - Não foram anunciadas duas metas, e eu falei isso claramente.
Só tem uma meta, o sistema de metas não mudou. O comportamento do Banco
Central em relação às metas é exatamente o mesmo, e ele vai continuar
procedendo da mesma forma. Se, por acaso, a inflação, em algum momento, passar
do centro da meta, o Banco Central vai elevar os juros. Alguém achar que nós
queremos que o BC eleve a inflação do país, como alguns chegaram a cogitar,
é uma estupidez. É uma doidice achar que eu quero puxar a inflação dos
atuais 3,7% para 4,5%. Seria como rasgar nota de cem. Isso não tem nenhum
sentido. Jamais vamos querer aumentar a inflação.
Agora, na possibilidade de haver um choque de oferta, um evento externo imprevisível,
você tem uma margem com os 4,5%. Essa meta evita que o Banco Central suba os
juros, no caso de um pequeno aumento pontual da inflação, e interrompa o ciclo
de crescimento.
A meta que nós estabelecemos garante juros menores. O Banco Central não
precisa ficar com o dedo no gatilho. Foi isso que nós procuramos declarar lá
em uníssono. Os três membros do Conselho Monetário Nacional disseram que o
objetivo é sempre fazer a inflação menor possível. Nós estamos
desmistificando um tabu conservador de que a economia brasileira não podia
crescer mais do que 3,5% sem inflação adicional. A economia brasileira pode
crescer mais do que 4% com a inflação em queda. A meta de 4,5% é uma
flexibilidade do modelo.
FOLHA - Digamos que o governo
está adotando uma linha mais desenvolvimentista.
MANTEGA - Digamos não, o governo já adotou essa linha
desenvolvimentista. Só que ela não compactua com a inflação. Tem gente que
quer dar essa interpretação equivocada de que o governo está se lixando para
a inflação e só quer saber do crescimento. Não é verdade. Nós sabemos que
a inflação aborta o crescimento no futuro.
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