Entrevistas

23/08/2006

Guido Mantega explica medidas que vão estimular a economia e facilitar relação bancária
Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega à Radiobrás

Brasília - Nos próximos dias, o governo deve anunciar medidas com o objetivo de estimular a economia. O brasileiro poderá comprar a casa própria com os recursos do empréstimo consignado e também transferir dinheiro da sua conta-salário sem custos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, detalhou essas medidas com exclusividade para a Radiobrás.

As facilidades anunciadas para o trabalhador no seu relacionamento bancário aumentam a liberdade do cidadão para movimentar sua conta, já que está prevista a eliminação de custos. Para o ministro, “é escolha do cidadão trabalhar com o banco que deseja”. Mantega também falou sobre crescimento econômico, que ele estima em 4,5% este ano, carga tributária. Leia a seguir a primeira parte da entrevista.

Agência Brasil: O governo prepara uma série de medidas com o objetivo de dar mais dinamismos à economia brasileira: construção civil, eletrônicos, juros bancários. O que vem por aí?

Guido Mantega: Para começar, na construção civil vamos dar mais um impulso num setor da economia que está indo muito bem. A construção civil ficou parada durante mais de dez anos e agora retoma uma expansão que é muito importante porque possibilita que o cidadão brasileiro possa realizar o sonho da casa própria. Em 2006, estamos com R$ 20 bilhões para financiamento da casa própria. Vários cidadãos estão conseguindo este financiamento.  O cidadão hoje pode comprar material de construção mais baixo e conseguindo dinheiro para fazer a tão sonhada compra da casa própria.

ABr: Mas o que há de novidade? Fala-se em crédito consignado...

Mantega: Vamos reforçar aquelas medidas que já foram anunciadas há pouco tempo. Com o crédito consignado, o cidadão que tem o emprego formal, tem o seu salário vai empenhar até 30% do seu salário para pagar a prestação da casa própria. E o banco vai ter uma garantia maior. Então, ele não só vai liberar mais facilmente este financiamento como também vai proporcionar uma taxa de juros mais baixa. Vamos criar um mecanismo para que a prestação seja fixa, porque o brasileiro quer saber quanto ele vai pagar.

ABr: O governo vai eliminar a Taxa de Referência (TR)?

Mantega: Hoje é TR mais taxa de juros. Vamos eliminar TR e vai ficar só a taxa de juros fixa, predeterminada. Você vai poder saber com antecedência quais são as prestações que vai pagar.

ABr: Quem exatamente vai ser beneficiado? Qualquer trabalhador?

Mantega: Existem programas que vão desde o segmento de baixa renda, de um a cinco salários mínimos, como o PSH, subsidiado pelo governo. Hoje, temos mais de R$ 1 bilhão nesse programa até para a classe média baixa, classe média-média. Aí vai de cinco salários e não tem limites. Vai beneficiar a maioria da população brasileira.

ABr: O senhor fala em realizar o sonho da casa própria, mas com essas medidas da construção civil o senhor está atingindo também um outro objetivo que é a geração de emprego, não é?

Mantega: A importância da construção civil é que ela é uma das maiores empregadoras que temos no Brasil. Ela está crescendo a 7% ao ano. Está gerando muito emprego direto e indireto. Construção civil não é só concreto e ferro. É também setor de móveis, é também esquadrias de alumínio, encanador, eletricista. Isso tem um efeito multiplicador importante. No mês de julho produzimos 154 mil empregos formais, com carteira assinada. Foi o segundo maior numero para meses de julho desde 1992. Isso que é importante. Você precisa ter um crescimento em setores que além de crescer, gere empregos. Você cria um círculo virtuoso em que o emprego vai se promovendo cada vez mais.

ABr: Outra medida a ser anunciada é aquela que traz incentivos para a implantação da indústria de semicondutores no país. O governo vai permitir que as fábricas se implantem sem pagar impostos?

Mantega: O Brasil está muito atrasado nesse setor. Com a implantação da TV digital, haverá uma demanda grande para esse setor. Todas as televisões vão ter uma caixa de conversão do sinal analógico para digital. Esta caixinha vai ter semicondutores. Além disso, os semicondutores estão hoje presentes em todos os produtos praticamente. Você coloca chips até na orelha do gado para registrar o “currículo” daquele boi. Isso está faltando na indústria eletrônica brasileira. Com essas medidas, vamos poder implantar essa indústria no país.

ABr: O governo vai suspender a totalidade dos impostos, conforme é a expectativa dos empresários?

Mantega: Praticamente a totalidade. Precisamos criar uma indústria que possa competir com os paises asiáticos, principalmente, que se implantaram antes. Temos que criar condições para que a indústria tenha custos baixos. Ela não pode pagar tributos. É praticamente uma redução total. O empresário vai pagar apenas impostos indiretos, como folha de pagamento. Mas os impostos diretos serão eliminados.

ABr: E como serão os incentivos financeiros. Quanto o BNDES pretende investir?

Mantega: O BNDES não tem limites de recursos para o setor. Todo empresário que precisar, vai ao BNDES. Preenchendo as condições, vai conseguir o empréstimo para conseguir criar a sua fábrica. E a taxas das mais baixas do país. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) está hoje em 7,5% ao ano. Com mais um adicional para cobrir os custos, a taxa chega a no máximo 10% ao ano. É uma taxa convidativa.

ABr: O governo pretende com isso alcançar a mesma performance dos incentivos à indústria automobilística nos anos 50? Dá para o Brasil fazer essa revolução agora ou está muito tarde?

Mantega: Não estamos atrasados. O Brasil tem uma economia competitiva. Temos uma boa infra-estrutura e uma mão-de-obra bem qualificada. Com essas medidas, acho que o setor vai ser competitivo e se viabilizar no Brasil. Vamos recuperar o tempo perdido. Tem mesmo quase o impacto da política que se fez para a indústria automobilística no passado.

Fonte: Agência Brasil

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