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Entrevistas
21/05/2006
Ministro ressalta momento excepcional da economia, defende superávit de 4,25% e não arrisca palpite sobre juros
Entrevista do
Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal
O Globo
Por Regina Alvarez e Martha Beck
O
aumento dos gastos e os cortes no Orçamento abaixo do esperado preocupam
analistas e criam temores sobre o resultado fiscal em 2006, mas isso não
abala o comandante da política econômica. Em entrevista ao GLOBO, na última
quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, considerou que a
economia brasileira vive o “melhor dos mundos”, com crescimento em
alta e inflação em baixa, e garantiu que o resultado das contas públicas
será melhor do que em 2005. Sobre a polêmica relação com o presidente
do Banco Central, Henrique Meirelles — em quem deu um chá de cadeira de
meia hora enquanto dava a entrevista — Mantega adotou tom diplomático:
“Temos relações normais”.
Globo:As
novas projeções da arrecadação de impostos e contribuições permitiu
que o governo reduzisse os cortes no Orçamento. Entre a estimativa feita
em março, na gestão Palocci, e a última, na sua gestão, há uma
diferença de R$5,2 bilhões na previsão de receitas administradas. Na
sua gestão, a Receita ficou menos conservadora?
GUIDO
MANTEGA: A Receita Federal tem que ser cautelosa. Você pode errar para
menos que não causará dano, mas se errar para mais pode causar dano,
autorizar despesa que depois não pode realizar. Então, um certo grau de
conservadorismo é admitido. Nós reestimamos a receita à luz daquilo que
vem sendo consolidado nos primeiros meses de 2006. A arrecadação está
aumentando e eu procurei fazer uma previsão realista da receita. Isso
explica porque o corte foi menor.
O
Globo:Então as estimativas do fim de março eram mesmo conservadoras
demais....
MANTEGA:
Conservadoras demais não. Mas R$5 bilhões num Orçamento de R$500 bilhões
é muito pouco. É 1%. É resíduo estatístico. Estamos sendo realistas.
O
Globo:Houve também um substancial aumento na previsão de receitas com
dividendos de bancos e empresas estatais. Como o senhor explica isso?
MANTEGA:
As empresas estatais estão indo muito bem. No ano passado, a Petrobras
teve recorde de lucro, portanto, pode fazer um (superávit) primário
maior. O Banco do Brasil teve um lucro excepcional no primeiro trimestre,
de R$2,4 bilhões, o BNDES no ano passado teve R$3,2 bilhões de lucro, a
Caixa também ficou acima do previsto. Isso tem que ser computado.
O
Globo:O senhor está fazendo uma gestão mais criativa na administração
desses recursos?
MANTEGA:
Não tem nada de criativa. O lucro é maior. Eles não são bancos
estatais? Eles não têm que participar do resultado primário? Eles têm
um acordo. São obrigados a participar, isso é constitucional, têm que
produzir o resultado primário e podem transferir dividendos para a União.
O
Globo:Qual é o superávit primário que o governo de fato quer alcançar?
MANTEGA:
Sou a favor de 4,25%. Agora tem essa discussão do PPI (Projeto-Piloto de
Investimentos). O PPI foi colocado como uma forma de incentivo ao
investimento. Todo mundo sabe que o investimento é fundamental para que o
país consiga a infra-estrutura, a logística necessária para reduzir o
custo-Brasil, para possibilitar um volume maior de comércio
internacional, possibilitar um PIB maior. Até o FMI concordou. Qual é a
novidade?
O
Globo: A regra nunca foi usada. Em 2006 os investimentos do PPI (de 0,14%
a 0,15% do PIB) serão contabilizados para atingir a meta de superávit
primário (economia para pagamento de juros) de 4,25% do PIB?
MANTEGA:
No ano passado, executamos muito pouco do PPI. Este ano vamos executar
mais e o investimento será maior. O PPI poderá entrar no primário ou não.
Eu não tenho certeza. No limite, se nós precisarmos, será usado para
completar. O governo vai tentar fazer os 4,25% e se for necessário vai
usar a regra que foi estabelecida.
O
Globo: Se o governo fizer um superávit primário abaixo dos 4,25% não
será ruim para a relação dívida/PIB?
MANTEGA:
Depende. Eu estou olhando para o resultado nominal (diferença entre
receitas e despesas já incluindo o pagamento de juros, o resultado final
das contas públicas). Muitas vezes vocês esquecem do nominal, que é o
mais importante. Primário é resultado incompleto. O resultado completo
das contas públicas é o nominal. Vou fazer aqui uma afirmação que
ainda não tinha feito para ninguém: o resultado nominal de 2006 será
melhor que o de 2005 (3,29% do PIB). Houve um primário maior em 2005 com
um resultado nominal pior. Este ano vamos ter um resultado primário menor
que em 2005 e teremos resultado nominal melhor. Qual é a situação
melhor do ponto de vista das contas públicas? 2006, quando teremos uma
situação fiscal melhor que permitirá uma redução maior da relação dívida/PIB.
O
Globo: Qual é a sua projeção para o déficit nominal?
MANTEGA:
Eu acredito num déficit nominal de 3%, 3 e pouco. Pode ficar até abaixo
de 3%.
O
Globo: O senhor aposta mais no crescimento ou na queda dos juros para
reduzir a relação dívida/PIB?
MANTEGA:
Eu aposto nas duas coisas. São duas faces da mesma moeda.
O
Globo: Qual a sua projeção para o tamanho da dívida em relação ao PIB
este ano? O BC estima que ficará em 50%.
MANTEGA:
Eu acho que 50% é razoável, mas também não é uma coisa fixa. Ela é
um resultado. Por que eu vou engessar um resultado? Vai depender do
desempenho do PIB, que é incerto. A pior coisa é você cravar um número
em economia porque são tantos fatores que interferem. Mas pode até ser
inferior a 50%.
O
Globo: Alguns analistas já apostam em crescimento maior este ano. Qual é
a sua aposta?
MANTEGA:
Eu sempre trabalhei com uma expectativa de 4% a 4,5% de crescimento e
mantenho essa expectativa. Já ouvi previsões até de 6%. Tomara que isso
aconteça, ficarei muito feliz, mas continuo com previsão de 4% a 4,5%.
Agora, se crescer 5%, eu não vou chorar, não vou me descabelar, até
porque não tenho muita possibilidade de fazê-lo. Se for para 5%, teremos
mais emprego, mais renda, mais lucro para as empresas, o governo terá uma
arrecadação maior e poderemos ter uma folga fiscal maior.
O
Globo: A sua expectativa é igual à do mercado em relação à queda nas
taxas de juros? Eles chegariam a 14% em dezembro.
MANTEGA:
Não tenho previsão de taxa final, até porque é prerrogativa do Copom
estabelecer o ritmo de queda na taxa de juros. Eu confio na sensibilidade
dos nossos companheiros do BC. Em face do quadro que temos hoje na
economia brasileira podemos ter queda da taxa de juros. Nunca vi um quadro
tão favorável. A economia está crescendo e a inflação caindo. Isso é
altamente favorável. No passado muita gente olhava só a inflação e não
olhava o crescimento. Na minha concepção de economista, o crescimento é
uma das variáveis importantes que mostram a solidez de um país. Este
ano, estamos combinando crescimento econômico robusto, sólido, com queda
da inflação, que é o melhor dos mundos. Portanto, você pode ter uma
redução das taxas de juros, não sei para quanto, não quero nem saber.
O
Globo: O senhor não arrisca nem um palpite?
MANTEGA:
Não vou mencionar números. Nem sob tortura vocês arrancarão o número
da taxa de juros, mesmo porque ela não pode ser prefixada, ela tem que se
dar ao sabor das condições. Digamos que a inflação despenque, então
eles podem acelerar. Digamos que a inflação pare de cair, suba um
pouquinho, aí vão ter que fazer adaptação. Isso é um instrumento de
curto prazo que tem que ser utilizado.
O
Globo: A sua relação com o BC então está no melhor dos mundos?
MANTEGA:
Não sei se no melhor. Vocês têm que encarar as relações dentro do
governo como relações normais. Não é nem o pior dos mundos, nem o
melhor dos mundos. Temos relações normais, de órgãos que trabalham em
conjunto com os mesmos objetivos, só que cada um com funções
diferentes. Um cuida de uma coisa e outro cuida de outra coisa e o nosso
trabalho se complementa.
O
Globo: Não há nem um choque de idéias?
MANTEGA:
Choque de idéias? Nós excluímos a palavra choque do nosso vocabulário,
choque, pacote, coisas mirabolantes.
O
Globo:E a relação com o presidente do BC, Henrique Meirelles? Vocês
ficam próximos nas reuniões do Conselho Monetário?
MANTEGA:
Nessa mesa (da sala de reuniões do CMN) eu sento aqui (na cabeceira) e o
presidente Meirelles à minha esquerda. Ele está à minha esquerda, pelo
menos na mesa do CMN.
O
Globo: O mercado americano vive um momento de turbulência, com inflação
e juros em alta, mas a taxa de juros nos Estados Unidos está em 5,5% ao
ano. Quando o Brasil poderá chegar nesse patamar dos países
desenvolvidos?
MANTEGA:
O Brasil vai chegar a investment grade (grau elevado para atração de
investimentos) antes do que estão dizendo e chegará a uma taxa de juros
real parecida com as dos países avançados. É claro que o risco-país de
200, 250 pontos sempre será acrescentado aos nossos juros. Nos Estados
Unidos, com uma inflação de 2%, tem um juro real de 3%. É o meu sonho,
é o sonho de economista que o Brasil chegue nesse patamar.
O
Globo: Isso poderá acontecer ainda na sua gestão?
MANTEGA:
Na minha não sei, porque estamos terminando um mandato no ano de 2006,
mas provavelmente na de meu sucessor. Quem for ministro da Fazenda a
partir de 2007 já poderá colher esses frutos: investment grade e um juro
real de 3% mais o risco-país. Hoje seria de 5% ou 5,5% de juro real. Acho
que isso é possível , principalmente quando o país tiver investment
grade.
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