Entrevistas

15/10/2006

Ministro da Fazenda diz que o governo aprendeu a lição depois de tantas denúncias de corrupção
Promessas para 2007

Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal Correio Braziliense

Absolvido pela Justiça Eleitoral da acusação de usar a máquina pública para fazer campanha em benefício da reeleição do presidente Lula, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já assume compromissos no caso de seu chefe ficar por mais quatro anos no Palácio do Planalto. Ele afirma que o salário mínimo terá aumento real no ano que vem. Diz que há espaço para corrigir a tabela de Imposto de Renda das Pessoas Físicas (IRPF) e promete crescimento da economia acima de 5% ao ano, o que levaria o Brasil a ser um dos países mais poderosos do mundo em duas décadas. “Eu posso afirmar que a economia já foi bem no primeiro mandato, mas não exuberante, e irá melhor no segundo”, ressalta. Confiante, depois de as primeiras pesquisas de intenção de votos apontarem Lula como possível vitorioso no segundo turno das eleições, ele ironiza o candidato da oposição, Geraldo Alckmin, que prometeu, se eleito, dar um choque de gestão no governo. “O choque de gestão é aquele da segurança pública de São Paulo?”, cutuca. Apesar da radicalização entre PT e PSDB, o ministro diz acreditar que, se reeleito, Lula terá o apoio dos governadores José Serra (São Paulo) e Aécio Neves (Minas Gerais). “A oposição vai querer pegar o país bem e ser ungida pelo presidente, que nunca descartou a possibilidade de trabalhar com ela”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva que Mantega concedeu ao Correio.

Correio Braziliense — A campanha eleitoral está na reta final e os candidatos à Presidência da República estão prometendo um forte crescimento econômico, se eleitos. Mas os economistas estão descrentes e falam que o Brasil corre o risco de mexicanização, conjugando baixos níveis de crescimento com inflação sob controle. O senhor concorda com isso?

Mantega: O crescimento econômico do Brasil está ascendente. Nós estamos decolando. Não existe nenhum risco de mexicanização. Nem sei exatamente o que é isso. Está havendo uma elevação nos patamares de crescimento. Em 2003, encontramos o país com vários desequilíbrios e não dava para botar o pé no acelerador. À medida que fomos equilibrando o país, com melhora da situação fiscal e o fim da vulnerabilidade externa, começamos a acelerar o crescimento. No ano que vem, já ultrapassaremos a barreira dos 5%. Temos todas as condições para isso.

Correio Braziliense: Todo ano o governo promete esse crescimento e ele nunca acontece.

Mantega: A média anual de crescimento da economia no governo Lula é superior à do anterior. E as condições favoráveis para um crescimento maior estão dadas: juros caindo, inflação sob controle, risco-país no menor nível da história, reservas em valor inédito. Estrutura produtiva sólida, moderna e competitiva, superávit comercial elevado, preço do petróleo caindo, produtividade aumentando, investimentos crescendo perto de 8%, crédito se expandindo, mercado interno se robustecendo, milhões de empregos sendo criados, massa salarial crescendo 5,5% e demanda das famílias aumentando 4%. Estamos num cenário muito favorável ao crescimento de 5%. Não vejo nenhum obstáculo.

Correio Braziliense: Num segundo mandato de Lula, a economia será melhor do que no primeiro?

Mantega: Eu posso afirmar que a economia já foi bem no primeiro mandato, mas não exuberante, e irá melhor no segundo. Tivemos um crescimento do PIB mais modesto, mas, em compensação, criou-se muito mais emprego do que em toda a história do país. Não é possível olhar a economia apenas sob o prisma do PIB. É preciso ver o conjunto de fatores. As condições são excelentes para que o segundo mandato seja ainda melhor do que o primeiro.

Correio Braziliense: A política econômica vai precisar de algum ajuste?

Mantega: Sempre precisa. É necessário olhar para os gastos, tentando diminuir o custeio da máquina do governo e aumentar os investimentos. Além disso, é preciso aumentar a oferta de infra-estrutura no país. É um desafio.

Correio Braziliense: O senhor não pinta um cenário excessivamente positivo?

Mantega: As coisas estão boas, mas podem melhorar muito. Estamos longe de ter alcançado algo satisfatório. Avançamos muito em relação ao Brasil de 2002 e criamos as bases para o crescimento sustentado. Mas estamos longe do ideal. Queremos crescer acima de 5% por vários anos consecutivos. Depois de 10 anos nesse ritmo, poderemos dizer que o país terá melhorado muito. Ainda temos um grande desafio pela frente. É preciso aumentar mais o crédito, baixar mais os juros, fazer uma reforma tributária, melhorar a oferta de infra-estrutura, avançar nas reformas estruturais. Existem 500 coisas para fazer. Daqui a quatro anos, se correr tudo bem, eu direi: melhoramos muito em relação a 2006, mas ainda temos um longo caminho. Queremos ser um país avançado, com uma renda per capita de US$ 25 mil a US$ 30 mil. Se crescermos 20 anos a uma taxa de 5%, seremos um dos cinco países mais poderosos do mundo.

Correio Braziliense: O candidato da oposição, Geraldo Alckmin, está prometendo um choque de gestão no governo, se sair vitorioso das urnas. Como o senhor analisa essa promessa?

Mantega: O choque de gestão é aquele da segurança pública de São Paulo? Qual é o choque de gestão? Eu não gosto muito desse termo. O Yoshiaki Nakano (assessor de Alckmin, apontado como provável ministro do Planejamento num eventual governo tucano) diz que é preciso cortar, de imediato, gastos equivalentes a 3% do PIB. Eu quero que ele me mostre onde é que cortaria R$ 66 bilhões. Essa é uma missão impossível. Só se nós cortarmos pela metade os gastos de saúde. Mas estaríamos todos mortos porque haveria uma rebelião, além das mortes causadas pelo fim do atendimento médico.

Correio Braziliense: O ajuste fiscal ainda é fortemente ancorado no aumento de receitas. Isso não tem um viés anti-crescimento?

Mantega: Nós estamos baixando os impostos. Muitos preços estão caindo também. A inflação do segmento da população que recebe de um a cinco salários mínimos deve ficar em 1,5%. Para isso, concorreu a retirada dos impostos da cesta básica. Para o cidadão e o investidor, a tributação está caindo. Com o combate à sonegação, muita gente que não pagava antes está pagando. E, como o lucro das empresas melhorou muito, elas estão pagando mais Imposto de Renda. Não estamos espoliando o cidadão. Gastamos R$ 166 bilhões com aposentados, R$ 105 bilhões com o funcionalismo, R$ 45 bilhões com a saúde, R$ 18 bilhões com a educação, R$ 9 bilhões com o Bolsa Família e por aí vai. Nada disso é dinheiro jogado fora. Houve aumento de receita porque a economia cresceu. Mas reduzimos a carga sobre os contribuintes.

Correio Braziliense: Em que áreas o governo vai continuar cortando impostos?

Mantega: Não posso antecipar. Estamos estudando um plano de desoneração, mas ele ainda não foi concluído. É preciso estabelecer metas e prioridades. Desoneramos os bens de capital porque eles têm um efeito multiplicador em toda a economia. O meu medo é dizer: eu vou desonerar IPI de carro. Vocês põem no jornal e, amanhã, as vendas de carro param. Quando tivermos o plano definido, vamos anunciá-lo e implementá-lo de uma vez para que as vendas dos setores não sejam afetadas.

Correio Braziliense: As pressões para um novo reajuste da tabela do Imposto de Renda do trabalhador vão voltar neste final de ano. Esse item pode ser contemplado no pacote de desoneração?

Mantega: O grande objetivo do governo daqui para frente é dinamizar o crescimento, torná-lo sustentável e mais vigoroso. As medidas tributárias têm que caminhar nessa direção. A redução de uns tributos pode contribuir mais do que a de outros. Por isso, é preciso fazer um estudo mais detalhado. O reajuste da tabela pode ser contemplado. Mas se nós tomássemos essa medida agora, iriam dizer que ela era eleitoreira.

Correio Braziliense: O governo vai dar aumento real para o salário mínimo em 2007?

Mantega: Claro. Nós temos que esperar o orçamento que sairá do Congresso para saber o que se pode fazer, qual será o contingenciamento necessário e quanto vai sobrar para esse tipo de aumento. Mas vai haver aumento real. É um compromisso do governo.

Correio Braziliense: O governo passou boa parte do tempo explicando casos de corrupção. Num segundo mandato, isso continuaria? Ou o governo aprendeu a lição?

Mantega: Nós aprendemos várias coisas. A sociedade também aprendeu. Talvez agora a sociedade esteja madura para uma reforma política, que evitaria práticas seculares no Brasil. Todo o sistema político brasileiro tem que evoluir. Uma reforma política será um passo importante em direção a um sistema mais avançado, menos sujeito à corrupção. Uma coisa tem que ser dita: nunca se combateu tanto a corrupção quanto neste período.

Correio Braziliense: Um novo governo Lula não teria quatro anos de confronto com a oposição, prejudicando a governabilidade?

Mantega: Não acredito nisso. Se o presidente Lula for reeleito, não estará mais disputando nada. A oposição vai querer pegar o país bem e ser ungida pelo presidente, que nunca descartou a possibilidade de trabalhar com ela. Os governadores José Serra (São Paulo) e Aécio Neves (Minas Gerais) são responsáveis e têm uma visão de país. Eles poderão trabalhar junto com o governo federal, principalmente porque o presidente Lula não terá mais nenhum interesse direto. Ele poderá até apoiar alguém da oposição. Há um cenário favorável para que trabalhemos juntos.

 

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