Entrevistas

14/08/2006

Guido, ou o otimismo
O Brasil está na frente de China e Índia. O Estado não está inchado. E a corrupção tem impacto mínimo na economia. Bem-vindo ao mundo de Mantega

Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega à revista Época

Por Andrei Meireles e Murilo Ramos

No final da manhã da terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não escondeu sua vibração ao assistir - em um monitor de plasma instalado em seu gabinete - à divulgação dos resultados da última pesquisa eleitoral CNT-Sensus. Pelos números, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria reeleito no primeiro turno. "Isso abalou minha fleuma britânica", disse o ministro aos jornalistas de ÉPOCA. Em entrevista, Mantega se mostrou otimista e afirmou que o país está preparado para crescer 5% ao ano. Bastaria, para isso, despertar o "espírito animal" do empreendedor brasileiro. Ao contrário dos analistas, Mantega diz não se impressionar com o espetacular desempenho econômico da China nas últimas décadas. "A China é o Brasil do século passado", afirmou. Segundo ele, o Brasil também está na frente da Índia, outra estrela do mundo globalizado. Eis os principais trechos da entrevista.

ÉPOCA - O Brasil conquistou a estabilidade, mas ainda sofre com juros altos, muito imposto e investimento decrescente. Estamos atrás na globalização...

Guido Mantega - Discordo. O Estado brasileiro é um dos mais bem-sucedidos na globalização. Isso se mede pela participação no comércio internacional. Nos últimos três anos e meio, com exceção de 2003, tivemos uma expansão duas vezes maior que a taxa mundial, de 12% ao ano. Isso reflete a iniciativa política de abrir mercados, criar parceiros e mudar o jogo no cenário internacional.

ÉPOCA - Mas por que outros países emergentes, como a China, têm apresentado desempenho melhor que o nosso?

GUIDO MANTEGA
Quem ele é 
Economista formado pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Sociologia e especialização na Universidade de Sussex, Inglaterra
O que ele faz
É ministro da Fazenda desde março. Neste governo, foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ministro do Planejamento

Mantega - A China faz uma política cambial que não poderíamos fazer. Se tivéssemos uma centralização de decisões, o que não é desejável, poderíamos dobrar nossa participação no comércio internacional. A China pratica um câmbio artificial. Se tivéssemos o dólar a R$ 3, duplicaríamos as exportações todo ano.

ÉPOCA - Então não é possível tirar lições do sucesso econômico chinês?

Mantega - É possível. O que não podemos fazer é copiar o modelo. A China é o Brasil do século passado. No século passado o Brasil crescia tanto quanto a China. É um momento em que a economia agrícola vai se industrializando. A renda do cidadão triplica. Isso vai para o PIB. Estamos falando de 1,3 bilhão de pessoas. Há 750 milhões de pessoas na agricultura, com baixíssima produtividade. Quando vão para a cidade, os números aparecem. O Brasil já fez isso. Tanto que a agricultura, que já respondeu por mais de 80% do PIB, hoje representa 8%.

ÉPOCA - É o caso da Índia, que aumentou sua participação no comércio global e é a maior democracia do mundo?
Mantega - A Índia tem um déficit comercial de US$ 51 bilhões e déficit de transações correntes de US$ 10 bilhões. Isso não é eficiência. Expandimos o comércio exterior e temos superávit em transações correntes. Não precisamos de recursos externos para fechar nossa balança. Se precisássemos, você veria a turbulência que teríamos sofrido em maio (com a alta dos juros americanos), como Romênia e Turquia. Eles balançaram. Nós não balançamos. Não me diga que a Índia tem uma situação melhor.

ÉPOCA - Somos tão competitivos?

Mantega - Todas as empresas de avaliação de risco estão melhorando a classificação do Brasil. O risco país está caindo. É um terço do que tínhamos em média. E vai baixar para menos de 200 pontos. Nosso nível de reservas é de US$ 68 bilhões. Nossa dívida externa pública é de US$ 63,7 bilhões. Nosso calcanhar-de-aquiles era a vulnerabilidade e a dúvida sobre honrarmos nossos compromissos. Estamos além do que prometemos. Anota aí: nosso grau de investimento (indicador de ambiente seguro para investimentos) virá em 2007, e não em 2008 como dizem.

ÉPOCA - Mas continuamos com problemas estruturais. Um exemplo é a alta taxa de informalidade. Como contornar esse problema?
Mantega - Criamos incentivos para tirar pequenas e médias empresas da informalidade. Também foram criados 4,5 milhões de empregos formais neste governo. A informalidade está caindo.

ÉPOCA - Mas a geração de empregos até agora está aquém dos 10 milhões planejados na campanha de 2002.
Mantega - Não estava planejado. Antes do nosso governo, quantos empregos foram criados e registrados? Menos de 1 milhão. Nós criamos 4 milhões em três anos e meio. Houve expansão considerável. Se forem somados empregos da agricultura familiar e informais, vamos atingir quase 6 milhões de empregos. Isso é um grande feito.

ÉPOCA - No serviço público, o número de empregos certamente aumentou. O Estado não está muito pesado?

Mantega - Tivemos de contratar porque havia uma série de terceirizações defeituosas. Boa parte das contratações foi feita por determinação legal. Outra parte foi necessidade. O Estado não teve nenhum inchaço. E demos eficiência. O Estado teve de fortalecer algumas ações, como a auditoria fiscal. Senão, você não combate a sonegação.

ÉPOCA - De cada R$ 1 gerado de riqueza no país, quase R$ 0,40 vai para o Estado. Essa carga não é alta demais?

Mantega - De fato, houve elevação da carga fiscal. Em 1994, a carga era de 26% do PIB. Em 2002, chegou a 36%. Essa elevação se deu por aumento de tributos. A partir de 2003, houve aumento de arrecadação, mas não de tributos. No governo anterior houve uma escalada inédita da tributação. De 2003 a 2006, começamos a fazer uma redução. Posso identificar duas elevações e 20 reduções. Elas representaram uma renúncia fiscal de R$ 19 bilhões.

ÉPOCA - A partir do cenário traçado pelo senhor, o Brasil parece prestes a entrar numa era de ouro.

Mantega - O Brasil hoje está em condições de crescer mais de 5% ao ano de forma equilibrada. Isso é o que interessa. Crescer atabalhoadamente não serve. Hoje, o Brasil tem uma condição boa no comércio exterior, nas reservas internacionais, na inflação e tudo o mais. A estrutura produtiva brasileira é moderna.

ÉPOCA - Não está faltando aumentar os investimentos para que o salto da economia seja maior?

Mantega - Precisamos despertar o espírito animal do empreendedor. Isso não é nenhum xingamento. Durante estes anos, o investidor esteve tateando. Agora, deve entrar numa nova fase: erguer fábricas e fazer investimentos. Para isso, só tendo uma perspectiva de longo prazo. E isso só é possível agora.

ÉPOCA - Que impacto os escândalos políticos recentes têm na economia?
Mantega - Muito pequeno. Se existe, é imperceptível, porque as instituições econômicas do Brasil avançaram. Há uma confiança de que os próximos governos serão responsáveis. Hoje, existe uma vigilância muito maior sobre todas as esferas de poder. Você tem a corrupção, mas ela é detectada rapidamente.

ÉPOCA - De que maneira o senhor avalia, como militante do PT, os escândalos ligados ao partido?

Mantega - Foi muito ruim para o partido estar envolvido em episódios de corrupção. Mas o PT não era protagonista. Se pegarmos a questão das sanguessugas, temos apenas dois deputados envolvidos. Há mais prefeituras acusadas do PSDB.

ÉPOCA - E o mensalão?

Mantega - Alguns elementos do PT cometeram erros. O partido continua como o partido da moral e da ética. Foi arranhada sua imagem. Mas foram alguns indivíduos, não a maioria do PT. Em todas as instituições, há pessoas corretas e uma parte defeituosa. A questão é saber se isso é uma minoria ou caracteriza a instituição. Alguns cometeram erros e foram levados por costumes da política brasileira, como financiamento de campanha.

ÉPOCA - O senhor vai votar em algum deputado cujo nome foi envolvido no mensalão?

Mantega - O voto é secreto. Vou votar no mesmo deputado em que votei na outra legislatura. E ele não está envolvido nessas questões. Mas cabe à Justiça dar a palavra final sobre os casos. Não podemos fazer prejulgamentos.

ÉPOCA - O senhor se entusiasmou com a pesquisa favorável a Lula.
Mantega - Isso abalou a minha fleuma britânica (risos).

ÉPOCA - Vai dar Lula no primeiro turno?

Mantega - Não sei. Mas temos de trabalhar como se fosse dar segundo turno. A pesquisa é só um retrato do momento.

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