Entrevistas

14/08/2006

Lucros dos bancos permitem spread menor
Entrevista do Ministro da Fazenda Guido Mantega ao jornal Gazeta Mercantil

Por Sandra Nascimento, Ricardo Rego Monteiro e Mariana Carneiro

Rio, 14 de Agosto de 2006 - Não haverá redução de tributos para bens de capital; isenção só para semicondutores. A polêmica em torno da desoneração de alguns setores da economia, travada entre representantes da Fazenda, do Desenvolvimento e do Planejamento, na semana passada, mal esfriou e o ministro da Fazenda, Guido Mantega - que acabou envolvido na queda-de-braço disputada na Esplanada dos Ministérios - já começa a semana levantando outro tema de alto potencial inflamável: o fim da Lei Kandir.

Hoje, em reunião na qual deverá receber, em Brasília, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, Mantega planeja "pedir o engajamento" do candidato à reeleição estadual pelo PSDB (partido de Geraldo Alckmin, principal adversário do presidente-candidato Luiz Inácio Lula da Silva) à proposta que cria um fundo de ressarcimento direto aos exportadores do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), em substituição à lei de autoria do ex-ministro do Planejamento do governo Collor de Mello.

Ainda em estudo, o novo projeto exclui os estados do processo (atualmente cabe à União repassar os créditos aos estados e esses, às empresas). "Tenho conversado com alguns empresários posso até dizer que eles aplaudem a idéia", disse o ministro, que espera contar com o apoio do tucano no convencimento dos colegas governadores.

Em entrevista exclusiva a este jornal, sexta-feira, na subsede do Ministério da Fazenda no Rio, Mantega fez questão de deixar claro que não está nos planos do governo negociar a redução do compulsório bancário, como quer as instituições financeiras, que alegam ser o recolhimento obrigatório de parte dos depósitos à vista (hoje em 45% do total) um dos principais obstáculos a uma oferta maior de crédito, um tema caro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que quer aumentar a participação do crédito na economia brasileira dos atuais 32% para 50%.

"Está na hora dos bancos fazerem a parte deles. A prova mais cabal que há espaço para a reduzir o spread é que os lucros (dos bancos) estão subindo", disse ele, acrescentando que hoje o sistema financeiro tem muito mais segurança do que no passado e que isso já seria suficiente para a redução do spread (diferença entre o custo de captação e o de empréstimo). "Não faz sentido, hoje, a taxa de spread brasileira ser uma das mais elevadas do mundo". E foi mais longe: "O meu receio (caso haja uma redução do compulsório) é que aconteça o que ocorreu quando foi aprovada a Lei de Falência - eles aumentam o lucro e não baixam o spread".

As discussões em torno da desoneração de setores produtivos também estão encerradas, garantiu o ministro, que foi taxativo: "Não há planos do governo para desonerar novos setores, pelo menos este ano", disse, acrescentando que haverá, de fato, uma isenção fiscal para a implantação de um pólo de semicondutores, combinado com a implantação da TV digital no País, ainda neste ano. Para a construção civil, as medidas ainda estão em estudo e são basicamente financeiras, como o crédito consignado para o setor e a exclusão da Taxa Referencial (TR) do cálculo dos empréstimos. Veja a seguir os principais pontos da entrevista.

Gazeta Mercantil - O governo prepara novas desonerações tributárias para este ano?

Guido Mantega - A orientação do governo é buscar reduzir a carga de impostos sobre as empresas, e isso já vem sendo feito desde 2003. Os resultados das medidas que já foram tomadas são de uma renúncia fiscal da ordem R$ 19 bilhões. Mas é claro que não se pode fazer uma redução indiscriminada de tributos, isso afetaria o equilíbrio fiscal.

Gazeta Mercantil - Quais os projetos previstos?

Guido Mantega - Existe um projeto para a implantação de um pólo de semicondutores no Brasil, que está combinado com a implantação da TV digital no país. A indústria brasileira não produz semicondutores e não há possibilidade de implantar um núcleo desses sem dar as isenções fiscais que todos os países adotaram para esse tipo de indústria. Não vamos fazer nada diferente do que já feito pela Coréia e pela Tailândia. A TV digital implica, em primeiro lugar, na fabricação de uma caixinha (set top box) que servirá de conversor para todas as televisões analógicas terem a transmissão digital.

Gazeta Mercantil - Qual é a previsão?

Guido Mantega - Vamos lançar o programa de semicondutores ainda este ano. Não será uma desoneração, é um incentivo para algo que ainda não existe, então, não dá para medir. Vai depender de quem investir.

Gazeta Mercantil - Outros segmentos serão beneficiados?

Guido Mantega - As micro e pequenas empresas, beneficiadas pela Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas (em tramitação no Congresso). Isso implica na desoneração de um conjunto de tributos, por meio da criação de uma alíquota única. O empresário pequeno pagará 4% e conforme o tamanho da empresa, vai aumentando. Aqui sim, haverá uma renúncia fiscal na órbita do governo federal da ordem de R$ 5 bilhões. A questão é saber se ocorrerá em 2007 ou 2008. Depende do Congresso.

Gazeta Mercantil - E há clima, em ano eleitoral?

Guido Mantega - Essa lei é consenso entre todos os partidos. Combinamos que em setembro, quando houver novamente quórum no Congresso, retomaríamos este projeto de modo a aprová-lo.

Gazeta Mercantil - Não há nada previsto para outros setores, como bens de capital e construção civil, por exemplo?

Guido Mantega - Não haverá nenhuma redução de tributos na área de bens de capital. No caso da construção civil, estamos analisando um conjunto de medidas para dar um impulso no setor, mas são muito mais de natureza financeira, de ampliação de financiamento. Por exemplo, hoje, o financiamento é dado só para o mutuário, o cidadão que adquire o imóvel na planta. Pensamos em estender isso para a construtora. Enfim, novas modalidades que eu não vou antecipar, porque estão ainda em estudo, como o crédito consignado e a exclusão da TR da correção dos financiamentos. Do ponto de vista da desoneração, não há novos planos. Quero deixar isso bem claro porque quando a gente anuncia desonerações tributárias, corre-se o risco de paralisar setores. Por isso, não há planos do governo para desonerar novos setores, pelo menos este ano.

Gazeta Mercantil - E depois?

Guido Mantega - Temos um programa de desoneração geral, porém em curto prazo não há nenhum plano para desoneração. Gostaria de desonerar tudo, mais rapidamente. Mas a renúncia não é algo que possa ser feito ao acaso, tem de ser muito bem planejada para permitir o equilíbrio fiscal.

Gazeta Mercantil - Mas a arrecadação está aumentando...

Guido Mantega - Se fazemos um superávit primário de 4,25% do PIB, significa que economizamos R$ 90 bilhões/ano. Não é pouco.

Gazeta Mercantil - Mas isso decorreu em muito por causa do aumento da arrecadação.

Guido Mantega - A arrecadação aumentou, o País cresceu, as necessidades aumentaram, o governo tem mais dinheiro para fazer frente a mais despesas com saúde e educação e precisa ter mais infra-estrutura.

Gazeta Mercantil - E isso está mesmo acontecendo, ministro? As despesas estão sendo acompanhadas de mais gastos com saúde e educação?

Uma área que está crescendo, que não é nenhuma dessas, é a Previdência. Sabemos que a Previdência costuma crescer em todos os países, porque a população envelhece, a expectativa de vida aumenta - o que é uma coisa positiva. Então, os cálculos atuariais têm que ser refeitos. A aposentadoria também aumenta por causa do salário mínimo. Vamos reconhecer: aumentamos o salário mínimo, e o salário mínimo tem impacto nas contas da Previdência.

Gazeta Mercantil - Mas os gastos com o funcionalismo também aumentaram.

Guido Mantega - Os gastos com funcionalismo estão estabilizados. A folha de pagamentos, de um modo geral, tem oscilações, mas está estabilizada em torno de 5% do PIB, em média. Todo mundo exige que a Justiça seja mais rápida, mais eficiente. Não se faz isso se não tiver mais funcionários. Não dá para fazer milagre. Os efetivos da Polícia Federal aumentaram 50%. Com tudo isso, porém, o gasto com o funcionalismo público, que é o segundo maior, está estável. O primeiro é o da Previdência.

Gazeta Mercantil - No encontro desta segunda-feira com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, o senhor pretende apresentar a ele propostas de mudanças para a Lei Kandir? Quais? (Promulgada em 1997, isenta a exportação de produtos primários e semi-elaborados de IPI e ICMS, com a garantia de compensação aos estados).

Guido Mantega - A Lei Kandir já deveria ter acabado, pois era prevista para durar três ou quatro anos, e acabou se perpetuando.

Gazeta Mercantil - Como a CPMF, não é?

Guido Mantega - A Lei Kandir tem vícios e fica aquele empurra-empurra: o Executivo federal demora para repassar os recursos, os estados demoram a repassar os créditos tributários para as empresas, e não necessariamente nessa ordem. Os estados alegam que a União não está passando, mas também não repassam.

Gazeta Mercantil - Há parcelas em atraso?

Guido Mantega - No que diz respeito à União, no ano passado repassamos R$ 5,2 bilhões, e neste ano também foram estabelecidos R$ 5,2 bilhões, que já começaram a ser repassados. Vou combinar com o governador Aécio Neves o repasse de uma das parcelas destes R$ 5,2 bilhões, porque o pagamento está dividido em parcelas, em três segmentos diferentes: um é automático, outro depende de medida provisória e outro, de excesso de arrecadação. Então, vamos combinar como pagar o segundo segmento. O primeiro, de R$ 1,9 bilhão, que é automático, está sendo repassado; tem um segundo segmento, também de R$ 1,9 bilhão, que depende de uma medida provisória, essa que nos vamos fazer na semana que vem (nesta semana) e que estabelecerá as cotas de pagamento. Tem ainda outra parcela, que depende de um excesso de arrecadação.

Gazeta Mercantil - A primeira parte já foi paga?

Guido Mantega - É o primeiro segmento que será pago em 12 parcelas - cada mês se paga uma (R$ 1,9 bilhão divididos em 12). Isso está sendo pago normalmente. Há mais R$ 1,9 bilhão que dependem de um acerto, da disponibilidade de caixa do Tesouro, e é isso que eu vou acertar com o Aécio, porque ele foi o governador que coordenou essas discussões comigo, por ocasião da aprovação do orçamento.

Gazeta Mercantil - Precisa de uma MP para isso? Por quê?

Guido Mantega - Na verdade o que diz respeito à Lei Kandir mesmo é aquele segmento de R$ 1,9 bilhão, como foi estabelecido no orçamento; o outro montante de R$ 1,9 bilhão corresponde a uma complementação; e há mais uma parcela (diferença de R$ 1,3 bilhão, para chegar aos R$ 5,2 bilhões) que depende de excesso de arrecadação. Mas o ideal é estabelecer uma nova sistemática, já que a atual está esclerosada.

Gazeta Mercantil - A saída seria um fundo de compensação?

Guido Mantega - Seria um fundo permanente, que fizesse o repasse automático, eliminando a via crucis dos exportadores. Há uma pressão muito forte dos empresários para que seja equacionada essa questão. Estamos trabalhando numa proposta, que não está pronta, mas já tem um desenho aproximado: a empresa gera o crédito e portanto uma parte do ICMS já se dirige para o fundo, equivalente ao crédito que o exportador tem, e que ela possa recebê-lo da forma mais automática possível, sem ingerência ou condições interpostas nesse processo. Tenho conversado com os empresários e há grande receptividade a isso - diria até que eles aplaudem essa proposta.

Gazeta Mercantil - E como ficam os estados?Há estados que poderão não gostar, e outros que poderão gostar.

Guido Mantega - Vamos abrir a discussão e quem decide isso é o Congresso. Na verdade, trata-se de uma lei complementar, portanto exige um quórum qualificado e mais apoio.

Gazeta Mercantil - Para quando o senhor pensa ter essa lei aprovada?

Guido Mantega - Vou procurar encaminhar isso tão logo haja quórum no Congresso, quando terminar as eleições. Assim que o Congresso volte, eu estarei pressionando, escolhendo desses projetos os que considero prioritários, como a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, o cadastro positivo. Se bem que o cadastro positivo podemos fazer por medida provisória, mas evitar uma MP é melhor.

Gazeta Mercantil - Ainda quanto ao fundo substituto da Lei Kandir, os valores envolvidos são os mesmos de hoje?

Guido Mantega - Esses detalhes não estão definidos. A grande virtude do fundo é ser automático, ou seja, a empresa tem direito ao crédito e, cumprindo determinadas obrigações, pode recebê-lo.

Gazeta Mercantil - Como se trata de uma lei complementar, vai bater no Congresso e nas bancadas estaduais, certo?

Guido Mantega - Exatamente. Essa discussão ainda não foi feita de forma adequada com os estados, mas se há uma grande pressão da sociedade, um apoio forte, há mais chances de convencer os governadores. A palavra final é dos parlamentares.

Gazeta Mercantil - E o governador aliado nesse projeto em particular será o Aécio Neves?

Guido Mantega - Deixo para vocês concluirem. Vou sugerir essa proposta ao governador Aécio e pedir o engajamento dele.

Gazeta Mercantil - O cadastro positivo, ao lado da ampliação do crédito consignado, são medidas que atendem o desejo do presidente Lula de aumentar o crédito na economia e estão em negociação com o sistema financeiro, certo?

Guido Mantega - O cadastro positivo tem por objetivo diminuir o spread para o bom pagador. Significa socializar com o sistema financeiro uma lista de pessoas que pagam em dia e portanto não têm nenhuma razão de pagarem um spread elevado, de risco. É mais um esforço do governo no sentido de criar condições para que o spread caia.

Gazeta Mercantil - E como convencer os bancos disso? Eles querem como contraparte a redução do compulsório (hoje em 45% sobre depósitos à vista). Isso está fora de negociação?

Guido Mantega - Consideramos que já foram feitas muitas melhorias no sistema financeiro brasileiro. Foram aprovadas várias leis que deram solidez ao crédito no Brasil - o exemplo mais conhecido é a lei de falências. Houve outras medidas na área do crédito habitacional, como o patrimônio de afetação, que aumenta a segurança, a alienação fiduciária, o crédito consignado.

Gazeta Mercantil - O risco, então, é menor hoje?

Guido Mantega - Na minha opinião, sim. Se diminuiu o risco, você tem que traduzi-lo numa redução do spread. Não há nenhuma razão para que o Brasil seja campeão de spreads. Reconheço que o compulsório aumenta o custo, mas isso já está na conta. Há dez anos existia compulsório elevado, cunha fiscal, tudo isso que os bancos alegam que são custos, mas tinha muito menos regras que garantissem o sistema de crédito. Avançamos muito, foram criadas novas regras, há mais segurança e, no entanto, o spread continua elevado. Mesmo com o compulsório no nível atual, o spread já poderia ter caído.

Gazeta Mercantil - Então está na hora de os bancos dar a contraparte?

Guido Mantega - Devem fazer a parte deles, exatamente.

Gazeta Mercantil - Isso quer dizer que não haverá redução do compulsório?

Guido Mantega - O compulsório é um instrumento de política monetária. Não se pode simplesmente baixá-lo. Quando se abaixa o compulsório, aumenta o volume de ativos em circulação e isso afeta a demanda, então isso é um dos instrumentos do Banco Central. Se diminuo o compulsório aumenta a demanda, segundo a interpretação do Banco Central, e aí os juros caem menos. Então, pode baratear para as instituições de crédito, mas encarece para o Tesouro, porque este paga a conta dos juros. Prefiro baixar mais rapidamente os juros do que diminuir o compulsório. Mas não está excluído que em algum momento o compulsório será reduzido. Todavia, é uma decisão de política monetária.

Gazeta Mercantil - O senhor acha que há então espaço para redução do spread, independente do compulsório?

Guido Mantega - O meu receio é que aconteça o que ocorreu quando foi aprovada a Lei de Falência etc. - os bancos aumentam o lucro e não baixam o spread. O que estamos vendo é que o lucro está subindo. A prova mais cabal que há espaço para reduzir spread é que os lucros estão subindo. Relatório do BIS (Banco de Compensações Internacionais, na sigla em inglês) diz que a taxa de spread no Brasil está entre as mais elevadas do mundo, o que hoje não faz mais sentido. É só ver o nosso risco, que está cada vez menor. A avaliação de rating no Brasil está só subindo. Há ainda algumas distorções, e uma delas é o spread.

Gazeta Mercantil - Como os bancos estatais podem atuar para ajudar a reduzir o spread?

Guido Mantega - O Banco do Brasil pratica um dos menores spreads do País. E a Caixa Econômica Federal também. Toda vez que cai a Selic imediatamente eles repassam na mesma proporção.

Gazeta Mercantil - Então, em relação às demais instituições financeiras, como o governo pode resolver essa equação?

Guido Mantega - Existem instrumentos para aumentar a competitividade do setor, como a transferência do crédito consignado para outras instituições, por exemplo. Existem mecanismos, mas a gente prefere o caminho da argumentação, o que estamos fazendo. Eles têm direito de reivindicar o interesse deles, querem a redução do compulsório, da cunha fiscal, e a gente vai argumentando. Tem coisa que a gente pode fazer que não afeta as contas públicas, como por exemplo o Fundo Garantidor de Crédito. Já acumulou um volume grande, então não vejo problema em reduzir em alguns pontos percentuais, desde que de fato eles repassem. O que não afetar as contas públicas podemos fazer.

Gazeta Mercantil - Para terminar: se o presidente Lula for reeleito, o senhor fica no cargo?

Guido Mantega - Esse é um assunto distante, não tem sentido em falar agora. Não vamos colocar o carro na frente do boi. Estamos concentrados em ter um bom desempenho agora. Tem muita coisa para ser feita ainda em 2006.

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